


Cris & Ted

Nos Anos da Faculdade

1 - At Amanh


Robin Jones Gunn


Ttulo original: Until Tomorrow
Traduo de Ana Carolina Vilela
Editora Betnia, 2004
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat

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      Robin Jones Gunn adora contar histrias. A prova disso veio cedo, assim que ela entrou para a escola. Na ocasio sua professora fez a seguinte observao em
seu boletim: "Embora Robin ainda no domine as habilidades matemticas bsicas, ela prende a ateno de todos os coleguinhas com as divertidas histrias que conta
na hora em que a turma se rene no tapete da sala".
      Quando sua primeira srie de livros para crianas com idade entre um e trs anos foi lanada, em 1984, Robin no fazia a menor idia de que passaria a escrever
romances. No entanto os projetos foram crescendo de tal forma que o presente volume j  seu 49 livro publicado. Dentre suas muitas publicaes, esto a Srie Cris
e a Srie Selena, que juntas j venderam mais de dois milhes de exemplares em todo o mundo, tendo sido traduzidas em vrias lnguas.
      Robin e o marido, Ross, trabalham com jovens, h mais de vinte e cinco anos. J moraram em muitos lugares, dentre eles a Califrnia e o Hava. Atualmente vivem
no Oregon, nos Estados Unidos, com os filhos adolescentes e o co Hula.
      Voc pode visitar o site da autora no seguinte endereo: www.RobinGunn.com



      Para Luanne que, quando tnhamos vinte e um anos, virou-se para mim e disse: "Que tal viajarmos para a Europa nas prximas frias?" E l fomos ns. (At hoje
guardo as flores que pegamos em Adelboden, Lulu.)
      Para Laurie, que dividiu conosco sua loo refrescante e os poucos chumaos de algodo que tinha, durante aquela noite quente e abafada no albergue em Paris.
      Para Carol, que nos fez rir sem parar no trajeto at a esttua da Pequena Sereia em Copenhague.
      Para Laraine, que nos fez procurar at achar o melhor sorvete de Florena. (Voc se lembra, Lola? Voc disse que o sorvete Amaretto, da sorveteria Vivolli
era espetacular.)
      E para Chuck, que me disse para fechar os olhos, ao entrarmos na Gruta Azul. Obrigada pela pizza que comemos na estao de Roma naquela noite. Acho que ainda
lhe devo essa!
      "Os velhos amigos esto sempre presentes, quando o corao se mantm jovem."
      - Robin Jones Gunn
      




1
      Era junho. A luz da aurora nem sequer havia pintado no cu, trazendo consigo a promessa de um novo dia, e Cris Miller j se encontrava de p, correndo apressadamente 
pelas ruas de pedra da cidade de Basel, na Sua. Dando passos largos, a jovem dobrou a esquina em direo  estao de trem, notando que o ritmo de seu corao 
achava-se mais acelerado que o de suas pernas.
      Desta vez no vou chorar ao encontrar o Ted.
      No ltimo Natal, quando fora visitar a famlia na Califrnia, Cris desabara a chorar ao ver o rapaz. Ele simplesmente ficara parado em sua frente, como se 
no soubesse direito o que fazer com ela. O choro, que na hora parecia no acabar mais, fez com que Cris se sentisse frgil e sem jeito diante dele.
      Hoje sou uma pessoa bem mais forte do que era no Natal. No vou chorar.
      J no final da rua, virou  esquerda. Mais seis quarteires e estaria na estao.
      E desta vez no vou deixar a Katie me convencer a fazer coisas que no quero. Se  para eu, o Ted e ela nos darmos bem durante as prximas trs semanas em 
que viajaremos pela Europa, ento, tudo ter de ser decidido em conjunto.
      Cris apertou os longos cabelos castanhos com as mos, para ver se ainda estavam muito molhados. Havia tomado um rpido banho de manh bem cedo. Foi ento que 
se lembrou de que dali a um ms comemoraria seu vigsimo aniversrio. E, aos vinte anos, deveria enfrentar a vida como uma mulher forte e independente, certo? Era 
o que pensava.
      Est na hora de tomar uma posio quanta  minha vida. No vou deixar que a Katie fique sempre determinando o que devo e no devo fazer.
      Tomar decises nunca fora o ponto forte de Cris, e por isso mesmo ela estava disposta a mudar. Comearia tudo de novo, da estaca zero, e mostraria aos amigos 
o quanto havia mudado e amadurecido durante o ano que passara estudando na Sua.
      Pensava ainda no assunto quando sentiu no ar o delicioso aroma de po fresquinho vindo de sua confeitaria - ou Konditorei - predileta, que ficava no final 
da rua. Aquele era um lugar especial, e caminhar at l todos os sbados pela manh tornara-se um hbito para Cris. Era uma forma de se "recompensar" pelo empenho 
durante mais uma difcil semana de aulas na universidade e de trabalho no orfanato, onde era voluntria.
      Uma "recompensa" bem melhor chegar no trem das 6:15h, diretamente do aeroporto de Zurique, pensava, sorrindo. E a primeira coisa que eu, o Ted e a Katie vamos 
fazer ser vir aqui a essa Konditorei. Vou oferecer-lhes algumas das deliciosas quitandas suas.
      Levantando o rosto, Cris inspirou o delicioso aroma mais uma vez. Parou por uns instantes e fez rapidamente uma trana frouxa no cabelo, prendendo-a com um 
passador que colocara no bolso da cala. Afinal o cu comeara a clarear, exibindo uma tonalidade lils - acinzentada, e nas rvores os passarinhos cantavam alegremente.
      J no ltimo trecho do trajeto, Cris caminhava apressadamente, com passos ligeiros. Ao chegar, olhou para os dois enormes lees de pedra, que guardavam a entrada 
da Bahnhof de Basel e, estampando um sorriso no rosto, entrou e foi conferir o quadro de horrios. Ted e Katie chegariam dentro de sete minutos, na plataforma quatro. 
Cris correu em direo ao local, pois queria estar presente para receber seus melhores amigos assim que descessem do trem.
      Para sua surpresa, a estao achava-se bastante movimentada e barulhenta, em comparao com as ruas por onde andara pouco antes. Chegando ao local indicado, 
Cris se ps a esperar os amigos, tomando o cuidado de se posicionar mais ao centro, para que pudesse avist-los independentemente de que lado descessem. Poucos minutos 
depois, o trem apontou na estao.
      Uma multido de executivos, homens e mulheres, desembarcou. Por um momento, Cris teve a impresso de ter ouvido um gritinho familiar em meio ao rudo de passos 
apressados que se ouvia. Olhou para um lado e para o outro, esperando ver a qualquer momento um vulto do cabelo leve e acobreado de Katie em meio a toda aquela gente. 
Contudo no viu ningum. Cris se virou ento para ver se por acaso os amigos estavam na outra ponta do trem. De repente, foi como se tudo ao seu redor girasse em 
cmera lenta. No sabia se aquela tonteira fora provocada por uma reduo sbita do nvel de adrenalina, que estivera alto quando caminhava para a estao, ou se 
era a multido apressada que a estava deixando assim. Mas de uma coisa estava certa: os penetrantes olhos azuis que a pouco avistara s poderiam ser de uma pessoa.
      - Ted! exclamou ela, pronunciando o nome que h cinco anos guardava no corao.
      Abrindo caminho em meio  multido, correu em direo ao seu surfista louro predileto.
      Ao avist-la, Ted tirou o mochilo das costas e puxou Cris pelo brao, trazendo-a para bem perto de si. Em questo de segundos l estava ela, envolvida nos 
braos dele, o olhar de Ted fixo no dela e seus lbios a poucos centmetros de distncia.
      - Kilikina! murmurou o rapaz, beijando-a logo em seguida.
      Cris se derretia toda sempre que Ted a chamava pelo seu nome havaiano. Derretia mesmo, completamente. Tudo isso mais a ternura do beijo dele, e pronto! Era 
demais para ela; no conseguia resistir. No demorou muito, as lgrimas comearam a descer-lhe pelo rosto.
      Ted se afastou com uma expresso um pouco hesitante.
      - Oi, disse ela, secando rapidamente a face molhada.
      - Oi, respondeu Ted, dando um sorriso largo, que mostrava suas covinhas.
      Seu queixo, firme, achava-se spero em consequncia da barba por fazer. Seu hlito cheirava a chocolate.
      -sem tempo pra fazer a barba? perguntou Cris em tom de brincadeira, passando os dedos pelo queixo do rapaz.
      Usando o polegar, Ted enxugou a ltima lgrima que restara no olho esquerdo de Cris. Parecia analisar a expresso do rosto dela, como se tentasse descobrir 
os mistrios escondidos por trs daqueles olhos azul-esverdeados, to singulares e brilhantes.
      - Tudo bem com voc? perguntou ele, erguendo as sobrancelhas.
      Cris acenou que sim e sorriu carinhosamente.
      - Prometi pra mim mesma que no iria chorar, disse.
      - E eu prometi pra mim que no iria beij-la, disse Ted com um sorriso maroto.
      Seus olhares se achavam completamente envolvidos um no outro. Por um momento Cris teve a sensao de que Ted pde enxergar todos os seus sentimentos, at mesmo 
aqueles que guardava no mais profundo do corao. E em meio a toda aquela barulheira, uma forte paz tomou conta do seu ser. Era com se uma certa tranquilidade pairasse 
sobre eles, como um manto invisvel. Ficaram ali parados, de mos dadas, curtindo um ao outro. O olhar de Ted parecia tentar decifrar o que se passava no corao 
de Cris. Ela, por sua vez, perguntava-se se passaria o resto da vida fitando aqueles olhos azul-prateados.
      Foi ento que uma voz masculina, com sotaque italiano, interrompeu-os.
      - Desculpe atrapalhar vocs, Ted. Mas  que meu carro no pode ficar muito tempo estacionado.
      Era Antnio, um amigo italiano que estivera na Califrnia fazendo intercmbio. Cris se afastou de Ted, surpresa em ver o rapaz.
      - Cristiana, que bom ver voc! Est surpresa em me ver aqui? perguntou ele, pondo a mo sobre os ombros dela e dando-lhe um beijo em cada face.
      Cris quase perdeu o equilbrio.
      - O qu... como...?
      Mas antes mesmo que pudesse terminar sua pergunta, ouviu um gritinho que s poderia ser de sua melhor amiga.
      A sempre-exuberante Katie foi logo abrindo caminho, passando por Antnio e dando um abrao em Cris. Entretanto, ao se movimentar, a armao de sua mochila 
acertou em cheio a testa da amiga.
      - Ai! exclamou Cris.
      - "Ai!"? Faz meses que no nos vemos e tudo que voc tem a me dizer  "ai!"?
      - Ai e oi! disse Cris, dando um abrao um pouco menos exagerado em Katie. Voc est to bonita!
      - Voc tambm! exclamou a outra.
      - Vocs sabiam que o Antnio iria aparecer por aqui? perguntou Cris.
      - Sim, respondeu Katie.
      Seus olhos verdes pareciam brilhar.
      - Ficamos sabendo dois dias antes de viajar.
      Cris olhou para Ted, que deu um sorriso.
      - O Antnio conseguiu de irmos acampar com ele na Itlia.
      - Acampar? perguntou Cris.
      - Podemos conversar no caminho, disse Antnio.
      Em seguida, pegou a bagagem de Katie e carregou-a para a jovem.
      - Meu carro  aquele ali, principiou ele, apontando para a porta a que deveriam se dirigir.
      Ted acomodou o mochilo nas costas e pegou a mo de Cris, puxando-a consigo para fora da estao. Katie, por sua vez, agarrou-se ao brao de Antnio com tanta 
fora, que parecia que nunca mais iria solt-lo. Foram andando na frente, em ritmo acelerado, guiando o grupo at a sada.
      - Ento quer dizer que vamos acampar? perguntou Cris.
      - Sim. O Antnio tem todo o equipamento necessrio. J est tudo ajeitado.
      - E a Escandinvia?
      - Que  que tem a Escandinvia? perguntou Ted.
      - Achei que iramos primeiro l.
      Ted parou.
      - Voc me disse isso?  que achei que no tnhamos nada programado ainda. Foi por isso que combinei de acampar com o Antnio. Mas, se voc me disse isso e 
eu no recebi seu e-mail a tempo, me desculpe.
      Cris no queria bancar a chata e comear a brigar com Ted. No ali. No naquela hora.
      - No, voc tem razo. Ainda no tnhamos nada programado. No faz mal.
      Cris no conseguia raciocinar direito. Se bem se lembrava, Ted havia dito que comeariam viajando pela Noruega, visitando os pases mais ao sul, at chegarem 
 Itlia. Contudo agora j no tinha certeza. Talvez a idia tivesse sido de Katie, e no de Ted.
      Antnio os levou at o carro, uma pequena van branca, parada do outro lado da rua num local proibido. Abriu a porta lateral, e Cris notou que o pra-choque 
dianteiro estava bem amassado.
      - Dem uma mo aqui! disse o rapaz, puxando uma pesada bolsa de lona cinza, que se achava no centro da van, num espao onde no havia bancos. Isto aqui vai 
l em cima.
      Os quatro tiraram todo o equipamento de camping de dentro do veculo e o puseram em cima da van, cobrindo tudo com uma lona especial. Em seguida prenderam 
a carga com cordas bem firmes.
      - Como foi que vocs dois planejaram tudo isso? perguntou Cris a Ted, procurando mostrar-se tranquila.
      - Por e-mail, respondeu Ted, empurrando sua mala e a de Katie para dentro do veculo e entrando em seguida.
      Na parte traseira da van havia um banco e, dos lados, pequenos armrios embutidos na lataria. No centro, no havia nada; somente as bagagens.
      - E a? Vamos nos divertir a bea ou no vamos? disse Katie, dando um abrao animado em Cris e indo se assentar l atrs ao lado de Ted.
      Cris acenou sem muito entusiasmo. Sentou-se no banco da frente e apertou o cinto de segurana. Foi a conta! Instantes depois, Antnio meteu o p no acelerador 
e, dando apenas uma olhadinha para trs, arrancou, cantando os pneus ao sair. Cris agarrou-se s extremidades do banco, procurando manter o equilbrio. Antnio gritava 
em italiano com os outros motoristas e descia as ruas rpida e bruscamente. L de trs, Katie gargalhava histericamente porque, num dos sacolejos do carro, acabou 
sendo arremessada contra Ted.
      - Antnio, gritou ela, ainda no estamos na Itlia! Faa-nos o favor de nos manter vivos pelo menos para podermos chegar l?
      Antnio olhou-a pelo retrovisor e deu um sorriso. Diminuiu a velocidade e pela primeira vez deu seta antes de convergir na principal avenida que saa da cidade. 
Estavam indo na direo oposta ao campus universitrio, onde Cris morava.
      - Antnio, temos de ir na outra direo. A universidade fica pra l, disse Cris.
      - No, j estive em Basel antes. Esta aqui  a rodovia que pegamos pra ir pra Itlia.
      - No  isso que estou dizendo! No podemos ir pra Itlia agora! exclamou Cris em pnico, praticamente aos berros.
      - E por qu?
      - Porque eu no trouxe nada! Minha bagagem no est aqui!
      Antnio disse algo em italiano, que parecia um pedido de desculpas, entrou de repente numa rua  direita e parou. Olhou para Cris e, com um olhar amigo, perguntou 
simplesmente:
      - Pra que lado vamos?
      Com Antnio ao volante, no demoraram muito para chegar ao campus. Durante o trajeto, Cris se acalmou e procurou pensar racionalmente.
      - Vamos ficar esperando aqui, disse Antnio, estacionando novamente num local proibido.
      - Na verdade no estou exatamente preparada para viajar, disse Cris, olhando para Ted e Katie, como se buscasse o apoio deles. No sabia que iramos para a 
Itlia, quero dizer, minha mala est quase pronta, mas vou precisar de um tempinho para terminar de juntar minhas coisas.
      - Quero ver seu quarto, disse Katie ao sair da van. Vamos, gente, vamos todos conhecer o quarto dela.
      - O pessoal aqui  meio chato com relao ao estacionamento, disse Cris a Antnio.
      - Ento vamos esperar aqui, caso seja preciso dar umas voltas no quarteiro enquanto esperamos, sugeriu Ted.
      - E ns vamos rapidinho, gritou Katie, seguindo Cris em direo ao prdio.
      Cris correu at o quarto e abriu a porta.
      - Nossa! Seu quarto  bem menor do que imaginei! disse Katie, olhando em redor. Espere s at chegar setembro, quando estaremos na Rancho Corona. Voc vai 
ver! Os quartos de l so duas vezes maiores do que este e so apenas para duas pessoas, e no trs.  bem melhor!
      - , mas aqui tambm  legal, disse Cris na defensiva.
      Katie parecia admirada com a reao de Cris. Aproximou-se da amiga e deu-lhe um aperto carinhoso no brao.
      - Ah, eu sei que , Cris. No se zangue comigo. O que estou dizendo  que vai ser bem melhor quando estivermos todos juntos na mesma universidade, semestre 
que vem. Voc no acha?
      Cris acenou vagarosamente. Nada estava saindo do jeito que imaginara. Era para estarem assentados a mesa da confeitaria, tomando caf e comendo doces, enquanto 
discutiam sobre o roteiro de viagem. Em vez disso, estavam prestes a sair desvairadamente rumo  Itlia, no foguete-mvel do Antnio.
      - Ento... disse Katie batendo uma mo na outra, que mais voc precisa pegar? Posso lhe dar uma ajuda.
      - Esta aqui j est pronta, respondeu Cris, apontando para a bolsa de lona no canto do quarto. Mas ainda tenho de pr algumas coisas na mochila.
      De repente, Katie abraou Cris fortemente, quase impedindo a amiga de respirar.
      - D pra acreditar que estamos aqui, no seu quarto, conversando uma com a outra como se nos falssemos todos os dias?! Cris, ns estamos na Sua!
      - , acho que estamos, n?
      Katie se afastou, pondo as mos na cintura.
      - Tudo bem, Cris. O que deu em voc? O que h de errado?
      - Nada. Estou apenas tentando pensar no que preciso pr na mala.
      Cris pegou a frasqueira e comeou a colocar nela alguns objetos que estavam sobre a mesa.
      -se voc estivesse chateada com alguma coisa, voc me contaria, no  mesmo?
      - Claro.
      Katie pegou um dos guias tursticos que estavam sobre a escrivaninha.
      - Voc no 't pensando em levar isto, 't? perguntou.
      - Alguns, sim; pelo menos um.
      - Mas eles so grandes demais, disse Katie. Alm disso, no precisamos de guias tursticos. Estamos numa aventura! Pra que ficar andando com eles de um lado 
para o outro parecendo turistas?
      Ignorando o comentrio da amiga, Cris pegou o guia que estava no topo da pilha e enfiou-o na mochila.
      - Estou pronta. Vamos?
      Katie saiu carregando a bagagem de Cris e comentou que esta estava bem mais leve do que a dela.
      - S espero que no esteja levando coisas "de menos". No estou conseguindo pensar em mais nada que tenha de levar, disse Cris, cerrando firmemente os lbios 
e tentando pensar no que poderia estar esquecendo.
      Ted e Antnio estavam esperando na van, o motor j ligado. Ted havia passado para o banco da frente.
      Entrando no carro, Cris se assentou no banco de trs e disse:
      - Estava pensando... quem sabe no damos uma parada ali na Konditorei antes de pegar a estrada?  a melhor confeitaria de Basel e no  muito longe daqui. 
Poderamos aproveitar tambm para discutir melhor nosso roteiro.
      - Eu no estou nem um pouco com fome, disse Katie ao entrar van. Vocs esto, meninos?
      Ted deu de ombros.
      - Neste caso, p na rua! foi decidindo Antnio.
      - Voc quer dizer p na estrada, n, Antnio? disse Katie aos risos, dando um tapinha nos ombros do rapaz.
      - Isso mesmo. P na estrada. L vamos ns!
      Com um solavanco, Antnio se ps a caminho, enquanto Cris ajeitava o cinto de segurana, apertando-o bem. Ao passarem ligeiros pela confeitaria, rumo  rodovia 
A-2, que os levaria para a Itlia, na direo sul, Cris olhou pela janela. Fazia semanas que estava sonhando em ir com Ted  Konditorei. Um ano e meio atrs, quando 
estavam em Londres, os dois haviam caminhado de mos dadas pelas ruas, at chegarem  uma pequena confeitaria. Sentaram-se num banco mais reservado, bem ao fundo, 
e abriram o corao um para o outro. E naquela conversa, concluram que no estavam prontos para assumir um compromisso mais srio.
      J havia se passado mais de um ano desde ento.
      Em seus sonhos e tambm nos momentos em que passava assentada sozinha  mesa da Konditorei, Cris imaginava como seria a conversa que ela e Ted teriam ali, 
tomando ch e comendo scones*. Deu um suspiro profundo, deixando o ar sair vagarosamente dos pulmes. Sentia-se preparada para avanar no relacionamento com Ted, 
tornando-o mais srio do que nunca.
      E se o Ted no estiver pronto para dar esse passo? E se s eu estiver disposta a assumir um compromisso mais srio? Bem, pelo menos eu acho que estou preparada.
      Sentia-se to fragilizada naquele momento, que no sabia se podia fiar-se em seus sentimentos, em seus pensamentos. Agora s tinha certeza era de que seu cinto 
de segurana estava apertado ao mximo e de que eles estavam a caminho da Itlia.
      

2
      Katie se acomodara no ninho que fizera com as bolsas e malas no centro da van. Tagarelava o tempo todo, falando do quanto era incrvel estarem viajando juntos. 
Cris sorria para a amiga, acenando com a cabea de quando em quando. Seu olhar, no entanto, dirigia-se o tempo todo para Ted,  sua frente. Ficava s imaginando 
o que estaria se passando na cabea dele ou, mais importante ainda, em seu corao.
      O que voc realmente sente por mim, Ted? Voc me ama? De verdade?
      Com pesar, Cris se lembrou novamente de que no teria mais a oportunidade de se assentar juntinho com Ted para conversarem tranquilamente, no local onde ela 
mais gostava de refletir sobre a vida. Agora eram todos parte do grupo; da turma. E se Ted estivesse em seu estado normal, iria manter o esprito de equipe durante 
toda a viagem. Ou seja, daria ateno igual a todos. Cris tinha certeza disso. Ted era como um co golden retriever -sempre fiel e disposto a conviver bem com todo 
mundo; e, de modo geral, satisfeito com a vida, apesar das circunstncias. E Cris sabia que no valia a pena bancar a chata e ficar discutindo o tempo todo.
      - Ei, Antnio, exclamou Katie. Pra onde exatamente estamos indo?
      - Italia. Mi Italia, respondeu o rapaz teatralmente. Vou lev-los  minha rea de camping predileta. Vocs vo adorar.  noite, centenas de "baxinins" saem 
das matas e comem tudo que encontram no acampamento.  por isso que a gente tem de fechar bem as barracas.
      - Acho que voc deve estar se referindo aos guaxinins, disse Katie. Duvido que existam "baxinins" na Itlia!
      - . Isso mesmo, disse Antnio, olhando para Katie pelo retrovisor. Guaxinins. Tem razo. Que seria de mim se no tivesse voc pra me ensinar a falar as palavras 
corretamente?
      - Pode admitir, Antnio. Voc estava com saudades de mim.
      - Admito que estava com saudades de voc, Katie, disse Antnio para todo mundo ouvir.
      - Vamos, confesse que no consegue viver sem mim, continuou Katie.
      - No consigo viver sem voc.
      Essa era uma brincadeira tpica entre Antnio e Katie. Na Califrnia, costumavam provocar um ao outro dessa maneira o tempo todo. E, de certa forma, houvera 
uma pitada de romance entre os dois - ou pelo menos era isso que Katie achava. Mas ser que o sentimento de fato existira ou Antnio estava apenas agindo como um 
italiano romntico? Vendo os dois, Cris desejava que ela e Ted pudessem expressar seus sentimentos um pelo outro to abertamente como eles. S que de maneira sincera, 
e no na brincadeira como Katie e Antnio faziam.
      Ser que algum dia o Ted me dir que no consegue viver sem mim?
      - Ele  louquinho por mim! exclamou Katie, virando-se para Cris e rindo at as orelhas.
      - Ah! exclamou ela, aproximando-se de Cris. Se eu e o Antnio resolvermos nos casar est semana, voc aceitara ser minha madrinha, no?
      - Mas  claro, respondeu Cris baixinho, sem muito entusiasmo.
      Para ela, casamento era coisa sria, e no assunto para ficar fazendo piadinhas. No dia em que convidasse Katie para ser sua madrinha, Cris no estaria fazendo 
uma brincadeira -seria para valer.
      - Parece um sonho, no parece? disse Katie rindo. Mas no estou nem a se for um sonho. Se for, por favor, no me acorde! Nunca estive to feliz em toda a 
minha vida! Estou delirantemente alegre!
      Antnio e Ted mantiveram um papo animado entre si, durante as horas seguintes em que atravessaram a Sua, rumo  Itlia. Cris no conseguia ouvi-los, uma 
vez que as janelas do veculo estavam abertas e havia muito barulho. Katie aproximou seu "ninho" da amiga e se ps a contar-lhe todas as novidades dos amigos da 
Califrnia, nos mnimos detalhes.
      Ouvindo-a, Cris foi aos poucos se acostumando com a idia de estarem indo acampar. De fato a viagem no comeara do jeito que ela gostaria, mas agora eles 
j se achavam na estrada. Sendo assim, ela estava disposta a agir com esprito de equipe, em vez de estar o tempo todo mal-humorada, bancando a coitadinha.
      Durante o trajeto, pararam apenas uma vez para abastecer, ou, como diria Antnio, para colocar "petrleo" na van. Afinal chegaram. Na rea em que ficariam, 
havia um grande espao para armarem as barracas, sob a sombra de altas rvores que circundavam o local. Cris no tinha a mnima idia de onde estavam. Contudo ficou 
surpresa ao ver que a terra era bastante semelhante  que estava acostumada a ver nas montanhas que rodeavam a universidade. Era estranho pensar que os Alpes passavam 
tambm pela Itlia.
      O ar fresco parecia encher de nimo os quatro acampantes, que descarregavam a van e comeavam a montar as barracas. Brincalhona como sempre, Katie havia traado 
uma linha na terra com o calcanhar.
      - As meninas ficam deste lado, e os meninos, do outro, determinou ela.
      - S tem um probleminha, Katie, disse Cris. A "cozinha" ficou do lado dos rapazes.
      Katie deu a volta pela extremidade da linha que riscara no cho.
      - Muito bem, pessoal, este  o caminho da cozinha. Todos os acampantes esfomeados devem passar por aqui.
      Em seguida foi at o caixote que Antnio trouxera e o abriu.
      - Certo, certo. Estou vendo aqui algumas xcaras, uma cafeteira e uma frigideira. Mas onde foi que voc escondeu a comida, Antnio?
      - Bem ali! respondeu Antnio acenando com a cabea, enquanto pregava no cho a ltima estaca da barraca.
      - No estou vendo nada. S rvores.
      - A geladeira fica logo depois das rvores. Venha comigo, vou lhe mostrar, disse o rapaz colocando o brao sobre os ombros de Katie e levando-a consigo por 
uma estreita trilha.
      Ted estava amarrando uma rede entre duas rvores quando parou e olhou para cima, ouvindo atentamente.
      - Oua s isso, disse ele a Cris.
      Cris sabia do que ele estava falando. Fechou os olhos ento e se ps a escutar o som do vento balanando as folhas na copa das rvores. Aquela brisa lhe trouxe 
vrias recordaes. A mais forte delas era de quando estavam numa estao de trem na Espanha e uma brisa semelhante balanou as folhas das palmeiras. Naquele dia, 
um ano e meio atrs, Ted colocara uma pulseira de chapinha de ouro em seu pulso, em que estava gravada a expresso "Para Sempre". Com os olhos ainda fechados, Cris 
correu os dedos pela chapinha de ouro, o rosto voltado para o cu.
      - Elas esto nos aplaudindo, Ted, disse ela, com um sorriso singelo.
      - Bravo! respondeu o rapaz, com voz fraca.
      Ao abrir os olhos, Cris notou que Ted havia se deitado na rede. Estava balanando tranquilamente, com as mos entrelaadas sob a cabea.
      - Pelo visto voc conseguiu mesmo amarrar essa rede, hein?! Muito bem! exclamou Cris, aproximando-se dele.
      - E voc tinha dvidas de que eu conseguiria?
      - No, voc  um amante da natureza! Poderia ser a pessoa mais entendida em redes do mundo! disse Cris, puxando a rede para perto de si e soltando-a em seguida.
      A rede balanou bem alto, fazendo ecoar um rangido  altura do n que Ted fizera. De repente, uma das cordas se rompeu, e Ted caiu no cho, junto com a rede, 
fazendo barulho.
      Cris se segurou para no explodir de rir da cena e foi rapidamente ver se Ted estava bem. Ele parecia assustado, mas no se machucara.
      - Sinto muitssimo, disse Cris, soltando uma risadinha. Voc 't legal?
      Mas antes mesmo que o rapaz pudesse responder, Katie chegou, correndo entre as rvores. Antnio vinha logo atrs.
      - No tem comida nenhuma no tal lugar. A "geladeira" de que o Antnio falou , na verdade, uma lagoa! Ou seja, vamos ter de "pescar" nosso jantar.
      - Legal, disse Ted, levantando-se e limpando a terra que ficara em suas costas. Trouxe as varas de pescar, Antnio?
      - Sim. Temos tudo aqui: varas, anzis... respondeu o rapaz.
      - E o que vamos comer enquanto isso? perguntou Katie.
      - Carne seca! sugeriu Ted.
      - Do que voc me chamou? perguntou Katie, virando-se para Ted.
      Cris teve vontade de rir novamente, mas a julgar pela expresso de raiva no rosto de Katie, concluiu que era melhor ficar calada.
      - No a chamei de nada. Estava apenas dizendo que trouxe um pouco de carne seca. Est l na van, dentro da minha mochila. Sirva-se  vontade.
      Ted e Antnio se agacharam perto da caixa que continha os apetrechos para pesca. Estavam preparando uma vara de pescar desmontvel. Ted vasculhava uma caixa 
plstica onde havia anzis e iscas.
      - Voc precisa e de um bom cappuccino, disse Antnio a Katie, ao v-la passar por eles como uma oncinha.
      - Acontece que no vi nenhuma lanchonete no caminho de volta da lagoa, replicou a jovem ironicamente.
      - Tem um pouco de caf aqui, disse o rapaz, erguendo uma pequena caixa que estava entre os outros equipamentos.
      -ser que tem alguma coisa pra comer tambm? perguntou Katie.
      - No, s caf. Ei, Cris, que tal ajeitar uma fogueira? Eu e o Ted vamos ver se conseguimos pescar alguma coisa.
      Os rapazes saram e Cris se ps a juntar alguns gravetos.
      - No estou com vontade de tomar caf, disse Katie, em tom de reclamao. Voc 't? 
      - No, mas estou com fome. Se eles no conseguirem pescar rpido, vamos ter de atacar a carne seca do Ted.
      - O que houve com a rede? perguntou Katie, dando uma olhada na extremidade da corda.
      - Eu empurrei o Ted um pouco mais forte do que devia e a corda se rompeu.
      - No, ela no se rompeu. Est perfeita. O n  que deve ter soltado. Tambm, duvido que o Ted entenda de ns tanto quanto eu. Esta corda 't precisando de 
um n especial da Katie.
      Katie foi ajeitar a rede, e Cris foi colocar alguns galhinhos na pilha de gravetos que juntara. Depois, voltou para o mato em redor para catar mais. Conseguiu 
puxar uma tora de bom tamanho para perto da fogueira e, ento, foi procurar no caixote algo que pudesse servir de grelha. Estava tudo ali na caixa. Cris cantarolava 
enquanto montava a "cozinha". Quando os rapazes voltassem, s teriam de riscar um fsforo.
      - Sabe o que isto me lembra, Katie?
      - No, o qu? disse a outra sem abrir os olhos.
      Havia se acomodado na rede de Ted.
      - Voc se lembra de quando fui fazer um caf da manh para o Ted na praia e as gaivotas apareceram e comeram todo o bacon e os ovos que eu tinha preparado?
      Katie no fez nenhum comentrio.
      Cris ento caminhou at a rede, que era grande o suficiente para comportar duas pessoas. Parecia que as cordas e os ns estavam bem amarrados. Os raios dourados 
do sol da tarde penetravam por entre as folhas das rvores, e Katie havia virado o rosto a fim de aproveitar todo o calor que irradiavam.
      - Arreda a que estou entrando! disse Cris, empurrando as pernas de Katie levemente.
      - Mesmo que eu quisesse, no conseguiria me mexer aqui dentro, respondeu a outra, com os olhos ainda fechados e as mos cruzadas sobre a barriga.
      Cris subiu na rede, procurando evitar que ela balanasse muito.
      -  bastante confortvel aqui, disse ela, deitando-se com a cabea para o lado oposto  de Katie.
      - S voc no me acertar o rosto com o p, est tudo bem, disse Katie com voz fraca.
      Foi o ltimo comentrio que Cris se lembrava de ter ouvido, quando escutou a voz de Ted cham-la a alguns metros de distncia.
      - Tem algum com fome por aqui?
      Cris fez um esforo para abrir os olhos, pesados de sono. A claridade da tarde j se havia ido, e comeara a escurecer. Cris conseguiu enxergar a silhueta 
de Ted, que estava parado, segurando um peixe de aproximadamente trinta centmetros de comprimento. Sentia o cheiro da fumaa que vinha da fogueira. Virou-se, ento, 
e viu que Antnio estava acendendo o fogo.
      - Katie, eles j voltaram. Acorde! disse Cris, dando um tapinha na perna da amiga.
      Foi ento que percebeu o quanto seu corpo estava duro. Estava tensa e com frio. Cris saltou da rede com cuidado e caminhou at a fogueira, arrastando os ps. 
Chegando l, ps-se a aquecer as mos perto das pequeninas chamas.
      - Em algumas reas de camping aqui na Europa  proibido fazer fogueiras, disse Antnio. Mas aqui  permitido. A fogueira ficou do tamanho certo, Cris. Grazie.
      - No h de qu.
      - Quanto tempo a gente dormiu? perguntou Katie com um bocejo, juntando-se aos outros.
      - Pelo menos umas duas horas, respondeu Cris, bocejando tambm. Ainda bem que vocs conseguiram pegar alguma coisa. Foi difcil?
      - No, s demorou um pouco, respondeu Ted, limpando o peixe com um canivete.
      Cozinhar o peixe tambm foi um pouco demorado. Ainda no haviam terminado de comer, e as estrelas j estavam todas no cu, como se os observassem l de cima. 
Enquanto juntavam os pratos, Antnio foi preparar caf em sua chamuscada cafeteira de acampar.
      Cris sorriu. Agora sim aquilo estava com cara de frias de vero.
      Desde que completara quatorze anos, Cris havia se reunido com os amigos em torno de uma fogueira na praia, no sul da Califrnia, todos os veres. Juntos, sob 
as estrelas, eles cantavam louvores, assavam marshmallows e falavam de suas dificuldades e alegrias uns com os outros.
      Estar ali, acampando com seus melhores amigos, sob o cu limpo, trouxe-lhe uma sensao que h muito no experimentava. Na universidade, tinha vrios amigos, 
com os quais saia para conversar e tomar caf nas noites de sbado. Contudo no era a mesma coisa que estar ali com Ted, Katie e Antnio. Com estes, Cris compartilhava 
de algo muito mais profundo e gostoso; algo diferente de tudo o que experimentava com os outros amigos. Naquele momento, ela sentia que podia simplesmente fechar 
os olhos, dar um passo rumo quele cu estrelado e ser tragada pela eternidade.
      - Venha c, disse Ted, chamando Cris para se assentar mais junto dele.
      Cris encostou a cabea sobre os ombros de Ted e sentiu todo o corpo aquecer. Lembrou-se de uma frase que ouvira tempos atrs. Era alguma coisa do tipo "Deus 
est nos cus, e tudo vai bem no mundo". Era isso que ela sentia. Tudo ia bem entre ela e Ted. Estava tudo certo. E ela podia sentir a presena de Deus bem de perto.
      Cris comeou a murmurar baixinho uma cano. Pegando o tom, Ted se ps a acompanh-la, e os quatro comearam a cantar. A voz deles ecoava pela mata em redor, 
erguida em louvor. Aquele cujo sopro agitava as folhas na copa das rvores e cujos sussurros zuniam pela terra, onde estavam assentados.
       medida que foi escurecendo, Cris comeou a tremer. Ted a envolveu com os braos, trazendo-a para perto de si. Juntos, cantavam baixinho e cutucavam com varas 
longas as brasas que haviam restado na fogueira.
      - Vou buscar meu casaco, disse Cris, afastando-se de Ted afinal. Algum quer que eu traga alguma coisa da van?
      Foi ento que se lembrou de que seu casaco ficara pendurado atrs da porta de seu quarto.
      - Ah, no! exclamou. Por acaso algum trouxe um casaco extra?
      - Voc no trouxe casaco? Que tipo de acampante voc ? disse Katie, em tom de repreenso.
      Cris entendeu o comentrio como uma crtica e, de repente, todo aquele clima especial que se formara evaporou-se no ar.
      -se voc bem se lembra, tive de fazer minha mala na correria. No tive todo esse tempo para pensar no que precisava trazer para acampar.
      - Foi mal, disse Katie.
      Entretanto, para Cris, no parecia que Katie estava realmente pedindo desculpas.
      - Ei, Cris, eu tenho um suter aqui, disse Antnio, caminhando em direo  van.
      O rapaz pegou uma blusa de l, tricotada  mo, que havia sido pisoteada no cho do veculo, e jogou-a para Cris.
      - Voc no vai precisar dela? perguntou a jovem.
      Cris deu uma cheirada na blusa e se arrependeu de t-la aceitado. Cheirava como se houvesse sido usada como forro para gaiola, pano para enrolar peixe e, por 
ltimo, trapo para limpar a sola da bota de algum fazendeiro.
      - Tome aqui um cobertor, disse Antnio, jogando para ela mais uma pea de l fedorenta.
      - Vocs no trouxeram sacos de dormir? perguntou Cris.
      Entretanto logo se arrependeu de ter dito aquilo. Detestava quando parecia uma menina americana mimada, incapaz de se adaptar  maneira mais simples dos europeus 
de levar a vida.
      Katie tambm demonstrou-se surpresa com a quantidade limitada de cobertores: apenas um por pessoa.
      - Vocs esto falando srio? Isso  tudo que vamos ganhar? Vocs no trouxeram colches inflveis? E travesseiros?
      - Use um suter, sugeriu Ted.
      Era bvio que Cris no iria deitar o rosto naquela blusa fedorenta do Antnio.
      Ted se levantou e, de repente, tudo o que havia restado da intimidade que desfrutaram juntos naquela noite desapareceu. O rapaz espreguiou-se e soltou um 
bocejo.
      - Vou pegar um desses cobertores, ento, se voc tiver mais um, Antnio. Boa-noite, Cris. Boa-noite, Katie, disse ele, indo para a barraca masculina.
      - Boa-noite, responderam elas em coro.
      Cris entrou na barraca e procurou aproveitar da melhor forma a blusa e o cobertor fedorentos que Antnio lhe emprestara. Abriu o suter e usou-o para forrar 
o cho, deitando-se sobre ele. Depois, cobriu-se com o cobertor de l, ajeitando-o em torno de si como se fosse um saco. Pegou um short limpo e dobrou uma camiseta, 
fazendo-os de travesseiro. Contudo no deu certo. Sentia tanto frio que no conseguia pegar no sono.
      Katie, no entanto, logo "apagou". Vendo-a dormir, Cris ficou irritada. Queria ter uma chance de perguntar  amiga como ela estava se sentindo em relao a 
Antnio e se havia algo mais entre eles, alm das brincadeiras que faziam um com o outro. Entretanto, agora, teria de esperar at o dia seguinte.
      Da barraca masculina, armada do outro lado da linha que Katie traara, ecoava o ronco continuo de Antnio. Pelo menos Cris achava que era Antnio quem estava 
roncando.
      E se for o Ted? Como seria se eu fosse casada com um cara que roncasse assim? Nunca conseguiria dormir!
      Foi ento que Cris ouviu o som de um pequeno galho se quebrando, do lado de fora da barraca. Congelou de medo. Ser que so ladres? Ser que esto querendo 
roubar nosso equipamento? E se eles conseguirem ligar a van sem a chave e nos deixarem aqui? Ser que devo gritar?
      Mais um galho se quebrou. Cris pegou o brao de Katie e comeou a chacoalh-la.
      - Acorde, Katie Voc ouviu o barulho?
      - Ahn?
      - Oua, disse Cris, sussurrando.
      -  s os meninos roncando. V dormir, 't bem?
      - No, no  som de ronco. Tem alguma coisa l fora. Escute s!
      Katie acendeu a lanterna e Cris imediatamente a tomou dela, desligando-a.
      - No acenda a lanterna, Katie!
      - Ai, Cris, larga dessa bobeira! disse Katie, estendendo as mos na escurido e tateando a barraca, at encontrar a lanterna nas mos de Cris. A idia  espant-los 
com a luz.
      Katie abriu a barraca e colocou a cabea para fora, iluminando a escurido em redor. De repente, ps a cabea para dentro, recobrando o flego.
      - Cris, voc no vai acreditar no que vi.
      

3
      - O que ? perguntou Cris, sentindo o corao disparar.
      - Voc tem de ver isso. Venha c, disse Katie, chegando para o lado.
      Cris juntou-se a ela, colocando a cabea para fora, na escurido. Foi ento que o feixe de luz da lanterna passou por algo prximo  fogueira, que fez a luz 
se refletir na direo delas como se fossem dezenas de pequeninos refletores redondos.
      - So os "baxinins" do Antnio, disse Katie.
      - Nossa, ele no estava brincando! Veja s quantos guaxinins! O que eles esto comendo?
      - Restos mortais de peixe.
      - Argh!
      -ser que o Antnio deixou as sobras l fora de propsito? perguntou Katie, iluminando em redor com o fraco feixe de luz.
      Cerca de dez guaxinins franzinos estavam ali, devorando o pequeno banquete diante deles, indiferentes  tentativa de Katie de espant-los.
      - Mas que bando de guaxinins malvados!
      - Talvez fosse melhor no agit-los com a luz, sugeriu Cris.
      - Por qu? perguntou Katie, dando uma risada. Voc 't com medo de que eles venham atrs de ns, quando terminarem com as tripas, e nos ataquem, arranhando 
a barraca at conseguirem entrar?
      - No, mas ficaria mais tranquila se eles fossem embora. Ser que podemos fechar a barraca de novo? 'T fazendo um frio congelante!
      Katie botou a cabea para dentro e fechou a barraca.
      - Bem, faa-me um favor e s me acorde de novo se for alguma coisa com mais de um metro e oitenta de altura, 't bom? disse ela, entocando-se debaixo do cobertor. 
E de preferncia com cabelo escuro, olhos castanhos e muita grana, acrescentou.
      Cris no conseguiu ficar sria. Por mais contrariada que estivesse, Katie nunca perdia o senso de humor.
      - Quer dizer ento que esse  seu mais novo padro de beleza para o homem dos seus sonhos? Voc sabe que o Antnio quase preenche os requisitos, n? S no 
tem a altura.
      - E o dinheiro, acrescentou Katie.
      - Qu? Ento voc no acha que a famlia dele  rica?
      - Olha, pode me chamar de louca, mas, na minha opinio, s quem  muito pobre mesmo sai pra acampar sem levar sacos de dormir e comida.
      - Acho ento que somos bem miserveis, no  mesmo? comentou Cris, encolhendo-se toda sobre a blusa de l e enrolando-se no cobertor como se fosse um casulo, 
na esperana de que assim se sentiria mais aquecida.
      - E como esto as coisas entre voc e o Antnio?
      - Bem.
      Cris ficou em silncio, esperando que Katie entrasse nos pormenores. Vendo que a amiga ficara calada, cutucou:
      - Voc acha que pode rolar algum sentimento entre vocs dois, como no vero passado?
      - O que h entre a gente  s uma brincadeira, Cris, disse Katie em voz baixa. No represento nada demais pra ele, e voc sabe disso. No tem nada a ver.
      - E como voc se sente em relao a isso?
      - Esta  minha vida, Cris. Sou a colega de todo mundo, mas no sou o amorzinho de ningum, disse ela, acomodando-se melhor. Mas no quero falar sobre rapazes 
agora. Estou muito cansada mesmo. Podemos dormir?
      - Claro, respondeu a outra.
      Cris queria sentir-se aquecida o suficiente para poder dormir. Cobriu a cabea com o cobertor e ps-se a esfregar uma perna na outra, a fim de se aquecer.
      Pelo ritmo constante da respirao de Katie, via-se que ela havia pegado no sono. Cris ficou horas acordada, tremendo de frio. Sabia que no deveria deixar 
os pensamentos correrem solto, mas, mesmo assim, permitiu que eles passassem por sua mente. Pensava em Ted. Pensava em qual seria a prxima etapa no relacionamento 
deles. Pensava em casamento e tambm nas palavras exatas que ela lhe diria quando finalmente tivessem uma chance de levar uma conversa sria e ntima.
      Ao amanhecer, Cris estava se sentindo exausta. Queria poder cair em sono profundo. No entanto seus amigos, madrugadores, j estavam de p, tentando convenc-la 
a se juntar a eles para tomar o caf especial do Antnio.
      Cris acabou indo na deles, afinal. Pelo menos o caf poderia acord-la, pensava. Ao sair da barraca, com o cobertor enrolado nos ombros, ela mal podia acreditar 
no quanto se sentia suja e malcheirosa. Aboca estava com um gosto ruim, os olhos, remelentos. O cabelo se achava todo despenteado e embaraado e, alm disso, Cris 
sabia que o mau cheiro da blusa de l, com que dormira a noite toda, havia passado para sua roupa.
      Ted se abaixou e pegou a cafeteira sobre a grelha. Ao contrrio de Cris, o rapaz estava com uma aparncia limpa e cordial.
      - E a, como voc 't? perguntou ele, estendendo uma xcara de caf para Cris.
      Cris respondeu com um gemido e depois deu uma goladinha no caf, procurando no fazer careta. O caf especial de Antnio devia ser o caf mais forte e espesso 
que Cris j provara em toda a vida. Se houvesse uma colher ali, poderia t-lo "comido", como se fosse um creme. Alm disso, Antnio colocara tanto acar, que o 
caf mais parecia uma sobremesa do que propriamente uma bebida.
      - Acho que com isso eu acordo, disse ela, notando que o cabelo de Ted estava molhado. O de Antnio tambm estava. Vocs no me falaram que havia chuveiros 
aqui. Onde ficam?
      Antnio deu um sorriso maroto, que iluminou todo o seu rosto.
      - Por ali, disse ele, apontando para a trilha que passava pelas rvores.  no mesmo lugar onde fica a comida.
      - Muito engraadinho, disse Katie.
      Os raios de sol pareciam se derramar por entre as folhas das rvores, como se fosse mel. Katie estava assentada num toco, sorvendo seu caf, banhada por aquela 
luz matinal.
      - A gua est muito fria? perguntou Cris.
      Ted e Antnio se entreolharam.
      - Est refrescante, disse Ted.
      Cris sabia exatamente o que Ted queria dizer com "refrescante".
      - Tem problema se eu usar esta vasilha para esquentar um pouco d'gua? perguntou Cris, abaixando-se para pegar uma panela j bem velha.
      Ao faz-lo, notou um pedao de cabea de peixe cado ali na terra.
      - Ei, vocs deixaram os restos de peixe aqui fora de propsito para os guaxinins ontem  noite? Esses animaizinhos parecem ser bem malvados por sinal.
      - Escutei voc e a Katie conversando com eles ontem na calada da noite, disse Ted.
      - A gente no estava falando com eles, e sim sobre eles. H uma enorme diferena entre uma coisa e outra, afirmou Katie.
      Cris deu outra golada no caf. Se Ted estava acordado, escutando as duas conversarem sobre os animaizinhos intrusos, ento era Antnio quem estava naquela 
roncao toda, deduziu. De certo modo, s de saber aquilo j se sentia bastante aliviada.
      - Qual  a programao de hoje? perguntou.
      Na verdade o que ela gostaria de dizer era: "Quando  que vamos fazer as malas e dar o fora daqui?"
      - Bem, eu e o Antnio estvamos indo arrumar alguma coisa para o caf, disse Ted. Querem vir conosco?
      - Claro! Vocs vo de carro at a cidade? perguntou Cris.
      Tomar caf numa lanchonete extica,  beira da estrada, seria tima idia, pensava Cris. S que ela estava muito suja para ir daquele jeito. Espero que no 
se importem de me esperar dar uma arrumadinha.
      Antnio comeou a rir.
      Eles vo pegar caf l na geladeira, disse Katie. Voc no acha que um peixinho fresco cairia bem agora de manh?
      - Bem, nesse caso, ento, acho que vou ficar por aqui me aquecendo perto da fogueira. Passei a noite congelando de frio!
      - Pelo visto voc no dormiu bem, comentou Antnio.
      - No mesmo.
      Katie resolveu ir com os rapazes. Logo que se foram, Cris correu para a barraca e roubou o cobertor de Katie. Seguiu em direo  rede, que se achava sob um 
enorme feixe de luz. Poucos minutos depois l estava ela, toda enrolada naquele spero cobertor de l, embalando-se num profundo sono.
      Quando voltaram com o peixe, Cris escutou-os discutindo se deveriam ou no acord-la. No entanto se sentia to sonolenta que nem sequer tinha foras para responder. 
Ento continuou cochilando, mesmo com todo o aroma de peixe frito exalando pelo ar.
      Cris s foi acordar do pesado sono horas depois, com o barulho de uma panela de metal caindo no cho. Com os olhos ainda embaados de sono, viu um gato nojento 
rondando os utenslios de cozinha,  procura de algum resto.
      - Saia j daqui! gritou ela.
      Em seguida, desenrolou-se dos cobertores e saltou da rede. O tempo havia esquentado e, apesar de o sol j ter-se deslocado, deixando a rede na sombra, Cris 
suava dentro do apertado casulo em que se enfiara.
      - Katie? Ted? Antnio? chamou.
      No obteve resposta.
      Notou ento um pedao de papelo apoiado em frente  barraca feminina. Ao que parecia, seus amigos haviam escrito um bilhete usando um raminho queimado. Tudo 
que o aviso dizia era "Fomos escalar".
      - Muito bem, pessoal, murmurou Cris. Vocs saem e me deixam aqui, sozinha no meio deste deserto, com um bando de animais selvagens rondando a rea atrs de 
restos de peixe.
      Entretanto a sensao de "abandono" no durou muito, uma vez que Cris estava decidida a tomar um banho. Ao abrir a barraca, sentiu o intenso e terrvel odor 
do suter de l agredir-lhe o rosto. Puxou-o ento e pendurou-o sobre um galho de rvore baixo, para ver se o vento dava uma arejada nele. Depois, voltou  barraca 
e vestiu o mai, juntando todos os outros objetos de que precisaria para tomar um banho bem refrescante. Assim, ps-se a caminhar rumo  "geladeira".
      Para sua surpresa, o lago ficava perto dali. Os troncos das rvores em redor eram to espessos, que de l das barracas nem dava para avistar a lagoa. Cris 
notou que dois barcos navegavam sobre as guas cintilantes. Um deles era um velho barco a remo, feito de madeira, conduzido por dois garotos que, aparentemente, 
estavam pescando. O outro era de pesca, em alumnio, provido de um pequeno motor externo. Fazia uma barulheira enorme ao deslizar pelo lago, deixando um rastro de 
espuma na gua.  direita de Cris, havia uma pequena ponte.
      Amarrando a toalha na cintura, Cris correu at a ponte e notou que um estreito riacho corria sob ela, desaguando no lago. Duas crianas boiavam sobre uma cmara-de-ar, 
levadas pela correnteza numa vagarosa viagem rumo  lagoa.
      -Ciao! exclamou uma delas para Cris.
      Ela acenou e sorriu.
      Caminhando pela margem do riacho, Cris chegou a um pequena baa de cascalho, aquecida pelo sol. Tocou a gua, no muito profunda, e notou que estava morna. 
Ento, pisando com cuidado e respirando fundo, entrou na gua, afundando-se em seguida. A sensao de frescor, ao mesmo tempo que lhe causava um choque, era-lhe 
bastante agradvel. Cris se ps a boiar com o rosto voltado para o sol.
      Sinto-me como se fosse um desses amantes da natureza! A sensao  exatamente como Ted a descreveu: refrescante.
      Cris desfez a longa trana e apanhou o sabonete e o xampu. Esbaldando-se nas guas rasas, ps-se a cantarolar, enquanto se cobria de espuma. Perto dali, um 
pequeno passarinho marrom pousou num galho baixo e ergueu a cabea, olhando para Cris como se tentasse entender o que ela estava fazendo. Com movimentos suaves, 
Cris se inclinou para trs, mergulhando os cabelos na gua, para enxagu-los. A correnteza que passava ali, vinda do rio, puxava fortemente suas madeixas.
      Sinto-me como se estivesse numa velha pintura a leo que h na biblioteca da universidade. Aquela em que os cupidos esto esvoaando em redor da cachoeira 
e as mulheres se acham enroladas em trajes de tecido leve, cor de marfim, banhando-se num lago.
      Naturalmente Cris no avistou nenhum cupido voando por ali ao sair do riacho e secar-se. Entretanto, ao caminhar de volta ao camping, sentia uma maravilhosa 
sensao pulsar dentro de si. Estava refeita, aliviada.
      Os outros ainda no haviam retornado quando ela chegou  barraca. Ento, depois de se trocar, Cris aproveitou para dar uma boa penteada no cabelo, deixando-o 
secar ao vento, naquele sol maravilhoso. Ouviu um som de crianas gargalhando, vindo de uma outra rea de camping no longe dali. Aquilo a fez se lembrar das criancinhas 
que moravam no orfanato de Basel, onde ela trabalhava.
      Ficou balanando vagarosamente na rede por um bom tempo. Pensou em sua vida, no futuro, nas esperanas e nos sonhos que tinha - algo a que no se dera ao luxo 
de fazer durante todo o semestre letivo. Fez uma avaliao da experincia que estava tendo na faculdade em Basel, pensando tambm no quanto o trabalho no orfanato 
a desgastara emocionalmente.
      O que estou fazendo de errado, Deus? Meu desejo  servir ao Senhor e, de fato, achei que o trabalho no orfanato seria uma maneira de faz-lo. Mas sinto-me 
to desgastada! Ser que servir ao Senhor  pra ser assim mesmo? Desgastante?
      A nica resposta que ouvia s suas indagaes era o barulho do vento passando pelos galhos das rvores.
      E o Ted, Senhor? Qual ser o prximo passo pra ns dois? Ser que ele ainda sonha em viver numa ilha deserta, servindo ao Senhor como tradutor da Bblia para 
tribos no-alcanadas? Ser que s eu estou pensando em me casar algum dia?
      Cris sabia que o Senhor estava ouvindo as indagaes de seu corao. Nunca tivera dificuldade em crer que Deus escutava, via e conhecia todas as coisas. Olhando 
para o cu azul-claro, riscado por leves e finas nuvens brancas, Cris murmurou:
      Mas, agora, falando srio. O Senhor consegue me enxergar vivendo numa ilha tropical? Quero dizer, tomar banho de rio foi o mximo que j experimentei em termos 
de "desconforto". O Senhor no est mesmo planejando que eu viva assim para resto da vida, 't?
      Cris tentou se convencer de que tomar banho de rio no  l to horrvel assim. Na verdade, era at um pouco extico. Da ficou imaginando como seria dormir 
todas as noites numa rede, como aquela em que estava se balanando. Pensou em como seria comer peixe todos os dias. Peixe e manga. Ted gosta de manga.
      Cozinhar ao ar livre  divertido. E eu bem que gosto de ficar olhando as estrelas  noite. Mas tem algo que no aguento nesta vida: as coisas se sujam rpido 
demais. Fica tudo fedorento. Tambm no suporto ficar com fome, como estou agora.
      Cris foi atrs da carne seca que Ted havia trazido e comeu o restante. Depois, correu os olhos pela rea de camping. Era um lugar deserto, afastado de tudo. 
Aos poucos, foi comeando a se sentir cada vez menos empolgada com a idia de passar a tarde inteira sozinha. A mata em redor, com os passarinhos curiosos e os guaxinins 
selvagens, j no lhe parecia mais to encantadora. Durante meses Cris estivera cercada de pessoas, tanto na escola quanto no orfanato. Sua rotina era cheia e seus 
horrios, bastante apertados. Vrias vezes desejara poder passar uma tarde assim, sem nada para fazer, livre para ficar sozinha, pensando na vida e sonhando acordada. 
Entretanto agora queria que seus amigos voltassem. Aquele lugar estava ficando sossegado demais para ela.
      Apenas para ter o que fazer, Cris comeou a juntar os vrios galhos que estavam no cho, dando uma boa arrumada no local. Depois, acendeu a fogueira e desceu 
at ao riacho, onde encheu uma grande vasilha de gua, voltando para o acampamento em seguida.
      Quem sabe eu no consigo aprender a ser uma mulher mais "da selva", que gosta dessas coisas naturais? Nem  to ruim assim.
      Depois de esquentar a gua, lavou a frigideira, as quatro xcaras e os garfos. Toda vez que ouvia algum rudo, por menor que fosse, olhava em volta, na esperana 
de que os amigos estivessem voltando da escalada. Mas nada de eles regressarem. Ao cair da tarde, Cris j estava comeando a ficar com raiva e tambm com medo.
      Por que eles resolveram me deixar sozinha este tempo todo? Acho que deveramos estabelecer algumas regras aqui, como, por exemplo, nunca deixar algum sozinho 
no acampamento o dia inteiro.
      Foi ento que ouviu alguns passos vindos da mata. Pensando em se tratar de seus "amigos", Cris foi logo se preparando para passar um belo de um sermo neles, 
por terem deixado-a ali sozinha o dia todo, aflita da vida. Contudo os passos no eram de Ted, nem de Antnio, nem de Katie. Quem se aproximava era um homem de chapu 
xadrez, trajando um pesado suter de tric, como aquele que Cris pendurara no galho da rvore. O homem carregava consigo uma fieira de peixes, de tamanho mediano. 
Ao se aproximar, cumprimentou Cris em italiano.
      - Ciao, respondeu ela sem muita expresso.
      Ela pensava que, se agisse com naturalidade, como algum que estivesse sozinha ali por opo, e demonstrasse que tinha plena noo do que estava fazendo, ele 
simplesmente passaria pelo acampamento, sem parar para mexer com ela.
      Entretanto ele parou e novamente se dirigiu a ela em italiano.
      Cris pensou rpido. Durante o semestre letivo ela havia aprendido que em casos assim o melhor era responder em alemo.
      - Ich verstehe nicht, disse ela, o que significava "No entendo". 
      O homem se aproximou da fogueira, perto de onde Cris estava assentada, e repetiu o que havia dito, dessa vez usando frases maiores e mais gestos.
      - Ich verstehe nicht, disse ela rapidamente.
      No entanto o homem no desanimou e continuou falando. Tirou dois peixes da fieira e puxou o suter com as mos, como se quisesse chamar a ateno de Cris para 
o agasalho. Depois, colocou os peixes na frigideira que Cris lavara.
      - No entendo o que voc diz, replicou Cris.
      Ento, fazendo mais alguns gestos, o homem tirou mais um peixe da fieira e o colocou na panela. Depois, deu uns tapinha no peito e ficou olhando para Cris, 
como se esperasse uma resposta dela.
      - Danke, foi a nica coisa que lhe veio  cabea.
      Talvez ele estivesse apenas sendo um homem generoso, dividindo sua pesca do dia, uma vez que, evidentemente, ela na tinha nada para o jantar. Ou pelo menos 
era isso o que Cris pensava. Lembrando-se ento de como dizer "obrigado" em italiano, acrescentou:
      - Grazie.
      - Prego, respondeu ele, acenando com a cabea.
      Depois o homem soltou mais algumas palavras, bateu novamente no suter e se ps a caminho.
      Cris se assentou, petrificada. Apenas seus olhos se movia indo das costas do homem para o pescado na panela. O cheiro caracterstico de peixe pairava em torno 
dela. Mas era mais do que cheiro de peixe. Era um forte odor de pescado, misturado com cheiro de forro de gaiola e sola de bota de fazendeiro.
      Ah, no! Cris deu um pulo e correu rapidamente para o lado de trs da barraca, prximo de onde comeava a trilha. Olhou em redor, no local em que pendurara 
o fedorento suter de Antnio. Entretanto ele j no estava l.
      

4
      Antes mesmo que Cris pudesse sair correndo atrs do pescador, a fim de exigir que lhe devolvesse o catinguento agasalho de Antnio, ela ouviu a voz de Ted, 
que vinha l da mata, chamar-lhe.
      - Ei, Cris! j acordou?
      Cris correu pela trilha e encontrou Ted no meio do caminho, atirando-se nos braos dele. Entretanto o abrao no durou nem dois segundos. Dando um empurro 
em Ted, ela exclamou, contrariada:
      - Onde  que vocs estavam? Me deixaram aqui sozinha! Veio um cara aqui e levou o suter do Antnio em troca de alguns peixes, sem que eu entendesse nada do 
que estava acontecendo!
      Ted parecia observar o cabelo dela, que estava solto pela altura dos ombros e que, por ela ter corrido de um lado para o outro, achava-se bagunado e rebelde.
      - Voc est cheirosa, comentou ele.
      - Voc prestou ateno em alguma coisa que eu disse?
      - Sim, o cara foi embora e deixou trs peixes. J comeou a limp-los?
      - No, respondeu ela, olhando para Ted sem acreditar no que estava ouvindo.
      - Venha c, vou lhe ajudar. O Antnio e a Katie devem chegar dentro de alguns minutinhos.
      - Onde vocs estavam?
      - Acabamos perdendo o rumo durante a escalada, respondeu Ted com um sorriso.
      - Ficaram perdidos?
      - Mais ou menos.
      - Como assim, Ted? Como  que algum pode ficar "mais ou menos" perdido? Ou voc est perdido ou no!
      Ted colocou o brao sobre os ombros dela, envolvendo-a. Parecia estar se divertindo com os comentrios raivosos de Cris e agia como se nada de errado houvesse 
acontecido.
      Foi ento que Cris comeou a perceber o quanto estava cheirosa em comparao a Ted. O rapaz comeou a limpar os peixes e, quando Katie e Antnio chegaram e 
se assentaram junto  fogueira, Cris percebeu o quanto era desagradvel e intil ser a nica pessoa limpinha e cheirosa do grupo.
      Ento, contou a Antnio a histria do suter e dos peixes, pedindo desculpas.
      O rapaz caiu na gargalhada.
      - Voc deveria ter batido o p e s aceitado se fossem cinco peixes no mnimo. Foi minha av que fez aquela blusa. Da prxima vez, mostre seus dedos assim 
e diga "Cinque".
      - Foi sua av que fez o suter? Ai, Antnio, estou me sentindo pssima agora!
      - No se sinta. Aquele suter j era velho. Ela sempre faz um novo pra mim no Natal.
      - Na verdade, isso foi uma "coisa de Deus", Cris! exclamou Katie. J pensou o tempo que levaramos at conseguir pescar algum peixe pra jantar? Isto aqui  
perfeito. Voltamos da escalada e a comida 't pronta. Quero dizer, quase pronta. Arranjada, pelo menos.
      Katie continuou falando, narrando toda entusiasmada as aventuras que haviam vivido durante a maravilhosa escalada. Estava certa de que tinham andado no mnimo 
uns cinqenta quilmetros e dizia que nunca mais toparia sair para andar com aqueles dois malucos.
      - Voc  que fez certo de ficar aqui e dormir o dia inteiro, Cris. Pode crer. Estou exausta e faminta. Esse negcio de viver dependendo da natureza  muito 
demorado, n? Sobrou alguma carne seca?
      - No, eu comi tudo.
      - E quanto tempo vai demorar para o peixe ficar pronto?
      - No muito, respondeu Antnio, abanando o fogo e colocando na fogueira mais alguns gravetos que Cris juntara.
      - J que vocs esto famintos, a gente podia deixar isto aqui e ver se acha alguma coisa pra comer na estrada, sugeriu Cris. Os guaxinins ficaro felizes se 
deixarmos o peixe aqui pra eles.
      - Em que estrada?
      - U, na estrada que iremos pegar para o local onde passaremos a noite.
      Ouvindo aquilo, os trs largaram o que estavam fazendo e olharam para Cris. Estudando a expresso do rosto deles, ela disse:
      - Ou vocs esto pensando em passar mais uma noite aqui?
      - Mas  claro, respondeu Antnio em tom decidido. Estou de folga do servio at sbado. Podemos passar mais quatro noites aqui.
      Vendo que nem Katie nem Ted se mostravam contrrios  possibilidade de passarem o resto da semana acampados, Cris resolveu ficar quieta, mais por espanto do 
que por qualquer outro motivo. Ficou calada durante toda a refeio. Ted havia lhe emprestado sua blusa de moletom azul-marinho, que tinha um capuz. Cris se aconchegou 
junto a Ted, com o capuz na cabea de forma a esconder o rosto do olhar do rapaz. Cantava juntamente com os outros, mas sem muito entusiasmo. Mal conseguia imaginar 
o que seria passar mais cinco dias de suas trs semanas de frias ali, com aqueles bichinhos mascarados rondando  meia-noite  procura de restos de peixe, enquanto 
ela se virava de um lado para o outro no cho duro, tremendo de frio.
      Cris foi dormir trajando a blusa de Ted, com o capuz ainda na cabea. Pelo menos aquilo ajudava a manter o corpo aquecido. No entanto, sem o suter fedorento 
para servir de forro, Cris sentia a aspereza do cho e, alm disso, passava muito mais frio do que na noite anterior. Deitada, ouvia a respirao de Katie, que ecoava 
num ritmo constante.
      Foi ento que comeou uma briga l fora. Era um bando de gatos, verdadeiros "garis noturnos", que disputava com uns guaxinins a sobra de peixe da noite. Cris 
chorava baixinho, deixando as minsculas lgrimas escorrem pelo rosto. Aquelas no eram as frias que sonhara passar com os amigos. Mas, como  que poderia dizer 
isso a eles quando, aparentemente, era a nica que achava que continuar acampando no era l uma idia to boa assim?
      Virou-se para o outro lado, rolando sobre o cho da barraca. Sentia-se desconfortvel. Estava de meia e, para se aquecer, ps-se a esfregar um p no outro.
      No fim das contas, acho que no fao muito o tipo "mulher da selva", no.
      O vento comeou a soprar mais forte, fazendo a lona lateral da barraca se levantar e abaixar repetidamente. Com ele vieram as nuvens e, de repente, uma chuva 
fortssima comeou a cair. Com a ventania, a gua entrava na barraca por um pequeno rasgo que havia na lona, prximo  cabea de Cris. Poucos minutos depois, seu 
capuz estava completamente encharcado.
      - Agora, chega! gritou ela, levantando-se e abrindo a barraca energicamente.
      - O que foi? resmungou Katie. Ser que voc no consegue esquecer os guaxinins e dormir?
      - Katie, est caindo um p-d'gua! Estou ensopada! Eu  que no fico aqui! Vou dormir na van!
      Correndo sob o aguaceiro, Cris chegou  van. Abriu a porta lateral com um empurro e entrou, fechando-a em seguida. Depois instalou-se no banco de trs.
      Por que no pensei nisso ontem  noite?  bem mais quentinho aqui dentro.
      A chuva continuava caindo, tamborilando fortemente sobre o teto do veculo. Mas agora Cris estava segura, sequinha e praticamente aquecida ali dentro. Puxou 
o spero cobertor at o queixo, pensando que finalmente conseguiria dormir de verdade.
      Foi ento que algum abriu a porta.
      - Arreda a, que eu to entrando! A gua inundou nossa barraca! exclamou Katie, saltando para entrar no veculo.
      Na manobra, acabou esmagando o dedo indicador de Cris contra a estrutura metlica inferior do banco.
      - Ai! gritou Cris.
      - O que foi?
      Contudo, antes mesmo que Cris pudesse responder, a porta se abriu novamente e Ted entrou.
      - Pelo visto, vocs tiveram a mesma idia.
      Antnio, que estava logo atrs, debaixo daquele temporal, gritou:
      - Vamos, pessoal! Arredem a pra eu entrar!
      - Vocs dois esto ensopados, disse Katie.
      Ted virou a lanterna que trazia consigo na direo de Cris. As lgrimas rolavam-lhe pelo rosto, enquanto ela apertava com fora o dedo machucado, pressionando 
firmemente os lbios.
      - Voc 't legal? perguntou ele.
      Cris apenas meneou a cabea. No conseguia falar.
      - Machucou a mo? perguntou Ted, erguendo o queixo.
      Cris acenou que sim. Ted pegou a mo dela e a iluminou com a lanterna. Antnio entrou na van, e todos fixaram a ateno sobre o dedo de Cris. Embora ela sentisse 
o dedo latejar muito, seu aspecto era normal. No estava inchado nem roxo. No havia nenhum corte. Estava apenas doendo muito, como o resto de seu corpo e de suas 
emoes. Olhando-a daquele jeito, seus amigos a faziam se sentir como uma "mulher da selva" nota zero. Um verdadeiro fracasso.
      - Vai sarar, disse ela baixinho, tirando a mo do foco de luz.
      - Nesse caso, j que estamos todos reunidos, o que vamos fazer? perguntou Antnio.
      Cris recostou-se no banco traseiro, fazendo o mximo para no comear a chorar de dor. Ted se acomodou no cho, apoiando as costas nas pernas dela. Entretanto 
Cris no queria que ningum pegasse ou encostasse nela naquela hora. Nem mesmo Ted. No demorou muito o cheiro de meia molhada e bota mofada comeou a se exalar 
por todo o pequeno e apertado recinto. Cris sabia, no entanto, que, se abrisse uma das janelas, o vento traria a chuva para dentro da van.
      - A gente podia contar histrias de suspense, sugeriu Katie. Ou ento jogar xadrez. Vocs j jogaram xadrez em duplas? Podemos jogar homens contra mulheres. 
O que acha, Cris?
      Cris no estava a fim de jogar nada. Para ela, aquilo no era uma "festinha da camisola" improvisada, como os outros aparentemente pensavam ser.
      - tem outra lanterna aqui, em algum lugar, disse Antnio tatEando desajeitadamente os armrios embutidos na lataria do veculo.
      Ted virou-se para Cris e disse:
      - Oua o som da chuva. No  incrvel? Do que voc se lembra ao ouvir este som?
      Vendo que Cris permanecera calada, Ted continuou:
      - Vou lhe dar uma dica. Pense num jipe conversvel e numa chuvarada repentina.
      Antnio acendeu uma lanterna maior, iluminando todo o interior da van. Ao ver a expresso do rosto de Cris, sob o feixe de luz, Ted ficou surpreso.
      - O que foi? Disse alguma coisa que no deveria?
      - No, respondeu Cris, procurando mostrar-se menos sria.
      - Ento, qual  o problema? perguntou Ted, envolvendo os joelhos dela com o brao.
      Demonstrava estar sinceramente preocupado com ela.
      - No  nada.
      - Ora, ora, Cris.  claro que tem alguma coisa incomodando-a, disse Katie. Todo mundo aqui conhece voc bem o suficiente. No adianta tentar esconder. Ande, 
diga-nos o que .
      Cris hesitou. Detestava sentir-se daquele jeito. Segurando o dedo, que ainda doa muito, soltou afinal:
      - Na verdade eu no estou exatamente curtindo esta chuvarada toda da forma como vocs esto. E, para ser sincera... acho que no dou conta de tudo isto.
      - Disto o qu? perguntou Katie, tentando fazer com que Cris continuasse.
      - Disto!
      - De acampar? Antnio arriscou um palpite.
      - , acampar e tudo o mais. Quero dizer, vocs adoram esta aventura toda de viver em contato com a natureza e tal, mas  a primeira vez que acampo de barraca 
na minha vida! Detesto ser o bebezo do grupo, mas 't sendo uma barra pesada pra mim! Estou aqui com frio, molhada e com fome. Mas pra vocs 't tudo muito bom, 
uma maravilha! Vocs esto animados a continuar aqui at o fim da semana ou at mesmo para o resto da vida, pelo que vejo!
      Todos os olhares estavam fixos em Cris.
      - Sinto muito, mas no era bem isto que tinha pensado em fazer, quando combinamos de viajar pela Europa.
      Cris olhou para Ted novamente e percebeu que era melhor aproveitar o embalo e continuar falando.
      - A gente s tem trs semanas pra ver tudo aqui na Europa. Apenas trs semanas! Agora, se vocs esto a fim de passar uma semana inteira aqui nesta chuva toda, 
comendo peixe, tudo bem, mas vou falar uma coisa: no tenho a facilidade que vocs tm.
      Cris sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Eram lgrimas quentes, intensas. Fez fora para no chorar.
      - Sinto muito por estar agindo assim, mas a sensao que tenho  de que vocs se divertiriam muito mais se eu no estivesse presente. Quero dizer, vocs foram 
escalar sem mim. Poderiam muito bem ter vindo acampar aqui na Itlia sem mim tambm e deixado para se encontrarem comigo no caminho para a Noruega ou qualquer coisa 
parecida.
      -  isso que voc quer fazer? Ir pra Noruega? perguntou Katie.
      - Tanto faz Noruega ou qualquer outro lugar. Achei que voc queria ir pra l, respondeu Cris, levantando a voz. No foi voc que mandou um e-mail, falando 
que queria ver um fiorde e conhecer o pas da sua bisav?
      - Sim, eu ainda quero ir l uma hora dessas, mas no estou com pressa, disse Katie.
      - Mas  isso que vocs no esto entendendo. No d pra gente decidir de uma hora pra outra ir pra Noruega num dia e chegar l pela hora do almoo. A gente 
tem de descobrir o horrio dos trens. Em alguns  preciso at reservar os lugares. E se quisermos parar no caminho pra conhecer alguma outra cidade? Temos de ter 
um roteiro. No entendo por que no podemos montar um!
      - Mas quem disse que no podemos? Podemos montar um, sim, disse Ted.
      - Trs semanas no so esse tempo todo que vocs est imaginando, falou Cris, acalmando-se.
      - Ento, aonde voc 't pensando em ir? perguntou Katie. Vamos, sugira um roteiro pra ns.
      - No pensei em nada ainda.
      - Nem a gente, disse Katie, na defensiva.  por isso que estamos deixando as coisas acontecerem naturalmente. Acampar aqui com o Antnio  uma oportunidade 
nica!
      - No, disse Antnio, levantando a mo e balanando a cabea. Cris tem razo. Na verdade, a "oportunidade nica"  muito mais do que simplesmente ficar aqui 
acampado, curtindo as rvores e a lagoa. Vocs tm de conhecer a Capela Sistina e a Torre Eiffel. H muito o que se ver aqui na Europa, bem mais do que isto aqui. 
Cinco dias  tempo demais num s lugar com tantos outros pontos tursticos pra se conhecer. Vamos partir amanh de manh, 't bem?
      - Antnio, interferiu Cris rapidamente, eu no quis diz que temos de partir j. S estava dizendo que a gente precisa de um roteiro, s isso. Temos de trabalhar 
em equipe.
      Por um momento, reinou o silncio entre eles. O som da chuva batendo no teto da van fez Cris perceber o quanto falara alto, ao tentar defender seu ponto de 
vista.
      - E pra onde voc gostaria de ir depois que sairmos daqui perguntou Ted a Cris.
      - No fao muita questo do lugar.
      - Ora, ora, Cris, disse Katie. No  possvel que voc no tenha nenhuma idia em mente, depois de dar toda essa injeo de nimo na gente.
      - Ento 't. Se tivesse de decidir por ns, diria que gostaria de conhecer outras partes da Itlia, disse Cris com certa prudncia.
      - Eu tambm, replicou Ted.
      - Ento estamos conversados, disse Antnio, batendo uma mo na outra. Assim que a chuva parar, desmontaremos as barracas e vocs iro conhecer mais da Itlia. 
Mi Itlia! Vocs vo amar isto aqui.
      Cris sentiu-se melhor ao ver que os outros pareciam concordar com Antnio.
      S que a chuva no parou pela manh. Ento os quatro acampantes se puseram a desmontar as barracas ensopadas, debaixo da chuva, num verdadeiro trabalho de 
equipe. Amarraram as barracas no teto da van e arrastaram a caixa de madeira, que continha os equipamentos de camping, at a parte traseira do veculo, amarrando-a 
ao pra-choque em seguida. Estavam cansados e com fome. Cris se sentia completamente ensopada. Nenhum deles havia trazido nada que fosse impermevel e pudesse servir 
de capa. No tinham nem mesmo um saco plstico. Trocaram de roupa na van, um de cada vez, e l se foram, atravessando a enlameada estrada de terra que levava at 
a rodovia, ao som dos roncos do motor.
      - Vamos ver se a gente para no primeiro lugar que tiver comida, pediu Katie. Qualquer tipo de comida 't bom.
      Ao atingirem a rodovia, Antnio aumentou a velocidade.
      - A gente come na minha casa. Minha mama servir um lanche pra ns com o maior prazer. Vocs vo gostar muito dela.
      - Com certeza, Antnio, disse Katie. Mas quanto tempo vai demorar pra chegarmos  sua Pizzeria Mama Mia?
      - Legal isso que voc falou, Katie, disse Antnio sorrindo. Pizzeria Mama Mia. Ficou engraado. A gente chega l daqui a uma hora. No  muito longe.
      Durante o percurso, passaram por montanhas verdinhas, de formato arredondado, e por campos enormes, cobertos de girassis. Depois que deixaram o sop das montanhas, 
a chuva deu uma trgua, ficando apenas um leve nevoeiro por onde a luz do sol vez por outra penetrava. Para Cris, no entanto, o tempo demorava a passar. Ela olhava 
pela janela da van e via os raios de sol trespassarem as nuvens, incidindo sobre as vinhas que margeavam a estrada. A luz dava as folhas um tom de verde forte, bem 
brilhante. Por alguma razo a beleza daquela paisagem pastoril trazia-lhe um certo alvio, um bem estar interior, o que lhe foi muito bom. Afinal de contas, ela 
ainda se sentia um pouco culpada por ter ficado to irritada forando todo mundo a fazer as malas e ir embora por sua causa.
      Cris olhou para o dedo machucado e notou que estava roxo. No entanto no era apenas seu dedo que doa. Sentia que sua emoes tambm haviam sido feridas.
      Enquanto isso, Ted dormia, estirado no banco traseiro. Katie havia se deitado no cho. Cris invejava a facilidade dos dois de se deitar em qualquer lugar, 
em qualquer posio, e simplesmente pegar no sono. Por mais que tentasse, ela no conseguia dormir. Observando-os, Cris notou que o brao de Ted cara para o lado 
e agora repousava sobre o ombro de Katie, uma vez que ela havia se deslocado para mais perto do banco. Naturalmente Ted e Katie no tinham a inteno de se "tocarem" 
de forma to "ntima", mas o fato  que estavam se encostando um no outro. E Cris no gostava nada de ver Ted e sua melhor amiga to "juntinhos". A todo momento 
virava-se e ficava olhando para eles.
      -  aqui que voc mora? perguntou Cris a Antnio ao sarem da rodovia principal e pegarem a estrada que levava  cidade.
      - No, mas no fica muito longe daqui. Este aqui  o municpio de Cremona.
      - Parece ser bem antigo, disse Cris, observando atentamete uma enorme torre que se destacava acima dos telhados das casas.
      - Chamam-na de Torrazzo, que significa "torre alta", disse Antnio apontando para a torre. Foi construda no sculo XIII.
      -  muito bonita, comentou Cris.
      - Minha famlia  parente da famlia Amati, daqui de Cremona, afirmou Antnio, todo orgulhoso, como se aquilo fosse algo importante.
      Ao ver que Cris no fizera nenhum comentrio, disse:
      - Ah, vocs, americanos! Garanto que no sabem quem foi Amati, no  mesmo?
      - Infelizmente no, disse ela.
      - Talvez voc j tenha ouvido falar do discpulo de Amati, chamado Stradivari. Minha me ps meu nome de Antnio Stradivari em homenagem a ele.
      - Foi esse que inventou o violino? Os violinos estradivrios? perguntou Cris.
      - Si! Ento voc j ouviu falar nele! Mas na verdade quem inventou o violino mesmo foi um tal de Andrea Amati, que era da minha famlia. Stradivari apenas 
aperfeioou o instrumento. Os dois moraram aqui em Cremona. Stradivari j fabricava violinos aqui mais de trs sculos atrs e at hoje a produo continua. Msicos 
do mundo inteiro vm aqui pra comprar violinos.
      Era a primeira vez que Cris se sentia empolgada por estar na Itlia. Era justamente essa instigante mistura de histria e atualidade que ela desejava desvendar 
e desbravar durante a viagem.
      - 'T vendo aquela rua ali? continuou Antnio. Trabalho num restaurante l, perto de uma catedral. Sempre falo para os turistas que Antnio Stradivari fez 
1.200 violinos artesanalmente e que minha me escolheu meu nome em homenagem a ele. Ningum acredita.
      - No acreditam que ele fez 1.200 violinos ou que sua me ps seu nome em homenagem a ele?
      - As duas coisas. Eles acham que estou inventando moda.
      - Bom, eu acredito em voc, Antnio. E acho tudo isso aqui muito impressionante, disse ela, estirando-se para pegar uma ltima viso da catedral.
      Depois de passarem por um trecho de curvas, na estreita estrada em que seguiam, atravessaram uma ponte larga, que cruzava um rio bem extenso. Em seguida, pegaram 
uma outra estrada muito mal conservada. Seguiram nela at chegarem a uma casa de fazenda, de paredes brancas e telhado vermelho, tudo muito simples. O lugar lembrava 
a Cris as fazendas do Wisconsin, onde havia sido criada.
      Ao se aproximarem, Antnio deu uma buzinada, que acordou Katie e Ted. Da porta lateral da modesta casa, uma senhora acenava e mandava beijos para eles. Cris 
sorriu para ela.
      Depois de serem apresentados  me de Antnio, e de trocarem uma srie de cumprimentos calorosos, os quatro foram levados at a pequena cozinha. Estavam todos 
imundos e famintos. Ao entrarem, sentiram no ar um delicioso aroma, de dar gua na boca. A me de Antnio gesticulava sem parar, indicando que era para Cris, Ted 
e Katie se assentarem  mesa. Enquanto isso, conversava em italiano com o filho, falando rapidamente.
      Cris foi logo gostando da me de Antnio. E gostou da cozinha tambm. O assento das cadeiras era feito de palha entrelaada, e a madeira era pintada de azul-escuro. 
Na parede que ficava de frente para Cris, havia uma prateleira de madeira toda adornada, pintada no mesmo tom das cadeiras. Nela ficavam alguns pratos de cermica, 
em tons de branco, azul e amarelo vivos, e um jarro de servir gua, nas mesmas cores.
      Antnio continuava conversando em italiano com a me, falando os dois ao mesmo tempo, enquanto ela juntava alguns ingredientes aqui e ali.
      Cris teve vontade de rir da cena. Quanta barulheira e agitao s por causa do filhinho querido e de seus trs amigos, naturalmente exaustos!
      - Minha me 't dizendo que vocs podem ir tomar um banho, se quiserem, enquanto ela prepara uma massa pra ns. Quer que eu traga sua mala? perguntou Antnio, 
olhando para Cris.
      - Sim, por favor. Gostaria muito de tomar um banho. Tem certeza de que sua me no se incomoda?
      Cris sabia que a me de Antnio no se importaria. Talvez ela no estivesse gostando era daquele povo todo imundo em sua cozinha limpa e arrumadinha.
      - Vou primeiro, pode ser? disse Cris, olhando para Ted e Katie.
      Se sua figura estivesse um pouquinho parecida com a de seus amigos, com certeza o banho lhe faria um bem tremendo.
      Antnio levou Cris at o banheiro. O piso era de cermica e a banheira tinha um aspecto curioso. Era pequena e funda, e havia uma espcie de cano ligado a 
ela, que Cris deduziu ser o chuveiro. Demorou um pouquinho at descobrir como ela funcionava, mas conseguiu. A gua quentinha escorrendo-lhe pela cabea mais parecia 
um sonho. Cris ensaboou-se rapidamente e depois se trocou, vestindo uma das ltimas peas limpas que lhe restavam.
      Ao sair do banheiro, avistou Katie, que estava esperando  porta.
      - Eu e o Ted acabamos de lavar algumas roupas. Adivinhe onde eles lavam roupa?! L no quintal, numa tina enorme, onde h uma daquelas tbuas antigas de esfregar 
roupa. Depois a gente pendura tudo num varal amarrado entre duas rvores. No  engraado?
      Foi ento que Cris notou que Katie estava toda molhada.
      - Ah, eu e o Ted fizemos uma guerrinha de gua, disse Katie notando o olhar da amiga.  claro que eu ganhei. Voc tem de ver como ele ficou. Nem 't precisando 
de banho mais.
      Katie parecia bem alegre. Cris deixou a amiga entrar no banho e foi at o quintal para lavar as roupas. Ted estava se secando ao sol, assentado numa cadeira, 
ao lado de Antnio. Pareciam dois velhos conversando. Recostando-se em sua cadeira, Antnio comentava sobre como o tempo estava agradvel e limpo em comparao com 
a regio das montanhas, onde haviam acampado. Ted demonstrava estar completamente  vontade, fazendo alguns comentrios sobre o tempo tambm.
      Quando a Katie 't por perto ele brinca de guerrinha de gua, n? Mas quando eu chego, ele nem me v e fica a assentado, conversando sobre o tempo. Estou 
me sentindo a prpria chata aqui. Foi por minha causa que viemos embora. Talvez o tempo l no acampamento at j esteja aberto e agradvel, e ns poderamos estar 
l, lavando as roupas no riacho. Ser que estraguei tudo?
      Cerca de uma hora e meia depois, todos j estavam de banho tomado e assentados  mesa da cozinha, saboreando um verdadeiro banquete. Ted elogiava sem parar 
a massa, enquanto Katie servia o tempo todo um pouco mais de linguia. J Cris gostara mais do ravili. Antnio traduzia os comentrios e elogios dos amigos para 
a me. Ela sorria e gesticulava, indicando que era para eles comerem mais e mais e mais!
      Cris j no aguentava dar mais nem uma garfada. Mesmo assim, ainda havia bastante comida na mesa.
      - Antnio, voc poderia perguntar  sua me se ns podemos ajud-la a arrumar a cozinha e guardar o que sobrou?
      Antnio traduziu a pergunta de Cris para a me, mas esta foi logo dizendo, por meio de gestos, que era para eles irem l para fora e deixarem a cozinha por 
conta dela.
      - A gente pode pelo menos lavar a loua, sugeriu Katie.
      A me de Antnio aceitou a ajuda e, ento, os quatro se enfileiraram, a fim de lavar e secar os pratos de cermica azul e amarela e todas as outras vasilhas. 
Com todo aquele bando na pia, lavando a loua s gargalhadas, no demorou muito para que tudo ficasse limpo. Ao terminarem, Cris teve a impresso de que a me de 
Antnio estava feliz ao ver que o bando deixaria sua pequena cozinha em paz.
      Depois do almoo, os quatro foram descarregar e lavar todo o equipamento de camping, usando uma mangueira e uma escova de esfregar, prpria para limpeza pesada. 
Ficaram a tarde toda lavando e esperando as peas se secarem ao vento, para ento guardarem tudo de volta nas caixas. Durante o processo, Cris observou que Katie 
e Ted trabalharam juntos quase o tempo todo. Quando terminaram, ele desafiou a amiga para um jogo de xadrez e os dois foram se assentar  sombra das rvores. E l 
ficaram, olhando atentamente para o tabuleiro, em concentrao total.
      -ser que posso ajudar sua me a preparar o jantar? perguntou Cris afinal, cansada de observar Ted e Katie jogando.
      - Acho melhor no. Ela no fica muito  vontade quando tem algum na cozinha, respondeu Antnio.
      O sol j estava quase se pondo quando o pai de Antnio chegou do campo, onde trabalhava arando a terra. Cris teve a impresso de que ele era um homem severo. 
Ou ento, deveria estar bastante cansado. Era mais baixo do que Antnio, porm mais musculoso. Animado, ele convidou os amigos do filho a se juntarem a ele  mesa 
e se ps a fazer-lhes perguntas, pedindo a Antnio que traduzisse, enquanto comiam.
      - De quem voc herdou olhos to lindos? perguntou ele a Cris. Do seu pai ou da sua me?
      - No sei muito bem. Acho que  uma mistura dos dois, respondeu ela, sentindo o rosto corar.
      - Meu pai disse que so os olhos mais lindos que j viu, disse Antnio. E ele tem razo.
      Cris abaixou a cabea, procurando manter o olhar fixo no prato. Tinha a impresso de que todos a encaravam. Em seguida, virou o rosto e, olhando rapidamente 
para o pai de Antnio, disse timidamente:
      - Molte grazie, signore.
      - Ahh! exclamou o pai, surpreso em ouvir um agradecimento to educado em italiano.
      Falou mais algumas palavras rapidamente e deu um tapinha no brao de Antnio, todo brincalho. Depois apontou para Cris e bateu novamente no brao do filho.
      - Que foi que ele disse? perguntou Cris com certa cautela.
      Antnio parecia constrangido. Soltou alguma coisa em italiano e, em seguida, seu pai e sua me olharam para Ted, surpresos.
      Ted sorriu para Antnio, sem entender.
      - O que voc disse a eles? Que foi que eu no "pesquei" aqui? perguntou o rapaz.
      Olhando para o prato, Antnio traduziu para os amigos o que o pai dissera. Alm do ingls, recorreu  gesticulao.
      - Ele me perguntou por que eu ainda no pedi a Cris em casamento. A eu expliquei pra ele que ela  sua namorada.
      Cris olhou para Ted.  agora, Ted. Vamos l. Diga a todos que voc  louco por mim e que no consegue viver sem mim. Vamos, quero ouvir voc dizer isso.
      Ted hesitou por alguns momentos. Cris sabia que ele ainda precisava definir muitas reas de sua vida. Era por isso mesmo que lhe dissera vrias vezes que ela 
poderia ficar  vontade para "dar um tempo" no relacionamento e voltar quando bem entendesse. E tanto ele quanto ela haviam feito isso. Mas ser que ele estava preparado 
para definir, ali na frente de todos, pelo menos uma dessas reas de sua vida? Se estivesse, tudo que teria de fazer era afirmar que Cris era de fato sua namorada.
      Todos os olhares estavam em Ted. Cris apertava fortemente os lbios, esperando a resposta dele.
      - Por favor, diga a seu pai que me sinto lisonjeado com a pergunta dele, disse Ted afinal, erguendo o queixo, como costumava fazer.
      O que ele quer dizer com isso?
      A princpio, o pai de Antnio pareceu surpreso com a vaga colocao de Ted. Entretanto depois deu um largo sorriso e acenou com a cabea. Com uma boa gargalhada, 
sacudiu o dedo olhando para Ted e soltou animadamente uma poro de palavras em italiano.
      Cris no tinha certeza se queria ou no ouvir a traduo.
      - Meu pai disse que voc aprendeu cedo o segredo de tudo, que  deixar a mulher sempre na dvida.
      Ah, isso mesmo. Deixar a mulher sempre na dvida  a especialidade do Ted. E como  que fica nosso relacionamento? Obviamente no numa posio to boa quanto 
eu imaginava.
      Cris sentiu um aperto no corao. Era uma sensao antiga, que ela conhecia bem.
      No faa isso, Cris. No se deixe afogar em depresso. O Ted no 't rejeitando voc. S 't agindo do jeito normal dele, sem assumir nenhum compromisso. J 
faz cinco anos que vocs desfrutam de uma amizade muito especial; uma amizade que  para sempre. Por enquanto voc tem de se contentar com isso.
      L no fundo, no entanto, Cris queria bem mais do que a simples amizade de Ted.
      

5
      Na manh seguinte, Cris acordou com um sonido de buzina, que vinha l do porto. Curiosa para ver quem era, pulou da cama e foi at a janela, que se achava 
entreaberta, pisando com cuidado sobre o tapete para no fazer barulho. Katie continuava dormindo. Abrindo a cortina branca de renda, viu que um txi estava parado 
 porta da casa.
      Um rapaz italiano alto e elegante, aproximadamente da idade de Antnio, pagava ao motorista. Trajava cala jeans escura, de corte reto, e uma camisa social 
branca, com as mangas dobradas. Tinha cabelo escuro e era muito simptico. Da janela, Cris observava atentamente o rapaz desconhecido.
      - Ciao! gritou ele.
      Possivelmente vira Cris na janela, ao se virar. Acenou com uma das mos, ergueu sua maleta com a outra e dirigiu-se em direo a ela. Cris por sua vez afastou-se 
rapidamente e fechou a cortina, escondendo-se dele.
      Saltou at a cama de Katie e deu uma chacoalhada na amiga, que dormia.
      - Katie! sussurrou ela. Acorde!
      - Ahn? balbuciou a amiga, parecendo um pouco contrariada, como sempre ficava de manh cedo.
      - Katie, voc tem de vir aqui ver esse cara. Acho que sua encomenda de moreno alto e bonito acabou de chegar!
      - Do que voc 't falando?
      - Venha, levante-se! disse Cris, puxando a amiga pelo brao. Rpido! Antes que ele entre!
      - Por que ser que voc no consegue me deixar em paz quando estou dormindo? disse Katie, soltando um suspiro profundo.
      Foi ento que ouviram uma voz. Assustada, Cris deu um pulo, dando as costas para Katie. O rapaz desconhecido estava bem ali, na janela do quarto. Como no 
havia tela de proteo, ele simplesmente terminara de levantar o restante do vidro e abrira a cortina com as mos.
      - Ciao! disse ele.
      Katie soltou um grito, ao que o rapaz comeou a rir e a falar com elas em italiano. Constrangida, Cris envolveu-se com os braos, procurando esconder sua camisola. 
Rapidamente soltou sua frase de emergncia:
      - Ich verstehe nicht.
      Ento o rapaz lhe respondeu alguma coisa em alemo.
      - Quem  este cara e afinal, o que ele 't dizendo? perguntou Katie, segurando o brao de Cris.
      O rapaz soltou outra risada.
      - Agora j sei quem vocs so. So as amigas americanas do Antnio, no  mesmo? disse ele em ingls. Ouvi falar de vocs.  voc que  a Cristiana?
      Cris acenou com a cabea.
      - E voc deve ser a Katie. Ciao, Katie.
      - , sou eu. Oi! disse ela, puxando o lenol at o pescoo. Foi ento que algum bateu  porta, interrompendo aquele desagradvel momento. Era Antnio, que 
entrou no quarto e foi logo conversando em italiano com o rapaz desconhecido, mexendo bastante com as mos.
      - J conhecem meu primo Marcos? perguntou Antnio s duas.
      - Sim, mais ou menos, respondeu Katie.
      - Ele 't indo pra Roma. Vocs querem aproveitar e ir com ele?
      Dez minutos depois, l estava Cris na cozinha, assentada  mesa, tomando uma xcara de caf forte e comendo uns pezinhos redondos, que por dentro eram macios 
e, por fora, crocantes. Ao lado dela, os outros conversavam animadamente, parte em ingls, parte em italiano e, naturalmente, os planos para a prxima etapa da viagem 
iam surgindo.
      Marcos havia chegado  cidade de trem, bem cedinho. Para aproveitar o tempo, resolvera fazer uma visitinha para os tios. Como estava indo para Roma, onde faria 
uma entrega a um dos clientes de seu pai, os trs amigos de Antnio poderiam ir com ele. Ficou combinado ento que, depois do servio, Marcos os levaria para conhecer 
alguns pontos tursticos da cidade.
      - Acho melhor fazermos as malas. Algumas de minhas roupas ainda esto no varal, disse Katie ao constatar que o trem partiria dentro de uma hora.
      Cris olhou de relance para Marcos e percebeu que ele olhava para ela. Era mesmo um rapaz simptico. Cris desviou rapidamente o olhar, sentindo o rosto corar 
de constrangimento. J era a quarta vez que olhava na direo dele e, em todas as vezes, o pegara olhando fixamente para ela.
      - Voc pode vir aqui um pouquinho? perguntou Katie, levantando-se da mesa e puxando Cris pelo brao.
      - Claro.
      Cris se levantou e ps a xcara e o prato sujos na pia, embora a me de Antnio lhe dissesse que no precisava se incomodar.
      - Grazie, disse Cris a ela.
      A senhora deu-lhe ento um beijo no rosto, e Cris retribuiu amavelmente, dando-lhe tambm um beijinho e agradecendo novamente em italiano. A garota j no 
se sentia constrangida com aquele gesto, pois durante sua estadia na Europa tinha se habituado quele costume.
      Katie hesitou um pouco e apenas acenou firmemente com a cabea.
      - Obrigada pelo caf, disse em seguida.
      As duas foram saindo da cozinha e Cris olhou rapidamente para Ted. Ele estava olhando para ela. Ela correu os olhos em redor, passando-os rapidamente por Marcos. 
Ele no estava apenas olhando para Cris. Estava observando cada movimento que ela fazia.
      Assim que as duas saram pela porta dos fundos e se distanciaram da janela da cozinha, que estava aberta, Katie pegou Cris pelo cotovelo e a puxou at o varal.
      - Afinal de contas, qual  a sua, Cris?
      - Como assim? No estou fazendo nada de mais.
      Cris estava impressionada com a expresso no rosto de Katie. Parecia enfurecida!
      - Ah, est sim! Voc 't dando em cima do Marcos bem na frente do Ted! Onde  que voc 't com a cabea? Nunca a vi fazendo isso, Cris!
      - Do que voc 't falando?
      - Do que eu estou falando? perguntou Katie levantando as mos, como se no acreditasse no que ouvira. Estava todo mundo assentado  mesa, conversando, e voc 
l no seu canto, pondo pedacinhos de po na boca e lanando altos olhares para o Marcos toda vez que dava uma mordidinha.
      - Eu no estava fazendo isso!
      - Estava sim, pode acreditar! Era exatamente isso o que voc estava fazendo. E depois dava um gole no caf e fingia que no tinha reparado nos olhares dele. 
Ser que voc percebeu que o Ted estava bem ali, vendo toda aquela cena?
      - Katie, eu no estava dando em cima de ningum! disse Cris em voz baixa, olhando em redor para ver se por acaso havia algum por perto. No sei o que passou 
pela sua cabea ou o que voc 't pensando agora, mas eu no estava fazendo nada disso!
      Katie meneou a cabea, discordando.
      -se voc no estava fazendo nada, ento esse deve ter sido o caso mais forte de azarao inconsciente que j vi em toda a minha vida. Quero dizer, eu sou a 
primeira a reconhecer que o cara  extremamente gato, mas espera a! Dava at pra sentir um certo calor entre vocs dois.
      A afirmao de Katie deixou Cris desconcertada.
      - Eu no senti nenhum "calor"!
      - Como voc  ingnua, Cris!
      - No sou, no!
      - Ento, faa-me um favor, disse Katie, dirigindo-se para o varal e puxando suas roupas, j secas. No faa isso!
      - No faa isso o qu? Cris estava comeando a ficar nervosa.
      - No invente mais um Rick Doyle na nossa vida. No agora. Voc no  boba!
      Balanando o cabelo, Katie virou-se e bateu em retirada, carregando um monte de roupas nos braos. Cris permaneceu parada, boquiaberta. No estava acreditando 
no que ouvira.
      Por que ela falou tudo isso? Ela sabe que ter gostado do Rick foi um grande erro que cometi. Mas j faz quantos anos, uns quatro? Alm do mais, por que ela 
't dizendo isso se ela fez a mesma bobagem quando se apaixonou por ele?
      Puxando as roupas do varal com fora, Cris caminhou de volta para casa, passando pela porta da frente. No queria trombar com ningum na cozinha. Foi direto 
para o quarto de hspedes e fechou a porta firmemente ao entrar. Katie estava a alguns poucos centmetros de distncia, enfiando as roupas na mochila.
      -seus comentrios foram muito maldosos e injustos, protestou Cris. Por que voc 't com raiva de mim? Sim, porque, se no estivesse, no agiria assim.
      - Eu no estou com raiva de ningum, respondeu a outra, ainda guardando rapidamente os pertences. Que tal se a gente deixasse isso pra l? Daqui a pouco todo 
mundo estar pronto para partir e no quero que fiquem parados nos esperando, s porque estamos aqui discutindo.
      Cris estava com tanta raiva que mal podia raciocinar. No acredito nisso! Por que ela 't agindo assim?
      Katie fechou o mochilo e o empurrou em direo  porta, sem olhar para Cris.
      - Vou esperar l fora com o resto do pessoal, disse.
      Cris se assentou na quina da cama e olhou fixamente para a cala jeans que estava sobre seu colo, procurando se acalmar. Conhecia bem a amiga que tinha. Forar 
Katie a conversar, quando ela no estava com vontade, seria um erro terrvel, e ela sabia disso.
      Por que ser que ela disse tudo isso? Ser que eu estava dando em cima do Marcos inconscientemente? Ser que ele estava mesmo olhando pra mim do jeito que 
a Katie falou? E ser que Ted achou que eu estava dando em cima do Marcos?
      Naturalmente Cris percebera o olhar fixo de Marcos para ela durante o caf da manh. Mas aquilo no significava que ela estava jogando charme para cima dele, 
significava?
      O Ted nunca lana esses olhares pra mim. Ser que estou me sentindo como a coitadinha da histria s porque o Ted no tomou uma posio com respeito ao nosso 
relacionamento ontem  noite? Eu queria tanto que o Ted me olhasse assim, como o Marcos me olhou hoje de manh!
      De repente, algum bateu  porta, interrompendo os pensamentos dela.
      - Pode entrar!
      A porta se abriu e, para a surpresa de Cris, Marcos adentrou o quarto, exibindo um sorriso. Seus penetrantes olhos castanhos foram direto aos olhos de Cris.
      - Precisa de ajuda?
      - No, obrigada, respondeu ela, sentindo o corao bater forte. Eu dou conta de carregar. S mais um minutinho e estarei pronta pra ir.
      - No faz mal, eu espero e levo a bagagem pra voc.
      Cris socou as roupas dentro da mochila e fechou-a. Sentia-se um pouco apreensiva.
      - Pode deixar que eu levo isso pra voc, disse Marcos, aproximando-se de Cris e estendendo a mo para pegar a bagagem.
      Cris se afastou. Sentia-se constrangida e apreensiva com aquela situao. Afinal, Marcos agia como se tivesse total liberdade para invadir a privacidade dela.
      - Obrigada, respondeu.
      Em seguida pegou a bolsa e deu uma olhada na cmoda, para ver se no estava esquecendo nada.
      - Vou esperar l fora com o resto do pessoal, disse ento, saindo do quarto e deixando o peso maior para Marcos carregar.
      Quando Cris chegou, Ted e Katie estavam colocando a bagagem na parte traseira da van de Antnio, que estava limpinha. Cris se despediu da me dele, dando-lhe 
mais um beijo no rosto, e foi logo se apossando do banco da frente. Certamente no queria ficar l atrs com Katie e Marcos, sabendo que Ted estava na frente, com 
Antnio.
      Seguiram numa estrada acidentada, com Antnio ao volante. Durante todo o percurso, Cris no deu uma olhada sequer para trs. A culpa  toda minha. Tudo porque 
eu fui fazer aquela cena l no acampamento. Se estivssemos l, no estaramos indo para Roma, acompanhados de um cara que me deixa to apreensiva. A Katie no estaria 
chateada comigo e o Ted no estaria agindo como se eu no existisse. Pelo menos o Antnio no fechou a cara pra mim.
      - Voc gosta de Roma? perguntou Cris a Antnio, tentando puxar papo.
      - Sim, gosto muito, mas no vou acompanhar vocs.
      - No vai?
      - No, respondeu Antnio. Estou meio sem grana pra viajar.
      Foi ento que Cris se deu conta de que o acampamento no havia custado nada para eles. At mesmo as refeies tinham sido de graa.
      - E se fizssemos uma vaquinha e lhe dssemos parte do dinheiro?
      - Pelo visto voc 't triste porque eu no vou com vocs, n? Isso  muito legal de sua parte, Cristiana, disse ele, desviando a ateno da estrada e sorrindo 
para Cris.
      -  uma pena, disse ela, voltando a ateno para a estrada, na esperana de que o rapaz fizesse o mesmo.
      Era engraado, mas com Antnio Cris nunca ficava sem jeito. Ele podia ser supercarinhoso e at dar uma de conquistador para cima dela, que ela no ficava constrangida. 
Ela no entendia o porqu. Quando ele estivera na Califrnia, tratara assim todas as garotas que conhecera. E elas gostaram tanto, que at o apelidaram de "italiano 
romntico". Mas com Marcos era diferente.
      Por qu? Ser que  porque o Marcos  extremamente simptico?  claro que ele sabe que  um rapaz bonito. Ser que ele espera que todas as mulheres caiam de 
amores aos ps dele? Ou ser que eu  que sou o problema? Ser que no estou, de certo modo, tentando ganhar um pouco mais de ateno? O que 't acontecendo?
      Antnio estacionou a van num local proibido prximo  estao de trem e desceu para ajudar a descarregar a bagagem, deixando o motor ligado. Cris se sentia 
triste por eles no terem escolhido ficar para desbravar a cidade de Cremona.
      - Cristiana, disse Antnio, chamando Cris para o outro lado da van, longe dos outros. Enquanto voc estava fazendo a mala, contei para o Ted e para a Katie 
que, quando voltei da Califrnia, falei para o Marcos sobre a minha deciso de dedicar a vida a Cristo. Mas ele me disse que no estava pronto para dar o mesmo passo. 
Acho que a ida de vocs a Roma  uma "coisa de Deus", como diz a Katie. Foi por isso que viemos embora do acampamento. Para que vocs tivessem a oportunidade de 
mostrar o amor de Deus para o Marcos, como mostraram a mim. Assim, tenho certeza de que ele aceitar a Cristo em breve.
      Cris sentiu um frio no estmago.
      - Queria muito que voc viesse conosco!
      - Quem sabe voc no passa aqui de novo antes de voltar para os Estados Unidos? Ser sempre bem recebida, disse ele dando-lhe um beijo em cada face.
      - Muito obrigada, Antnio.
      Cris sentiu os olhos se encherem de lgrimas.
      - Grazie.
      - Prego, respondeu ele. Estarei orando por vocs.
      - E eu estarei orando por voc, amigo! Ciao!
      - Arrivederci, disse ele, entregando-lhe a bagagem. Em seguida correu para despedir-se dos outros.
      Foi a que Cris se deu conta do quanto Antnio estava sendo desprendido. Ela sabia que Antnio havia estudado na Califrnia graas a um tio generoso que lhe 
custeara as despesas, provavelmente o pai de Marcos. Estava na cara que a famlia de Antnio levava uma vida bastante simples. O acampamento havia sido a viagem 
de frias dele. Uma viagem bastante barata, diga-se de passagem. Ento, quando Cris reclamou do lugar, e eles resolveram vir embora, as frias de Antnio terminaram, 
apesar de ele no ter dito nada que passasse essa impresso. Ah, se ela no tivesse aberto a boca!
      Cris se dirigiu juntamente com os outros para a estao e ficou observando, enquanto Marcos providenciava um modo de trocarem as passagens por bilhetes de 
primeira classe, para que pudessem viajar todos juntos. Para tanto, Cris, Katie e Ted teriam de inteirar o valor da passagem. Marcos ofereceu-se para pagar a diferena, 
mas Ted foi logo dizendo que era melhor que eles prprios pagassem. Cris entrou na conversa e fez questo de pagar sua parte. Marcos afinal concordou e cada um deles 
pagou ento pelo prprio passe.
      - ... comentou Katie baixinho com Cris, ao caminharem apressadamente at a plataforma de embarque. Quando voc deixou claro como as coisas deveriam ser, ele 
parou de insistir.
      Cris apertou os lbios, procurando no explodir de novo com a amiga.
      -ser que poderamos parar com isso, Katie?
      - Isso o qu?
      - Esse negcio de ficar uma cutucando a outra. No estou a fim de brigar com voc.
      Katie abaixou o rosto e Ted chamou as duas para o embarque.
      - 'T bem, disse Katie, andando apressadamente em direo ao trem.
      Ao embarcarem, Cris procurou se esquecer dos problemas entre ela e Katie, bem como das outras coisas que estavam lhe incomodando. S de embarcar j comeava 
a se sentir empolgada. Adorava viajar de trem pela Europa e h tempos estivera esperando ansiosa por essa parte da aventura.
      Cris foi logo dando um jeito de se assentar ao lado de Ted. As poltronas eram acolchoadas e confortveis. Katie e Marcos estavam assentados numa poltrona igual, 
de frente para Cris e Ted. Os quatro viajavam numa cabine pequena, mas privativa. Acima das poltronas havia uma prateleira, onde colocaram a bagagem.
      - Quanto tempo levar pra chegarmos a Roma? quis saber Katie.
      - Cerca de cinco horas, respondeu Marcos.
      - Tudo isso? perguntou Katie.
      - Podemos fazer uma parada em Florena, se vocs quiserem. Meu compromisso com o cliente do meu pai  s amanh de manh.
      - Eu trouxe um guia turstico, disse Cris, apanhando a bolsa. Posso dar uma lida nas atraes de Florena e depois a gente decide se passa ou no por l.
      - A gente no precisa de guias tursticos, disse Katie. O Marcos pode nos dar todas as dicas.
      - Posso dar uma olhada no guia? perguntou Ted.
      Cris se sentiu aliviada ao ver que Ted estava do lado dela. Poderiam ficar juntos ali lendo tudo sobre as fantsticas atraes que os esperavam nas maravilhosas 
cidades italianas. Pelo menos assim poderiam descobrir um pouquinho da histria por trs de todos os pontos tursticos que visitariam.
      Exibindo seu sorriso mais meigo, Cris entregou-lhe o guia torcendo para que ele entrasse no clima e ficasse ali bem juntinho dela, lendo sobre as atraes. 
Aquilo seria a prova viva para os outros de que ela e Ted se achavam juntos e unidos, e que ela no estava dando em cima de Marcos - nem inconscientemente nem de 
qualquer outro jeito que imaginassem.
      Ted pegou o guia da mo de Cris e agradeceu-lhe em seguida. Era um livro grosso, de capa flexvel. Depois colocou-o entre a cabea e o vidro da janela.
      - Perfeito! murmurou ele, fechando os olhos. Acordem-me quando chegarmos l.
      

6
      - Vocs  que mandam, disse Marcos, olhando fixamente para Cris. Querem parar em Firenze primeiro ou ir direto para Roma?
      - No sei. O que voc acha Katie? perguntou Cris, querendo mesmo era que Marcos parasse de olhar para ela.
      - Ir direto para Roma, talvez. No faz muita diferena pra mim.
      - H muitas obras de arte que poderamos ver em Florena, como a esttua de Davi, de Michelangelo.
      - Ento voc 't querendo parar em Florena pra ver a esttua de um cara pelado? perguntou Katie.
      Marcos riu.
      - Claro que no, Katie. Voc no entendeu o que eu quis dizer, exclamou Cris com impacincia.
      - E o que exatamente voc quis dizer?
      - S estava dizendo que podemos nos arrepender depois de no ter parado em Florena enquanto era tempo.
      - Tudo bem, pra mim tanto faz. Qualquer coisa serve. A nica cidade que fao questo de visitar  Veneza.  l que as pessoas andam de gndola, no ?
      - Isso mesmo, disse Marcos. Eu moro l, em Venezia.
      - Voc mora l? perguntou Katie, surpresa.
      Marcos acenou com a cabea.
      - E tem gua na porta da sua casa? Voc sai de casa naquela gndolas? continuou ela.
      - Claro que sim. Veneza  formada de ilhas, mais de cem delas. Tem gua na porta da casa de quase todo mundo. Meu pai  dono de uma joalheria que fica perto 
da Piazza San Marcos. Chama-se Carlo Savini Joalheiros. Se vocs forem at Veneza, no deixem de dar uma passada l. No se esqueam: Carlo Savini.
      - Deve ser um lugar legal. A gente tem de ir a Veneza! disse Katie.
      - Podemos ir depois de Roma, sugeriu Cris.
      - Isso. Depois de Roma e daquela outra cidade que vocs mencionaram.
      - Florena, disse Cris, empregando o nome traduzido da cidade.
      - Firenze, disse Marcos em seguida, corrigindo-a.
      - Tem um lugar que eu gostaria muito de visitar aqui na Itlia, disse Cris. No sei onde fica, mas  possvel que seja em Veneza.
      -se for, saberei na hora, disse Marcos. Qual  o nome?
      - A Gruta Azul. J ouviu falar?
      - Claro, mas no fica em Veneza.  na ilha de Capri.
      - Onde fica isso?
      - Ao sul.  na direo que estamos indo.  s pegar o hidroplano em Sorrento ou Napoli. Fica a poucas horas de Roma. Mas o melhor  ir pela manh, porque  
tarde fica muito cheio e no vale muito a pena.
      - Bom saber, disse Cris. Valeu a dica.
      -se quiserem, podem ir hoje  noite mesmo, sugeriu Marcos. Os hotis em Capri so dos mais caros em toda a Itlia! Mas conheo um lugar onde vocs podem se 
hospedar. Da vocs pegam o primeiro barco turstico que estiver saindo para a Grotta Azzurra. Depois vo pra Roma, e eu encontro vocs  tarde.
      - Parece uma boa idia.
      Agora Katie no vai poder achar que estou dando bola para o Marcos. Afinal de contas, estou  dando um jeito de fugir dele.
      - Que Gruta Azul  essa? perguntou Katie. E por que voc quer tanto ir l?
      -  uma espcie de caverna. Algum me falou dela certa vez, explicou Cris. Disseram que voc entra nela numa espcie de barquinho e a luz do sol reflete l 
dentro, dando  gua um tom de azul bem diferente.
      - Ah, agora me lembro de j ter ouvido falar desse lugar, disse Katie. No era um conhecido nosso que tinha ido l e que depois ficou falando sem parar do 
lugar?
      - O Rick Doyle, disse Ted, sem abrir os olhos nem fazer qualquer outro movimento que denunciasse que estava acordado.
      - Isso mesmo! exclamou Katie, olhando para Cris com um brilho nos olhos.
      Depois, chegou mais perto da amiga e deu-lhe um tapinha na perna.
      - O Rick ligou pra voc daqui da Itlia, no seu aniversrio. Lembro de voc me contar isso. Alis, foi por isso que ele a levou pra jantar num restaurante 
italiano no dia em que comearam a namorar. Sim, porque quando voc completou dezesseis anos, de estava aqui na Itlia.
      Em certas horas, Cris desejava que Katie sofresse uma amnsia. Mas, infelizmente, a garota parecia se lembrar de todos os detalhes que Cris lhe contara tantos 
anos atrs. E, por alguma razo, era como se algo a incitasse a narrar cada pormenor da histria, justo na frente de Ted e Marcos.
      - E a o Rick foi conhecer a Gruta Azul pela manh, no dia do seu aniversrio, continuou ela. Voc estava em Maui. Depois ele lhe telefonou e disse que a gua 
era da cor dos seus olhos. Foi da que eu fiquei sabendo dessa tal Gruta Azul.
      Ted abriu um olho e virou-se para Cris, que olhou para ele. Ela sabia que no tinha nada a esconder dele, mas, mesmo assim, sentia que Katie a havia colocado 
numa situao constrangedora.
      - Quer dizer que o Rick estava aqui na Itlia quando ligou pra voc?
      Cris acenou com a cabea. Em seguida, percebeu que Marcos estava novamente olhando para ela.
      - Acho que ele tem razo, disse Marcos. Seus olhos so mesmo da cor da gua da Gruta Azul.
      Que negcio  esse que os homens italianos tem com os meus olhos?
      - Muito bem, ento, disse Ted, consertando a postura e em seguida devolvendo o guia turstico para Cris. Acho que teremos de ir a essa to falada Gruta Azul 
e comparar ns mesmos as cores.
      Cris no sabia se ele estava com raiva ou se estava apenas brincando com ela.
      - Vou ver se descubro onde  o vago-restaurante e compro algo pra beber, disse Ted, levantando-se. Algum mais quer beber alguma coisa?
      - Eu vou com voc, disse Cris.
      Estava feliz de finalmente poder ficar um pouco a ss com Ted.
      - Esperem a! disse Katie, juntando-se a eles.
      Cris no gostou muito da intromisso da amiga, mas ficou calada. Ser que voc no percebe que eu quero ficar a ss com ele, Katie? At agora no pudemos ter 
sequer um tempinho de privacidade nesta viagem!
      Cris ia na frente, andando pelo estreito corredor. Katie e Ted seguiam logo atrs. Cris s se virou para v-los quando chegaram ao vago-restaurante do trem.
      O restaurante era bem mais luxuoso do que a lanchonete do trem em que Katie e Cris haviam viajado na Inglaterra, um ano atrs. Em vez de algumas poltronas 
e um simples barzinho, onde se serviam os lanches, ali havia mesas forradas com toalhas e at garons uniformizados para acompanhar os passageiros at as mesas e 
servi-los. Cris havia estado num vago-restaurante como esse nas frias passadas, quando ela e sua amiga Selena viajaram para a Sua a fim de conhecer a Universidade 
de Basel.
      Cris foi a primeira a se assentar. Ted sentou-se de frente para ela e Katie se sentou ao lado dele, em vez de se assentar ao lado de Cris. Ted inclinou-se 
sobre a mesa e disse:
      - Quer dizer ento que voc  a garota da Gruta Azul, hein?
      Cris no sabia direito o que dizer. Aproximou-se de Ted ento e passou os dedos no queixo dele, onde uma pequena barbicha crescia.
      - E voc 't querendo dar uma de homem das cavernas, n?
      - , achei que seria legal deixar a barba crescer. O que acha? perguntou ele, inclinando-se para trs e virando-se de um lado para o outro, para que Cris pudesse 
avaliar melhor.
      - Acho que vai demorar um pouco pra aparecer, disse ela com certa cautela.
      O plo da barba de Ted era to claro que mal dava para perceber a barbicha. S ficava visvel mesmo quando a luz batia no rosto dele. Cris observara que, na 
maior parte do tempo, era como se o rosto dele estivesse levemente manchado ou no houvesse sido lavado pela manh.
      - Quando fizer uma semana, pergunte-me de novo.
      Ted riu.
      - J tem um ms que no fao a barba!
      - Ops! Foi mal! disse Cris, rindo com ele.
      - Acho que deixar a barba crescer no  muito a minha praia, disse Ted, passando os dedos pelo queixo.
      - Por que voc no deixa um cavanhaque? sugeriu Katie, aproximando-se e passando a mo no queixo dele.
      - Acha que ficaria bom? perguntou ele.
      - Com certeza, concordou Cris.  s voc raspar tudo isto aqui e deixar esta parte intacta.
      Cris aproximou-se de Ted e passou novamente a mo na suave penugem que crescia no queixo dele.
      - Os pelinhos daqui so at um pouco mais escuros, disse.
      - Mesmo? perguntou Ted, tentando ver seu reflexo na colher.
      Continuou olhando e indagou:
      - Vocs duas esto querendo ir  ilha de Capri?
      - Eu quero, respondeu Cris.
      - Claro, concordou Katie. Quer dizer ento que montamos um roteiro?
      - Acho que sim, respondeu Ted, colocando a colher sobre a mesa.
      Depois pediu uma gua mineral para o garom que os estava atendendo. Cris pediu gua tambm. Indiferente, Katie disse ao garom:
      - Pode ser o mesmo pra mim, ento.
      O garom olhou para ela, confuso. Parecia no haver entendido o que ela dissera. Ento, Ted fez o pedido pelo grupo:
      - Tre aqua minerale.
      Cris ficou admirada de ver Ted falando em italiano e olhou para ele, toda orgulhosa.
      - Na verdade o italiano parece bastante com o espanhol. Acabei aprendendo algumas frases de emergncia quando viajei pra Espanha, no ano passado.
      - Muito bem, ento, disse Katie. Quero saber corno se pergunta "Onde  o banheiro?".
      - Saindo por aquela porta,  esquerda, respondeu Ted. Passamos por ele quando estvamos vindo pra c.
      - Mas isso no resolve meu problema, Ted, disse Katie. Estou falando srio. Quero aprender todas as frases que voc souber. Quando no consigo me comunicar, 
fico apreensiva!
      - , e eu fico apreensiva  quando voc consegue se comunicar, comentou Cris em voz baixa.
      - Como disse? perguntou Katie, aproximando-se de Cris, os braos apoiados sobre a toalha branca.
      Cris hesitou por uns instantes. Depois concluiu que, em se tratando de amizades, a melhor medida era a sinceridade.
      -  que est sendo muito difcil pra mim no ficar com raiva de voc, Katie. E est sendo assim o tempo todo.
      - Por qu? Que foi que eu fiz?
      - Primeiro voc me pega l no quintal da casa do Antnio depois do caf, e me vem com todas aquelas acusaes. Mas acho que voc deve estar percebendo, pelo 
modo como as coisas esto andando, que suas "impresses", na verdade, no tinham fundamento.
      Katie balanou a cabea, como se estivesse ponderando o que Cris estava dizendo.
      - , eu ainda vejo algo em potencial, mas acho que voc tem razo. Realmente no parece ser aquilo que eu estava pensando.
      - Posso assegurar-lhe que, pelo menos da minha parte, no tem nada a ver, disse Cris, lanando um olhar para Ted.
      - Era pra eu estar entendendo a conversa de vocs? perguntou ele.
      - No, respondeu Cris rapidamente, indo direto ao segundo assunto. E a propsito, voc passou dos limites com relao  histria do Rick, Katie.
      - Por qu? O que eu disse de mais? O Ted no ficou chateado, ficou Ted?
      Ted meneou a cabea negativamente.
      - Todo mundo passa por etapas diferentes na vida. Alguns relacionamentos duram, outros, no. A vida  assim.
      Para Cris, aquela avaliao era um pouco realista demais, mesmo partindo do Ted. Parecia que ele poderia estar se referindo a um outro relacionamento dela, 
que houvesse durado mais tempo do que as poucas sadas que ela dera com o Rick.
      Talvez ele esteja se referindo  amizade dele com o Rick. Eles dividiam o mesmo apartamento com mais alguns rapazes enquanto estavam na faculdade e, depois 
disso, nunca mais se encontraram.
      -ser que voc poderia abrir caminho pra eu passar, Katie? pediu Ted. Volto logo.
      - No, senhor. S quando voc me ensinar aquela frase em italiano.
      - Mas eu no sei falar aquilo em italiano.
      - Ento, azar o seu. Vai ficar preso aqui.
      Cris, que observava a cena, notou um sorriso maroto despontando no rosto de Ted. Era a mesma cara que ele e seu amigo Douglas faziam um para o outro, quando 
planejavam pegar uma garota e jog-la no mar. Ted esticou a mo por debaixo da mesa e Katie imediatamente cedeu.
      - Pare de apertar meu joelho, disse ela, batendo nele e soltando uma risadinha.
      Como  que ele sabia que o joelho da Katie era to sensvel? Eu no sabia disso!
      Ted se retirou e foi andando, em meio aos balanos do trem.
      - Katie, eu estou falando srio com relao aos comentrios de hoje de manh; sobre eu estar dando bola para o Marcos, continuou Cris.
      No sentia que tinha dito tudo o que queria, uma vez que ela e Katie tiveram de conversar em cdigos na frente de Ted.
      - Fiquei muito chateada com o que voc falou e no queria que continussemos nesse clima durante a viagem.
      - Tudo bem, respondeu a outra. Que mais voc quer me dizer antes que o Ted volte? Porque se voc no tiver mais nada pra jogar na minha cara, assim, aos gritos, 
eu tenho algo que gostaria de falar pra voc.
      - Katie, ningum 't gritando aqui.
      - Tudo bem, tem mais alguma coisa que voc quer falar comigo, sem ser aos gritos?
      - No.
      O garom chegou com as garrafas de gua mineral. A conta estava sobre a bandeja.
      - Pode deixar, disse Cris, tirando o dinheiro do bolso e colocando-o sobre a bandeja.
      O garom lhe deu o troco e ela agradeceu em italiano.
      - Da prxima vez eu pago, disse Katie. Voc quer ouvir minha observao ento?
      - Sim.
      Cris estava falando srio. Sempre valorizava muito as opinies de Katie. Contudo nem sempre gostava delas de imediato.
      - Muito bem; disse Katie, inclinando-se para a frente. Primeiro, acho que tenho de te contar que eu e o Ted levamos uma longa conversa no avio. Estvamos 
falando sobre o acampamento e comentamos que somos o tipo de pessoa que gosta de atividades ao ar livre, etc. E ele estava me dizendo que no tinha certeza se voc 
iria topar ir para o mato, ficar em contato com a natureza, essas coisas. A eu disse que ele no precisava se preocupar, porque voc aguentaria qualquer coisa que 
viesse.
      - Acho que j provei o contrrio, n?
      - No esquente, continuou Katie. Eu e o Ted j conversamos sobre isso ontem, enquanto lavvamos as roupas. Voc estava no banho.
      - Vocs ficaram falando sobre mim de novo?
      Katie passou a mo pelo cabelo, sacudindo-o na frente de Cris, como se quisesse espantar qualquer mal-entendido que a amiga pudesse estar formulando na cabea.
      - Estava dizendo a ele que deveramos ser mais compreensivos com voc e procurar no fazer coisas que fossem exigir muito sacrifcio de sua parte. A ele falou 
que talvez voc ainda estivesse estressada por causa das aulas e do trabalho no orfanato. Ns dois sabemos o quanto esse semestre foi pesado pra voc.
      - Bom, quer saber de uma coisa? No sei se gosto da idia de voc e o Ted ficarem me analisando quando no estou por perto.
      - Calma, Cris. No foi nada demais. Voc devia era ficar feliz porque o Ted se sente  vontade pra conversar comigo sobre voc.
      Cris no estava muito certa se concordava com aquilo. Deu mais alguns goles na gua mineral e, sem muita vontade, continuou ouvindo a amiga.
      - Posso ser sincera? No fundo eu acho que voc 't esperando muito de si mesma, de mim e do Ted nesta viagem. Sei l, voc tem muitas expectativas. Se no 
for isso, ento diria que o problema  que voc 't vivendo demais no passado.
      - E o que voc quer dizer com isso?
      - Acho que voc est tendo umas lembranas meio malucas da nossa viagem pra Inglaterra e, de alguma forma, vivendo tudo de novo. Se pensar bem, voc ver, 
Cris. S que aquela viagem no tem nada a ver com esta!
      - Tem razo. No tem nada a ver mesmo.
      Nem era possvel comparar as duas viagens. Cris sabia disso. Haviam ido para a Inglaterra com um grupo de pessoas, para um treinamento missionrio. Na poca 
ela estava namorando o Douglas, o melhor amigo de Ted, porque fazia tempos que o Ted havia sumido de sua vida. Ou pelo menos era o que ela achava na ocasio. Depois 
Cris acabou percebendo que ela e o Douglas no eram ideais um para o outro e que Trcia era a mulher perfeita para ele. Ento terminaram o namoro na primeira semana 
da viagem. Agora, um ano e meio depois, Douglas e Trcia estavam casados.
      - Realmente no vejo nada em comum entre as duas viagens, disse Cris.
      -  exatamente isso que estou tentando lhe dizer, falou Katie. No tem nada a ver uma coisa com a outra. As circunstncias hoje so totalmente diferentes, 
novas. Voc no deve deixar que seu subconsciente fique comparando as circunstncias que 't vivendo hoje com os desafios que enfrentou naquela poca. Nem deve ficar 
achando que o que aconteceu l ir se repetir agora, s porque voc 't de novo na Europa com seu amigos!
      Cris s foi entender o raciocnio de Katie quando a amiga soltou a ltima frase. Uma verdadeira alfinetada.
      - Quero dizer, no vai acontecer nada entre voc e o Ted. Vocs no vo terminar, nem nada parecido.
      Foi ento que algum abriu a porta do restaurante. Era Ted. Marcos vinha logo atrs.
      - Voltei l pra buscar o guia turstico e o convenci a se juntar a ns pra montarmos um roteiro para os prximos dias.
      Marcos sentou-se ao lado de Cris, e Ted, ao lado de Katie.
      O corao de Cris palpitava com tanta fora que ela podia at ouvir as batidas. As palavras de Katie ecoavam em sua mente, seguindo o ritmo das batidas de 
seu corao. No vai acontecer nada entre voc e o Ted, vocs no vo terminar, nem nada parecido.
      Aos poucos, as pequeninas pegas daquele quebra-cabeas comearam a se encaixar na mente de Cris. Quando tinham se encontrado na estao, Ted parecera contente 
ao v-la e at lhe dera um beijo doce. S que, depois disso, ele mal encostara nela. S mesmo quando se assentaram juntos em volta da fogueira no acampamento.
      Alm do mais o Ted no assumiu diante do pai do Antnio que eu era a namorada dele. Por qu? Ser que ele descobriu que no temos nada a ver um com o outro? 
Afinal, ele adora essa coisa de curtir a natureza, e eu entro em pnico s de ver que 't chovendo!
      Cris se lembrava da estadia na Inglaterra e de como percebera claramente que ela e o Douglas no formavam um casal perfeito. Ser que Ted havia chegado  mesma 
concluso a respeito dela?
      Ser que ele 't apenas esperando a hora certa pra me dizer isso? Se o conheo bem, ele s terminaria comigo em definitivo se tivesse certeza de que Deus o 
estava mandando fazer isso...
      Foi ento que Cris comeou a prestar ateno a uma srie de fatos. Primeiro, Ted j estava quase terminando a faculdade. Faltavam apenas algumas matrias. 
Ela e ele estavam at planejando estudar na Universidade Rancho Corona no semestre seguinte. Dentro de um ano, ele estaria com vinte e quatro anos e j formado. 
J estaria mais do que na hora de pensar em casamento.
      Mas onde  que 't escrito que ele tem de se casar comigo? Eu fui sua namorada da adolescncia. Hoje ele  homem feito, sem dvida nenhuma. J tem at barbicha. 
O Ted pode conseguir a mulher que quiser. Por que ele deixaria de se casar com uma moa que gosta de curtir a natureza, e que  assim, descontrada, como ele? Que 
 divertida, companheira... Algum como...
      De repente o corao de Cris disparou, mexendo com todos os seus sentidos. Seu olhar estava fixo em sua melhor amiga, assentada  sua frente.
      Algum como... Katie.
      

7
      Cris passou o resto da viagem para Roma sentindo-se totalmente desanimada. Assentados  mesa, os amigos conversavam e faziam planos. Ela, porm, mal opinava. 
Quando discutiram sobre a possibilidade de no passar por Florena e seguir direto para Npoles, ela apenas acenou com a cabea, concordando com a sugesto.
      Na verdade, sentia-se profundamente abalada s de pensar que Katie poderia ser uma opo melhor para Ted, assim como Trcia havia sido para Douglas. Quando 
aquele abalo emocional cessou afinal, parecia que todas as peas de sua vida haviam aterrissado no local errado. Naquele momento, Cris fazia um enorme esforo para 
recolher o que no fora estilhaado, empenhando-se em encontrar um local seguro no corao, onde pudesse alojar seus sentimentos.
      Por que ele teria me beijado l na estao de trem de Basel se, no fundo, est pensando em terminar comigo?
      Cris se lembrou ento do que Ted lhe dissera, logo que ela lhe falou que no queria ter chorado. "E eu prometi pra mim que no iria beij-la". Foi isso que 
ele disse. No fundo, ele no queria me beijar. Talvez ele esteja s esperando o fim das frias pra terminar tudo comigo.
      Sentindo-se ainda amuada, Cris se lembrou da guerrinha de gua de Katie e Ted. Lembrou-se de v-los jogando xadrez, as cabeas apoiadas uma na outra; e de 
como ele sabia direitinho onde pegar no joelho dela. Ser mesmo que algum sentimento estava rolando entre os dois bem ali na sua frente, e ela no havia enxergado 
as "pistas"?
      Katie, Marcos e Ted almoaram, mas Cris nem sequer tocou na comida. Depois do almoo, voltaram para a cabina na primeira classe. Cris permaneceu quieta, enquanto 
os outros discutiam sobre as atraes tursticas que visitariam. Entre estas estavam alguns dos museus e igrejas que Cris destacara no guia turstico. Era exatamente 
aquilo que ela havia desejado o tempo todo: montar um roteiro, trabalhar em equipe. E l estavam eles. Mesmo assim, s seu corpo se achava presente. Ela no parava 
de observar Katie e Ted, para ver se dariam alguma outra pista de estarem interessados um no outro.
      Ao desembarcarem em Roma, Marcos os conduziu at a plataforma onde pegariam o prximo trem.
      - Voc tem de vir conosco, Marcos, disse Katie, puxando o rapaz. pelo brao. A viagem no vai ser a mesma sem voc, continuou ela, balanando a cabea e dando 
um sorriso.
      - 'T a, boa idia, por que no? respondeu o rapaz. Vou com vocs at Npoles e, quando vocs forem pra Capri, pego o trem e volto pra Roma.
      Cris achou que Marcos mudaria de idia ao ver que a primeira classe do trem estava toda reservada. Contudo o rapaz no desistiu, e l se foram os quatro na 
segunda classe, que era completamente diferente da primeira. Ficaram em p boa parte do trajeto, at que Marcos avistou dois assentos vazios numa outra cabina.
      Quando foram ver, os "lugares" eram na verdade um espacinho de cerca de trinta centmetros. Depois de Marcos muito insistir, Katie e Cris se espremeram no 
pequeno espao, enquanto ele e Ted permaneceram em p no corredor. Ao lado de Cris uma mulher dormia, segurando no colo uma grande cesta de palha, que cheirava a 
alho. Em dado momento, a sacola tombou no colo de Cris, e o cheiro forte de alho misturado ao odor de transpirao foi ficando cada vez mais intenso. Cris tapou 
o nariz com a mo e ficou respirando com dificuldade. Ningum sugeriu que se abrisse a janela. Todos pareciam satisfeitos. Afinal, Cris no aguentou mais. Levantou-se 
e falou para Katie que precisava tomar um pouco de ar fresco.
      - Vou com voc, disse Katie.
      Os rapazes seguiram as duas at que acharam uma janela aberta no corredor. O trem balanava sem parar. Katie foi a primeira a soltar uma gargalhada.
      - Que que  isso?! O que voc estava pensando, Marcos? Queria nos fazer perder a vontade de viajar de trem de vez?
      -  por essa razo que  melhor pagar um pouco mais para viajar na primeira classe, disse ele.
      - Quantos quilmetros ainda faltam? perguntou Ted. No me importo de viajar em p aqui, isto , se vocs no se importarem tambm, claro.
      -  possvel que o cobrador nos pea pra sair, mas enquanto ele no aparecer, podemos ficar, disse Marcos, olhando as horas em seguida. Devemos chegar a Npoles 
em menos de uma hora. Como este trem no faz escalas, a viagem deve durar exatamente duas horas.
      Cris estava em p perto de sua bagagem, os braos cruzados, apoiados na parte superior da janela aberta. A agradvel brisa da tarde, que batia em seu rosto, 
at lhe ajudava a pensar melhor. Ted estava bem ao lado dela. Se quisesse, poderia envolv-la nos braos, ou talvez chegar pertinho e sussurrar-lhe alguma palavra 
carinhosa ao ouvido.
      Mas, no. Ele se afastou um pouco; o suficiente para que no encostasse nela. Sua ateno estava em Katie que, naquele momento, importunava Marcos, pedindo-lhe 
que a ensinasse frases em italiano que lhe pudessem ser teis durante a viagem. Atento, Ted repetia as frases com ela. Marcos parecia estar se divertindo bastante, 
dando uma de professor particular dos dois. E parecia gostar muito da companhia de Katie tambm.
      Cris ficou se lembrando de que Marcos praticamente ignorara Katie durante a manh. Agora, no entanto, ela contava com dois superadmiradores, e Cris se sentia 
deprimida.
      Todo relacionamento tem de ser uma via de mo dupla. O Ted no ficaria interessado em Katie a no ser que ela demonstrasse por ele. E pelo que vejo, ela 't 
bem interessada, no? Deve ser por isso que 't dando uma de bonitinha-engraadinha pra cima do Marcos agora. Deve estar querendo mostrar ao Ted o quanto ela  interessante.
      Continuou observando a cena. Estava to confusa e machucada que naquela hora era fcil imaginar qualquer coisa.
      Uma coisa foi voc sair com o Rick, depois de ns dois termos namorado, Katie. Mas pelo menos voc esperou at que terminssemos o namoro.
      Cris passou o dedo na sua pulseira de ouro, em que se achava gravada a expresso "Para Sempre". Ted havia lhe dado a pulseira numa noite de ano-novo, fazia 
quase cinco anos. Na ocasio ele lhe dissera que, independentemente do que acontecesse a eles no futuro, eles seriam amigos para sempre.
      Ser que essa histria dele com a Katie vai ser parte do "independentemente do que acontecer"? Ser que finalmente chegou a hora de dizermos um para o outro 
que somos "apenas amigos"? Ser que daqui a um ano e meio o Ted e a Katie estaro casados como o Douglas e a Trcia?
      Cris nunca imaginara que algum dia fosse se sentir to arrasada. De todas as coisas que Katie lhe dissera no restaurante, numa ela tinha razo: aquele semestre 
fora bastante pesado. Em suas cartas aos pais, Cris demonstrava estar contente e animada. Alm disso, quase todas as anotaes que fizera no dirio demonstravam 
um certo otimismo. Mas a razo  que ela s escrevia quando se sentia bem.
      Na maior parte desses dez meses na Sua, sua rotina havia sido assistir s aulas, dar tudo de si no trabalho que realizava com crianas carentes do orfanato 
e, depois, voltar para o quarto e dormir em cima dos livros.
      Essa era uma das razes por que era to importante para Cris caminhar at a Konditorei, todos os sbados pela manh. Era sua maneira de se recompensar por 
ter aguentado firme mais uma semana de trabalho, sem entrar em pnico total.
      Cris se perguntava se parte do que estava sentindo nos ltimos dias era mesmo o efeito de tantos meses vivendo sob estresse, com uma agenda sempre cheia de 
compromissos e obrigaes. Fazia tempos que no separava um perodo para se divertir e descansar. Nem sabia mais o que era isso. No sabia mais se portar como namorada 
de ningum. Talvez Katie tivesse razo ao dizer que suas expectativas em relao a si mesma e aos amigos fossem mesmo muito elevadas. Talvez toda aquela paz que 
sentira envolvendo-a na estao, quando Ted chegara, fosse apenas fruto de sua imaginao. Talvez seu relacionamento com Ted no fosse mesmo para alm da amizade. 
E, se fosse esse o caso, Cris achava que tinha de saber da verdade agora, e no no fim da viagem.
      - Ted, disse ela, pondo a mo levemente sobre os ombros do rapaz.
      Ele se virou e ela prosseguiu:
      - Podemos conversar um pouquinho?
      - Claro, respondeu ele, encostando-se no peitoril da janela, de costas para Katie e Marcos.
      Cris se sentia um pouco sem jeito. No havia planejado direito o que dizer, ou por onde comear.
      - Na verdade estava querendo conversar com voc num outro lugar. Ser que podemos?
      - Claro, respondeu ele.
      Ted pegou a mochila e colocou-a nos ombros.
      - Marcos! Katie! Eu e a Cris vamos dar uma ida ali no outro vago por uns minutos. Se acontecer de o trem parar e ficarmos separados, onde devemos nos encontrar?
      Marcos passou as coordenadas para Ted, explicando que ao desembarcarem deveriam ir direto para o nibus que os levaria at o porto. Chegando l, deveriam comprar 
as passagens para Capri. Aconselhou-os ainda a viajarem de hidroplano, e no de barco, uma vez que a viagem de barco levaria o dobro do tempo. Por ltimo, lembrou-os 
de que Npoles poderia ser um lugar muito perigoso para turistas e que deveriam tomar bastante cuidado com a bagagem.
      - Entendido, disse Ted. Quando descermos do trem, ento ficaremos esperando vocs.
      Marcos fez ainda mais uma recomendao:
      - Quando chegarem a Capri, procurem o hotel Villa Paradiso. O dono de l  amigo do meu pai. No se esqueam de dizer que conhecem o filho de Carlo Savini. 
Certamente ele far um preo legal pra vocs.
      - Valeu, disse Ted.
      Ted e Cris abriram caminho pelo corredor do trem, carregando as enormes mochilas nas costas. Pelo visto, no encontrariam nenhum cantinho desocupado para conversar. 
J estavam quase desistindo e resolvendo voltar quando avistaram, no ltimo vago, um espacinho no corredor.
      Cris colocou o mochilo no cho e se ps a forar a janela at que ela abriu, deixando entrar uma corrente de ar. O trem passava agora por um campo de oliveiras 
j bem velhas. Algumas tinham troncos largos, de uns noventa centmetros de dimetro, bastante deformados e retorcidos. Uma pequena vila, situada na encosta das 
montanhas, comeava a pintar no cenrio,  medida que o trem convergia para a esquerda. Cris ficou observando as belas casas brancas ao longe, com seus telhados 
vermelhos. Imaginava que de perto elas deveriam ser bem mais antigas e humildes do que pareciam. Ou pelo menos foi o que constatara na casa de Antnio.
      Cris voltou o rosto para a janela, deixando que a corrente de ar secasse o suor em seu rosto.
      - Como voc 't? perguntou Ted.
      Cris virou-se para ele e disse:
      - Ted, preciso lhe perguntar uma coisa.
      - Sim?
      - Eu sei que voc vai me dar uma resposta sincera, disse ela, olhando para o semblante calmo e seguro do rapaz.
      Hesitou por alguns instantes antes de prosseguir.
      - Eu sou sempre sincero com voc, disse ele.
      O vento soprou na direo dele, levantando-lhe o cabelo curto e clareado pelo sol.
      - Eu sei disso. E quero muito poder ser sempre sincera com voc tambm.
      - Ento me diga, o que 't acontecendo? perguntou ele, dando-lhe toda a ateno.
      Por um momento, Cris desviou os olhos do olhar penetrante de Ted. No sabia direito o que dizer. Durante anos tinha sido ela quem sempre perguntara se eles 
eram "mais do que amigos" um do outro. Era ela quem sempre queria saber em que p estava o relacionamento dos dois e o que Ted esperava dela. Ao que se via, ele 
no sentia necessidade de saber de nada disso. Enquanto Cris precisava de um planejamento, Ted parecia satisfeito em levar a vida na base da aventura.
      Cris falou ento a primeira coisa que lhe veio  mente.
      - A Katie me disse que minhas expectativas em relao a mim mesma e a vocs dois so muito altas. Voc tambm acha isso?
      - Talvez, respondeu ele.
      - Como assim?
      - Acho que antes de dizer se suas expectativas so altas ou no, preciso saber quais so elas, no acha?
      - 'T, tudo bem, deixa pra l. O que eu realmente quero saber  se voc acha que ns mudamos. Voc acha?
      Ted fez uma pausa e acenou vagarosamente com a cabea.
      - Quero dizer, ser que mudamos muito? Mudamos demais. Ou talvez no tenhamos mudado exatamente, mas passado a agir um com o outro mais como realmente somos 
por dentro? E ser que a pessoa que somos hoje  completamente diferente da que ramos cinco anos atrs? Ou at mesmo da que seremos daqui a cinco anos?
      Ted passou a mo pela barbicha que crescia em seu queixo.
      - Poderia repetir o que acabou de dizer?
      Cris olhou para os dedos. Suas unhas estavam todas quebradas por causa do acampamento. Olhou para o hematoma que se formara em seu dedo indicador. Por dentro, 
Cris se sentia to machucada e ferida como suas mos.
      - Ted, voc quer terminar nosso namoro? perguntou ela em voz fraca, sem olhar para ele.
      Ted nada respondeu. Cris entendeu ento que seu silncio queria dizer apenas uma coisa. Engoliu seco. Se no fosse o que ela estava pensando, ento ele teria 
respondido imediatamente que no queria terminar. Todas as suas esperanas se foram ento. Levantando o rosto vagarosamente, ela olhou para Ted. O rosto dele estava 
voltado para a janela. Cris notou que ele engolia em seco vrias vezes.
      Ted permaneceu em silncio. Tudo o que se ouvia era o barulho do trem nos trilhos.
      - Bem, se voc no se importar, gostaria de conversar sobre isso depois, falou ele afinal.
      Cris no conseguiu conter as lgrimas que brotaram em seus olhos.
      - Tudo bem, foi o que conseguiu dizer.
      Vrias pessoas transitavam pelo corredor, forando Cris e Ted a sarem dali.
      - Talvez fosse melhor voltarmos para o vago onde a Katie e o Marcos esto, sugeriu Cris, pegando a mochila.
      - Tudo bem, respondeu Ted.
      Para Cris, cada passo dado parecia mais difcil e pesado que o anterior. Pensava nas opes que tinha diante de si. Assim que chegassem em Npoles, ela poderia 
pegar o trem da noite para Basel e estar de volta pela manh, em seu quarto, segura; de volta  sua rotina e tudo o mais que lhe era familiar. Poderia mergulhar 
de cabea em seu trabalho no orfanato e, assim, se esquecer dos problemas. As criancinhas precisavam e gostavam dela. Por que ela continuaria viajando com Ted e 
Katie quando nenhum dos dois precisava dela ou desejava sua companhia?
      Cris sentiu um frio no estmago. De que me serviram, todos esses anos, Deus? Ser que todo esse tempo junto de Ted no passou de uma brincadeira? De um teste 
emocional? Pelo visto tomei bomba no teste, n? Parece que ultimamente s tem sido assim.
      O trem comeou a perder velocidade, e cada vez mais passageiros se punham de p nos estreitos corredores, com suas bagagens. Pouco tempo depois a passagem 
j se achava to cheia, que era quase impossvel se mexer. Por dentro, Cris se sentia da mesma forma. Presa, impedida de prosseguir; desconfortvel,  espera do 
inevitvel.
      Logo que o trem parou e as portas se abriram, Cris foi empurrada para a plataforma de desembarque por toda aquela gente. Ficou esperando os amigos, desviando-se 
do fluxo de passageiros que desciam do trem ruidosamente. Ted estava bem ali, ao seu lado. Ficaram os dois olhando atentamente em redor,  procura de Marcos e Katie. 
No trocaram nem sequer uma nica palavra. Enquanto esperavam, uma multido de pessoas transitava por eles, mas no havia sinal dos amigos.
      -ser que eles desceram antes de ns e foram direto para o nibus? perguntou Cris.
      - Podemos dar uma olhada, respondeu Ted, dirigindo-se para a sada.
      Seu tom de voz baixo no revelava nenhuma emoo.
      Ser que ele 't sofrendo com est situao tanto quanto eu? A gente tem de conversar! Isto 't doendo demais em mim!
      Ted descobriu um nibus que ia para o porto e, enquanto esperavam a hora do embarque, ficaram procurando Katie em todas as partes. Por fim o motorista lhes 
disse que, se quisessem ir naquele nibus, teriam de embarcar naquele minuto, ou ento, esperar o prximo.
      -ser que a Katie pegou o nibus anterior a este? O que vamos fazer agora? perguntou Cris.
      - Provavelmente ela achou que nos j tivssemos ido para o porto, disse Ted. Vamos neste nibus mesmo.
      Durante o trajeto, Cris e Ted no conversaram nem olharam um para o outro. O veculo estava lotado e, portanto, tiveram de ir em p. Cris olhava pela janela, 
na esperana de que Katie aparecesse correndo atrs do nibus, acenando e gritando para eles.
      Ao chegarem ao porto, no entanto, no avistaram nem Katie nem Marcos.
      -ser que devemos voltar pra estao? perguntou Cris.
      - Acho que no. Pode ser que, quando voltarmos, ela esteja vindo pra c e a  que vamos nos desencontrar mesmo, respondeu Ted. Acho melhor ficarmos por aqui 
e esperar. Ela 't com o Marcos. No vai acontecer nada.  possvel at que j tenham ido pra Capri e j esteja a caminho do hotel agora. Vou ver se compro alguma 
coisa pra comer. 'T com fome?
      Cris no conseguia entender como Ted podia sentir fome em meio a uma situao to tensa. Ela sentia o estmago doer, mas no era de fome, e sim de nervosismo.
      Foram at uma pizzaria e ficaram esperando na fila, cercados de uma barulheira ensurdecedora. Nas ruas o som das buzinas propagava-se sem parar, aliado ao 
estridente chiado dos freios dos nibus e ao rudo provocado pela multido de pessoas que circulava por l, muitas delas gesticulando bastante ao conversarem umas 
com as outras.
      Cris continuava olhando em redor, na esperana de avistar a amiga. Quando chegou a vez de pedirem sentiu o estmago revirar. Estava apreensiva demais para 
comer. Contudo, estava aprendendo durante a viagem que o melhor era comer enquanto houvesse comida por perto.
      As fatias de pizza, abarrotadas de mussarela derretida, vieram enroladas em papel, o que fez com que o queijo grudasse neste. Os dois caminharam at uma esquina 
e puseram as mochilas no cho, usando-as como assento. Embora estivessem um pouco afastados do principal fluxo de pedestres, de l conseguiam avistar o ponto de 
nibus. Ficaram comendo calmamente e olhando com ateno em redor  procura de Katie.
      - Voc ouviu quando o Marcos comentou sobre este queijo no trem? perguntou Ted.
      Cris balanou a cabea. No se lembrava de ter ouvido nada sobre queijos. Durante toda a viagem s conseguira pensar nos prprios sentimentos. Estivera, e 
ainda estava, completamente absorta em si mesma.
      - Ele disse que a comida do sul da Itlia  a melhor do pas e que o queijo aqui  feito de leite de bfala.
      - Srio? perguntou Cris.
      Agora  que tinha perdido a fome de vez. Ted acenou com a cabea, dando uma enorme mordida no segundo pedao de pizza.
      -  gostoso, no acha? disse ele sem muito entusiasmo.
      Parecia que estava tentando puxar um papo diferente com Cris, a fim de adiar a conversa que realmente precisavam ter.
      - O que vamos fazer se no acharmos a Katie? perguntou Cris, dando sua contribuio para mudar o assunto e evitando, assim, a tal conversa pendente.
      - Vou dar uma olhada no guich que vende as passagens de hidroplano. De repente o atendente pode se lembrar de ter visto uma moa ruiva na fila, disse Ted, 
levantando-se. Voc se importa de ficar aqui?
      - No, de maneira nenhuma.
      Mas Cris se importava sim. No queria que Ted a deixasse, nem naquela hora, nem nunca. Vendo-o se afastar, Cris sentiu um aperto no corao. Era como se ele 
estivesse indo embora para sempre. Engraado, porque, quando Douglas havia sado de sua vida, ao terminarem o namoro na Inglaterra, Cris experimentara uma estranha 
sensao de alegria. Tinha certeza que havia tomado a deciso certa. Com Ted, porm, era diferente.
      Mas tambm eu e o Ted ainda no discutimos se vamos terminar ou no. O namoro ainda no acabou oficialmente.
      Cris continuava observando o fuzu de pessoas que transitavam por ali, quando notou um homem se aproximar, resmungando qualquer coisa em italiano. Trajava 
roupas bem velhas e rasgadas. Cris se levantou, disposta a dar no p, mesmo que para isso tivesse de carregar a mochila de Ted tambm, que ficara com ela. Simplesmente 
no estava muito a fim de lidar com pedintes.
      - Ei, Cris! exclamou Ted, quando ela j ia colocando a mochila dele nas costas. Vamos embora!
      Ted correu at ela e pegou a mochila.
      - O ltimo hidroplano com destino a Capri j partiu e ns o perdemos. Mas tem um barco saindo agora. Temos de correr para peg-lo! Venha!
      

8
      - Mas, e a Katie? gritou Cris, enquanto corriam desembestados em direo ao barco.
      Ted corria na frente. Vendo que o grande barco estava prestes a partir, deu um assovio estridente, para que no recolhessem a prancha de embarque. Acenou, 
balanando os dois bilhetes no ar, e entrou correndo no barco, deixando um dos empregados do porto irritado. Cris entrou logo atrs.
      - Ufa! Esta foi por pouco! exclamou ele, dirigindo-se  ala dos passageiros.
      Cris o seguia.
      - Voc acha que a Katie pode estar neste barco? Perguntou ela, recobrando o flego.
      -  possvel. Mas meu palpite  que ns no a vimos descer no meio da multido. Provavelmente ela pegou o hidroplano. Talvez o Marcos at tenha ido com ela 
para o hotel.
      Cris se lembrou de como Katie, Ted e Antnio haviam ficado "mais ou menos" perdidos durante a escalada, poucos dias antes. Sabendo disso, no tinha muitas 
esperanas de que Katie j estaria no hotel,  espera deles.
      - Vou dar um giro pelo convs pra ver se a encontro, disse ela.
      - timo. Vou ficar aqui, vigiando a bagagem. Parece que tem um lugar vago perto daquela janela.
      Cris no esperava que Ted se oferecesse para acompanh-la, principalmente porque, se ele fosse junto, teriam de carregar as malas. Mesmo sabendo disso, sentiu-se 
desolada ao v-lo se assentar na ltima fileira de bancos, colocando as mochilas no espacinho que sobrara ao lado dele.
      Cris sentiu o corpo doer ao sair pelo convs,  procura da amiga. Sabia que, quanto mais ela e Ted adiassem a conversa sobre o trmino do namoro, mais ela 
sofreria.
      Katie no estava em lugar nenhum.
      Cris resolveu se assentar num banco ali fora, onde no estava ventando muito, em vez de voltar e contar a Ted que Katie no se encontrava a bordo. Envolveu-se 
toda com os prprios braos, procurando se aquecer e se consolar ao mesmo tempo. Dali, Cris avistava as luzes de Npoles, que comeavam a se acender ao longo da 
baa de onde haviam partido. Bem ao longe; uma cadeia de montanhas altas e ngremes, salpicada de casas de veraneio e antigos monastrios, circundava a cidade. Ao 
Sul erguia-se o vulco Vesvio, com seu aspecto impetuoso e imponente. Cris se lembrava de ter ouvido Marcos falar sobre ele, embora no houvesse prestado muita 
ateno  conversa. Marcos sugerira inclusive que visitassem as runas de Pompia, antiga cidade do Imprio Romano que havia sido destruda pelas lavas do vulco, 
atualmente inativo.
      Olhando a distncia, o vulco no lhe inspirava o menor perigo. E a baa de Npoles, com seu formato de meia-lua, parecia uma verdadeira terra encantada, repleta 
de luzes que cintilavam naquele cu de primavera, que comeava a escurecer. De onde Cris estava, no era possvel avistar o trnsito pesado, nem m mendigos bbados, 
tampouco o corre-corre das ruas da cidade.
      Foi ento que Cris se lembrou de quando completara dezesseis anos. A lembrana era forte e parecia bastante viva em sua memria. Rick havia lhe telefonado 
de algum lugar ali na Itlia, quem sabe dali, de Npoles, ou at mesmo de Capri. Cris havia ido a um luau com sua famlia, no Hava. Depois de abrir os presentes, 
ela e Ted se assentaram na sacada, ou lanai, do apartamento do Tio Bob. Ficaram a ss por alguns momentos, observando a lua, que brilhava no Oceano Pacfico. Cris 
se lembrava de que Ted havia se assentado junto dela e segurado sua mo, correndo os dedos pela pulseira gravada "Para Sempre". Na ocasio, ele lhe chamara a ateno 
para a ilha de Molokai.
      Diferentemente das inmeras luzes que Cris observava em Npoles naquele momento, em Molokai apenas duas luzes piscavam juntas como se fossem estrelas, uma 
ao lado da outra, na beira do mar. Naquela noite, Ted havia feito mais uma de suas famosas analogias. Ele dissera que, olhando a distncia, no dava para decidirmos 
com qual das duas luzes gostaramos de ficar. Era preciso que nos aproximssemos cada vez mais e mais, para ento conseguirmos enxergar melhor cada uma delas. S 
ento teramos como decidir se o que tnhamos diante de ns era o que realmente desejvamos.
      De repente, uma profunda e forte sensao de culpa tomou conta de Cris. Durante esse tempo todo, o Ted tem se aproximado cada vez mais de mim e, agora que 
consegue enxergar quem eu realmente sou, descobriu que no sou o que ele quer.
      Cris no aguentou ficar nem mais um minuto ali, olhando para as luzes de Npoles que cintilavam no cu, como se debochassem dela e dos sonhos que ela nutrira 
e nos quais acreditara. Sonhos de que ela e Ted ficariam juntos para sempre. Levantou-se ento e se ps a andar mais uma vez pelo convs, com passos largos e firmes, 
at que chegou a um lugar onde no havia ningum prximo ao parapeito.
      Parou ali. Uma voz martelava em sua cabea, como se a desafiasse, em tom de insulto, a arrancar a pulseira do brao e jog-la ao mar. Afinal, era melhor que 
ela prpria se livrasse da jia antes, em vez de esperar que o prprio Ted a tirasse de seu pulso mais tarde. Abatida, Cris abriu o fecho da pulseira e segurou-a 
em suas mos, fitando as guas escuras do mar.
      Ela sabia que a expresso "Para Sempre" gravada na chapinha representava muito mais do que a simples amizade entre ela e Ted, que seria para sempre. Era tambm 
um smbolo do compromisso que ela firmara com o Senhor. Quando Cris se convertera, cinco anos atrs, prometera a Deus que aquele compromisso era para a vida toda, 
e no apenas para aquele perodo de frias. Era uma promessa eterna, de que ela sempre colocaria sua confiana em Deus e o amaria mais do que a qualquer coisa ou 
pessoa.
      Cris sentiu as lgrimas descerem, molhando-lhe as mos fechadas. O vento batia forte em seu cabelo, desmanchando-lhe a trana frouxa e fazendo-a tremer de 
frio.
      Pelo visto, eu te decepcionei, no , Senhor? No estou confiando em ti de todo o meu corao e no estou te amando mais do que a qualquer coisa ou pessoa. 
Estou completamente absorta em mim mesma, em meus pensamentos, minhas necessidades e meus desejos. Perdoa-me, Senhor. Transforma meu corao. Entrego tudo a ti, 
meu Deus.
      Foi ento que Cris sentiu uma agradvel brisa passar por ela. Era como se de repente o barco tivesse entrado num corredor de ar quente. Entretanto a brisa 
no parecia vir do Mediterrneo. Antes, a sensao era de que ela vinha de trs. Cris virou-se para olhar, mas no viu ningum. No havia nenhum superaquecedor virado 
para ela. Mesmo assim, continuava a sentir a agradvel corrente de ar a lhe envolver, acalmando suas emoes.
      J ia se virando novamente para o mar, a fim de terminar sua orao, quando avistou Ted. Ele estava assentado na ala dos passageiros, perto de uma janela, 
a poucos metros dali. Cris no se dera conta de que, ao andar pelo convs, acabara ficando bem  vista dele.
      No entanto Ted no estava olhando para ela. Examinando-o mais atentamente, Cris pde perceber que ele estava de olhos bem fechados. Seu rosto achava-se voltado 
para o cu e seus lbios moviam-se rapidamente.
      Ele tambm 't orando.
      Cris ficou a observ-lo por mais alguns momentos, ainda envolvida naquela suave corrente de ar quente. Ento abriu a mo e examinou a pulseira de ouro que 
segurava.
      Estou falando srio, Senhor. A promessa que te fiz  pra sempre. Quero fazer a tua vontade. Se o Senhor quiser que eu e o Ted fiquemos juntos, ficarei feliz. 
Mas, se a tua vontade for nos conduzir por rumos diferentes, ainda assim serei grata a ti. De verdade. Confio no Senhor. T s o meu primeiro amor e eu te amo mais 
do que a qualquer outra coisa. Meu futuro est em tuas mos, no nas minhas.
      De repente, Cris percebeu que o mal-estar que sentira pouco antes comeara a passar e que ela j podia respirar melhor. Notou ainda que seu queixo doa, de 
tanto bater os dentes de frio.
      Aqui estamos, Senhor. Somos apenas duas pessoas minsculas neste mundo, imersas em nossos confusos e complicados sentimentos. Mesmo assim, o Senhor olha pra 
ns. T te importas e ests conosco. Eu sei que t ests comigo. Posso sentir tua presena bem pertinho de mim agora.  quase como se eu pudesse sentir-lhe soprar 
tua brisa sobre mim. Continue soprando sobre mim, Senhor.
      De repente, o barco deu um sacolejo, como se houvesse passado por uma lombada no meio do mar. Com o movimento brusco, Cris se desequilibrou, e a pulseirinha 
de ouro voou de suas mos.
      - No! exclamou Cris a plenos pulmes, caindo de joelhos logo em seguida, o rosto voltado para o cho.
      Justo na hora em que a pulseira j ia caindo, um vento soprou, balanando o cabelo de Cris fortemente e jogando-o em seus olhos, impedindo-a de enxergar por 
alguns instantes. Tirando o cabelo dos olhos, Cris se ps a procurar a pulseira pelo cho, desesperadamente.
      Contudo j era tarde demais. A pulseira no estava ali.
      - Cris! chamou Ted.
      Ela se virou e viu que Ted vinha em sua direo, carregando as bagagens. O rapaz, ento, largou tudo no cho e ajoelhou-se ao lado dela.
      - 'T tudo bem com voc?
      Cris no conseguia falar nada. No conseguia chorar. No podia sequer pronunciar algum som. Ted ficou olhando para ela, esperando que ela dissesse alguma coisa.
      - Eu a perdi, conseguiu dizer afinal, ainda com certa dificuldade.
      - Perdeu o qu?
      Cris se levantou do cho, onde se ajoelhara, e se dirigiu at um banco na parte traseira da ala dos passageiros. Toda aquela cena havia atrado muitos olhares, 
mas ela no se importava de ser observada. Ted tambm no parecia ligar muito para aquilo. Ele arrastou a bagagem para perto do banco, assentou-se ao lado de Cris 
e ficou esperando pacientemente que ela lhe desse alguma explicao.
      -sei que esta  uma maneira terrvel de terminarmos, principiou ela com voz trmula. Mas, apesar de tudo, eu sei que deveria ter sido mais cuidadosa. Nunca 
deveria t-la tirado. Sinto muito, Ted.
      -sente muito por qu? No estou entendendo.
      Cris se virou e fitou os olhos de Ted. Estavam vermelhos, como se ele houvesse chorado tambm.
      - Ted, principiou ela, procurando respirar fundo, mas com certa dificuldade. Dou-lhe toda razo por querer terminar comigo, mas, apesar disso, eu deveria ter 
sido mais cuidadosa com a...
      - Espere! exclamou ele, segurando o cotovelo de Cris. Que histria  essa de que eu quero terminar com voc? Eu no quero terminar nosso namoro.
      - No?
      - No,  claro que no! Quando conversamos no trem, achei que voc  que estivesse querendo terminar comigo. Foi por isso que no pude lhe dar uma resposta 
naquela hora. Voc me pegou de surpresa.
      - No, Ted! No! Eu no quero que a gente termine. Achei que...
      - Verdade que voc no quer?
      - No! Achei que...
      Mas, antes mesmo que Cris pudesse concluir sua explicao, Ted passou o brao pelos ombros dela, puxou-a para perto de si e silenciou-a com um beijo. Afinal 
afastou seu rosto dela, num movimento suave. Cris mal conseguia respirar.
      Ted a olhou por uns instantes. Depois soltou uma gargalhada e envolveu-a nos braos, dando-lhe um forte abrao. Ao solt-la, correu as mos pelo cabelo dela, 
parando no meio de suas costas.
      - Ted, voc no 't entendendo o que estou tentando dizer. Eu perdi a nossa pulseira, a da nossa amizade.
      - No, voc no a perdeu.
      - Perdi, sim. Foi ridculo, Ted. Eu estava aqui, pensando que voc queria terminar comigo, e ento minhas emoes comearam a aflorar e a eu tirei a pulseira 
do pulso, disposta a jog-la no mar. Mas ento me lembrei de que a expresso "Para Sempre" representava meu relacionamento com o Senhor, mais do que qualquer outra 
coisa, e que meu relacionamento com ele nunca acabar, acontea o que acontecer. Ento comecei a orar e depois vi voc orando, e ento o barco deu aquele sacolejo 
e...
       Ted deu uma leve sacudida nas pontas do emaranhado cabelo de Cris.
      - Ai! disse ela baixinho, interrompendo a explicao.
      Depois concluiu seu discurso dizendo:
      - E, no final, eu nem ia mais jogar a pulseira no mar. De verdade. Mas ela acabou escapulindo e escorregando pelo cho do convs. Sinto muitssimo, Ted.
      Ted no disse nada. Apenas sorriu para ela.
      - Que foi? Deve estar me achando doida, n?
      - No.
      - Ento por que est rindo?
      - D-me sua mo aqui, disse ele simplesmente.
      Cris estendeu a mo direita. Ted, ento, tirou o brao de sobre os seus ombros e, com um largo sorriso no rosto, abriu as mos, exibindo a pulseira de ouro. 
Em seguida, colocou-a de volta no pulso de Cris.
      - Onde ela estava?
      - Presa no seu cabelo.
      - 'T brincando! Impossvel!
      - Pode acreditar, respondeu ele.
      Ted segurou as duas mos de Cris e chegou o rosto bem pertinho do dela. Olhando-a nos olhos, disse:
      - E pode acreditar tambm no que vou lhe dizer, Cris. Eu realmente quero que nosso relacionamento siga em frente. Quero que nos aproximemos cada vez mais um 
do outro e, tambm, do Senhor.
      Cris no disse nada, apenas acenou com a cabea.
      - Voc acredita em mim? De verdade? perguntou Ted.
      - Acredito sim, Ted, respondeu ela. E voc acredita que eu tambm quero isso pra ns?
      - Agora eu acredito, disse ele, respirando fundo e soltando as mos dela.
      Apoiando o brao no encosto do banco, Ted puxou Cris para perto de si e continuou:
      - Mas no era isso que eu estava pensando algumas horas atrs.
      - Eu sei, respondeu ela. Eu tambm estava enganada. Mas o dia inteiro foi assim. Minha cabea foi literalmente assolada por dvidas. Ficava pensando no acampamento 
e em como eu sou diferente da Katie. Ela se d bem nessas coisas, e eu no. Da fiquei pensando que poderia ser como foi com o Douglas e a Trcia ento, fiquei me 
perguntando o que levaria voc a ficar preso a uma menina enjoada como eu; quando existem outras garotas muito mais interessantes por a. Como a Katie, por exemplo.
      - A Katie? perguntou Ted surpreso, levantando as sobrancelhas.
      Pela expresso em seu rosto, parecia que nunca havia m passado pela cabea interessar-se por Katie.
      - A Katie ou alguma outra menina. Achei que voc tivesse percebido que eu no era uma boa pra voc, quer dizer,  medida que se aproximava de mim e me conhecia 
melhor. Igual s luzes de Molokai. Voc disse uma vez que, antes de decidirmos por uma das duas, era preciso esperar e nos aproximarmos o mximo delas, porque a 
seria possvel enxerg-las como de fato so. Ento poderamos decidir.
      Ted olhou para ela. Parecia ainda mais confuso depois daquele comentrio.
      - Molokai?
      - Deixa pra l. Fiquei pensando nisso porque l na casa do Antnio, quando o pai dele lhe fez aquela pergunta no jantar, voc no lhe deu uma resposta muito 
clara.
      - E foi por isso que voc ficou cheia de dvidas?
      - . Por isso e tambm por voc ter dito, na estao em Basel, que no tinha pensado em me beijar.
      Ted deu um sorriso.
      - Ah, Cris,  claro que eu tinha pensado em beij-la. Fiquei planejando isso um tempo! Achei que voc tivesse percebido que eu estava sendo irnico.
      Cris olhou para as mos. Sentia-se envergonhada pela forma como havia reagido a tudo aquilo.
      - E quanto ao episdio na casa do Antnio, prosseguiu Ted, achei que todo aquele papo pudesse estar deixando a Katie sem graa.
      - A Katie? Por qu? perguntou Cris, voltando o olhar para Ted.
      - Pensa s, Cris. Voc sabe que ela teve uma queda pelo Antnio no ano passado. E l estvamos ns, na frente dos pais dele, ouvindo-os dizer que o Antnio 
deveria pedir voc em casamento. Achei que a Katie poderia ficar chateada, com toda a ateno que estavam lhe dando. Ento tentei mudar de assunto.
      Cris recostou-se no banco e meneou a cabea.
      - Tem toda razo, Ted. Eu nem tinha pensado nisso. Meu Deus, quanta coisa eu deixo de perceber ao meu redor, quando fico prestando ateno apenas em mim mesma 
e nos meus sentimentos!
      - Tambm no  pra tanto, Cris, disse Ted. Ningum tem a obrigao de adivinhar o que os outros esto pensando ou sentindo toda hora. S Deus  capaz de saber 
essas coisas.  por isso que ele renova suas misericrdias sobre ns a cada manh.
      Cris deu um sorriso.
      - Pelo que vejo, todos ns precisamos de uma porozinha de misericrdia a cada dia.
      O barco foi progressivamente perdendo velocidade ao chegarem ao porto de Anacapri. Durante o trajeto at a ilha, o Sol havia se posto e, agora, o mundo adiante 
deles parecia uma terra encantada, repleta de luzes. Era a mesma imagem que Cris tivera de Npoles, ao observ-la  distncia.
      - Ento 't tudo bem entre ns agora? perguntou Ted, passando suavemente a mo pelos cabelos dela.
      Cris acenou com a cabea e sorriu para ele ternamente.
      Os dois se levantaram e puseram as mochilas nos ombros. Cris sentia-se radiante, feliz. Ento uma luz fraca, vinda do porto, iluminou sua pulseira. Cris deu 
uma piscadela para ela e sorriu.
      Esta pulseirinha  incrvel mesmo! Tem mais vidas que um gato!
      - Voc se lembra do nome do hotel que o Marcos sugeriu? perguntou Ted, ao sarem juntos do barco.
      - Acho que era Villa qualquer coisa, disse Cris. A gente pode perguntar l dentro. Deve haver algum posto de informao por aqui.
      Os dois desceram pela prancha que ligava a embarcao ao cais, juntamente com os outros passageiros. Vrios motoristas de txi aguardavam em fila, fora dos 
carros. Esticando o brao at o volante, buzinavam para os passageiros que chegavam, gritando-os em vrios idiomas diferentes.
      - A gente deveria pegar um txi, para ir mais rpido, sugeriu Ted.
      Dirigiram-se, ento, ao primeiro txi da fila. Contudo depois perceberam que os veculos no estavam parados em ordem de sada. Vrios outros motoristas saam 
ao mesmo tempo, levando seus passageiros.
      - Gostaramos de ir para o Hotel Villa, disse Ted, quando j estavam dentro do carro com a bagagem.
      - Villa Nova, Villa Rialto ou Villa Paradiso? perguntou o motorista, com um forte sotaque.
      - Acho que  o Paradiso, disse Cris.
      - Villa Paradiso? perguntou ele.
      - Sim, respondeu Cris. Si.
      O motorista arrancou o carro, fazendo soar um estrondo, e seguiu na rua estreita. Da janela, gritava com os outros motoristas, fazendo gestos ofensivos com 
a mo esquerda, enquanto ligava o rdio com a outra mo. Parecia virar o volante apenas com auxlio do joelho.
      Cris pegou na mo de Ted e apertou-a, fechando fortemente os olhos. Ted aproximou-se dela e sussurrou-lhe ao ouvido:
      - Ora, ora, Cris. Ser que voc ainda no se acostumou com isto, depois de andar tanto tempo com o Antnio? brincou ele.
      - Bom, se voc quer permanecer vivo, no me interrompa, cochichou ela. Estou orando feito doida por ns dois.
      Quando o carro parou afinal, cantando os pneus, Cris abriu os olhos. Estavam em frente a um pequeno caf.
      - Isto 't com cara de restaurante. Cad o hotel?
      Ted pagou o motorista que, por sua vez, ps-se a falar com eles em italiano, pronunciando rapidamente as palavras e fazendo vrios gestos. Parecia dizer que 
a entrada do hotel ficava do outro lado.
      - Grazie, disse Cris ao sair do carro.
      Em seguida, Ted e Cris entraram num largo corredor, que passava ao lado da pequena cafeteria. Era bem iluminado e nele havia uma placa de cermica com uma 
seta, onde se lia Villa Paradiso.
      - Legal! exclamou Ted ao chegarem ao final do corredor.
      Estavam diante de um belo jardim. Ao centro, havia uma enorme piscina. Vrios hspedes, vestidos em trajes requintados, prprios para a noite, achavam-se assentados 
s pequenas mesas, colocadas no coreto branco, de onde ecoava o som de violinos.
      - Acho que esta  a entrada dos fundos, disse Cris. O motorista deve ter olhado pra ns e visto que no fazemos bem o tipo de clientela deste hotel. Ser que 
devemos ir embora?
      - No, respondeu Ted. Este  o nico lugar em que a Katie poder nos encontrar. Vamos dar a volta e entrar pela portaria principal.  possvel que a Katie 
j at esteja l. Depois podemos sair e procurar um lugar mais barato pra ficar.
      - Tomara que ela esteja l, disse Cris ao passarem pelo corredor, ao lado do caf.
      Foi ento que sentiu no ar um delicioso aroma vindo da cafeteria e percebeu o quanto estava com fome.
      - Que tal voltarmos aqui pra comer alguma coisa depois de acharmos a Katie?
      - Boa idia. Este cheiro 't uma delcia, no?
      - Est sim, disse Cris.
      Ted e Cris subiram o morro, passando por vrias casas pequenas, emendadas umas nas outras, ao longo da estreita rua. Das janelas, bem acima de suas cabeas, 
emanava uma desvairada sinfonia de sons tpicos da noite. Era choro de criana, televiso ligada e mes que gritavam por seus filhos, mandando-os entrar. Uma mistura 
de cheiros, no muito agradvel, tambm se fazia sentir: era cheiro de alho, de azeite no fogo e de vinho forte, tudo isso misturado a um suave aroma de amndoas 
doces.
      Bem l no fundo do corao de Cris, era como se uma convico muito forte e clara comeasse a se instalar. Ela se sentia pronta, preparada, para deixar de 
lado as dvidas, que por tantos anos carregara, para caminhar serenamente ao lado de Ted, dando um passo de cada vez, rumo  prxima etapa que viveriam neste relacionamento, 
fosse ela qual fosse. Cris queria ser uma boa companheira de viagem durante a jornada da vida, mesmo que sua caminhada com Ted no durasse muito tempo. Queria fazer 
com que cada dia, cada momento, valesse a pena.
      Ted pegou sua mo e apertou-a.
      - Era exatamente assim que eu havia imaginado que nossa viagem seria, disse ele.
      - Eu tambm. Ns dois, andando de mos dadas por estas ruas de pedra, carregando nossas bagagens e curtindo a companhia um do outro.
      -  como se fosse a coisa certa na hora certa, n? disse ele.  perfeito. Eu e voc aqui, sem nos preocuparmos em adivinhar o que vir amanh. Apenas desfrutando 
das misericrdia que o Senhor derrama sobre ns hoje.
      Foi ento que Cris sentiu novamente aquela doce paz a lhe envolver. Tanto ela quanto Ted estavam sob aquele manto invisvel. E ela sabia que fora ela quem 
sara de debaixo daquela proteo.
      - Por favor, no vamos mais falar sobre aquele papo de terminar o namoro, 't bem? disse Ted. Acho que meu corao no aguentaria.
      - Nem o meu, disse Cris, apertando a mo dele.
      Ted parou por um momento e, olhando fundo nos olhos a Cris, sob o brilho dourado da noite, disse:
      - Promete, ento?
      - Prometo, respondeu Cris com um sorriso.
      Ficaram parados na rua estreita e acidentada, de mos dadas, olhando um para o outro atentamente, como se procurassem gravar na memria os mnimos detalhes 
daquele momento. Ento uma doce brisa soprou sobre eles, envolvendo-os num crculo de quietude e paz. De repente, todas as dvidas que Cris trazia no corao se 
dissiparam. Naquele momento, ela sentiu que havia mudado. No era mais uma adolescente, cujos sentimentos pareciam estar constantemente numa montanha-russa, cheia 
de altos e baixos. Era uma mulher. E, como tal, sabia que, independentemente do que acontecesse no futuro, amaria para sempre o homem que tinha diante de si naquele 
instante.
      

9
      O momento particular de Cris e Ted no durou muito. Pouco depois, duas mulheres surgiram na esquina, passando apressadamente por eles.
      - Venha. Vamos em frente, disse Ted, segurando com firmeza a mo de Cris.
      Para Cris, as palavras de Ted diziam respeito tanto ao relacionamento dos dois quanto ao momento que haviam acabado de desfrutar, envolvidos por aquela cobertura 
invisvel de paz. Sentia-se pronta para seguir em frente. Pelo que via, Ted no demonstrava ter mudado de opinio quanto a ela, ou quanto ao namoro. Tudo parecia 
estar do mesmo jeito para ele; exatamente como antes de Cris lhe perguntar se ele queria terminar tudo - o que acabara criando uma barreira entre eles. Tudo o que 
Cris sabia  que ela havia mudado. Ela amava Ted. Talvez ele tambm a amasse. Talvez no. Talvez um dia ele recebesse em seu corao a mesma revelao que Cris recebera. 
Ou talvez isso nunca acontecesse.
      Por alguma razo inexplicvel, porm, nada daquilo incomodava Cris. Para ela, bastava saber que amava Ted e que confiava em Deus para o que desse e viesse 
no relacionamento dos dois. E isso era ainda mais importante.
      Caminhavam ainda de mos dadas pela ladeira quando Cris disse:
      - Acho que estou comeando a entender algumas coisas a meu respeito.
      - Ah, ?
      - Acho que preciso confiar um pouco mais em Deus.
      - No  s voc. Todos ns precisamos.
      Dobraram a esquina e deram de cara com o hotel. Era um prdio grande, pintado num tom de rosa-salmo. A entrada no era l to ampla ou suntuosa, mas os complexos 
detalhes da fachada davam ao hotel um ar de grandiosidade, alm de faz-lo parecer antigo e bastante caro.
      Cris correu os olhos pela entrada do hotel,  procura de Katie. Nenhum sinal da amiga. Ento entraram no lobby, pisando suavemente no belssimo carpete em 
tons de dourado e vinho escuro. Cris estava torcendo para que encontrassem Katie assentada em um dos robustos sofs ou poltronas estofados que havia ali, mas, infelizmente, 
ela no estava l.
      - Vamos perguntar na recepo, sugeriu Cris. Quem sabe ela no deixou um recado pra ns?
      - Ou quem sabe ela chegou aqui antes de ns e foi enxotada pelos funcionrios, disse Ted baixinho. O Marcos no nos avisou que se tratava de um hotel cinco 
estrelas.
      O recepcionista, devidamente uniformizado, cumprimentou Ted e Cris com um sorriso. No entanto, ao reparar na bagagem e nos trajes informais dos dois, sua expresso 
logo mudou.
      - Sinto muito, no temos quartos, disse ele em ingls.
      Como  que ele sabe que falamos ingls? Ser que 't to na cara que somos americanos?
      - No faz mal, respondeu Ted. Na verdade, no estamos planejando nos hospedar aqui. S queramos saber se algum deixou um recado pra ns.
      O recepcionista olhou para eles com impacincia.
      -se vocs no esto hospedados aqui, ento no h razo para anotarmos recados para vocs, respondeu ele.
      Cris entrou na conversa e tentou explicar a situao, dando seu melhor sorriso e procurando fazer com que o atendente reparasse em seus olhos. Afinal, ganhara 
a simpatia de outros homens italianos por meio deles e no faria mal nenhum tentar causar o mesmo efeito.
      -  que tnhamos marcado de encontrar uma amiga aqui. Ela se chama Katie Weldon. Ser que ela no deixou nenhum recado para Cris Miller?
      - No, respondeu ele, sem muito interesse.
      Aparentemente a cor dos olhos de Cris no chamara a ateno daquele italiano. Ele nem sequer se deu ao trabalho de verificar se havia algum recado para ela.
      - Grazie, replicou Cris, recorrendo ao seu escasso vocabulrio de italiano. Molte grazie.
      Cris havia causado uma boa impresso junto ao pai de Antnio, quando soltara algumas palavrinhas em italiano. Agora, no entanto, a ttica parecia no surtir 
nenhum efeito. Cris deu mais um sorriso, daqueles de fazer os olhos brilharem, e virou-se para sair. Concluiu que ela e Ted podiam sair do hotel e decidir o que 
fazer em seguida.
      - S mais uma pergunta, disse Ted ao recepcionista.
      Ouvindo a voz de Ted, Cris se virou e notou que havia um outro senhor na recepo, ao lado do atendente. Trajava um terno preto e tinha um ar imponente. Entretanto, 
Cris tinha a sensao de que nada do que Ted falasse alteraria a situao. A julgar pela expresso no rosto dos dois homens, a impresso que tinha era de que ela 
e Ted estavam prestes a ser enxotados do hotel.
      - Por acaso vocs conhecem um rapaz chamado Marcos?  que s estamos aqui porque ele nos recomendou este hotel. Disse que era pra falarmos que o conhecamos. 
O pai dele se chama Carlo Savini, disse Ted com firmeza.
      Os dois senhores pareciam totalmente espantados com o que ele acabara de dizer.
      Cris estava com um pressentimento de que era melhor darem o fora dali o quanto antes.
      Foi ento que o senhor de terno exclamou:
      - Carlo? Vocs conhecem o Marcos e o Carlo Savini? Por que no falaram antes?
      Tendo dito aquilo, saiu detrs do balco e deu um beijo em cada face de Cris. Depois, puxou Ted e deu-lhe um beijo em cada face tambm. Se Cris no estivesse 
to impressionada com aquilo tudo, provavelmente teria disparado a rir da cara que Ted fez.
      - Sou Emlio Mondovo, gerente do Villa Paradiso. Como foi que conheceram o Marcos?
      Ted explicou que eram amigos de Antnio. O Sr. Emlio, ento, deu-lhe um tapinha no ombro, calorosamente.
      - Vocs so muito bem-vindos aqui. Sero meus convidados de honra.
      E, virando-se para o recepcionista, disse:
      - Vamos hosped-los na Sute Galeria.
      - Na verdade, no estvamos planejando ficar aqui, disse Cris.
      -  verdade, concordou Ted. Pensamos que uma amiga nossa talvez estivesse nos esperando aqui.
      O gerente soltou mais algumas palavras em italiano para que o recepcionista e, em seguida, balanou o dedo na frente de Ted, como se o advertisse.
      - So meus convidados, repetiu ele energicamente em ingls. Vocs e a amiga que vem encontr-los aqui. So todos meus convidados de honra. Per favore. Por 
favor, fiquem.
      Cris teve a impresso de que o Sr. Emlio ficaria bastante chateado caso eles no ficassem. Ao mesmo tempo, ela sabia que uma noite naquele hotel custaria 
o equivalente  quantia que tinha reservado para passar trs semanas dormindo em albergues. Cris lanou um olhar desesperado para Ted, na esperana de que ele soubesse 
o que responder.
      - Ficaramos muito honrados de nos hospedar aqui, senhor, disse ele.
      Ao ouvir aquilo, Cris teve vontade de brigar com ele. O que voc 't pensando, Ted? No temos dinheiro pra ficar aqui!
      - O Giovanni vai fazer o check in de vocs e providenciar algum para subir com a bagagem. Qualquer problema,  s falar comigo. So meus convidados especiais.
      O Sr. Emlio afastou-se deles e foi cumprimentar um outro hspede, que saa do elevador. Era realmente um homem surpreendente.
      - Aqui est sua chave, senhor, disse o recepcionista, no mesmo tom profissional com que se dirigira a eles minutos antes, para dizer-lhes que no havia quartos 
vagos.
      - Obrigado, respondeu Ted, pegando a chave. E para Cris?
      O recepcionista deu ento uma outra chave para Cris. Entretanto no havia nenhum nmero nela.
      - Qual  o meu quarto? perguntou ela.
      - A Sute Galeria, senhorita.
      - Achei que o Ted estivesse hospedado l.
      - E est.
      - Bem, eu preciso de um quarto separado.
      -  verdade, disse Ted. Achei que voc soubesse disso.
      O recepcionista olhou-os ento, friamente.
      - E, por gentileza, disse Cris em voz baixa, aproximando-se dele, voc poderia me colocar num quarto mais barato? No sei exatamente o preo da diria na Sute 
Galeria, mas a verdade  que meu oramento 't um pouco apertado.
      - A Sute Galeria  o melhor quarto do hotel.
      Ouvindo aquilo, Ted imediatamente colocou a chave sobre o balco.
      - Bem, neste caso, ser que voc poderia trocar meu quarto tambm? Meu oramento tambm 't apertado.
      O recepcionista olhou-os e empurrou a chave de novo para eles. Parecia irritado com os dois. Depois, disse firme e pausadamente:
      - Vocs so convidados de honra do Signore Emlio Mondovo. O quarto  grtis.
      Cris e Ted se entreolharam, ainda sem entender o que ele queria dizer com aquilo.
      - Grtis, repetiu ele. No vamos cobrar nada.  de graa. Vocs so convidados especiais do Sr. Emlio. Tm direito a tudo o que quiserem aqui.
      Cris estava to impressionada com aquilo que ficou boquiaberta.
      - Legal, foi tudo o que Ted disse.
      - As suas chaves, repetiu o recepcionista, apontando para elas.
      Em seguida acionou duas vezes a campainha que ficava no balco, e imediatamente um rapaz apareceu na recepo para carregar as bagagens. Trajava um uniforme 
cor de vinho escuro, enfeitado com tiras douradas e tranadas nas mangas. Pegou aa bagagem de Cris, mas, ao oferecer-se para carregar a mochila de Ted, este recusou, 
dizendo que podia ele mesmo carreg-la.
      O recepcionista ento se retirou do balco, como se quisesse despachar Ted e Cris dali.
      -Vamos dar uma olhada no quarto, disse Ted a Cris, pegando as chaves. Depois a gente acha o Sr. Emlio e explica a ele que precisamos de dois quartos. Com 
certeza a Katie j ter chegado quando resolvermos esta questo.
      Os dois seguiram o funcionrio do hotel, que se dirigiu para o elevador. Ao entrarem, ele apertou um boto e l se foram rumo ao ltimo andar. Em seguida, 
o funcionrio os levou at o quarto, que ficava no final de um corredor comprido e carpetado. Na porta estava escrito "Sute Galeria".
      Ted destrancou a porta e Cris entrou logo atrs dele. Novamente ela ficou pasmada ao observar a enorme sala de estar do quarto. No centro do teto havia um 
belssimo lustre. Era dourado e semelhante a um candelabro. Logo  frente havia uma lareira adornada com uma bela cornija dourada, toda trabalhada.  esquerda havia 
janelas enormes, sobre as quais desciam lindas cortinas em tecido brocado dourado.  direita havia diversos objetos para entretenimento dos hspedes e uma mesa de 
jantar redonda.
      O funcionrio abriu as cortinas, fazendo com que a belssima paisagem da cidade, com suas maravilhosas luzes, ficasse  vista. Havia ainda uma sacada, adornada 
com estruturas de ferro cuidadosamente trabalhadas em tom de rosa-salmo. Uma porta de vidro a separava do restante do quarto. O funcionrio, ento, dirigiu-se a 
uma porta que ficava  extrema esquerda do quarto e abriu-a, fazendo um gesto para que Cris entrasse.
      Do outro lado da porta havia um amplo quarto, com duas camas grandes, uma mesa, um sof, uma televiso e um banheiro, com uma banheira embutida. Cris nunca 
havia visto algo parecido em toda a sua vida!
      Ao voltar para a sala, Cris notou que o funcionrio havia aberto outra porta, no lado direito do quarto, depois da adega. Era um quarto independente, to luxuoso 
quanto aquele em que estivera. Ted estava l, fazendo uma "vistoria".
      - Tome aqui um trocado, disse Ted, tirando uma gorjeta do bolso para dar ao rapaz.
      Ele, porm, no aceitou.
      - Divirtam-se, disse ele com um sorriso, retirando-se em seguida.
      Durante um minuto e meio, Ted e Cris permaneceram parados na suntuosa sala de estar, olhando um para o outro, sem nada dizer.
      Ted foi o primeiro a falar.
      - Legal, disse ele, erguendo o queixo calmamente.
      Cris disparou a rir.
      - Legal?  s isso que voc sabe dizer? Legal? Ted, isto aqui  inacreditvel!
      Cris deu uma rodopiada pelo quarto alegremente, como se danasse uma dana cigana, e continuou:
      - Olha s pra esta sute! Tem dois quartos separados e tudo o mais! A Katie vai ficar louca quando chegar aqui. Voc viu a banheira do meu quarto?
      - E quem foi que disse que aquele quarto  seu?
      - Ah, ? Vamos apostar quem chega primeiro l?
      Sem responder, Ted saiu correndo pelo quarto.
      - Isso no  justo! gritou Cris, correndo atrs dele.
      Ted foi o primeiro a chegar na banheira.
      - Legal, disse ele.
      - Pode esquecer dela. Este banheiro e este quarto so meus. Por acaso voc olhou como  a banheira do seu quarto?
      - Que tal uma corridinha? disse ele com um sorriso, largando antes de Cris.
      S que dessa vez Cris estava preparada e logo saiu correndo atrs. Quase chegaram juntos.
      - S tem um chuveiro, disse Ted, recobrando o flego.
      - Veja s isto, disse Cris, abrindo as portas do boxe.
      Da parede do boxe saam oito duchas independentes, umas mais baixas, outras mais altas.
      - Isso t parecendo um mini lava-jato, disse Ted, girando a torneira.
      Os dois comearam a rir ao ver a gua esguichar em todas as direes possveis. Ted fechou a torneira e os dois voltaram para a sala.
      - Acho melhor irmos atrs da Katie, disse Cris. Ser que ela no confundiu o nome do hotel e foi parar num daqueles outros hotis Villa que o motorista do 
txi mencionou?
      -  uma boa hiptese, Sherlock. Agora explique-me como foi que nos perdemos dela.
      - O barco que ns pegamos de Npoles pra c era o ltimo marcado pra esta noite? perguntou Cris.
      - No. Ns perdemos o ltimo hidroplano, mas havia ainda mais uns dois barcos pra sair. Ou pelo menos, mais um.
      Cris no estava muito segura daquelas informaes.
      - O que vamos fazer se ela no aparecer?
      - Comer, sugeriu Ted.
      - Claro, claro. No sei como fui me esquecer de que a comida vem sempre primeiro, disse Cris entre risos. Mas o que faremos depois?
      Ted se dirigiu at a porta, abrindo-a em seguida para Cris passar.
      -se a Katie no aparecer, ento teremos de arrumar um outro esquema com relao aos quartos. No acho que seja adequado ficarmos sozinhos nesta sute.
      Cris sabia que a atitude de Ted era sensata e que ele estava apenas usando de bom senso. Mesmo assim, sentia uma pontinha de frustrao, por mais que no quisesse 
se sentir assim.  que a sute era simplesmente fantstica e, ficar ali seria algo maravilhoso. Entretanto ela sabia que, se ficassem sozinhos ali, poderiam acabar 
despertando certos desejos que deveriam permanecer adormecidos. Certamente no era hora de propiciar um meio para que estes despertassem.
      - Tem razo, disse ela.  isso mesmo que devemos fazer.
      Saram do quarto e dirigiram-se ao elevador.
      - Voc pegou a chave? perguntou Cris.
      - Sim, 't comigo, disse Ted, batendo no bolso. Tomara que eles sirvam peixe l naquela cafeteria. Voc no acha que um peixinho cairia bem agora?
      - Pelo visto voc no enjoou de peixe, mesmo depois do tanto que comemos no acampamento.
      - Verdade. Eu nunca me enjo de um peixinho pescado na hora, disse Ted ao chamarem o elevador.
      - Nem de manga, acrescentou Cris.
      Ted olhou para ela, surpreso.
      - Como  que voc sabe que eu gosto de manga?
      - Eu costumo prestar ateno.
      - Sabe de uma coisa? principiou Ted ao entrarem.
      O elevador comeou a descer.
      -  isso que me impressiona em voc, Cris. Voc me conhece. Me conhece melhor do que qualquer outra pessoa, at mesmo do que meus prprios pais. E mesmo sabendo 
como sou, ainda quer ficar comigo.  isso que me impressiona.
      - Isso tambm me impressiona em voc, Ted. Era o que eu estava tentando dizer com aquele papo das luzes de Molokai. Toda vez eu fico achando que, quanto mais 
voc se aproximar de mim e mais me conhecer, mais ver quem eu sou de verdade. E a fico pensando que voc no vai querer ficar comigo mais.
      - No! disse Ted, balanando a cabea, como se para reforar o que estava dizendo. De jeito nenhum! Quanto mais a conheo, mais voc me surpreende.
      - Mas ns somos to diferentes um do outro!
      - Voc nunca ouviu dizer que os opostos se atraem? Alm do mais, no somos to diferentes assim, no. Temos muito em comum. Voc combina comigo, Cris. E acho 
que eu combino com voc.
      Quando o elevador chegou  recepo do hotel, Cris fez algo que h muito tinha vontade de fazer, mas nunca se permitira. Aproximou-se de Ted e deu-lhe um beijo 
carinhoso no rosto.
      Foi ento que a porta do elevador se abriu, e eles deram de cara com Katie. Seu rosto estava bem vermelho e ela parecia esgotada.
      - Muito bem, muito bem! exclamou ela, levantando uma das mos a fim de dar mais emoo ao que ia dizer. No vou interromper vocs. Vou ficar perdida por mais 
algumas horas.
      

10
      - Katie! O que houve com voc? exclamou Cris, ao sarem do elevador para abraar a amiga.
      - Nem  bom falar. Vocs no vo acreditar quando eu contar. J comeram? Porque eu estou faminta!
      - Na verdade estvamos indo agora mesmo a uma cafeteria que vimos ao chegar, respondeu Cris. Que bom que voc apareceu! 'T tudo bem?
      Katie acenou com a cabea, enquanto Ted pegava a mochila das costas dela.
      - Vou subir com sua mala e depois podemos ir comer, disse ele.
      Cris conduziu Katie a um dos sofs do belssimo lobby. Apontando para o recepcionista, Katie falou baixinho:
      - A educao daquele recepcionista com os americanos no 't merecendo nenhum premio, viu? Foi um custo conseguir fazer com ele me dissesse que vocs estavam 
hospedados aqui e, mesmo assim, ele no parecia muito empolgado com a idia de que eu me hospedaria com vocs. Vocs no avisaram pra ele que eu ia chegar?
      - Avisamos sim. Mas no se preocupe. 'T tudo resolvido. Graas ao Marcos e ao pai dele, ns vamos ficar aqui como convidados de honra do gerente do hotel. 
E no vamos pagar nada!
      - Nada?! exclamou Katie em voz alta.
      Cris acenou com a cabea, pedindo a Deus que Katie falasse mais baixo.
      - Fantstico! Coisa de Deus mesmo! Graas ao nosso amigo Marcos!
      - Incrvel mesmo, disse Cris. Graas ao Marcos.
      - Ah! Gostaria de pedir desculpas pelas coisas que disse hoje de manh, sobre voc ficar jogando charme para o Marcos. E a propsito, o que estava acontecendo 
entre voc e o Ted?
      - Como assim?
      - Bem, eu vi vocs dois juntinhos, trocando beijinhos no elevador. Em geral vocs no so assim, vamos dizer, to "pra frente" um com o outro. Que foi que 
eu perdi?
      Cris balanou a cabea, sentindo-se um pouco constrangida de revelar os detalhes do que se passara entre eles.
      - Na verdade ns tivemos duas timas conversas. Eu havia me enganado com relao a algumas coisas.
      - Humm, como se isso nunca tivesse acontecido antes, n, Cris? O que foi desta vez?
      Fazia alguns anos que Cris contava quase tudo de sua vida para Katie. Mas, agora, ela no estava muito a fim de abrir para a amiga todos os detalhes de sua 
ltima "crise emocional". Queria que os sentimentos que revelara a Ted ficassem apenas entre eles, principalmente porque parte dos equvocos que formulara diziam 
respeito a Ted estar interessado em Katie.
      - No foi nada muito srio, na verdade. Percebi que tinha de parar de tentar equacionar tudo na vida. Tenho de confiar mais em Deus e no ficar sempre preocupada 
em montar um roteiro para tudo.
      - Bem, devo dizer que esta viagem me fez mudar de idia com relao a montar roteiros, disse Katie, esticando as pernas. Os planos so nossos companheiros. 
Hoje sou uma nova excursionista, Cris. Se no tivssemos combinado de nos encontrar aqui, nem sei onde eu estaria agora.
      - E o que foi que aconteceu, afinal? Como foi que voc se perdeu de ns?
      Ted apareceu na recepo logo em seguida e Katie preferiu esperar que chegassem ao caf, para ento explicar o que acontecera. Feitos os pedidos, ela se ps 
a narrar nos mnimos detalhes a sua histria. Acontecera que, pouco antes de o trem parar em Npoles, ela havia resolvido ir ao banheiro. Entrara na cabina, deixando 
a mala do lado de fora, apenas apoiando a porta. Contudo, com a parada brusca do trem, a mala acabara batendo contra a porta, trancando Katie l dentro.
      Ao ouvir aquilo, Cris teve de se controlar para no ter uma crise de riso.
      - E o que voc fez? perguntou ela.
      - Fiquei gritando e batendo na porta at que o Marcos, coitado, teve de entrar no banheiro feminino pra me tirar de l.
      - Achamos que voc tivesse descido do trem antes de ns, ido direto para o ponto de nibus e partido, disse Cris.
      - Nada disso! Demoramos tanto l dentro que descemos um pouco antes de o trem sair da estao. Da o Marcos me levou at o ponto e ficou l esperando o nibus 
comigo. Mas a aconteceu um acidente de carro terrvel, a cerca de um quarteiro do ponto. Foi horrvel! A lataria do carro ficou toda amassada, uma barulheira s! 
O Marcos foi at l dar uma olhada. Quando voltou, disse que ningum havia se ferido. Mas demorou um tempo pra liberarem a rua, pra que o nibus pudesse passar. 
Acho que peguei o ltimo barco de Npoles pra c. A o Marcos anotou num papel o nome do hotel e o telefone dele. Cuidou de mim direitinho.
      - Que bom que voc chegou bem, disse Cris.
      - , Cris, detesto reconhecer, mas voc tinha razo. A gente precisava mesmo de um roteiro. Ainda bem que tnhamos combinado tudo, seno, nem sei o que teria 
acontecido. O Marcos ficou de se encontrar com a gente em Roma amanh. 'T tudo anotado aqui. Como disse, sou uma nova excursionista. De agora em diante, vamos ficar 
todos juntos e sempre combinar tudo com antecedncia.
      Cris sorriu para a amiga. S que no estava sorrindo apenas porque Katie havia reconhecido que ela tinha razo. O motivo era que Ted havia colocado o brao 
sobre a cadeira dela e estava acariciando a ponta de seu cabelo com os dedos. Sorrindo, Cris pensava no quanto o relacionamento deles havia progredido em apenas 
um dia! Um dia bem cheio, por sinal.
      Cris continuou com seus pensamentos, mesmo depois de Katie j ter "apagado" na cama do luxuoso quarto do hotel. Ao chegarem, Katie ficara espantada com o aposento 
que, alm de luxuosssimo, estava saindo de graa para eles. Deliciou-se com um banho de banheira e foi direto para a cama, ainda fazendo comentrios sobre cada 
detalhe do quarto. Contudo logo acabou adormecendo, sem ao menos concluir o que estava falando. Parecia ter sido transportada para um local extremamente calmo e 
sossegado.
      Cris ficou deitada na cama em silncio, apenas sorrindo. Depois, foi at a janela, tomando cuidado para no fazer barulho, e deu uma ltima olhada no cu daquela 
noite encantada. Encolhendo-se numa cadeira prxima  janela, sentou-se sobre os ps descalos. Que bom seria se tivesse um dirio novo! Poderia registrar nele tudo 
o que estava sentindo - suas impresses sobre ser uma mulher e ter certeza de seu amor por Ted. Reclinando-se sobre o encosto, Cris olhou para o cu.
      Que noite maravilhosa, meu Pai! Quantas estrelas! A escurido da noite parece um manto a varrer os cus, que t adornaste com inmeros diamantes reluzentes.
      Cris se lembrou ento dos momentos que passara no barco e de como sentira a presena de Deus to de perto, como se ele soprasse sobre ela. Vem sobre mim, Senhor. 
Sopra sobre minha vida. Quero sempre te sentir junto a mim, como te sinto agora. E quero sempre confiar em ti plenamente.
      Cris fechou os olhos e adormeceu na cadeira. Acordou um pouco depois, com o pescoo duro e os ps frios. Caminhou at a cama e dormiu um sono profundo, repleto 
de sonhos agradveis.
      Katie acordou cedo no dia seguinte. Cris a ouvia ao telefone, tentando pedir ovos e linguia italiana para o caf da manh.
      - Peo o mesmo pra voc? perguntou Katie, ao ver que Cris havia acordado.
      - Sim. Pea trs pores. O Ted com certeza ir querer comer alguma coisa tambm.
      As duas se levantaram e trocaram de roupa, ainda deslumbradas com toda a beleza do quarto. Ted foi quem atendeu porta, quando bateram trazendo o caf. J havia 
se vestido e arrumado a mala. Estava pronto para encarar o novo dia.
      Cris tomou rapidamente o farto caf da manh e sentindo o estmago embrulhar ao chegarem ao porto de Marina Grande para pegar a lancha que os levaria at a 
entrada da Gruta Azul. Chegando l, receberam instrues de que apenas duas pessoas poderiam embarcar em cada um dos pequenos e estreitos barquinhos de remar que 
entrariam na gruta. Em todos os barcos ia um guia de acompanhante, trajando uma camisa listrada de azul e branco. O guia usava ainda um chapu de palha com fitas 
azuis caindo-lhe pelas costas.
      Para Cris, era bvio que aquilo no passava de um negcio turstico. Entretanto, ao entrar no barquinho e se acomodar na frente de Ted, teve a sensao de 
que estava prestes a realizar um sonho. Por algum motivo, a Gruta Azul representava os confins da Terra para ela. Era como se estar ali naquele lugar extico e singular 
fosse o mximo, uma experincia nica, capaz de mudar sua maneira de enxergar a vida. No sabia exatamente por que aquele cantinho do mundo, distante e remoto, havia 
se tornado to importante e significativo para ela. Entretanto, de alguma forma, sentia-se pronta para ver seus horizontes se expandirem. Cris apoiou-se contra o 
peito de Ted e desviou a cabea ao passarem pela pequena abertura na rocha. Ao adentrarem a gruta, movidos pela propulso do remo, manejado pelo guia que os acompanhava, 
sentiu um arrepio passar-lhe pelo pescoo.
      Pouco tempo depois, seus olhos j haviam se acostumado  pouca luminosidade dentro da gruta, o que era completamente diferente da claridade que havia do lado 
de fora. O guia remou at a rea central, informando-os das dimenses da gruta em ingls, alemo e italiano. O nico dado que Cris guardou foi que a gruta tinha 
aproximadamente trinta metros de altura e quinze de largura. Depois disso no se preocupou em prestar ateno a nenhum outro detalhe. Queria apenas olhar para a 
gua azul-esverdeada, que se derramava no oceano, escorrendo sob as rochas suspensas; aquela gua que se tornava to reluzente em decorrncia da refrao dos raios 
solares no interior da caverna.
      Cris admirava todo o espetculo a sua volta, com os olhos parcialmente abertos. A luminosidade parecia mesmo vir do fundo da gruta, da prpria gua, espargindo-se 
por toda a caverna que, no fosse aquele brilho intenso, seria completamente escura.
      - Esta gruta parece comigo, sussurrou ela para Ted.
      - Com seus olhos? Bem que falaram mesmo.
      - No. Quero dizer com a minha vida. Da mesma forma que esta luz ilumina a caverna, Deus faz brilhar a sua luz em cada cantinho escuro e secreto do meu ser. 
E a parece que tudo ganha vida.
      Ted envolveu Cris nos braos e chegou os lbios bem pertinho da orelha dela.
      - E  isso que vejo em seus olhos. Vejo a luz do Senhor brilhando em voc.
      Cris sentiu o corao dar um salto.
      Foi ento que o guia que os acompanhava virou o rosto em direo ao teto da gruta e se ps a cantar O Solo Mio * . Sua voz, forte e agradvel, ecoava por toda 
a gruta.
      O passeio pela Gruta Azul no durou nem cinco minutos. Em torno de 10:30h, os trs j se achavam a bordo de um moderno hidroplano, que os levaria rapidamente 
a Npoles. L pegariam um trem para Roma, onde se encontrariam com Marcos, s duas da tarde.
      Katie no vira a menor graa na Gruta Azul. J era a segunda vez que fazia o mesmo comentrio.
      - No acredito que viemos at aqui s pra entrar apertado numa caverninha e ficar ouvindo um cara gordo, de chapu de palha na cabea, cantar pra ns. Deveramos 
ter ficado em Roma com o Marcos.
      Cris no fez nenhum comentrio. Continuava sorrindo por dentro, toda feliz pelos momentos que passara na Gruta Azul. Nem mesmo os comentrios maldosos de Katie 
poderiam acabar com sua alegria.
      Cris sentia que havia se relacionado com Deus de uma forma bem mais profunda e ntima naquele dia. E essa sensao tomava conta de todo o seu ser. Parecia 
que ela finalmente deixara de ser uma adolescente e se tornara adulta, uma mulher de verdade. Cris sabia que o "roteiro" de sua vida, seu futuro, estava nas mos 
de Deus e, portanto, sentia-se preparada e ansiosa para viver qual fosse a etapa seguinte.
      E a etapa seguinte foi Roma.
      A viagem de hidroplano at Npoles durou quarenta e cinco minutos e correu tranquilamente. Ao chegarem, Cris, Ted e Katie pegaram um trem para Roma, a bordo 
da primeira classe e, novamente, tudo correu bem. A estao de Roma era enorme e toda adornada. Aps desembarcarem, puseram-se a abrir caminho por entre a multido, 
 procura de um txi que os levasse ao hotel em que Marcos combinara de se encontrar com eles.
      Ao chegarem, Cris desconfiou de que o hotel poderia ser cinco estrelas tambm, como o Villa Paradiso, apesar da fachada simples.
      - Ser que sou s eu ou tem mais algum aqui que 't comeando a achar que a famlia do Marcos tem mais grana que a do Antnio? perguntou Katie ao entrarem 
no lobby do hotel.
      - Tomara que o Marcos e o pai dele sejam amigos do gerente deste aqui tambm, seno vamos gastar uma grana feia esta noite, comentou Cris.
      - No precisamos ficar aqui, disse Ted. Podemos achar um albergue e ficar por l.
      Cris no disse nada. Ficou apenas pensando em como seria bom se hospedar novamente num hotel de luxo. Tinham o resto da viagem para dormir em albergues; mas, 
ficar num bom hotel no era todo dia. Antes, porm, que pudessem estudar as opes de hospedagem, Marcos avistou-os e foi ao encontro deles. Estava bastante elegante 
num terno escuro, os cabelos penteados para trs.
      - Uau! Com tanta elegncia, estou me sentindo um verdadeiro lixo! comentou Katie, baixinho.
      - Ciao! exclamou Marcos, beijando Cris e Katie no rostos e cumprimentando Ted com um aperto de mo. Que bom que vocs esto aqui! Chegaram bem na hora. Perfecto! 
A reunio que eu tinha na hora do almoo j acabou. S tem um probleminha.
      - Voc 't com vergonha de que os outros o vejam circulando conosco, brincou Katie.
      Marcos parecia surpreso com o comentrio dela.
      - No, claro que no! O problema  que tenho de voltar hoje  noite para Veneza e, portanto, s posso passear com vocs por algumas horas.
      - Sem problema. A gente faz o que der. Pra onde vamos?
      - Vocs no gostariam de deixar a bagagem no hotel primeiro?
      - Na verdade, ainda no nos registramos em nenhum lugar, disse Ted.
      - E, pelo visto, este hotel aqui  um pouco caro pra ns, acrescentou Katie.
      - Neste caso vocs podem pelo menos deixar as malas aqui, junto da minha, disse Marcos, fazendo um sinal para o carregador de malas do hotel.
      Foi ento que todas as esperanas de Cris se dissiparam. Dali em diante no haveria mais banho em banheira embutida, nem nada do gnero. A bagagem podia ficar 
de graa no hotel, mas eles, no.
      Os quatro pegaram um txi e l se foram pelas ruas de Roma. Marcos dava as coordenadas para o motorista, que dirigia rapidamente, como se fosse uma barata 
tonta. O trnsito estava pesadssimo. Centenas de motoqueiros costuravam por entre os carros, fazendo manobras perigosas e arriscadas. O barulho das ruas era ensurdecedor. 
Cris resolveu fechar os olhos. No queria ver as manobras que o motorista estava fazendo. Tudo que queria era chegar ao local inteira e, de preferncia, respirando. 
Durante o percurso, Marcos mostrou algumas fontes e esculturas, mas Cris s abria os olhos um instantinho, o suficiente para ver um vulto de cada uma delas. Em seguida, 
fechava-os fortemente mais uma vez.
      Afinal o motorista parou o carro, freando bruscamente. Ted, Cris e Katie desceram do carro, enquanto Marcos pagava o motorista.
      - Venham comigo, disse Marcos, conduzindo-os animadamente pelas ruas, passando em frente a diversas lojas e lanchonetes.
      Subiram vrias escadas. Ao chegarem ao topo, avistaram uma enorme fila de pessoas em torno de um dos muitos edifcios de pedra acinzentada da regio.
      - Por aqui, disse Marcos, passando com eles ao lado da fila de turistas, que se estendia a partir da entrada principal do prdio.
      Deram a volta pelo outro lado, indo parar numa entrada lateral. Um segurana, vestindo um uniforme listrado de roxo e dourado que mais parecia uma fantasia 
de carnaval, guardava a porta. O segurana reconheceu Marcos na hora. Os dois se cumprimentaram e puseram-se a conversar em italiano, falando rapidamente.
      - Onde voc acha que estamos? perguntou Cris a Katie. 
      - At parece que eu sei, respondeu Katie. Algo aqui lembra alguma foto do seu guia turstico?
      O segurana ento fez um gesto com as mos, convidando os trs a se aproximarem. Destrancou a porta lateral e cumprimentou cada um deles cordialmente, ao passarem 
por ele e entrarem no antigo edifcio.
      - Bem-vindos  Cappella Sistina, disse Marcos. Venham. Vou mostrar-lhes onde est a pintura mais famosa.
      - Esta aqui  a Capela Sistina? quis saber Katie.
      - Sim, Cappella Sistina.
      Passaram pelo corredor principal, onde uma numerosa fila de turistas se movia lentamente. A maioria deles usava fones da ouvido e tinha nas mos folhetos com 
informaes sobre o local. Olhavam as pinturas e as esculturas feitas nas paredes. Ao passar por ali, Cris observou os maravilhosos tapetes que decoravam as paredes, 
descendo do teto at o cho. Acabou ficando para trs quando parou para admirar uma das peas, que achou belssima,
      Katie virou-se, fazendo um sinal para que Cris andasse rpido e se juntasse novamente ao grupo. Cris correu em direo a eles e, ao se aproximar de Ted, entrelaou 
os dedos nos dele.
      - Nem d pra acreditar que conseguimos entrar aqui da forma como conseguimos, cochichou com ele. Estamos na Capela Sistina!
      - . Legal, n?
      Marcos parou num determinado ambiente e apontou para cima. Bem no teto da capela estava a famosa pintura de Michelangelo, em que Deus estende a mo e toca 
os dedos de Ado, dando-lhe o flego de vida. Entretanto Cris no ficou to impressionada ao olhar para o teto da Capela Sistina como achou que ficaria. Na verdade, 
j estava com o pescoo doendo de tanto olhar para cima. Alm do mais, o recinto se achava cheio, e vrios outros turistas, cansados e suados, acabavam trombando 
nela a todo momento.
      Foi ento que Cris escutou uma turista, de sotaque britnico, conversar com o parceiro de viagem, que devia ser seu marido:
      - Diz aqui que Michelangelo comeou a fazer este teto em 1508 e demorou apenas quatro anos para pintar tudo isto! So mais de trs mil metros quadrados! Quanto 
tempo voc acha que precisar para terminar de pintar nossa cozinha?
      - Veja isto, Cris! disse Ted, apontando para uma outra parte do teto. Esta pintura aqui conta toda a histria da Bblia.
      Katie pegou a mquina fotogrfica e j ia bater uma foto, quando um dos seguranas se aproximou e, pondo a mo sobre o visor, disse-lhe algo em francs. Depois 
repetiu a frase em ingls.
      -  proibido tirar fotos com flash.
      - Desculpe-me, respondeu Katie, guardando a mquina na bolsa.
      - Venham, disse Marcos. Se vocs querem tirar fotos, vou lev-los at a cpula da Basilica di San Pietro. De l d pra ver as sete colinas sobre as quais Roma 
foi construda. Venham, no fica muito longe daqui.
      Cris j havia lido bastante a respeito da enorme catedral, construda no Vaticano. A Baslica de so Pedro era uma das maiores igrejas do mundo, com lugar 
para mais de cem mil pessoas.
      A entrada principal era enorme e bastante robusta. Ao entrarem, Cris ficou impressionada com o tamanho da baslica e com seu interior, todo adornado. A primeira 
coisa que Marcos mostrou a eles foi uma famosa escultura de Michelangelo, a Pieta, em que Maria segura Cristo no colo, depois da crucificao. Segundo Marcos, Michelangelo 
tinha apenas vinte e dois anos quando a esculpiu. Aquela informao parecia ter chamado a ateno de Ted.
      Marcos passou com eles pelo belssimo altar e depois por uma enorme escultura de Pedro. O apstolo estava assentado, segurando nas mos as chaves do reino, 
e tinha o p esquerdo um pouco mais estendido que o outro. A base da escultura era bem pesada e tinha cerca de um metro e meio de altura. Ento Marcos lhes pediu 
que se afastassem um pouco e apenas observassem a escultura.
      No demorou muito, uma mulher de baixa estatura, com um leno escuro preso na cabea, aproximou-se da imagem. Ficou na ponta dos ps e beijou o p do apstolo. 
Foi ento que Cris reparou que o p esquerdo da esttua no tinha dedos. Olhou para Marcos, surpresa, como se agora entendesse por que ele havia pedido que se afastassem 
e observassem apenas.
      - H sculos as pessoas vm beijar o p dele. J passaram tantos por aqui, que os dedos acabaram se gastando, explicou Marcos.
      Katie queria ficar mais tempo, para ver se mais algum viria beijar os ps da esttua, mas Marcos acabou convencendo-a a subir com eles at a cpula da baslica. 
Metade do percurso podia ser feita de elevador, ento, l se foram eles.
      Depois de sarem do abafado elevador, puseram-se a subir uma escada enorme, em forma de espiral, que os levaria ao topo da baslica. A escada parecia no ter 
fim.
      - Ele tinha apenas vinte e dois anos, comentou Ted mais uma vez. J imaginou ser capaz de canalizar todos os interesses e talentos em algo assim, na nossa 
idade?
      - Incrvel, n?
      Foi tudo o que Cris respondeu. Estava comeando a se sentir um pouco tonta. Durante a subida, tinham de se manter mais juntos da parede, para no cair. E quanto 
mais subiam, mais quente ficava.
      L de cima, a vista da cidade era realmente espetacular. Contudo, apesar de toda a beleza e de poderem tirar fotos  vontade, Cris no estava aproveitando 
a oportunidade como deveria.  que tudo o que queria naquele momento era poder beber algo.
      No demorou muito para que seu desejo se realizasse. Depois de pegarem o metr para o Coliseu, Marcos foi com eles at um carrinho de sorvetes Gelato, parado 
do outro lado da rua. Cris logo percebeu que aquele era o melhor sorvete que j havia experimentado. Vinha em copinhos e, em vez de usar uma colher prpria de servir 
sorvete, o sorveteiro usava uma esptula metlica. Podiam escolher dois sabores, e Cris optou por morango e chocolate, que, juntos, faziam uma mistura muito boa.
      - Vamos dar uma volta rpida pelo Coliseu e logo depois eu terei de ir pra estao, disse Marcos.
      Ted parecia analisar uma tabuleta, prxima ao lugar onde estavam.
      - Vejam s! Isto aqui era uma priso. Chamava-se Priso de Mamertina. Diz a inscrio que Paulo ficou preso aqui.
      A priso ficava praticamente no nvel da calada e parecia mais um labirinto de celas subterrneas.
      - Voc acha que  provvel que Paulo tenha escrito algumas de suas cartas daqui? Desta cela? perguntou Ted.
      -  possvel, respondeu Marcos, sem muito interesse.
      Cris notou um brilho nos olhos de Ted. O rapaz parecia admirado com aquela descoberta que, para ela, no era l grandes coisas.
      Ted olhou para Cris.
      - J imaginou, Cris? Paulo poder ter escrito a carta aos Filipenses daqui mesmo, olhando desta janela, disse ele.
      Havia um versculo muito especial para Ted e Cris naquele livro. Alguns anos atrs, Ted escrevera Filipenses 1.7 num coco do Hava e o enviara para Cris, pelo 
correio. Dizia simplesmente "Guardo-a no corao". At hoje, Cris guardava o coco numa caixa em sua casa.
      Cris se posicionou ao lado de Ted e ficou olhando para a parede de pedra cinzenta, onde havia um pequeno vo.
      - Voc acha que Paulo estava assentado bem aqui quando escreveu "Guardo-os no corao"? perguntou Cris.
      - Possivelmente, respondeu Ted.
      Cris sentiu os pelinhos do brao arrepiarem. Ficou emocionada s de imaginar que Paulo poderia ter escrito aquelas palavras to bonitas estando preso num local 
to sombrio.
      - Fico impressionada com isso, disse ela a Ted. No que eu imaginasse que Paulo estivesse deitado numa rede, tomando suco de abacaxi, enquanto escrevia suas 
cartas. Mas aqui neste lugar? Bem aqui?
      Ted fitou-a nos olhos. Estava to impressionado quanto ela.
      - . Parece que as cartas de Paulo ganham um novo sentido, n? Paulo certamente sabia o que era sofrer pela f.
      Cris no teve como evitar o sentimento que comeou a tomar conta de seu corao, ao olhar com Ted para aquela janela, j to velha e deteriorada. Ainda sentia 
na boca o gostinho doce do sorvete de morango e chocolate, o que criava um forte contraste com a idia de que muitos cristos, que andaram por aquelas mesmas ruas 
sculos antes, haviam sido perseguidos por causa da f. E vrios at tinham morrido por causa dela.
      Depois da priso, foram ver o Coliseu. Era um lugar impressionante, arrebatador, fascinante. Mesmo assim, Cris sentia que no conseguiria absorver mais nada. 
Era muita informao para uma tarde s. Olhou para as runas das celas subterrneas do Coliseu e bateu algumas fotos, enquanto ouvia as explicaes de Marcos. Dizia 
ele que, no sculo primeiro, aquelas celas serviam de jaulas para os lees. De onde estavam, Cris conseguia avistar as rampas por onde os lees eram trazidos para 
enfrentar os gladiadores.
      - Eles no soltavam os lees em cima dos cristos tambm? perguntou Ted. Ouvi dizer que alguns cristos eram lanados aos lees e que o Imperador Nero ficava 
assistindo, vendo-os serem devorados pelas feras. Isso acontecia aqui?
      -  possvel, disse Marcos. Vrios cristos foram queimados vivos no tronco, para iluminarem as festinhas que Nero oferecia em seus jardins.
      - 'T brincando! exclamou Katie. Que coisa horrvel! No d nem pra acreditar que pessoas civilizadas foram capazes de torturar e matar outros seres humanos 
por causa da f que estes tinham em Deus. Que coisa grotesca!
      - Isso ainda acontece, disse Ted, apoiando-se em uma das colunas de pedra.
      - Onde? perguntou Katie.
      - Por toda parte. Mas quase nunca ficamos sabendo. H sempre algum morrendo por causa da f em Cristo. Pode ser at que chegue um momento em que ns mesmos 
tenhamos de nos posicionar com relao ao que cremos. E, se esse dia chegar, quero que meu relacionamento com Cristo seja to slido que eu esteja disposto a morrer 
por ele, se for preciso, disse Ted.
      Cris sentiu vontade de se assentar. Aquilo tudo era demais para ela. Nunca havia pensado seriamente na possibilidade de um dia ter de fazer uma escolha desse 
tipo, de se posicionar. Correu os olhos rapidamente pelas imensas runas do Coliseu.
      No entanto o que ela via, com os olhos da mente, no era uma corrida de vigas como aquela que Hollywood reproduzira com tanto glamour no filme Ben-Hur. Sentada 
ali, sob o sol escaldante da tarde, Cris via uma nova imagem se formar em sua mente. Era to forte quanto a luz da Gruta Azul, que tocara seu corao pela manh. 
Via as inmeras fileiras das arquibancadas do Coliseu circundarem-na naquele momento, tomadas de uma multido que gritava e bradava descontroladamente. Os lees, 
famintos, estavam prestes a ser soltos. Tudo o que ela teria de fazer para se ver livre era negar a Cristo. Se, no entanto, fosse fiel ao seu compromisso com o Senhor, 
seria devorada pelas feras.
      Ah, Senhor, meu Deus! Espero, de todo o meu corao, ser fiel a ti, se um dia tiver de passar por isso!
      

11
      No txi de volta para o hotel, Ted e Marcos falavam de suas convices pessoais sobre o cristianismo. Cris continuava com olhos fechados, pois assim evitava 
ver as barbeiragens do motorista, que por pouco no acabavam em acidente. Tambm achava timo no ter de participar da conversa de Marcos e Ted. Depois de tudo que 
vira naquele dia, sua mente e seu corao se achavam profundamente comovidos, e ela no estava com cabea para discusses.
      - Mas isso no  suficiente, disse Katie a Marcos, entrando na conversa.
      Cris apenas ouvia.
      - Voc no pode ficar achando que Deus vai lhe deixar entrar no cu s porque procura levar uma vida correta e ser uma pessoa boa. J ouviu falar de Romanos 
10.9? Esse versculo diz que, se confessarmos com a nossa boca que Jesus  o Senhor, e crermos no nosso corao que Deus o ressuscitou dos mortos, seremos salvos.
      - Romanos? perguntou Marcos.
      - Sim, Romanos! Nossa, que legal! disse Katie. S agora me dei conta de que Paulo escreveu a epistola de Romanos para as pessoas que moravam aqui em Roma! 
Que coisa incrvel!
      - Isso fica na Bblia Sagrada? perguntou Marcos.
      - Sim, continuou Katie. Paulo escreveu um livro inteirinho especialmente para os italianos.
      Cris sorriu. A coincidncia de Katie ter escolhido citar uma passagem do livro de Romanos, justo ali, em Roma, era mesmo uma "coisa de Deus".
      - Ningum pode ir para o cu pelos prprios esforos, continuou Katie. Romanos fala disso tambm. "Todos pecaram e carecem da glria de Deus." E qual que  
aquele versculo, tambm em Romanos, que fala do dom gratuito de Deus?
      - Romanos 6.23, disse Ted. "Porque o salrio do pecado  a morte, mas o dom gratuito de Deus  a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor."
      - 'T vendo? Ningum pode fazer nada pra merecer a vida eterna. Ela  uma ddiva gratuita do Senhor. No h como "fazer por onde" receb-la; s precisamos 
aceit-la.
      Cris se perguntava se Marcos no estava achando Katie um pouco dura demais. Mas Cris entendia a empolgao da amiga. Era simplesmente impossvel no se deixar 
entusiasmar com o evangelho depois de tudo o que haviam visto nas ltimas horas.
      - Mas Deus no ama todo mundo? perguntou Marcos.
      - Sim, respondeu Ted.
      - Ento quem leva uma vida correta no tem com que se reocupar.  claro que Deus ir deix-lo entrar no cu, continuou Marcos.
      - Mas no  assim que a coisa funciona, disse Ted. Deixe-me ver como posso lhe explicar...  mais ou menos como aconteceu conosco l no Villa Paradiso. Se 
fosse s por nossa causa, eles nunca nos deixariam ficar l. Mesmo ns sendo "pessoas de bem". Mas, na hora em que dissemos o seu nome e o de seu pai, eles nos receberam 
de braos abertos. E assim, pudemos desfrutar de todas as regalias do hotel, sem ter de pagar nada por elas.
      Cris abriu os olhos, impressionada com a analogia que Ted havia feito. Era uma ilustrao perfeita. Com certeza faria sentido para Marcos.
      Marcos estava assentado no banco da frente e havia se virado para falar com Ted.
      - De fato, conhecer as pessoas certas nos lugares certos ajuda bastante, disse ele, abrindo um sorriso.
      - Isso mesmo. Com a vida eterna tambm  assim, continuou Ted. O importante no  o que fazemos, e sim quem ns conhecemos. Como conhecamos voc, as portas 
do Villa Paradiso foram abertas para ns. Da mesma forma, as portas do cu se abrem para aquele que conhece a Cristo.
      - O Antnio j tentou me convencer disso tambm, continuou Marcos. Ele disse que preciso ter um relacionamento com Cristo. Mas tudo isso  muito diferente 
do que tenho escutado a vida toda. Mesmo assim, preciso admitir que, desde que o Antnio voltou da Califrnia, tenho percebido um "algo mais" na vida dele.
      - Esse "algo mais" , na verdade um "Algum", disse Katie.
      O txi parou na porta do hotel e todos desceram. Dessa vez, Ted fez questo de pagar o motorista.
      -  um presente meu pra voc, cara. Voc s precisa aceit-lo, disse ele a Marcos, erguendo o queixo, num gesto cordial.
      Cris logo percebeu que as palavras de Ted tinham duplo sentido. Ser que Marcos tambm percebera? Entraram no luxuoso hotel, pegaram as bagagens e, em seguida, 
foram se despedindo de Marcos na calada.
      Cris se sentiu um pouco triste quando Marcos se despediu dela, com um beijo no rosto. Para ela, era bem mais fcil se despedir de Antnio.  que ela sabia 
que um dia o veria novamente no cu, caso nunca mais o encontrasse aqui na Terra. Mas com o Marcos era diferente. Aquela poderia ser a ltima vez que se viam.
      Cris olhou para ele. Era mesmo um rapaz muito bonito. Lembrou-se do que Katie havia dito ao tentar convenc-lo a seguir para Npoles com eles. Ento, exibindo 
um sorriso to encantador quanto o de Katie, disse:
      - Marcos, gostaria muito que voc fosse para o cu com a gente. No vai ser a mesma coisa sem voc. Por favor, entregue a vida a Cristo.
      Marcos pareceu surpreso com aquelas palavras de despedida. No era o que estava acostumado a ouvir.
      - Vocs conseguiram me fazer parar pra pensar. O Antnio j me deu uma Bblia de presente. Talvez eu d uma lida nessa parte escrita para os italianos.
      Cris ficou na ponta dos ps e deu-lhe um beijinho no rosto.
      - Buona, disse ela.
      Tinha quase certeza de que aquilo significava "bom" em italiano.
      Marcos sorriu. Entrou no txi e acenou para eles, pondo-se a caminho da estao, em meio a todo o pesado trnsito.
      - E agora voc vai me dizer que aquilo foi um "beijo santo", senhorita "Cristiana"? brincou Katie.
      - Era isso mesmo, respondeu ela.
      Por um momento Cris pensou no tanto que era diferente beijar a face de Marcos, toda lisinha e barbeada, e a de Ted, toda pinicante. No entanto a comparao 
parou logo por ali. Para ela, o beijo que dera em Marcos era puro e santo, em todos os sentidos.
      Ento, no resistiu e disse:
      - Quando estiver em Roma, faa como os romanos.
      Ted riu. Katie apenas balanou a cabea.
      - Posso fazer um breve comentrio? Notei que voc ficou mais beijoqueira desde que veio morar aqui na Europa.
      - Eu no reclamo, disse Ted, ainda sorrindo.
      - 'T bom. Vamos mudar de assunto. J estou entrando em depresso, s de ficar perto dos dois pombinhos, disse Katie. Vamos achar um lugar pra deixar a bagagem.
      - Cad aquele seu guia turstico, Cris? perguntou Ted. Ser que l tem alguma lista de hotis?
      Cris se ps a procurar o guia dentro da bolsa.
      - No seria melhor se fssemos um pouco mais pra l? Acho meio esquisito a gente ficar procurando um lugar mais barato pra ficar, estando na porta de um hotel, 
disse ela.
      - Mas ningum sabe que  isso que estamos fazendo, respondeu Katie.  mais seguro ficarmos aqui do que no meio da rua, com toda essa bagagem, anunciando para 
o mundo inteiro que somos turistas.
      - Tome, disse Cris, dando o guia a Ted. Voc olha. Minha cabea j 't cansada!
      Ted olhou a lista e sugeriu que fossem para uma pensione. Disse que era uma espcie de casa que alugava quartos, semelhante a uma pousada americana. O melhor 
de tudo  que no ficava muito longe dali, e o preo era bastante acessvel.
      Depois de andarem seis quarteires, sob o calor da tarde, encontraram o lugar. S que no havia nenhum quarto livre. Mesmo assim Ted no ficou desanimado e 
continuou a olhar o guia. Estavam ao lado de uma loja que vendia casacos de couro. O estabelecimento estava fechado, e as janelas, trancadas com estacas.
      - Tem um albergue aqui na lista, mas, se estou entendendo bem o mapa, fica do outro lado da cidade. Podemos pegar um txi, se for o caso.
      Cris cerrou os dentes, s de pensar em ter de confiar a vida a mais um motorista italiano.
      - No tem nenhum outro lugar, no? perguntou.
      Ted estendeu-lhe o livro e ela correu os olhos pela lista.
      - Eu deveria ter trazido o guia menor. Era s sobre a Itlia. Listava dezenas de lugares para ficar em cada uma das grandes cidades.
      Cris estava fazendo o maior esforo para no jogar a culpa em Katie. Afinal, fora ela quem dissera que no precisavam de guias tursticos, pois estavam numa 
"aventura".
      - A gente pode pegar um trem e ir para aquela cidade de que o Marcos estava falando, sugeriu Katie.
      Cris olhou para Katie, como se estivesse aborrecida.
      - Firenze? Florena?
      - Sim, essa cidade a. Quer dizer, tem mais alguma coisa pra gente ver por aqui?
      - Tem bastante coisa, disse Cris.
      - Por exemplo?
      Cris tirou a mochila das costas e botou-a no cho, com movimentos bruscos. Ela sabia que a conversa ia longe.
      - Muitas obras de arte, fontes, igrejas e esculturas.
      - Mas foi isso que o Marcos mostrou pra gente o dia todo. O que tem de interessante em Florena?
      - Fontes, esculturas e igrejas, respondeu Ted.
      - Fontes, esculturas e igrejas? exclamou Katie em tom de gracejo, rindo de si prpria ao colocar o mochilo no cho. Acho que no estamos mais no Kansas, "Tot"! 
continuou ela, imitando a "Dorothy", de O Mgico de Oz.
      Cris no riu da brincadeira. Sua vontade era dizer-lhes novamente que essa era a razo por que precisavam de um roteiro. Naturalmente, estavam cansados e com 
fome. Como  que poderiam chegar a alguma deciso naquele estado?
      - Vamos achar um lugar pra comer, sugeriu Ted. Temos de nos assentar e ver quais so nossas opes.
      Felizmente havia uma pizzaria bem perto dali. A pizza, alm de deliciosa, no demorou a chegar. O nico ponto negativo  que as mesas eram altas e redondas, 
e no havia cadeiras. Estavam comeando a perceber que o chique na Itlia era comprar uma massa pronta ou uma fatia de pizza e comer em p, em torno dessas mesas 
compridas, que chegavam ao cotovelo de Cris. Apesar da boa comida, ficar em p acabou no contribuindo muito para que pudessem discutir os planos com calma.
      - Acho que deveramos ir pra Florena, disse Katie. Ou quem sabe, Veneza. E aquela cidade da torre inclinada? Qual o nome dela mesmo?
      - Pisa.
      - Ah . Isso mesmo. A Torre de Pisa. Como pude me esquecer? Onde fica essa cidade?
      - Ao norte, respondeu Cris, sem rodeios.
      - Ao norte perto de Veneza?
      - No, ao norte, mas em sentido completamente oposto. Na verdade, fica perto de onde estvamos acampando. Ento a gente deveria ter ido l depois do acampamento.
      Ao ouvir aquilo, Cris no conseguiu se conter.
      - Foi por isso que falei do roteiro.  que, se a gente resolve simplesmente pegar um trem pra Florena ou Veneza, pode acabar deixando de ver alguma coisa 
muito legal que ficou no meio do caminho, soltou ela, ainda com o hlito impregnado do forte gosto do molho da pizza.
      - E que "coisa legal" voc 't querendo ver? perguntou Katie.
      Cris no conseguiu pensar em nenhum lugar especfico. Queria ir para tudo quanto era canto. 
      - Eu gostaria de ir a Pompia, disse Ted.
      - O Marcos me falou desse lugar, disse Katie. Estava me contando que a cidade foi toda desenterrada e d at pra andar por l e ver o que aconteceu depois 
que o vulco entrou em erupo e destruiu tudo. Ele disse tambm que o p vulcnico chegou at a proteger alguns dos que estavam fugindo de l.
      Cris havia lido sobre Pompia no outro guia turstico sobre a Itlia. Na poca, no ficara muito interessada e, agora, a coisa parecia ainda mais sem graa. 
Aquilo que Ted e Katie achavam interessante parecia no exercer muito encanto sobre ela.
      - Eu tambm gostaria de ir l, disse Katie. Sei que fica ao sul e que no  muito longe de Npoles porque, quando estvamos esperando o nibus, o Marcos me 
mostrou o Vesvio.
      Cris se lembrava de ter avistado o vulco Vesvio, do barco, quando iam para a ilha de Capri.
      - Ou seja, a gente vai voltar para o mesmo lugar em que estvamos hoje de manh. Vai levar umas duas horas pra chegar l. E depois? Ficamos em Npoles ou em 
Pompia?
      - Eu prefiro no ficar em Npoles, disse Katie. O Marcos estava me contando uns casos de l. No  uma cidade muito segura pra turistas.
      - Ento ficamos em Pompia? perguntou Cris, folheando o guia.
      Havia uma pgina cheia de informaes interessantes sob a cidade e sobre como chegar l, mas nenhuma informao sobre hotis.
      - Poderamos ficar por aqui mesmo e pegar um trem amanh de manh, sugeriu Ted.
      - Mas onde? No albergue?
      Depois de ficarem em p na pizzaria por quase uma hora, discutindo todas as possibilidades, chegaram a uma deciso. Iriam para Oslo, na Noruega. A deciso 
foi uma surpresa para Cris. Ela mal conseguia entender direito como  que haviam chegado a um acordo.
      Em vez de ficarem em Roma, pegariam um trem noturno e iriam para o norte da Europa. A idia, depois de tanta conversa, era ir direto para a Noruega e fazer 
a rota para o sul nos dial restantes, at chegarem em Basel, na Sua, s oito da manh do dia vinte e sete de junho, segunda-feira. Nesse dia, as aulas de Cris 
recomeariam, e Katie e Ted tomariam o avio para a Califrnia, partindo  tarde de Zurique.
      O melhor de tudo, na opinio de Cris, era que teriam tempo suficiente para conversar e planejar os outros dezesseis dias de viagem, j que o trajeto para o 
norte seria bastante extenso. Ela detestava reconhecer, mas se sentia exausta. Sua resistncia no estava muito alta quando comearam a viagem e, com o ritmo acelerado 
em que estava vivendo, ficara bastante desgastada. Por um momento desejou que ainda estivessem acampando, pois a poderia "recarregar as baterias", enfiando-se na 
rede ou tomando um banho de rio. Se tivessem permanecido com Antnio, esta seria a ltima noite deles l.
      Enquanto andavam os dezesseis quarteires at a estao, com as mochilas presas s costas, Cris pensava na viagem. Estava feliz por terem deixado o acampamento, 
no fim das contas. Perder a chance de conhecer Roma ou a ilha de Capri teria sido pssimo!
      Uma vez na estao de trem, resolveram parar numa lojinha que vendia quase que s revistas e cigarros. Katie queria comprar umas barrinhas de chocolate, e 
Cris queria saber se havia um guia turstico em ingls  venda.
      Cris no achou o que procurava, mas, em compensao, encontrou um dirio com capa de couro. Alguns anos atrs, o Tio Bob lhe dera um dirio de presente, dizendo-lhe 
que anotasse ali todos os seus pensamentos e sentimentos, certo de que ele se tornaria um grande amigo para ela - o que de fato aconteceu.
      Uma noite antes de viajar com Ted e Katie, Cris preencheu a ltima pgina do caderno. Ao terminar a anotao, um sentimento de perda muito forte tomou conta 
dela. Pela primeira vez, em praticamente cinco anos, no teria um lugar especial para registrar os segredos de seu corao. Seu dirio havia se tornado um grande 
amigo.
      Cris pagou o dirio e ficou analisando o troco que recebera do vendedor. Ele havia lhe dado vrias moedas. Cris no fazia a menor idia se tinha pago um preo 
justo pela mercadoria.
      Seria timo se o Antnio ou o Marcos estivessem com a gente uma hora dessas.
      Para sua surpresa, o vendedor resmungou alguma coisa em italiano e deu-lhe mais trs moedas.
      Ser que ele achou que eu percebi que ele havia me dado o troco errado? Que graa! No fao a menor idia do quanto paguei neste dirio, nem do tanto de dinheiro 
que tenho agora.
      Cris no se virou. Continuou segurando as moedas na mo e, apenas para fazer graa com o vendedor, olhou para ele como se quisesse dizer "Que vergonha tentar 
passar a perna em mim!"
      Mas dessa vez ele no resmungou nada. Simplesmente se inclinou e deu a ela mais trs moedas e duas notas.
      Ainda incerta do quanto havia sido lesada, Cris resolveu dar no p. Enfiou a quantia no bolso e saiu da lojinha, fazendo fora para no disparar a rir. Ted 
e Katie a aguardavam l fora. Quando Cris relatou o que lhe acontecera, Katie disse:
      - Acho que vou voltar l, estender minha mo e olhar para ele com cara de brava.  possvel que ele tenha me cobrado a mais pelas duas barrinhas de chocolate.
      - No acredito que d certo. Afinal, voc j saiu da loja, observou Ted.
      - Ento vamos passar naquela loja ali, sugeriu Katie, apontando para uma outra lojinha dentro da estao de trem. Parece que eles vendem coisas de comer. Poderamos 
comprar algo para levar na viagem.
      - Tem meu apoio, disse Ted.
      O rapaz foi o primeiro a entrar na loja. Pegou vrios pezinhos redondos e duros, alguns tomates pequenos e ovais, e ainda meio pedao de queijo. Cris apenas 
o observava. Estava mais interessada em comprar algo para beber durante a viagem. Viu umas garrafas de gua  venda e pegou trs para levar, de um litro cada.
      Katie comprou mais duas barras de chocolate e, ao receber o troco, ficou parada no caixa, examinando-o minuciosamente. A vendedora parecia irritada com a demora 
da moa e soltou alguma coisa em italiano, fazendo um gesto para que Katie sasse e liberasse o caminho para outros clientes.
      - Acho que nunca vou saber se ela passou ou no a perna em mim, disse ela ao entrarem no terminal principal. Voc  que sabe fazer o olhar, Cris.
      - Muito bem, agora vamos nos organizar, disse Ted, caminhando at o quadro de horrios informatizado.
      - Este  o que a gente tem de pegar. Roma pra Veneza. Sai s 20:35h, da plataforma...
      Ted olhou o relgio.
      - Venham! Vamos ter de correr pra pegar o trem!
      Ted saiu correndo a todo vapor. Cris se ps a correr tambm, olhando para trs, a fim de ver se Katie estava com eles. Enquanto corriam pela multido, Cris 
sentia a mochila bater fortemente em seus ombros, atingindo-lhe os quadris seguidamente. Tinha a sensao de que a pizza que comera pouco antes comeava aparecer 
novamente em sua boca.
      Apesar de todo o incmodo, conseguiram alcanar o trem a tempo. E, graas  mente rpida de Ted, foi at possvel trocar as passagens por bilhetes de primeira 
classe, inteirando a diferena. A primeira classe estava lotada. Parecia que todo mundo havia resolvido sair de Roma naquela noite de sexta-feira. Ao ver aquilo, 
Cris concluiu que a segunda classe estaria muito pior. Encontraram dois lugares no final do corredor, e Cris e Katie se assentaram. Ted permaneceu de p, examinando 
o guia turstico.
      O trem partiu, fazendo ecoar um rudo prolongado. Cris fechou os olhos, procurando uma posio confortvel no banco. Agora, sim, estavam numa aventura e, melhor 
ainda, dessa vez estavam montando um roteiro. Parecia que seus dois desejos se concretizavam. Cris torcia para que aquilo fosse sinal de menos estresse nas duas 
semanas que estavam por vir.
      Durante a viagem de cinco horas para Veneza, Cris dormiu um pouco, circulou algumas vezes pelo vago e foi com Katie at o banheiro, para que a amiga pudesse 
lhe mostrar como foi que conseguira se trancar na cabina do banheiro em Npoles. Cris teve de rir. Katie era mesmo uma maluca. Mas ela estava feliz por estarem se 
dando to bem agora. A maior parte da tenso que existira entre as duas j havia passado. E a sensao que Cris tinha era de que a distncia que se criara entre 
as duas, depois de ela ter ido estudar na Sua, estava comeando a desaparecer. Agora elas estavam voltando a ser as amigas chegadas que sempre haviam sido.
      Cerca de uma hora antes de chegarem a Veneza, Ted e Cris deixaram Katie no outro vago e foram at o restaurante do trem, a fim de se assentarem para tomar 
um cappuccino e discutir o roteiro. Durante a viagem, Ted havia lido bastante e agora era um superf do guia turstico de Cris. Os olhos dele brilharam s de falar 
das atraes que os aguardavam na Escandinvia.
      - E tem ainda esse Castelo de Fredericksborg, na Dinamarca, que parece bastante interessante tambm, disse ele. Eu sei que voc gosta de castelos, e este aqui 
fica a mais ou menos uma hora de Copenhague. Achei que seria um lugar que voc iria gostar de visitar.
      - Puxa, voc se lembrou de que eu gosto de castelos, disse ela, sorrindo.
      - E voc se lembrou de que eu gostava de manga. Acho que ns dois estamos prestando ateno nas coisas de que o outro gosta j h muito tempo. S no tnhamos 
nos dado conta disso.
      - Eu adoraria conhecer pelo menos um castelo durante a viagem. Ou talvez mais, se tivermos tempo. E voc? O que voc quer ver? Acho que no vamos encontrar 
muitas mangas por aqui, no.
      - Tem um museu em Oslo, disse Ted, mostrando um pequeno pargrafo no guia turstico. Diz aqui que a Kon-Tiki original est l.
      Cris esperou Ted explicar. Kon-Tiki parecia ser algo relacionado com a Polinsia e, se fosse, faria sentido Ted estar interessado em passar por l. Afinal, 
quando garotinho, ele havia morado no Hava. A nica coisa que Cris no estava entendendo era por que um museu na Noruega teria uma pea da Polinsia.
      -  a jangada de Thor Heyerdahl. Ele saiu do Peru rumo s ilhas da Polinsia Francesa, a fim de provar que os povos primitivos da Amrica do Sul poderiam ter 
chegado  Polinsia passando pelo Pacfico.
      - Ah, disse Cris. E esse tal de Thor era noruegus, suponho.
      Ted acenou que sim.
      - Acho que a Katie vai querer ver isto aqui, disse ele, apontando para as palavras Lille Havfrue, no guia.
      - O que ?
      -  uma esttua da Pequena Sereia. Aquela do conto de fada escrito por Hans Christian Andersen.
      - , com certeza teremos de passar por l, disse Cris, concluindo. Vai ser divertido.
      - J 't sendo, disse Ted.
      Depois, aproximou-se de Cris e ficou brincando com uma mecha de cabelo que caa sobre os ombros dela.
      - E s vai ficar melhor, disse.
      Cris sorriu, deixando transparecer toda a deliciosa expectativa que trazia no corao. E, ainda sorrindo, disse:
      - Mal posso esperar pelo dia de amanh.
      

12
      O trem chegou  estao de Veneza s 2:00h da madrugada. Os trs pegaram a bagagem e passaram pelo belo terminal de passageiros,  procura do trem que os levaria 
rumo norte, at Salzburgo, na ustria.
      J estavam no meio da plataforma quando Katie parou e disse:
      - Pessoal, a gente precisa resolver um negcio.
      - Podemos conversar no trem, disse Cris. Mas agora temos de correr pra fazer a conexo pra Salzburgo.
      - No, precisamos conversar agora. Preciso ser franca com vocs a respeito de uma coisa.
      Cris achava que Katie iria dizer que havia se sentido excluda, quando ela e Ted saram para tomar cappuccino no vago-restaurante, uma hora antes de chegarem 
a Veneza. J estava at ensaiando um pedido de desculpas por terem deixado a amiga de lado e planejado pegar o trem para Salzburgo, que partiria dentro de quarenta 
minutos. Cris tinha esperanas de que, se estivessem entre os primeiros passageiros a embarcar, conseguiriam assentos melhores do que os da viagem para Roma.'
      - Quero ficar aqui, disse Katie.
      - Ficar aqui onde? perguntou Cris, olhando em redor.
      - Em Veneza. A nica coisa que eu realmente queria ver era uma gndola. Alm disso, o Marcos mora aqui. Ele me falou muito desta cidade. Vocs se lembram? 
O pai dele tem uma joalheria. Gostaria de ficar um dia ou dois aqui e ento partir pra Noruega.
      - Tudo bem, acho que podemos fazer isso, disse Ted.
      Cris hesitou um pouco antes de concordar com a idia. Ela at que queria passear de gndola tambm, mas Ted havia lhe falado tanto sobre a Escandinvia durante 
a ltima hora de viagem, que agora sua cabea se achava cheia de vises de castelos e sereias.
      - Eu sei que deveria ter falado antes, continuou Katie. Mas fiquei pensando um tempo se isso seria agir como "membro da equipe" e acabei no dizendo nada. 
S quando descemos do trem me dei conta de que talvez eu nunca mais tenha a oportunidade de chegar to perto de uma gndola de verdade. Eu quero muito ver uma. No 
preciso nem passear nela; s quero v-la.
      - Bom, ento, vamos ter de arrumar um lugar pra ficar, disse Ted, virando-se para a sada da estao, em vez de seguir para a plataforma de embarque. Vamos 
perguntar no posto de informaes. Como j  madrugada, vamos ter de pegar o que der. Vocs esto de acordo?  que um quarto a essas horas da noite pode sair bem 
caro.
      - Acho que vale a pena, pelo menos por uma noite, disse Katie. Alm do mais, ainda no gastamos nada com hotel. Temos dinheiro pra "torrar".
      - Eu no estou com essa grana toda no, disse Cris.
      - Ou ento, sabem o que podemos fazer? disse Katie. Ligar para o Marcos e ver se ele pode nos hospedar.
      - Ser que no vai parecer que estamos forando a barra? perguntou Cris. Parece que estamos na cola dele. Ele saiu de Roma no trem das seis e ns o seguimos, 
no trem das oito e meia. Isso  meio estranho pra mim.
      - Tudo bem, no precisamos ligar pra ele, disse Katie. Podemos arrumar um lugar pra passar a noite e dar um pulo na joalheria do pai dele amanh. Eu gostaria 
muito de encontr-lo novamente.
      Cris procurava analisar o que estava acontecendo. Ser que a paixo de Katie era realmente pelas gndolas? Ou ser que ela estava ficando interessada em Marcos, 
como havia se interessado por Antnio no vero passado? Afinal de contas, a viagem at Veneza havia sido a primeira vez em que viajavam s os trs, com exceo, 
 claro, do trajeto entre Capri e Roma. Cris se perguntava se Katie havia sentido falta de um parceiro de viagem, quando ela e Ted se retiraram para o vago-restaurante. 
Talvez ela no estivesse gostando muito da idia de ficar "sobrando", j que Ted e Cris estavam juntos. E talvez por isso quisesse passear por Veneza com Marcos, 
a fim de adiar por mais alguns dias o papel de vela.
      Ted no teve dificuldade em aceitar a mudana de planos. Com seu jeito tranquilo de ser, sugeriu que Katie e Cris se assentassem no comprido banco de madeira 
polida que ficava nomeio da estao e esperassem com a bagagem, enquanto ele ia buscar algumas informaes.
      Enquanto esperavam, Cris procurava um jeito de perguntar a Katie sobre Marcos. Queria saber tambm se a amiga estava se sentindo deixada de lado por ela e 
Ted. No entanto era cada vez mais difcil para Cris ordenar os pensamentos. O alto teto da estao fazia com que a barulheira em redor ecoasse, e era como se todo 
aquele rudo ressoasse em sua cabea. O efeito da cafena do cappuccino parecia ter passado de repente, de uma s vez, e agora Cris mal conseguia manter os olhos 
abertos, quanto mais conversar sobre os sentimentos de Katie.
      Cris ficou feliz ao ver que Ted se aproximava. Pensava que talvez se sentiria bem mais animada, com a sbita mudana de planos, depois que eles se acomodassem 
num hotel, dormissem um pouco e tomassem um bom caf da manh.
      - Achei um lugar em que podemos ficar, disse Ted. E no foi nada fcil, considerando o horrio. S que eles s aceitam pagamento em dinheiro. Quanto vocs 
tem a?
      Os trs ajuntaram todo o dinheiro que tinham, mas no conseguiram chegar nem  metade da quantia necessria. Era um hotel bastante caro.
      - Qual o motivo de eles no aceitarem traveler's checks * ? perguntou Cris.
      - Sei l, o hotel  deles. Foram eles que atenderam o telefone. Eles  que ditam as regras.
      - Ser que no tem nenhum lugar aqui na estao onde a gente possa trocar o dinheiro? perguntou Katie.
      - J olhei isso. O banco s abre s seis da manh. Se tivssemos um carto de crdito ou um carto de banco, poderamos usar o caixa automtico. Mas, pelo 
visto, ningum aqui pensou nisso.
      - Isso quer dizer que teremos de esperar at s seis da manh, trocar o dinheiro, pegar o txi aqutico para Veneza, ou qualquer coisa parecida, e a, quando 
for umas sete horas, fazer o check in no hotel, resumiu Cris.
      - Exatamente. E a diria termina ao meio-dia, disse Ted.
      - Eu no estou a fim de pagar tudo isso s pra ter onde dormir por cinco horas, disse Katie.
      - Poderamos dormir aqui nos bancos, sugeriu Cris.
      - Ou ento pegar um trem pra Salzburgo, disse Katie baixinho. Desculpa, gente. Eu acabei bagunando todo o nosso esquema.
      - No bagunou, no.
      - Baguncei, sim. Tnhamos um roteiro e, agora, perdemos o trem. E como no havamos planejado nada com antecedncia, no h o que ser feito. Ficamos presos.
      - Eu aproveitei e dei uma olhada no horrio dos trens, disse Ted. Tem um que sai s 8:02h para Salzburgo. Faz apenas uma escala em Vilach, na hora do almoo, 
fica parado l por trs horas e depois segue viagem. Isso significa que chegaramos em Salzburgo amanh s sete da noite.
      - Mas a vamos ficar o dia inteiro dentro do trem, disse Katie. O trem que amos pegar no era direto? Sem escalas?
      Ted fez que sim com a cabea.
      - Sim, mas agora no podemos olhar pra trs. J estamos aqui. O que vocs querem fazer?
      - Que horas so?
      Cris precisava de um relgio novo. O dela havia se quebrado h meses, mas ela ainda no havia comprado outro para subistitu-lo.
      - So 3:10h da madrugada.
      - No  a toa que estou com a impresso de que um caminho passou por cima de mim, disse Katie. Vamos dar o fora daqui.
      - E pra onde vamos? Vamos sair perambulando pelas ruas de Veneza? perguntou Cris.
      - No h ruas aqui, s canais, j esqueceu? Mas, no. Vamos simplesmente pegar o prximo trem e ir pra onde ele nos levar, disse Katie.
      - E a gndola que voc queria ver? perguntou Cris.
      - Agora j no estou ligando mais. Fiz mal em insistir que parssemos aqui e sassemos fora do roteiro, depois de tudo combinado. Vamos ver se conseguimos 
voltar para o roteiro original o mximo que der. S uma coisinha: ser que no d pra chegar  terra da Novia Rebelde sem gastar o dia todo, no?
      Enquanto Ted consultava um pequeno panfleto com o horrio dos trens, Katie continuava falando.
      -  que eu gostaria de dar uma parada em Salzburgo e passear um pouco por l. Afinal,  a nica cidade da ustria que conheo um pouco mais.
      - Isso porque voc j viu A Novia Rebelde umas cem vezes, acrescentou Cris.
      Ficou pensando na letra de uma das msicas do filme que dizia "Como resolver um problema como a Maria?" J tinha a prpria verso na ponta da lngua: "Como 
resolver um problema como a Katie?"
      - Tem um trem saindo s 10:30h de Innsbruck. Parece que ele chega a Salzburgo s 2:30h. Poderamos arrumar um lugar pra ficar e sair pra conhecer a cidade 
 tarde, disse Ted.
      - Isso quer dizer que vamos dormir aqui na estao as prximas duas horas? perguntou Cris.
      Ted olhou para os quatro bancos que havia ali. Eram compridos e estavam um de costas para o outro.
      - Eu sempre me perguntei como deve ser a vida de um "sem-teto". Agora  a minha chance de descobrir.
      Cris nunca havia parado para pensar naquilo.
      S voc mesmo, Ted. 
      Para Katie e Ted no foi nenhum problema tirar uma soneca naqueles bancos duros. J Cris no conseguia pegar no sono. Ficava apreensiva ao pensar nas pessoas 
passando por l, vendo-os dormir. E tinha medo tambm de serem roubados, mesmo sabendo que as bagagens estavam todas amarradas aos bancos. Embora a estao no estivesse 
muito cheia, o nmero de pessoas circulando por l era suficiente para deix-la apreensiva.
      Quanto mais pensava naquela situao, mais contrariada se sentia com Katie, pela forma como ela havia bagunado todo o roteiro de viagem. Ao mesmo tempo, Cris 
queria ser compreensiva e perdoar a amiga. Procurava se lembrar do acampamento, quando havia desabafado tudo o que estava sentindo na van. Seus amigos haviam sido 
superlegais com ela, resolvendo mudar a programao a fim de agrad-la. Portanto Cris sabia que no era justo negar a Katie o mesmo tipo de ateno que ela prpria 
havia recebido dias atrs.
      Como Cris no queria ficar ainda mais chateada com Katie, resolveu voltar os pensamentos para o namorado, que dormia todo encolhido no banco  sua frente. 
Ted havia protegido a cabea com o capuz da blusa de moletom azul-marinho, e seu semblante aparentava cansao. Cris ficava impressionada com a facilidade que ele 
tinha de simplesmente se deitar e "apagar", em qualquer lugar e sempre que sentia vontade. Mas isso no deveria surpreend-la. Durante todos aqueles anos, Ted conseguira 
se "desligar" emocionalmente, em momentos em que ela se sentia "desperta" por completo, por assim dizer, em relao aos seus sentimentos por ele. Ou pelo menos, 
era assim que Cris enxergava a situao.
      E ento, Ted? O que foi que ns decidimos? Que no iramos mais conversar sobre terminar o namoro, certo? Mas o que isso representa realmente? Vamos continuar 
sendo o que sempre fomos um para o outro? Amigos? Amigos chegados? Amigos "para sempre"por mais cinco anos, at que voc acorde pra mim? Eu estou aqui, acordadssima. 
Tenho certeza de que amo voc e sempre amarei. Estou pronta pra dar o prximo passo. E voc?
      Cris fechou os olhos e virou-se para o outro lado, procurando a todo custo se desligar tanto fsica quanto emocionalmente e pegar no sono. Entretanto, apesar 
do empenho, no conseguiu. Em vez disso, seus pensamentos se voltaram para sua famlia. Normalmente ela ligava para os pais uma vez por ms e escrevia-lhes uma cartinha 
cada uma ou duas semanas. Alis, um dia antes de Ted e Katie chegarem, ela havia conversado com a me por cerca de vinte minutos. E mais uma vez sua me lhe dissera 
o quanto estava torcendo para que Cris se divertisse bastante na viagem. Talvez fosse bom telefonar para casa. Que horas seriam na Califrnia? Ah, sua cabea estava 
cansada demais para fazer as contas.
      Alm do mais, o que ela diria a eles? "Oi, gente. Estamos aqui em Veneza, dormindo nos bancos da estao de trem. Na maior parte das vezes comemos porcaria 
e nem sempre conseguimos ficar os trs juntos. Mas no se preocupem. A viagem 't tima. Ns trs estamos nos dando superbem."
      No. Cris sabia que no poderia ligar para os pais, agora. No enquanto no tivesse um bom relatrio para dar. Naquele momento, concluiu, no adiantaria nada 
que eles soubessem dos detalhes da viagem. Seria melhor telefonar-lhes depois, quando estivesse de volta ao seu quarto e  sua rotina.
      As coisas iro melhorar quando chegarmos  ustria. Tm de melhorar. Ento mandarei um postal pra minha famlia, e nenhuma das informaes que eu escrever 
ser falsa ou "forada".
      A viagem de trem de Innsbruck at Salzburgo foi bem agradvel. Na cabina em que estavam, havia camas retrteis chamadas couchettes, e Cris aproveitou para 
dar uma esticada e dormir profundamente durante as primeiras quatro horas de viagem. Quando acordou, Ted lhe disse que havia caf da manh para ela. Era um dos tomates 
ovais, um pouco de queijo e um pozinho duro, que ele havia comprado antes da viagem. Cris comeu feliz o lanchinho e dividiu a gua com Katie e Ted.
      Quase no conseguiram chegar a tempo de pegar o trem para Salzburgo. Mas, assim que se acomodaram, perceberam que seus assentos, ao lado da janela, lhes favoreciam 
com uma belssima vista. Era uma das paisagens mais lindas que Cris j havia visto desde que chegara  Europa. Era bem mais bonita que a vista da janela da van do 
Antnio. Esse era o tipo de experincia que ela desejara apreciar juntamente com Ted durante a viagem. Enquanto olhavam pela janela, Cris chegou mais perto dele, 
para que pudessem trocar comentrios sobre as enormes cadeias de montanhas que se estendiam pelo caminho, a perder de vista.
      Ao chegarem a Salzburgo, Katie estava nitidamente mais quieta que o normal. Os trs se dirigiram a uma Gasthof, recomendada no guia turstico, e pediram dois 
quartos. A dona da pousada austraca, alis uma senhora bastante simptica, disse-lhes que o Jause seria servido entre s 16:00 e 17:00h e, em seguida, explicou 
que era costume austraco tomar caf naquele horrio. No entanto, Cris, Ted e Katie estavam com muita fome para esperar o horrio do caf. Pediram licena educadamente 
e foram procurar um restaurante onde pudessem fazer uma refeio completa.
      Deixaram a pesada bagagem na pousada, trocaram o dinheiro e foram visitar os pontos tursticos da cidade. Uma vez l fora, Cris se arrependeu de no terem 
esperado um pouco mais e tomado um banho antes de sarem pelas ruas de Salzburgo. Para no se sentir pesarosa, procurou se convencer de que seria muito melhor tomar 
o banho  noite, quando voltassem para a pousada.
      Decidir onde iriam comer at que foi fcil. Depois de andarem dois quarteires, chegaram a um restaurante bem grande, ao ar livre. Na rea externa havia vrias 
mesas protegidas por guarda-sis, o que lhes permitia avistar uma fortaleza simples no topo da colina e ver vrias carruagens desfilarem pelas ruas de pedra, puxadas 
por cavalos.
      Depois de comerem um Schnitzel * e discutirem os planos para o dia, Katie disse:
      - Precisamos achar aquela fonte onde os filhos do Capito Von Trapp ** danaram e cantaram no filme. Acho que havia umas esttuas de cavalo em torno dela.
      Ted consultava o guia turstico, enquanto Cris saboreava um strudel *** de cereja de sobremesa. Ela no tinha nenhuma pressa de sair correndo para conhecer 
a cidade, visitar lugares, fazer compras e coisas do tipo. Salzburgo parecia desfilar por si s diante dela, mostrando-lhe muitos de seus encantos.
      Naquele momento, um jovem casal passava pelo caf, passeando com um cachorrinho todo peludo. O rapaz sussurrou alguma coisa ao ouvido da moa, que soltou uma 
risadinha alegre e delicada. Depois, ele piscou para ela. Cris observava os dois.
      Ainda vai chegar o dia em que eu e voc, Ted, iremos andar lado a lado. E um dia voc ainda dar uma piscadela dessas pra mim.
      Cris passou a observar as duas mulheres que estavam assentadas na mesa ao lado deles. Enquanto elas conversavam, Cris pensava no quanto os austracos eram 
diferentes dos italianos. Na ustria, a lngua que falavam lembrava um rio caudaloso, fluindo calma e naturalmente. J na Itlia, sua impresso fora de que as pessoas 
queriam convencer umas s outras, no importando, para tanto, a quantidade de gestos e de exagero que teriam de empregar. Em dado momento, quando estavam na cpula 
da Baslica de So Pedro, um lugar j bastante apertado por sinal, Cris tivera a mesma impresso de Marcos. Quanto mais perto chegava dela, mais alto falava.
      - Acho que a Cris vai querer dar uma passada neste lugar aqui, disse Ted, lendo algo no guia turstico.  um castelo chamado Schloss Hellbrunn. A gente deveria 
ir l primeiro, caso esteja fechado  noite.
      Um sentimento muito gostoso tomou conta de Cris, ao perceber que Ted tambm estava prestando ateno nas coisas de que ela gostava. Ele at havia se lembrado 
de que ela queria visitar o maior nmero de castelos que encontrassem. Toda feliz, Cris deixou que ele mesmo descobrisse como chegar ao Schloss Hellbrunn.
      A beleza singular de Salzburgo continuava a encantar Cris,  medida que caminhavam pelos cmodos do castelo. O guia lhes chamou a ateno para a mesa de jantar, 
que ficava no jardim. Tanto ela quanto as cadeiras em volta pareciam ser feitas de cimento. De repente, vrios jatos verticais ergueram-se dos assentos e do meio 
da mesa, molhando todo o grupo de turistas com um leve spray.
      Depois que as gargalhadas cessaram, o guia continuou:
      - Marcus Sitticus, que viveu neste castelo, tinha um grande senso de humor. Gostava muito de surpreender os convidados com estes jatos, durante os piqueniques 
que faziam no vero. E, para que vocs possam dar o devido valor a esta inovao, lembrem-se de que tudo isto foi construdo no incio do sculo XVII.
      O guia os conduziu at a sada do jardim, onde havia uma sucesso de jatos d'gua, de ambos os lados. Ao esguicharem, eles formavam um arco para que os visitantes 
pudessem passar. De mos dadas, Ted e Cris passaram primeiro, caminhando rapidamente sob o refrescante spray d'gua. Katie vinha logo atrs, mas, no momento em que 
iniciou a travessia, os jatos mudaram de direo, atingindo-a em cheio, de todos os lados.
      Ensopada, Katie exclamou, em meio s gargalhadas:
      - Agora entendo por que as mulheres daquela poca usavam vestidos to compridos. Era para se protegerem, quando caras malucos como esse ofereciam jantares 
em seus castelos. Ser que os convidados desse homem voltavam aqui depois dessas brincadeirinhas?
      De volta  Gasthof, Cris pensava, encolhida debaixo dos cobertores, no quanto gostaria de visitar Salzburgo novamente, caso tivesse outra oportunidade.
      No dia seguinte, anotou seus pensamentos no dirio, durante a viagem de trem para a Alemanha. Parte do que escreveu foi:
      
      Nunca me esquecerei dos encantos desta cidade. Quando passamos pelo local onde Mozart nasceu, fiquei pensando em como a msica dele ainda ressoa por aqui, 
de uma forma majestosa, eterna. Segundo o meu guia turstico, j havia gente morando em Salzburgo cerca de quinhentos anos antes de Cristo nascer, por causa das 
salinas encontradas aqui. Isso me deixa muito impressionada. J a nica coisa que pareceu impressionar a Katie foi a quantidade de fontes que vimos, quando samos 
para passear ontem  noite. E em cada fonte onde havia a esttua de um cavalo, ela nos fazia parar e cantar a msica do D-R-Mi. Coitadinha da Katie. Ficou tentando 
fazer com que eu e o Ted cantssemos com ela,  beira da fonte, mas acabamos deixando que ela fizesse um solo todas as vezes.
      
      O trem parou na estao de Munique, na Alemanha, duas horas depois de deixar Salzburgo. Cris jogou o dirio dentro da mochila e desceu do trem, atrs de Katie 
e Ted. Demoraram um pouco at descobrir qual trem teriam de pegar em seguida. Mas depois, com a ajuda da funcionria do guich, fizeram a reserva num dos mais novos 
trens sem escalas da Alemanha. A funcionria lhes explicou que ele os transportaria para Hamburgo, no norte do pas, a uma velocidade de 260 quilmetros por hora. 
Tiveram de pagar uma quantia extra para poder viajar nesse trem, mas at j haviam se acostumado com isso na Itlia.
      Em vez de cabinas, o trem tinha confortveis poltronas, semelhantes aos assentos de primeira classe de um avio. Em cada uma delas havia um fone de ouvido 
e um dial, para que o passageiro pudesse escolher a msica que mais lhe agradasse.
      - Que melhoria em relao aos trens da Itlia, hein? comentou Katie. Quanto tempo demora a viagem?
      - Acho que a moa disse seis horas at Hamburgo, respondeu Ted, assentando-se ao lado de Cris. Nada mal isto aqui, hein?
      - Temos de parar em Hamburgo pra comprar hambrgueres, disse Katie, que estava assentada de frente para Cris e Ted.
      Haviam colocado as bagagens no banco vazio, ao lado de Katie.
      - Vocs acham que o hambrguer foi inventado em Hamburgo? perguntou Cris.
      -  possvel que seu guia turstico traga alguma informao sobre isso. Ele tem sido bem prtico nestas horas, disse Ted, abrindo a mochila para pegar o livro.
      - No tem uma histria de um cozinheiro que inventou o hambrguer para um conde sei l das quantas? perguntou Cris.
      - Acho que voc 't falando do sanduche, disse Ted. J ouvi essa histria tambm. O Conde de Sandwich. O cozinheiro dele inventou o sanduche pra ele. No 
acredito que tenha existido nenhum Conde de Hamburgo, muito embora o guia afirme que Hamburgo foi fundada na Era Medieval. Diz tambm que a cidade foi quase destruda 
na Segunda Grande Guerra. Que horror!
      - Posso dizer uma coisa? principiou Katie, jogando o corpo para a frente. Acho que voc, Ted, 't pregando os olhos demais neste guia. Estou comeando a duvidar 
de que estamos mesmo numa aventura.
      -  um excelente guia, disse ele, tirando os olhos do livro. Mas no diz nada aqui sobre hambrgueres em Hamburgo.
      - Talvez tivesse alguma informao sobre isso nos outros guias que eu deixei em Basel, disse Cris.
      - Voc tinha outros guias tursticos? quis saber Ted.
      - Tinha sete. Um deles era s sobre a Itlia e um outro s sobre a Escandinvia.
      - Voc deveria ter trazido todos. Estou ficando bastante interessado nesse negcio de desvendar a histria desses lugares, disse Ted.
      Cris olhou para Katie como se dissesse "'t vendo? Eu bem que avisei".
      - Eu no lhe impedi de trazer seus guias tursticos, disse Katie com impacincia. S falei que eles ocupariam muito espao, e de fato ocupariam. No venha 
jogar a culpa em mim, Cris. Se voc realmente quisesse, poderia t-los trazido.
      Cris no contava com aquela reao de Katie.
      - Tambm no  assim, Katie! Acho que o guia que eu trouxe era o melhor de todos. E ele j deu uma boa ajuda pra gente.
      Katie se virou, ajustou os fones de ouvido e se encolheu na poltrona, cobrindo-se com a blusa de moletom. A sada do ar-condicionado ficava bem em cima deles. 
Com frio, Cris entrelaou o brao no de Ted, aproximando-se dele a fim de se aquecer.
      - Sobre o que voc 't lendo?
      Antes, porm, que Ted pudesse lhe responder, Katie se levantou.
      - Seis horas  tempo demais. Vou ver se dou uma volta e conheo algumas pessoas, disse ela, tirando os fones de ouvido.
      Cris teve vontade de dizer "S tome cuidado pra no se trancar no banheiro desta vez". Contudo, embora a lngua estivesse "coando", fez um esforo e ficou 
quieta.
      Ento, como se pudesse de alguma forma imaginar o que Cris estava pensando, Katie disse:
      - No se preocupem. Volto antes de chegarmos a Hamburgo.
      Com isso, a jovem passou rapidamente por Ted e Cris e se ps a andar pelo extenso corredor.
      

13
      To logo Katie se afastou deles, Cris pensou:
      timo! Agora eu e o Ted poderemos ficar juntinhos, conversando baixinho, s ns dois.
      Imediatamente, porem, um outro pensamento lhe passou pela cabea.
      A Katie parecia muito contrariada. Talvez seja melhor eu ir at l e descobrir o que houve.
      - Voc acha que a Katie 't legal? perguntou Ted.
      Cris continuava relutante. Queria ficar ali, agarrada ao brao de Ted e simplesmente ignorar o mau humor de Katie, como se tudo estivesse normal.
      - No sei. Acho que ela 't chateada, disse Cris, suspirando.
      - Vou at l ver se 't tudo bem, disse Ted.
      - No, pode deixar. Eu irei.
      - Acho que seria melhor se eu fosse, Cris. E se ela estiver zangada com voc?
      - Zangada comigo? E por que ela estaria? O que foi que eu fiz? perguntou Cris, na defensiva.
      - No sei, disse Ted. Talvez eu consiga descobrir.
      Contra a vontade, Cris soltou o brao de Ted e pegou o guia turstico, que ele lhe devolveu. Ao sair, Ted nem sequer olhou para Cris. Caminhou com passos largos 
pelo corredor, na direo que Katie havia ido.
      - Essa  boa, mesmo! Desde quando Ted virou o conselheiro da turma? Isso era o papel do Douglas. O Ted devia estar aqui, do meu lado.
      Cris ficou observando Ted at ele passar pela porta de correr, entrando no outro compartimento. Sozinha ali, ela se perguntava se deveria escrever sobre seus 
desapontamentos no dirio. No entanto no sentia vontade de escrever, como havia sentido no caminho de Salzburgo para Munique. Em vez de pegar o dirio, Cris puxou 
a blusa de moletom da mochila de Ted e cobriu-se com ela, a fim de proteger os braos do ar-condicionado e de se sentir perto do namorado. J que no podia ter os 
braos dele a lhe envolver, pelo menos podia ficar com as mangas da blusa dele.
      Com o olhar fixo na porta, Cris esperava atenta o retorno dos amigos. Chegou a pensar em ir procur-los, mas a se lembrou de que teria de carregar todas as 
malas consigo.
      Enquanto esperava, os fones de ouvido lhe foram bastante teis. A paisagem que avistava lembrava-lhe a ustria. Eram colinas verdes, pequenos vilarejos, alguns 
tneis e uma estao de trem aqui e ali. A principal diferena era que a velocidade com que viajavam era to alta, que dava apenas para ver um vulto da paisagem. 
Ademais, acabava sendo difcil para Cris assimilar a idia de que agora estavam na Alemanha, e no na ustria. Durante a viagem no trem italiano, em que tivera de 
botar a cabea para fora, por causa do forte cheiro de alho, tinha sido fcil perceber que estavam na Itlia.
      Cris escolheu uma estao de msica clssica, deixando que o som do violoncelo a consolasse e lhe fizesse companhia. Ao mesmo tempo, procurava no dar muita 
importncia para  sada abrupta de Katie nem para o fato de Ted ter ido atrs dela para conversar.
      A fim de se distrair, Cris se ps a folhear o guia turstico. O que chamou sua ateno com relao  Alemanha foi a foto de um castelo azul claro com vrias 
torres pontiagudas, que pareciam furar os cus. Ficava num lugar bem alto, com vistas para uma lagoa azul, de guas cintilantes, e vastas colinas verdes. Uma floresta 
cercava o castelo, como se fosse um carpete verdinho. Sob a foto, liam-se as palavras "Famoso Castelo Neuschwanstein".
      Cris pegou uma caneta e comeou a marcar os lugares que gostaria de visitar. Havia acabado de circular um passeio pelo Rio Reno, quando Ted voltou e se assentou 
ao lado dela.
      - Como ela 't? perguntou Cris.
      - 'T bem. S estava precisando de um pouco de espao.
      - Ela 't com raiva de mim?
      - Acho que seria bom se vocs duas esclarecessem tudo.
      - Como assim, "tudo"?
      - Ah, isso a voc vai ter de perguntar pra ela.
      O jeito que Ted falava, parecia que havia um problema enorme, pendente, entre Cris e Katie. Cris comeou a ficar impaciente com ele, da mesma forma que estava 
com a amiga.
      - Ser que eu devo ir falar com ela? Onde ela 't?
      - 'T no vago seguinte, sozinha.
      - Vou l falar com ela.
      S que Cris no estava com vontade de ir at l. O que ela queria era que Katie voltasse, e os trs conversassem abertamente sobre o problema.
      - Tem certeza de que voc no quer ir comigo? disse ela ao passar por Ted e colocar a blusa de moletom dele sobre a poltrona.
      - Voc quer que eu v? respondeu ele, surpreso.
      - Sim. Acho que seria melhor se discutssemos essa questo juntos, seja l o que for. Afinal de contas, estamos viajando em grupo.
      - Tem razo, disse Ted, desviando o olhar. Mas voc pode se assentar. A Katie vem vindo a.
      Cris voltou para o seu lugar, e Katie se assentou bruscamente na poltrona de frente para Cris. O rosto dela estava bem vermelho.
      - Bem, principiou ela. Resolvi que no quero mais ficar sozinha e ter o meu espaozinho, s pra mim. Logo depois que o Ted saiu, um cara muito esquisito veio 
e se assentou do meu lado e me perguntou se eu aceitava uma cerveja.
      - O que voc fez? perguntou Cris.
      - Mandei ele ir para o espao. S que ele continuou l. Ento, resolvi voltar pra c. Me desculpem por ter sado daquele jeito.
      - Tudo bem, disse Cris.
      - No, no 't tudo bem. Preciso contar algo a voc, Cris. Eu falei para o Ted; mas pedi a ele que no lhe contasse nada, porque eu  que queria contar.
      Cris se preparou para o que ia ouvir. Ento, depois de um longo silncio, Katie comeou:
      - Eu conheci um cara na ltima semana de aula. Que hora pra se conhecer algum, hein? No lhe contei nada sobre ele, Cris, porque no havia muito o que dizer. 
Ele joga no time de beisebol da Universidade Rancho Corona e coincidentemente eu fui ao ltimo jogo da temporada. O nome dele  Mark. Camisa 14.  s isso que sei 
sobre ele. Depois do jogo, conversamos um pouco e nos demos muito bem. O problema  que no consegui parar de pensar nele um minuto sequer durante as duas ltimas 
semanas.
      Para Cris aquilo no era nenhuma novidade. Quando Katie entrava num projeto novo - fosse ele qual fosse, inclusive relacionamentos - mergulhava de cabea. 
Havia sido assim no terceiro ano no colgio, quando namorara o Michael.
      - Voc o ver novamente? perguntou Cris.
      - Tenho quase certeza de que ele voltar pra Rancho Corona quando as aulas recomearem. Mas no  isso que 't me incomodando. A questo  que estou sofrendo 
uma crise de cimes violentssima. Fico morrendo de inveja de ver voc e o Ted juntos. J no estou aguentando mais. Sei que  horrvel ter de falar isso pra voc, 
mas o Ted me disse que era melhor falar abertamente sobre a questo do que ficar guardando esses sentimentos.
      - Tem razo, disse Cris. E o que eu posso fazer pra voc se sentir melhor?
      - Nada.  justamente esse o problema. Voc no 't fazendo nada pra me deixar assim. Alis, acho que vocs esto at maneirando bastante e no esto ficando 
juntos o tanto que gostariam, pra que eu no me sinta excluda.
      Cris olhou de relance para Ted. Ele parecia calmo e tranquilo, com a ateno fixa em Katie. Pela forma como Katie falava, Cris tinha certeza de que no estava 
sendo nada fcil para ela conversar sobre aquilo.
      - Eu realmente queria ter algum. De verdade mesmo, disse; Queria ter esse tipo de relacionamento que vocs tm. Ser que  errado desejar isso?
      Foi ento que um rapaz mais velho, que vinha andando pelo corredor, parou e ficou olhando para Katie. Parecia que estava h um ms sem tomar banho.
      - Veja s quem 't aqui! disse ele ao v-la.
      Katie parecia petrificada. Pela expresso no rosto da amiga, Cris deduziu que ele era o cara que lhe oferecera a cerveja na outra cabina.
      - Este assento no 't disponvel, disse Ted, sem retirar as malas da poltrona.
      - No estou vendo ningum assentado aqui, respondeu o outro.
      Pelo jeito de falar, parecia americano. No entanto, pelo modo como engolia as slabas, dava a impresso de estar drogado ou bbado, ou pelo menos era o que 
Cris achava.
      - Voc s poder se assentar aqui se provar que pagou pelo assento.
      Ento o rapaz pegou uma das mochilas e jogou-a no cho, aos ps de Ted.
      Cris sentiu o corao disparar. Nunca havia visto ningum desafiar Ted daquela forma. Ser que ele iria se levantar e dar um soco no nariz daquele cara?
      - J estvamos de sada, disse Ted calma e tranquilamente.
      Depois, pegou a mochila de Cris e a entregou a ela, fazendo um sinal com a cabea para que se levantasse. Cris se levantou e, em seguida, Ted entregou a Katie 
a bagagem dela, fazendo-lhe o mesmo sinal com a cabea.
      - Muito bem. Pode ficar com o assento todinho pra voc, disse Ted ao rapaz.
      Em seguida, dirigiu-se ao vago restaurante, sem dizer mais nada. Cris e Katie o seguiam, logo atrs.
      - Ser que ele 't nos seguindo? perguntou Katie a Cris. No estou muito a fim de olhar pra trs pra descobrir.
      Cris se virou e olhou discretamente.
      - No. Ele est indo para o vago atrs do nosso. Voc quer voltar para os nossos lugares, Ted? perguntou Katie. Acho que ele entendeu sua indireta.
      - No. Na verdade, no sou muito bom pra lidar com bbados. E j que estamos quase chegando ao restaurante,  melhor aproveitarmos para comer algo.
      Quando chegaram ao restaurante, depois de andarem oito vages, encontraram uma enorme fila de espera para pegar uma mesa. Cris sabia que na Europa era bastante 
comum almoar ali pelas duas da tarde. No orfanato onde trabalhava, em Basel, tambm era assim. E como era domingo, era mais provvel que as pessoas se demorassem 
um pouco mais para almoar.
      - Pode ser que tenhamos de esperar um pouco, disse Cris, prevenindo os amigos.
      - Mas, s pra andar os oito vages e depois voltar pra c, vamos gastar cerca de meia hora. No ligo de esperar aqui, isto , se vocs no se importarem, disse 
Katie.
      - Por mim, tudo bem.
      Na verdade, a atmosfera estava bem romntica. Alis, se no tivessem interrompido Katie no meio de sua confisso, Cris no teria tido o menor problema em ficar 
juntinho de Ted na fila,  espera de uma mesa. Dadas as circunstncias, porm, ela sabia que aquela no era uma boa hora de ficar abraadinha com ele, a fim de ocupar 
menos espao.
      Enquanto esperavam, ningum falou nada. Havia muito barulho em redor, muita gente falando ao mesmo tempo. Os quatro que estavam na frente deles conversavam 
num dialeto alemo, falando alto e rindo mais alto ainda.
      Quando finalmente conseguiram uma mesa, os trs estavam famintos e doidos para fazer uma refeio completa. E o cozinheiro-chefe do restaurante do trem no 
os decepcionou. Pediram rosbife acompanhado de batatas, cenouras, nabo, uma cremosa sopa de queijo com brcolis e pezinhos. Para a sobremesa, Cris pediu ch quente 
e torta de ma. O garom lhe trouxe, ento, uma chaleira de cermica branca e uma xcara do mesmo material.
      - Katie, quando formos colegas de quarto na Rancho Corona, podemos comprar duas chaleiras desta. A, quando tivermos de ficar acordadas  noite pra estudar, 
podemos fazer uma "festinha do ch" pra ns duas.
      Katie sorriu. A excelente refeio havia feito um bem tremendo a eles. Os trs saboreavam a sobremesa sem pressa, como os outros europeus que se achavam ali.
      Katie comentou que o caf era bem escuro e forte e depois perguntou ao Ted o que ele estava achando do cappuccino.
      - No  to bom quanto o da Itlia, mas no  ruim.
      - Katie, principiou Cris, segurando a xcara de ch com as duas mos, a fim de se aquecer do frio do ar-condicionado. Quer terminar aquela conversa?
      - No sei. s vezes eu fao uma tempestade num copo d'gua por causa de uma bobagem. Podemos pr o assunto de lado. No tem importncia.
      - Mas eu acho que tem importncia, sim. Afinal, isso 't incomodando voc e, se ficar guardando pra si, pode ser que mais tarde se sinta chateada de novo, 
antes mesmo de voltar pra casa. Portanto gostaria de resolver o assunto agora mesmo, se for possvel.
      -  uma bobagem. Eu sei que .  s tirar os olhos do Senhor que perco a capacidade de avaliar os fatos com clareza. Eu disse que estava com cimes de vocs 
e estou mesmo. Mas sei que isso  errado. Sei que Deus diz que no devemos invejar o que  dos outros, mas o caso  que no sei como lidar com meus sentimentos. 
Por mais que eu tente ignor-los, eles continuam me incomodando.
      - Ore, sugeriu Ted imediatamente.
      Katie deu um suspiro e fitou a xcara de caf, j pela metade.
      - Orar.  isso mesmo que devo fazer. No sei por que no fao isso. Acho que fico cansada de confessar sempre a mesma coisa toda vez. Mas devo reconhecer que, 
sempre que me abro com o Senhor, me sinto bem melhor depois.
      - E ele sempre nos perdoa, independentemente do nmero de vezes que lhe pedimos perdo, disse Ted. Uma prtica que ajuda muito  identificar o que faz essas 
fraquezas aflorarem e reconhecer "sinais de alerta" antes que voc seja pega de surpresa.
      - Como assim?
      - Bem, o que exatamente a leva a ter cimes?
      Katie pensou por alguns minutos e depois respondeu:
      - Eu vejo um amigo com algo que eu gostaria de ter e, a, comeo a me comparar com ele. Ento, fico com cimes.
      - Isso acontece com todo mundo, disse Cris.
      - Mas nem por isso  certo, replicou Katie.
      - Verdade, concordou Cris.
      - Uma coisa que me ajuda muito  reconhecer esses sentimentos logo no incio. Assim,  quase como se eu conseguisse parar o pecado no ar, antes que ele me 
pegue, disse Ted. O lance da comparao, por exemplo. Decorei alguns versculos que tm a ver com isso. A, sempre que comeo a me comparar a algum, repito esses 
versos, e meu corao volta para o caminho certo.
      - Ento acho bom voc me passar rapidinho esses versculos, porque eu tenho uma dificuldade enorme nessa rea, disse Katie.
      - Um deles  at bem curto. Fica em Isaias 45.9. Diz assim: "Acaso, dir o barro ao que lhe d forma: Que fazes?" Os outros ficam no captulo 64 de Isaas. 
Versos 6 e 8. Esses a "me puseram no lugar", quando os li pela primeira vez, se  que voc 't me entendendo.
      - Acho que sei do que voc 't falando. O que eles dizem?
      - "Mas todos ns somos como o imundo, e todas as nossas justias, como trapo da imundcia; todos ns murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como 
um vento, nos arrebatam. Mas agora,  Senhor, t s nosso Pai, ns somos o barro, e t, o nosso oleiro; e todos ns, obra das tuas mos."
      - Deixe-me ver se peguei a mesma idia que voc, principiou Katie. Toda vez que voc comea a se comparar a algum, voc se lembra desses versos e de que todos 
ns somos iguais perante o Senhor; como o barro.
      - E Deus  o artfice, o escultor, disse Cris, entrando na conversa. Ele  quem trabalha o barro e nos molda. No devemos virar pra ele e dizer "Por que o 
Senhor me fez deste jeito?" ou "Por que o Senhor no me muda e me faz como a fulana?"
      Ted acenou, concordando.
      - Isso mesmo. Cada pessoa  uma obra de arte nica, singular. O que ele planejou pra mim  diferente dos planos que traou pra voc.
      - E essa estratgia funciona mesmo pra voc? perguntou Katie.
      Ted acenou com a cabea mais uma vez.
      - Quando percebo que Deus  quem 't no controle de tudo, e no eu,  difcil sentir cimes dos outros. Se o Senhor resolver abenoar o sicrano mais do que 
a mim, quem sou eu pra lhe dizer que ele 't sendo injusto? Ser que, quando algum passa por dificuldades, ns viramos pra Deus e dizemos que ele no 't sendo 
justo conosco? que no 't nos dando o mesmo tanto de lutas?
      - Acho bom voc anotar esses versculos pra mim, Ted, porque tenho muita dificuldade nessa rea. Toda vez que penso ter resolvido o problema, ele acaba voltando 
com mais fora, disse Katie, sorvendo o ltimo gole de caf. Vocs j acabaram de comer? Poderamos voltar para os nossos assentos e ver se meu guardio maltrapilho 
ainda 't l me esperando.
      O "guardio" de Katie no estava l quando voltaram. Cris aproveitou para se assentar ao lado da amiga, em vez de ficar com Ted. Tinha um monte de perguntas 
para lhe fazer.
      - Obrigada por ter sido to sincera conosco, Katie. Fico feliz de voc ter nos contado como estava se sentindo, comeou Cris.
      - Eu no ia falar nada. Ia dar um jeito e resolver a questo sozinha. Mas o Ted estava certo ao dizer que  melhor nos abrirmos.
      - J que  assim, queria que me esclarecesse uma coisa, disse Cris. No estou entendendo por que esse carinha l da Rancho Corona fez voc ficar com vontade 
de ter um namorado. Quero dizer, por que ele? O Marcos e o Antnio no lhe fizeram se sentir assim tambm?
      - No. No d pra explicar, Cris. Quando conheci o Mark, eu o achei um cara incrvel. O nico rapaz que me fez sentir assim antes foi o Michael, disse Katie, 
virando-se para Ted, a fim de inclu-lo na conversa. Vocs acham que amor  primeira vista  papo furado?
      Ted passou a mo no queixo, como se tentasse segurar para no rir.
      - Qual  a graa? perguntou Cris.
      Ted olhou para Katie.
      - Tudo que posso afirmar  que, quando vi a Cris, eu soube, disse ele, desviando o olhar para a namorada.
      - Soube o qu? perguntou Katie.
      - Soube que ela era o presente de Deus pra minha vida e que eu nunca pensaria em namorar outra garota, replicou ele, em tom grave e emocionado.
      Por um momento, Cris se sentiu arrebatada pelas palavras romnticas de Ted. Ele nunca havia falado nada assim para ela. Entretanto, pouco depois, comeou a 
duvidar de que ele estivesse falando srio. Poderia era estar fazendo uma tremenda brincadeira com a sua cara!
      - Voc no soube coisssima nenhuma! exclamou ela, batendo na perna dele. A primeira vez que voc me viu eu tinha acabado de ser derrubada por uma onda gigantesca, 
indo parar na praia coberta de algas marinhas.
      - Minha "Pequena Sereia", disse Ted, sorrindo para Cris. O presente de Deus pra mim, vindo diretamente do mar.
      - Ah! Por falar nisso, eu e o Ted descobrimos que em Copenhague h uma esttua da Pequena Sereia. Temos de ir v-la! disse Cris, olhando para Katie.
      Estava doida para mudar o assunto, antes que Ted tivesse mais uma oportunidade de fazer gozao com a cara dela.
      - Tudo bem, disse Katie.
      - Algum quer jogar xadrez? perguntou Ted.
      - Voc 't a fim, Katie? perguntou Cris.  que eu quero muito continuar lendo o guia turstico.
      - Bem, nesse caso, eu  que no quero impedir voc de ler seu livrinho querido, disse Katie, brincando.
      Ted abriu o tabuleiro de xadrez e organizou as peas. Cris havia acabado de abrir na seo sobre a Dinamarca quando Katie chegou perto dela e lhe disse baixinho:
      - Obrigada, Cris.
      - Por qu?
      - Bem, se ainda no 't na hora de o Grande Artista l de cima pintar um namorado pra mim, ento, muito obrigada por dividir o seu comigo.
      

14
      Eram 10:00h da manh de segunda-feira quando o trem chegou  estao de Oslo. Os trs estavam viajando havia mais de vinte e quatro horas e, para Cris, a idia 
de "dividir" Ted com Katie j no soava mais como um acordo interessante, feito entre amigas.
      Na verdade, Katie no havia "dividido" Ted com Cris. Ela havia literalmente se apossado dele. Ao chegarem em Hamburgo, os trs pegaram um trem noturno e viajaram 
a bordo de um vago equipado com camas. Durante a viagem, Cris procurara dar uma esticada em um dos beliches e descansar um pouco.
      Eram mais ou menos 6:00h da manh quando acordou. Olhou em redor e viu que estava sozinha. Cerca de uma hora depois, Ted e Katie chegaram, aos risos, contando 
do quanto tinham se divertido, tomando caf e conversando a noite toda. Ted havia ajudado Katie a decorar os versculos de Isaas, e pelo que se via, pareciam ter 
se divertido a valer, enquanto Cris dormia.
      O pior  que agora era Cris quem estava ficando com a cabea cheia de idias estranhas. J podia sentir um forte sentimento de cime rondando seu corao.
      - Saia j daqui! murmurou Cris para si mesma.
      - O que disse? perguntou Katie, ao sarem da estao. Como  que samos daqui?
      - Por aqui, disse Ted, conduzindo-as para a sada.
      J era dia claro.
      - Vamos primeiro achar um lugar pra ficar e depois samos pra desbravar a cidade. O que acham?
      - Voc escolheu algum lugar, Cris? perguntou Katie. Afinal, foi voc que ficou analisando o guia turstico.
      - Marquei alguns lugares, sim, disse Cris, pegando o livro. Este aqui parece ser o melhor deles, mas, se quiserem ficar em outro lugar, por mim tudo bem.
      Cris estava surpresa com a calma que sentia. Talvez a estratgia de Ted, de "parar o pecado no ar", desse certo mesmo.
      -  uma espcie de pousada, como aquela de Salzburgo. Diz o guia que ela fica perto da estao.
      - Parece perfeito, ento. Pra que lado vamos? perguntou Katie.
      Olhando no mapa, Cris conduziu o trio at o hotel, ou pensjonater, como dizia o guia turstico. Era um prdio quadrado, de trs andares. Logo acima da entrada 
principal, havia um belssimo vitral, que embelezava a fachada do prdio. Cris gostou muito da escada em caracol, que levava at os quartos do terceiro andar. Ao 
chegar ao quarto, a primeira coisa que fez foi levantar o pino central das janelas e abrir as venezianas. Ambas as partes da janela abriam para fora, possibilitando 
que a luz do sol entrasse no aposento. Vrias flores, em tom de vermelho vivo, derramavam-se da jardineira sob a janela. Cris respirou profundamente, deixando que 
o ar fresco enchesse seus pulmes, renovando suas foras. Sentia-se pronta para sair e ver as atraes tursticas da cidade.
      - Nunca se deve subestimar o poder revigorante de um boa cama! disse Katie, jogando-se sobre a cama macia.
      - Voc no 't pensando em dormir agora, n, Katie? Estamos em Oslo! Finalmente chegamos aqui! Os museus e os fiordes nos esperam!
      - Vocs podem ir e visitar todos os museus que quiserem. Vou ficar aqui. Quando chegarem, vocs me contam.
      Cris puxou Katie pelos ps.
      - Estamos na Noruega, Katie! Seus antepassados viveram aqui! Ser que voc no 't nem um pouquinho animada a sair pra desbravar a cidade? Que foi que houve 
com seu lema de que estamos numa aventura?
      - Troquei de lema. Agora  "Dormir faz bem pra mim".
      Cris desistiu de insistir com a amiga. Sabia que em questo de minutos Katie mergulharia no mundo dos sonhos. Resolveu desfazer as malas e ficar um pouco mais 
 vontade. O quarto era maravilhoso. Os mveis eram de madeira pintada. No canto havia uma mesinha branca, com vrias florzinhas azuis e vermelhas pintadas na beirada. 
A cadeira que fazia conjunto com ela tinha um encosto alto, e seu assento era de palha entrelaada. Os ps das camas tambm eram brancos, com florzinhas azuis e 
vermelhas. Havia ainda um vaso de vidro azul com vrias flores do campo, em tons de branco, azul e amarelo.
      Cris tirou as roupas sujas do mochilo e resolveu ir at o banheiro coletivo, no final do corredor, a fim de lav-las na pia. Com o sol e o vento batendo na 
janela, as roupas secariam rapidamente, pensava.
      No caminho, resolveu bater na porta do quarto de Ted. Ser que ele tambm havia pregado na cama como Katie e aderido ao novo lema dela? Cris torcia para que 
ele estivesse acordado. Afinal, estava toda disposta a sair por algumas horas e desbravar Oslo. Poderiam deixar Katie dormindo na pousada e ir s os dois.
      Ted no atendeu. Foi ento que a porta do banheiro se abriu e ele apareceu. Havia acabado de tomar um banho e fazer a barba. Trajava uma camiseta e um short 
que, embora amarrotados, estavam limpos.
      - Voc fez a barba! comentou Cris.
      - Estava coando demais.
      - Ficou muito bom.
      - Espero que vocs no tenham ficado esperando muito tempo. Mas  que o banho me pareceu to irresistvel que no consegui deixar pra depois.
      - Pra Katie foi a cama que pareceu irresistvel. Acho que ela vai dormir pelo menos umas duas horas. Quer sair comigo pra dar uma passeada? Podemos voltar 
depois pra pegar a Katie.
      - Certamente. Contanto que um lanchinho esteja includo nesse passeio, disse Ted, olhando para a trouxinha que Cris carregava. Voc ia lavar essas roupas?
      - . Achei que secariam rapidamente, com a brisa que entra pela janela do quarto.
      - Boa idia. Que tal sairmos daqui a uns dez, quinze minutos? Vou ver se lavo tambm algumas roupas no banheiro do segundo andar.
      Em vez de lavar apenas as roupas, Cris resolveu aproveitar para tomar um banho e lavar o cabelo. Exatamente doze minutos depois j havia tomado banho, lavado 
o cabelo, se depilado, trocado de roupa e lavado as roupas que separara, pendurando-as num cabide dobradio, ao sol. J estava terminando de escrever um bilhete 
para Katie, quando Ted apareceu na porta, sorrindo por ver que Katie dormia de sapatos.
      - Ser que no vai ter problema se a deixarmos aqui? sussurrou ele.
      - Acho que no. Estou deixando um bilhete.
      Ao sarem e fecharem a porta do quarto com cuidado, Ted colocou o brao em torno dos ombros de Cris, puxando-a para perto de si. Deu-lhe um beijo carinhoso 
na testa, que pegou metade no cabelo dela, metade em sua pele.
      Cris ficou surpresa com o gesto de Ted e j ia lhe perguntar a razo daquilo, quando olhou para os olhos azuis dele. Foi a que percebeu o motivo do beijo. 
Ele estava feliz. Feliz por estar com ela, feliz por estar na Noruega, feliz por estar vivo. Cris concluiu que se tratava de um beijo de comemorao e que, se pedisse 
explicaes, o encanto do momento se dissiparia.
      Passando o brao em torno da cintura de Ted, Cris chegou bem perto dele, enquanto desciam, lado a lado, a estreita escada em caracol. Em dado momento, trombaram 
no corrimo por causa da curva, e Cris soltou um risinho. L embaixo, a dona da pousada encontrou-se com eles e os cumprimentou, sorrindo. Era uma mulher bem alegre.
      - Sabe de algum lugar bom pra gente comer? perguntou Ted a ela.
      Ela lhes ensinou como chegar a um restaurante ali perto, que, segundo ela, servia o melhor koldtbord da regio.
      Cris ficou muito contente ao ver que o restaurante oferecia mesas na rea externa. Afinal, tudo o que queria era respirar o ar puro e aproveitar o sol daquele 
dia to fresco e agradvel.
      O koldtbord era na verdade um farto self-service, em que o cliente podia se servir quantas vezes quisesse. Ted serviu-se duas vezes e comeu mais salmo do 
que Cris aguentaria comer em toda a vida! Ela, no entanto, preferiu experimentar o ensopado que, mais tarde foi saber, era  base de repolho e carne de cordeiro. 
Se o garom tivesse dito antes, ela nunca teria experimentado o prato. No entanto depois acabou gostando da comida.
      O almoo no saiu barato, mas, para Cris, valeu a pena. Havia comido tanto, que se sentia at um pouco desconfortvel ao caminhar de mos dadas com Ted at 
o ponto de nibus. Segundo o garom, o nibus que pegariam os levaria at o Museu Kon-Tiki, que Ted tanto queria visitar.
      Sentaram de mos dadas no coletivo e ficaram planejando aonde ir depois da visita ao museu. Cris tirou o guia turstico da bolsa e notou o quanto a capa estava 
ficando gasta. Ted lhe mostrou dois lugares que lhe interessavam, sendo que o primeiro da lista era o museu Norske Folke Museet, porque, ao que o mapa indicava, 
o Museu Kon-Tiki fazia parte dele.
      - Esqueci de lhe contar, mas ontem eu e a Katie procuramos um monte de coisas na Bblia, enquanto estvamos conversando, principiou Ted. E descobri que Paulo 
no estava na priso de Mamertina quando escreveu a carta aos Filipenses. Ele estava em Roma, em priso domiciliar. Ao que tudo indica ele tinha permisso pra sair 
de casa e receber visitas.
      - Ento ele no escreveu nada enquanto esteve preso naquele calabouo?
      - Escreveu sim. A segunda carta a Timteo foi escrita l. Nero era o imperador na poca.
      - O Marcos no nos disse que esse tal Nero era o imperador que queimava vrios cristos vivos para iluminar as festinhas que ele oferecia em seus jardins?
      Ted acenou positivamente.
      - Que coisa incrvel, disse Cris. Quero dizer, suportar todas essas torturas e depois morrer por causa daquilo em que voc acredita.
      - , concordou Ted. Ontem  noite, li a segunda carta a Timteo inteira e procurei imaginar Paulo dentro daquela cela escura e sombria, to prximo do Coliseu, 
onde vrios cristos haviam sido devorados por lees. E l estava ele, preso, escrevendo palavras do tipo: "Porque Deus no nos tem dado esprito de covardia, mas 
de poder, de amor e de moderao".
      Cris sentiu vontade de chorar.
      - E, no final do ltimo captulo, continuou Ted, Paulo chegou a afirmar: "Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de foras". Em seguida ele narra que foi livrado 
da boca do leo. 
      - Toda essa questo de ser perseguido por causa da f me impactou muito quando estvamos no Coliseu, disse Cris. Foi como se eu pudesse enxergar aquela arena 
cheia de gente em redor, assistindo aos lees atacarem os cristos.
      - Eu tive a mesma sensao, disse Ted, olhando profundamente nos olhos dela.
      - E orei pedindo ao Senhor que eu ficasse firme em meu compromisso com ele, caso algum dia tivesse de passar por aquilo, replicou Cris.
      Ted abriu um sorriso singelo.
      - Sabe qual  o meu desejo? principiou ele. Quero ser to seguro e confiante como Paulo, de forma que esteja disposto a morrer por Cristo, independentemente 
das circunstncias. Porque a verdade  que, um dia, todos morreremos. E quando estivermos na eternidade, o que realmente importar  se permanecemos fieis ao Senhor 
durante o curto tempo que vivemos aqui na Terra.
      - Tem razo, sussurrou Cris, sentindo uma lgrima escorrer-lhe pelo rosto.
      Ted enxugou a lgrima de Cris com o dedo e, em seguida, pressionou-o contra o peito.
      - Sabe de uma coisa, Kilikina?  aqui que guardo todas as suas lgrimas. Bem aqui, onde eu levo voc; em meu corao.
      O nibus parou no ponto em que tinham de descer. Cris se recomps, piscando rapidamente para dissipar as lgrimas, enquanto seguia Ted at a rua. Tinha a sensao 
de que estivera conversando com Ted numa outra dimenso, num outro mundo, que ficava bem alm das estrelas. No entanto l estavam eles, pisando em cho firme. O 
cu parecia estender-se sobre eles como uma cpula fechada, deixando de fora todos os segredos daquela outra dimenso.
      De mos dadas, Ted e Cris circularam pelo Museu Folclrico da Noruega. No falaram muito. O museu compreendia mais de uma centena de antigos prdios noruegueses, 
que haviam sido reconstrudos e, juntos, formavam uma vila, sob um bosque de altas rvores. Uma trilha ligava as casas entre si. Algumas delas tinham telhados cobertos 
de grama, e pinturas j desgastadas em torno da lareira e das portas. Uma delas era particularmente pequenina. Ao v-la, Ted brincou dizendo que os viquingues eram 
uma raa de estatura to baixa, que tinham de usar capacetes enormes, com chifres bem pontiagudos, a fim de parecerem um pouco mais agressivos.
      Cris gostou muito da igreja, construda havia quase oitocentos anos. Era simples e fora restaurada.
      - Diferena mnima pra Baslica de So Pedro em Roma, no acha? comentou ela com Ted.
      Um fato que a intrigava era o modo como o homem, ao longo dos tempos, edificava locais especiais para prestar culto ao Senhor e se relacionar com ele. Tratava-se 
de um desejo inato, que era passado de gerao a gerao. Contudo havia algo ainda mais impressionante para Cris: como uma construo to frgil como aquela podia 
resistir por mais de oitocentos anos.
      Ted no pareceu muito comovido com a antiga igreja. No entanto ficou bastante empolgado quando chegaram ao Museu Kon-Tiki. Lado a lado, ele e Cris observavam 
a pequenina jangada, feita de toras de madeira firmemente amarradas com cordas.
      - D pra acreditar que seis homens viajaram juntos pelo Pacfico, durante cento e um dias, nesta jangada? disse Ted, analisando a embarcao de todos os ngulos. 
 incrvel, voc no acha?
      -  sim, concordou Cris.
      - Devem ter enlouquecido uns aos outros. Mal d pra seis pessoas se assentarem aqui, imagine dormir! E ainda mais com os mantimentos! Deve ter sido uma aventura 
e tanto!
      Cris no queria admitir para Ted, mas sabia que ficaria louca se tivesse de viajar com ele e Katie pelo mar, numa jangada como aquela. Se j estava sendo um 
desafio passar trs semanas grudada nos dois, imagina cento e um dias! Alis, poder passar alguns instantes a ss com Ted estava sendo um verdadeiro refrigrio para 
ela.
      Foram ver tambm a Ra II, que foi a segunda embarcao construda por Thor Heyerdahl. Esta havia sido feita com pau de papiro no Egito com o objetivo de testar 
a hiptese de que aquele tipo de embarcao poderia ter chegado  Amrica antes de Colombo. Por alguma razo, contudo, a Ra II no impressionou Ted tanto quanto 
a Kon-Tiki.
      - Estou pensando em comprar uma nova prancha de surfe, disse ele.
      - O que aconteceu com a Naranja? perguntou Cris.
      Naranja, a prancha alaranjada de Ted, j estava com ele havia bastante tempo, desde antes de ele conhecer Cris. Simplesmente no dava para imaginar que ele 
se desfaria dela.
      - Vou continuar com ela. Mas estou estudando a possibilidade de comprar uma prancha muito boa, que um amigo meu l de San Clemente fez. Se eu compr-la, vou 
cham-la de Kon-Tiki.
      Os dois caminharam de volta ao ponto de nibus. Cris sorriu. A tarde parecia ficar cada vez mais encantadora, sob o cu claro e sem nuvens. Cris sabia que 
naquela poca do ano, na terra do sol da meia-noite, era normal que a claridade durasse mais de dezoito horas. Entretanto, para ela, a luz era diferente, mesmo sendo 
duas horas da tarde.  que os raios solares chegavam at eles de um ngulo que Cris nunca havia visto. A impresso que tinha era de que a Noruega era um lugar fresco, 
limpo e completamente diferente de qualquer outro local que j havia conhecido.
      Foi isso que Cris procurou explicar a Ted, ao pegarem o nibus de volta para a pousada. E quanto mais tentava descrever suas impresses, mais Ted balanava 
a cabea, concordando com ela; e maior se tornava o sorriso no rosto dele.
      - J parou pra pensar no quanto estamos perto do Crculo Polar rtico? perguntou ele.
      - Ah, ? A que distncia estamos?
      - Poderamos pegar um trem amanh s 8:00h e cruzar a linha do Crculo Polar rtico s 4:00h da tarde do mesmo dia.
      - Mas ser que no estar tudo congelado por l?
      Era a primeira vez, desde o acampamento, que Cris dava falta de seu casaco. E visitar o Crculo Polar rtico no seria nada interessante, a no ser que tivesse 
pelo menos um agasalho para levar consigo.
      - O Crculo Polar rtico no  o Plo Norte, disse Ted. Na verdade ele nada mais  do que uma linha imaginria que marca o fim do Oceano Atlntico e o incio 
do Mar Glacial rtico. Vrias cidades norueguesas se acham acima dessa linha.
      - Isso 't parecendo com os confins da Terra.
      - .
      De repente os olhos de Ted brilharam.
      - E ento, Kilikina? Voc gostaria de ir at os confins da Terra comigo?
      

15
      Por mais emocionante e tentador que o convite de Ted fosse para Cris, eles no poderiam ir at os confins da Terra. Havia um problema: Katie.
      - No sei explicar o porqu, disse Katie.
      Estavam jantando num restaurante no centro de Oslo. Eram 8:00h da noite, mas ainda estava claro e quente, como se fossem trs da tarde.
      - Simplesmente no estou a fim de ir at os confins da terra com vocs, continuou ela.
      - Bem, se voc no for, ento ns dois no poderemos ir, disse Cris, lembrando-se da ordem de seus pais de no viajar sozinha com Ted.
      Katie olhou para Ted e depois para Cris.
      - Sinto muito, mas pra mim no tem a menor graa ficar esse tempo todo dentro de um trem, s pra ver um marco no cho e um monte de renas.
      Havia mais de uma hora que estavam discutindo suas opes e, ao que se via, Katie no dava mostras de que iria ceder. Cris sabia o que devia fazer, mas detestava 
ter de dizer aquilo.
      - Por que, ento, voc no vai sozinho, Ted? Voc quis tanto ir a Pompia e acabamos no indo l. Voc deveria visitar o Crculo Polar rtico ento. Eu e a 
Katie podemos fazer um passeio de barco pelos fiordes amanh. E se voc resolver voltar de avio, como havamos pensado antes, ento, de repente, voc pode ir para 
Copenhague, em vez de voltar pra c. Eu e a Katie podemos pegar o trem e encontr-lo l.
      Ted examinou a expresso no rosto de Cris.
      - Tem certeza? perguntou.
      Na verdade, Cris at que gostava da idia de viajar para os confins da Terra com Ted. No entanto ainda estava chateada por no ter um casaco para levar. Alm 
disso, a viagem parecia um pouco sem graa mesmo. Como o tempo era curto, ela preferia muito mais visitar Copenhague a ver uma plaquinha no cho e um bando de renas.
      - Tenho certeza, sim, respondeu ela afinal.
      - Ah, agora sim estou me sentindo a prpria chata, disse Katie.
      - No fique assim, disse Cris. Acho que desse jeito vai dar tudo certo. Dormimos aqui amanh e, no outro dia, pegamos o trem pra Copenhague, onde nos encontraremos 
com o Ted. Voc disse que havia lugares no vo de Narvik para Copenhague, no foi isso?
      - Isso mesmo. Perfeito! disse Ted.
      Cris no sabia se toda aquela calma era porque Ted estava chateado com o fato de ela no o acompanhar, ou se ele estava apenas agindo de forma tranquila e 
despreocupada, como sempre fazia.
      Na manh seguinte, Cris e Katie foram levar Ted at a estao. Segundo Katie, ele estava indo para o rtico "fazer amizade com os ursos polares". Ted parecia 
estar bem mais animado com a viagem que faria sozinho. Pouco antes de entrar no trem, confirmou mais uma vez os detalhes de onde e quando se encontrariam em Copenhague.
      - Estaremos l, disse Cris. Divirta-se!
      - E diga ao Papai Noel que ns mandamos um oi pra ele! disse Katie.
      O maquinista gritou qualquer coisa em noruegus, que Cris deduziu ser um chamado para que os passageiros embarcassem. Ted ento a puxou para junto de si, envolveu-a 
em seus braos e beijou-a firmemente. Em seguida, saltou para dentro do trem e acenou para ela, como se fosse um soldado indo para uma guerra.
      - Que bom que estou aqui pra fazer companhia a vocs! disse Katie. Desde quando o Ted, que era todo certinho e comedido, comeou a lhe dar beijos to carregados 
de paixo?
      Cris sorriu. Ainda sentia os lbios latejarem em consequncia do beijo de Ted. Lembrou-se, ento, de uma outra ocasio em que Ted lhe beijara assim. Estavam 
em Maui, e Ted estava prestes a saltar de uma ponte altssima. Ela havia ficado apreensiva, com medo de que ele no subisse  superfcie. Mas Ted sobrevivera e, 
agora, Cris tinha certeza de que ele voltaria daquele novo "salto" tambm.
      - Que tal se encontrssemos uma pequena Konditorei e comssemos algo? perguntou Cris, mudando de assunto, ao sarem da estao.
      - Voc vai encostar comida nos lbios? Eles ainda esto fumegando, Cris! brincou Katie. Se eu fosse voc, no os usaria por uma semana!
      - Ora, ora, Katie. Nem foi um beijo to ardente assim.
      - Foi sim. Voc deveria ter visto do ngulo que eu vi. Em todos estes anos que conheo vocs, acho que esta foi a mais intensa demonstrao de paixo do Ted 
por voc. Ou voc vai me dizer que ele sempre a beija assim e eu  que nunca vejo?
      - No, ele no me beija sempre assim. Na verdade, ele no me beija muito.
      - Deve ser complicado.
      - At que no. Acho que o certo  isso mesmo. Complicado seria se tivssemos mais "liberdades" um com o outro.
      As duas entraram numa cafeteria e Cris foi logo tentando mudar de assunto.
      - Voc quer se assentar pra comer aqui ou prefere levar pra comer no caminho e ir de uma vez para o porto? Acho que o prximo barco turstico para os fiordes 
sai daqui a uma hora.
      - Vamos pedir pra embrulhar, disse Katie. No quero perder o barco.
      As quitandas pareciam deliciosas. Cris e Katie compraram vrias delas e resolveram pegar um txi at o porto. Katie achou engraado que o txi que pegaram 
fosse uma Mercedes.
      - Diferena mnima entre os txis daqui e os de Roma, hein?
      Depois de mais ou menos duas horas a bordo do barco, Katie voltou a falar sobre Ted.
      - Como  que vocs conseguem manter os beijos no patamar do mnimo?
      - Ahn?
      - O que quero saber  como foi que voc e o Ted conseguiram se preservar assim to puros e comportados durante todos esses anos. Deve ser muito difcil. No 
foi nada fcil pra mim e o Michael. Quer dizer, a gente quer criar intimidade com a pessoa, mas, quanto mais intimidade se tem, mais se quer ter, entende?
      Cris acenou com a cabea. Sabia exatamente o que Katie estava dizendo.
      - Ento, qual  o limite de vocs? At onde vocs se permitem ir?
      Cris pensou por alguns momentos e depois respondeu:
      - Beijos leves, acho.
      - E vai me dizer, ento, que o que presenciei na estao foi um "beijo leve"? Acho que de leve ele no tinha nada, querida!
      - Normalmente ele no me beija daquele jeito, disse Cris rapidamente, embora se lembrasse de que o beijo de Ted na estao de Basel praticamente a deixara 
sem ar. E tambm o beijo que lhe dera no barco, quando iam para Capri, no havia sido leve.
      - Vocs j conversaram sobre isso? perguntou Katie.
      - No, exatamente. Isso nunca foi um problema pra ns.
      - Com certeza uma coisa que deve ter contribudo foi o fato de vocs terem ficado separados pelo menos metade do tempo do namoro de vocs. Era sempre assim: 
ou o Ted estava viajando, ou ento, voc.
      Katie recostou-se em seu assento. Estavam no convs do barco. Em seguida fechou os olhos e se virou, a fim de aproveitar ao mximo o calor do sol.
      - Quando anoitecer, vou estar cheia de sardas. Mas este sol no 't bom demais?
      - 'T sim.
      Cris olhou para a passagem por onde o barco estava prestes a entrar. Elevadas rochas pontiagudas emergiam da gua, por cima de suas cabeas, como se fossem 
um enorme bicho-papo de pedra, com o rosto cheio de calos.
      - Veja, Katie? Estamos entrando em mais um fiorde.
      Katie abriu um olho apenas e deu uma olhada rpida. No parecia to impressionada com a magnfica vista.
      -  muito bonito. Igualzinho aos ltimos vinte e quatro fiordes em que entramos. No fundo,  tudo a mesma cor.
      Para Cris, aquilo tudo era muito engraado. Elas estavam finalmente na Noruega, o pas que Katie tanto falara em visitar, numa excurso para conhecer os fiordes, 
que era o que ela mais queria ver e, no entanto, a jovem estava prestes a tirar um cochilo.
      Para ela, no entanto, aqueles momentos de silncio, sozinha com seus pensamentos, foram preciosssimos. Os suaves movimentos que o barco fazia, ao deslizar 
pela gua cristalina, a faziam se sentir reconfortada. Aquecendo-se sob o calor do sol, Cris aproveitou o sossego e a calmaria para refletir sobre o que Katie lhe 
dissera pouco antes.
      Ser que deveria estabelecer certos princpios e regras para si? Nunca tivera de pensar sobre aquilo, j que ao longo dos anos Ted sempre fora um tanto devagar 
em expressar seus sentimentos por ela. E mesmo quando os expressava, era sempre muito comedido. Quando ela namorou Rick, no teve de pensar sobre o assunto, uma 
vez que terminaram o namoro antes mesmo que a questo fsica se tornasse um problema. Com Douglas, aquilo nunca fora uma dificuldade, j que o rapaz havia feito 
um voto de que seu primeiro beijo seria no dia do casamento. E ele havia conseguido. Quando se casou com Trcia, um sentimento de comemorao todo especial encheu 
a igreja, por causa da forte pureza dos dois.
      Fico feliz que o Ted tenha me beijado algumas vezes ao longo desses anos. Cada beijo teve um significado diferente. Assim como ele guarda as minhas lgrimas 
no corao, eu guardo os beijos dele. E estou guardando milhares de beijos meus, que darei a ele, se nos casarmos.
      Cris pensou por alguns instantes na possibilidade de no se casar com Ted. No sentia nenhum remorso pelos beijos que lhe dera, tampouco pelas lgrimas que 
derramara por causa dele. Entretanto sabia que no devia lhe dar muito mais do que j estava dando. Afinal, poderia ser difcil "segurar-se" depois. Ademais, todos 
os sentimentos que ela sonhava expressar algum dia a algum se achavam envolvidos em inocncia, e era assim que ela desejava que permanecessem, at o dia do seu 
casamento.
      Cris puxou o dirio da bolsa e colocou os pensamentos no papel, to logo lhe ocorriam. Parte do que escreveu foi:
      
      Tenho tantos sentimentos guardados em minha alma, que estou carta de que vou precisar de uma vida inteira para expressar fisicamente todo o amor que tenho 
pelo meu marido. E quero guardar tudo isso at o dia em que nos casarmos. Acho que esse  um dos aspectos que faz do casamento uma unio santa. Acho que Deus honra 
a nossa pureza de uma maneira especial. Quando ele enviou seu Filho ao mundo, o fez por meio de uma mulher pura. Quero que meu casamento seja puro e santo diante 
do Senhor. Engraado, mas, pela primeira vez na vida, comeo a perceber que talvez tenha de planejar as coisas, em vez de ficar achando que tudo vai sair automaticamente 
do jeito certo. A essas alturas, imagino que vou me casar com o Ted. Mas ainda no tenho certeza disso.  como se eu tivesse de me resguardar dele, a fim de me preservar 
pura para ele.
      
      J eram 9:30h da noite quando o ltimo pensamento em relao  questo lhe ocorreu. Ela e Katie estavam andando pelas ruas de Oslo, passando em frente a vrias 
lojas. O dia ainda estava claro, e o cu se achava apenas levemente manchado de alaranjado, indicando que mal havia comeado a anoitecer. Dezenas de pessoas estavam 
nas ruas, caminhando ou conversando, assentadas nas mesas externas das cafeterias, como se fosse pleno meio-dia.
      - No acredito que esperamos at agora pra comer, disse Katie. Engraado  que no parece que 't tarde. Mesmo assim, estou faminta!
      - Quer parar ali e comer um pretzel * ou qualquer coisa que aquele cara estiver vendendo? perguntou Cris a Katie, ao ver um vendedor ambulante do outro lado 
da rua.
      - No. No estou a fim de gastar toda a minha fome num simples lanchinho. J que estou esperando h tanto tempo, prefiro esperar um pouco mais e comer uma 
refeio de verdade, completa. Falta muito pra chegarmos ao restaurante de que voc e o Ted gostaram tanto?
      - S mais um quarteiro, respondeu Cris.
      Cris sentia a cabea rodar com as palavras de Katie. Queria poder se lembrar delas depois, para anot-las no dirio. Aquilo fazia muito sentido. Tanto ela 
quanto Ted desejavam expressar fisicamente o que sentiam um pelo o outro. Era algo natural e maravilhoso, uma ddiva de Deus, querer expressar-se assim  pessoa 
amada.
      O que foi mesmo que a Katie acabou de dizer? Que ela no queria gastar a fome dela num lanchinho? Que queria esperar at poder comer uma refeio completa, 
de verdade?  exatamente isso que quero. No estou a fim de jogar fora o meu desejo por intimidade fsica em "lanches" que nunca iro me satisfazer por completo. 
Quero esperar at o dia em que poderei expressar-me de verdade, plenamente. E s terei isso depois do casamento.
      Enquanto se serviam no self-service, Cris continuou formulando seu plano de pureza. Seus pais nunca haviam conversado com ela sobre o assunto, nem lhe dado 
um anel de pureza; como sua amiga Selena havia ganhado dos pais. Se Cris quisesse fazer um plano, teria de faz-lo por conta prpria. Mas ela gostava de planejar. 
Sempre se sentia mais segura quando tinha um plano traado.
      Vou guardar todos os meus beijos mais ardentes para o Ted e conserv-los num local bem seguro, dentro do meu corao. E quando estivermos juntos e eu sentir 
vontade de beij-lo, vou me lembrar de guardar mais aquele beijo. Vai ser como ajuntar moedinhas num cofrinho. Um dia, vou entregar o meu cofrinho ao meu marido, 
seja ele quem for. E tenho certeza de que, quando o fizer, o cofrinho estar bem cheio.
      Cris sorriu ao concluir o plano.
      O farto jantar e as poucas, mas bem dormidas, horas de sono daquela noite prepararam Cris e Katie para a viagem de dez horas e trinta minutos at Copenhague. 
Saram s 7:30h, no trem matinal, e chegaram ao destino s 5:30h da tarde. A paisagem do lado de fora era belssima e revigorante. As florestas, de rvores bem verdes, 
pareciam no ter fim. E nas lagoas flutuavam enormes nenfares*. O trem era moderno, e as duas viajaram confortavelmente, conversando sobre Ted e se indagando se 
ele estaria se divertindo nos confins da Terra.
      Fazia umas quatro horas que estavam viajando quando Katie surpreendeu Cris, pedindo-lhe o guia turstico emprestado.
      - Sei no, Katie... disse Cris.
      - Como assim?
      - Estou achando que voc vai jog-lo pela janela ou qualquer coisa parecida.
      - No, Cris! S quero dar uma olhada.
      Durante as horas que se seguiram, Katie leu para Cris todas informaes sobre a Dinamarca, fazendo com que a amiga mesmo repetisse algumas frases em dinamarqus. 
Estava ficando bem mais fantica pelo livro do que o prprio Ted.
      - Muito bem, esta aqui  "Onde  o banheiro?": "Hvor er toilettet?" Vamos l, Cris, tente repetir essa.
      - Hvor er toilettet, repetiu Cris. Mas voc sabe que a gente pode estar dizendo tudo errado, n? continuou. Afinal de contas, no fazemos a menor idia de 
como  a pronncia certa.
      - Pelo menos a gente 't fazendo um esforo. Agora diga "Tager de kredit- kort?"
      - O que significa isso?
      - Vocs aceitam carto de crdito?
      - Katie, ns nem temos carto de crdito! disse Cris, soltando uma gargalhada.
      - Tudo bem, tudo bem... Se voc vai dar uma de exigente agora, ento tente repetir esta aqui: "Er der nogen her der taler engelsk?"
      Ao ouvi-la; Cris teve quase certeza absoluta de que Katie havia acabado com a lngua dinamarquesa pronunciando a frase daquele jeito.
      - E o que quer dizer isso?
      - Significa: "Algum aqui fala ingls?"
      Cris disparou a rir.
      - Que foi? Essa frase  muito til!
      - , Katie, mas, se a pessoa fala ingls, ento basta perguntar em ingls mesmo que ela entender, n?
      -  mesmo, disse Katie, tapando o rosto com o livro. Esquea o que eu disse, replicou ela baixinho.
      - Vamos aproveitar e resolver o que faremos depois que deixarmos as malas no albergue. Ainda bem que o Ted nos fez ligar antes pra fazer a reserva.  a primeira 
vez que vamos chegar a uma cidade sabendo onde vamos dormir.
      - Na minha opinio, a esttua da Pequena Sereia  parada obrigatria, disse Katie. E esse parque "Jardins Tivoli" parece ser legal. Diz aqui que tem brinquedos, 
shows com entrada franca, festival de fantoches, queima de fogos de artifcio e at mesmo apresentaes de bal! Ah, e eu quero muito visitar o palcio, ou museu, 
seja l o que for, que tem as jias da coroa dinamarquesa. Adoro esse tipo de coisa. Voc se lembra de quando fomos ver as jias da coroa inglesa na Torre de Londres?
      Cris se lembrava sim. Era uma torre velha e fria por dentro, e eles tiveram de subir inmeras escadas. Mas no tinha muita lembrana das jias da coroa. Mesmo 
assim, disse:
      - . Seria legal ver as jias da coroa. Aonde vamos primeiro?
      - Ou a Pequena Sereia ou ao parque "Jardins Tivoli".
      - Vamos ver a esttua, ento, sugeriu Cris. Acho que o Ted vai querer ir ao parque quando chegar aqui e, alm do mais, no acho que a sereia esteja entre as 
atraes que ele mais quer ver.
      Cris se sentia bastante segura de si, quando ela e Katie deixaram o albergue para ver a esttua. Pouco antes, havia ficado um pouco preocupada, pensando que, 
por estarem sozinhas, algum pedinte bbado mexeria com elas na rua, como lhe acontecera em Npoles, e com Katie no trem, poucos dias antes.
      No entanto estava sendo timo viajarem s as duas. Tudo corria s mil maravilhas. Estavam se dando superbem e ningum havia mexido com elas at o momento. 
Havia sido fcil localizar o albergue, e ainda no tinham ficado perdidas pela cidade.
      As ruas de Copenhague eram limpas e de um pavimento bem escuro. Katie ia  frente, andando e lendo o guia turstico ao mesmo tempo.
      - Diz aqui que a esttua da Pequena Sereia, ou Lille Havfrue, como eles a chamam, fica no Porto de Langelinie.
      - Katie, disse Cris, colocando o dedo indicador sobre os lbios. Voc no precisa anunciar para o mundo inteiro aonde  que estamos indo.
      - Eles no esto nem a pra gente, disse Katie, olhando em redor. 'T na cara que somos turistas. Olhe! Aquele  o nibus que temos de pegar! Vamos!
      As duas se puseram a correr, a fim de alcanar o coletivo. Ao entrarem, Katie perguntou ao motorista:
      - Este nibus vai para o porto, no vai?
      - Sim, porto.
      - timo.
      Cris e Katie se assentaram mais na frente e desceram quando o motorista se virou e disse-lhes, apontando para a enorme fbrica de cervejas Tuborg:
      - Porto.
      - Obrigada, disseram elas ao descerem em direo  gua.
      Era um porto imenso. Vrias gaivotas faziam vos rasantes, na tentativa de pegar algum "lanchinho" nos barcos de pesca. Katie e Cris andaram por toda parte, 
 procura da esttua. Mas no viram nada.
      - Deveria ter alguma placa indicando o lugar, disse Katie. Isto aqui  ridculo!
      J iam voltando para onde haviam descido quando uma balsa enorme atracou ao porto. Cris e Katie resolveram fazer uma parada para descansar e foi a que notaram 
uma longa fila de carros que saa do compartimento inferior da gigantesca embarcao. Centenas de pessoas achavam-se no convs. Um grupo de crianas, vestidas com 
camisetas amarelas, se enfileiraram ao longo do parapeito do convs e comearam a mexer com Cris e Katie.
      - D um tchauzinho pra elas, disse Katie. Elas s esto sendo engraadinhas e educadas.
      Cris no estava com muita vontade de dar uma de engraadinha e educada, mas acenou assim mesmo. Vendo-as, as crianas ficaram ainda mais empolgadas e se puseram 
a gesticular e gritar com mais entusiasmo ainda. Parecia que estavam fazendo uma brincadeira, tentando chamar a ateno das pessoas; e Katie e Cris haviam sido as 
primeiras a entrar na dana.
      Foi ento que um conhecido sentimento de angstia cortou o corao de Cris. Era a mesma dor que ela sentia toda vez que trabalhava com as crianas do orfanato. 
H tantas crianas neste mundo desesperadas por um pouquinho de amor e ateno! Cris se perguntava como as criancinhas em Basel estariam passando.
      - Vem vindo um nibus ali, disse Katie. Vamos peg-lo e voltar. J perdi toda a vontade de ver essa sereia desaparecida.
      Para a surpresa das duas, o motorista era o mesmo que as havia deixado ali, uma hora antes.
      - No conseguimos ver nenhuma sereia, disse Katie ao motorista, tomando o assento imediatamente atrs dele. Imaginei que ela estivesse dando um mergulho quando 
chegamos e, por isso, no a vimos.
      O motorista girou o volante do nibus e sorriu para Katie pelo retrovisor. Cris se perguntava se o pobre coitado fazia alguma idia do que Katie estava resmungando. 
Em seguida, ele olhou para Cris, que se sentiu na obrigao de tentar "traduzir" o que Katie havia falado.
      - Estvamos procurando a esttua da Pequena Sereia, disse ela bem devagar.
      Ao ver que ele nada respondera, Katie pegou o guia turstico e ps-se a falar com ele, usando um tom de voz que, para Cris, era para l de alto.
      - Lille Havfrue. Estamos procurando a Lille Havfrue.
      Cris tinha certeza de que Katie no havia pronunciado corretamente as palavras. De alguma forma, no entanto, o motorista ainda assim conseguiu entend-la.
      - Ah! Lille Havfrue, disse ele, soltando uma gargalhada alegre em seguida. A Lille Havfrue no fica no porto.
      - Foi o que percebemos, disse Katie. Onde fica, ento?
      - Vou lev-las at l, disse ele, ainda rindo. Mas ela no  to grande como a Esttua da Liberdade, acrescentou ele, com um gostoso sotaque.
      Cris olhou de relance para Katie.
      - Como  que eu poderia saber? O guia diz que ela fica no porto.
      O motorista parou na frente de um parque e abriu a porta do nibus.
      -  aqui que vocs iro encontr-la.
      - Obrigada, disse Cris, sorrindo para ele ao descerem.
      Estava com a sensao de que, assim que descessem do nibus, todos os outros passageiros dinamarqueses disparariam a rir das duas americanas malucas.
      - Bem, disse Katie, destemidamente. Acho que deixamos o dia desse motorista um pouco mais divertido.
      - , ele me pareceu ter se divertido at, disse Cris. Este lugar aqui  completamente diferente do porto onde estvamos.
      - E veja! Tem uma placa indicando o caminho pra esttua logo ali!
      As duas foram andando pelo caminho que atravessava o jardim.
      - Vale a pena dar uma consultada no guia turstico e aprender o dialeto local, no  mesmo? perguntou Katie.
      Cris no poderia perder a chance de "cutucar" a amiga.
      - Que histria  essa de consultar o guia turstico que eu estou ouvindo? Ser que isso quer dizer que no estamos mais "numa aventura"?
      - 'T bom, 't bom. Pode me gozar. Mas agora eu sou uma nova excursionista, lembra-se? No seja to dura comigo.  que antes eu no entendia o poder da letra.
      - Parece que voc 't falando da Bblia agora.
      - , e por falar nisso, aqui vai uma boa analogia pra voc, disse Katie. Vamos ter de contar essa para o Ted! A Bblia  como um guia turstico pra viagem 
da vida.
      - E as aventuras? Onde  que elas entram nisso a?
      - Bem, se voc ainda no percebeu, Cris, a tendncia  que as aventuras nos sobrevenham, sem que tenhamos de procur-las, disse Katie.
      Cris sorriu para a amiga.
      - Ns duas sempre fomos uma dupla de tesouros peculiares, n mesmo?
      Katie jogou a cabea para trs e soltou aquela gargalhada.
      - Faz tempos que no a ouo usar essa expresso! Tem razo, Cris! Somos uma dupla de tesouros peculiares. E essa esttua da Pequena Sereia tambm , se  que 
ela existe, n?
      Foi uma boa caminhada at avistarem a gua, que mais parecia um pequeno lago, de to raso. Foi ento que, de repente, avistaram-na. L estava ela, a Pequena 
Sereia. Era de bronze, com cerca de sessenta centmetros de altura. Estava com uma colorao esverdeada, em consequncia dos efeitos do tempo, e achava-se graciosamente 
assentada sobre uma pedra avermelhada, com o olhar voltado para a gua. Estava de costas para Katie e Cris.
      - Veja s! Andamos tudo isso e ela nem  capaz de se virar pra nos ver! disse Katie.
      - Ela  bem menor do que eu imaginava, comentou Cris.
      - Agora estou entendendo por que o motorista do nibus achou tanta graa da gente, disse Katie. D pra imaginar uma estatuazinha dessas l naquele porto? Os 
navios cargueiros e as balsas acabariam passando por cima dela!
      - Ento esta  a famosa esttua da Pequena Sereia, disse Cris, taxativamente.
      - A prpria!
      Ficaram as duas paradas ali, fitando a esttua por alguns momentos. Ento, virando-se uma para a outra, dispararam a rir. Era um riso solto, que s podia vir 
mesmo de dois tesouros peculiares, em meio a uma incrvel aventura.
      

16
       noite, Cris registrou sua aventura no dirio. Colocou o seguinte ttulo: "Em busca da Pequena Sereia". No ltimo pargrafo, escreveu:
      
      Espero que nunca mais me esquea da lio que aprendi hoje. Na vida, algumas das coisas que resolvo desbravar no so to interessantes como eu achava que 
seriam. E tomara que eu sempre conte com duas coisas, sempre que minhas expectativas se frustrarem. Primeiro, uma amiga especial com quem possa rir a valer da minha 
decepo e, segundo, dinheiro suficiente para pegar o nibus que me levar  etapa seguinte da aventura.
      
      Cris fechou o dirio, apagou a lanterna que Katie lhe emprestara e foi dormir com um sorriso nos lbios.
      Na manh seguinte, quando foram tomar banho, descobriram que s havia gua fria no chuveiro. Tinham dormido at 7:30h, o que era considerado dormir "at mais 
tarde" entre os viajantes. Se tudo corresse de acordo com o planejado, Ted chegaria ao albergue s nove da manh.
      Cris e Katie acharam uma padaria no fim da rua e foram tomar caf. O lugar estava cheio de viajantes estrangeiros que haviam se hospedado no albergue e j 
estavam de sada. Era um tromba-tromba de malas terrvel,  medida que as pessoas chegavam ao balco para fazer seus pedidos.
      - Voc quer ir a um outro lugar? perguntou Cris.
      - No. Diga-me o que voc quer e eu fico na fila pra ns. Enquanto isso, veja se h alguma mesa liberada l fora.
      Cris procurou no deixar muito na cara que estava observando as pessoas como se fosse um falco,  espera de qualquer movimento que indicasse que algum estava 
para liberar uma mesa. Foi ento que avistou dois rapazes se levantando. Trajavam shorts e botas de escalar. Cris correu para perto da mesa deles, a fim de peg-la 
assim que sassem. To logo eles se foram, ela puxou uma das trs cadeiras que havia ali e se assentou.
      Quase imediatamente depois, um rapaz alto e elegante se assentou na cadeira ao lado. Estava usando um casaco de couro e culos de sol alaranjados.
      - Godmorgen, disse ele.
      Cris sabia que ele estava dizendo "bom-dia" em dinamarqus, pois Katie havia treinado vrias frases com ela no trem. Era uma pena que a listinha do guia turstico 
no ensinasse a dizer "Suma daqui!"
      Cris apenas acenou com a cabea e se virou, a fim de ver em que ponto da fila Katie estava. O rapaz disse mais alguma coisa e Cris soltou sua frase de emergncia.
      - Ich verstehe nicht.
      Infelizmente, o rapaz lhe respondeu em alemo, mas Cris no conseguiu entend-lo. Ela no queria conversar em ingls pois assim ele saberia que ela era americana. 
E mesmo que conversasse em sua lngua, ela no conseguiria simular um sotaque britnico, a fim de encobrir a verdadeira nacionalidade.
      Antes mesmo que Cris pudesse resolver o que fazer, Katie despontou de repente pela porta da padaria, com as mos cheias. Estava quase deixando cair uma das 
tortas que havia equilibrado sobre a xcara de ch quente da Cris.
      - Cris! Venha c pegar isto! Rpido! exclamou ela, a alguns metros da mesa.
      Em seguida, olhou para o rapaz de culos alaranjados e acrescentou, cordialmente:
      - Oi! Voc se importa de nos assentarmos com voc? 'T bem cheio aqui, no? A comida deve ser boa!
      timo, Katie! Eu estava justamente tentando faz-lo dar o fora daqui!
      O moo puxou gentilmente uma cadeira para Katie e, em seguida, perguntou:
      - De onde vocs so?
      O ingls dele era perfeito.
      - Da Califrnia, respondeu Katie.
      Ele parecia decepcionado com a resposta dela.
      - Eu tambm. Moro em Fresno.
      - Mesmo? Legal! Ns somos de Escondido, continuou Katie.
      Cris estava impressionada. O rapaz havia conseguido convenc-la de que era um dinamarqus nato! Abaixando a fronte, Cris fechou os olhos e fez uma rpida orao. 
Em seguida, partiu um pedao da beirada de sua torta, que estava coberta de acar.
      - Seu alemo  muito bom, disse ele a Cris. Nunca teria imaginado que voc era americana.
      - Obrigada, disse Cris, levantando o olhar.
      Era bom saber que estava se "encaixando" na cultura europia, em vez de ficar sempre se destacando como "a estrangeira". Algumas semanas depois de comear 
a estudar em Basel, Cris havia decidido que no queria que todos soubessem que ela era americana. Havia descoberto que era bem mais fcil levar uma vida normal - 
participando e escapulindo da rotina diria - no sendo sempre conhecida como "a estrangeira".
      - H quanto tempo voc 't aqui? perguntou Katie ao rapaz. A propsito, meu nome  Katie. Esta aqui  a Cris.
      Cris no se sentiu muito  vontade ao ver que agora aquele estranho sabia o seu nome, mesmo ele sendo americano tambm.
      - Sou Jack. Estou na Europa desde maio.  o meu segundo dia aqui em Copenhague.
      - Nosso tambm, disse Katie. A Cris j 't morando aqui na Europa desde setembro do ano passado. 'T estudando na Sua.
      - Mesmo? Onde exatamente?
      Cris no estava gostando nada de ver Katie abrindo todos os detalhes de sua vida para o Jack. Contou apenas uma coisa e outra a respeito da universidade e 
voltou toda a ateno para o caf.
      - Que lugares aqui em Copenhague voc j visitou? perguntou Katie.
      - Visitou? perguntou Jack.
      - . J esteve no parque "Jardins Tivoli"?
      - No, na verdade estou s passando o tempo aqui e ali.
      - Ontem ns fomos ver a esttua da Pequena Sereia. Foi uma aventura e tanto! No exatamente o tipo que eu recomendaria a algum, mas foi uma aventura! disse 
Katie.
      Jack olhou para elas como se no acreditasse que as duas estavam perdendo tempo correndo atrs de pontos tursticos. Cris deduziu, ento, que ele tinha outros 
interesses ao visitar uma cidade.
      - Sabem, tem uma boate tima em Nysted. A banda que tocou ontem  noite era muito boa, disse o rapaz.
      Em seguida, olhou para Cris.
      - Voc gostaria de ir comigo l hoje  noite?
      - No, obrigada, respondeu ela, procurando no se mostrar muito assustada com o convite.
      - Voc iria se eu arrumasse algum pra acompanhar sua amiga?
      Cris meneou a cabea.
      - Voc  de pouco papo, hein?
      Vendo que Cris no olhara para ele nem lhe respondera, Jack prosseguiu:
      - Muito bem, ento. Se voc mudar de idia, nos vemos l.
      Levantou-se em seguida e bateu de leve no brao de Cris, como se quisesse arrancar alguma reao dela.
      - Relaxe! disse ele, saindo logo depois.
      Cris e Katie ficaram observando o rapaz, que agora se aproximava de um grupo de garotas, assentadas numa sombra, fumando. Quando Jack chegou, elas lhe ofereceram 
um cigarro.
      - Mais uma vez, principiou Katie, eu, sua amiga de todas as horas, fico aqui de lado, vendo os rapazes babarem em voc, como se eu misteriosamente me tornasse 
invisvel.
      - E at parece que voc estava interessada nesse cara, n, Katie!
      Cris tentou sorver um gole de seu ch, mas estava quente demais.
      - Eu teria aceitado o convite dele, respondeu Katie.
      - Ah, 't bom! disse Cris.
      - Eu acho que voc chama a ateno desse tipo de cara porque, quando eles se aproximam, voc fica toda timidazinha. E eu sei que voc no faz de propsito. 
Voc simplesmente fica toda vermelha, se retrai e desvia o olhar. Tudo muito naturalmente. Acho que eles se sentem desafiados e a ficam tentando conseguir uma brechinha 
com voc. Eu j sou o contrrio. Minha vida  um livro aberto. Mas, pelo visto, no estou na lista dos mais lidos.
      - Katie, voc  perfeita assim, do jeitinho que . Um dia voc conhecer um rapaz que ficar encantado com o simples fato de voc ser quem . E ele tambm 
ficar feliz de saber que voc no foi a boates com carinhas de casaco de couro e culos laranja na cabea.
      Katie sorriu.
      - Acho bom voc me lembrar sempre disso ento, porque quanto mais tenho de esperar pelo meu prncipe encantado, mais atraentes essas jaquetas de couro se tornam 
pra mim.
      Cris balanou a cabea.
      - Sabe, uma das coisas que sempre me incomodava l em Basel era ver americanos iguais a esse cara. Eles agem como se estivessem  procura de quem eles realmente 
so.
      - E ns no fazemos o mesmo?
      - Acho que sim, mas  diferente. Com eles  quase como se tivessem usando uma fantasia, sabe? Jaqueta de couro, culos laranjados. Da eles viajam toda essa 
distncia s pra experimentarem a fantasia e ver se algum acreditar que essa  a verdadeira identidade deles.
      - Voc 't parecendo uma velha falando assim, Cris!
      - Eu no! 
      - Eu at que gostei dos culos dele. Quase pedi pra experimentar. Queria ver se eles iriam destoar muito do meu cabelo.
      Cris resolveu entrar na brincadeira; em vez de tentar levar um "papo srio" com a amiga, to cedo de manh. Ento, como quem no quer nada, deu uma olhada 
para trs.
      - Voc sabe que, se quiser, ainda pode pedir os culos pra ele, n? Ele ainda 't ali.
      - Talvez se eu ficar olhando fixo nessa direo, ele acabe percebendo que quero que volte pra c, disse Katie.
      - Por favor, no faa isso. Meu brao ainda 't doendo daquele soco
      - Voc sente falta do Ted nessas horas? perguntou Katie.
      - Sim. Mas estou muito feliz por ns duas termos passado estes dois dias juntas. Tem sido bastante divertido.
      - Tem razo. s vezes eu gostaria que o Ted ficasse fora um pouco mais. Estes dias foram timos. Como nos velhos tempos. Fazia um tempo que no agamos assim 
uma com a outra, n? Estava sentindo falta disso. Estar perto de voc traz de volta minha verdadeira personalidade.
      - Voc acha difcil agir assim quando o Ted 't por perto?
      -No. Bem, na verdade, s vezes sim. Mas no  por nada que vocs tenham feito ou deixado de fazer. Acho que, levando-se em conta a nossa idade, a realidade 
 essa mesmo. Voc e o Ted esto aprofundando cada vez mais o relacionamento, e isso significa que haver menos espao pra mim em sua vida.
      Cris j ia dizer alguma coisa, quando Katie a interrompeu.
      - E isso no  ruim.  bom. No  o que voc sempre quis? Eu mesma fiz uma orao e outra pra que o relacionamento de vocs chegasse a este ponto. E  bom 
ver que Deus responde algumas de minhas oraes, mesmo sendo elas em favor de meus amigos, e no de mim.
      - Tem razo. Eu nunca havia pensado sob essa perspectiva. Realmente o fato de eu e Ted estarmos juntos at hoje e um verdadeiro milagre, n mesmo?
      - Na minha opinio, os milagres esto apenas comeando, disse Katie. E  bom ver vocs dois juntos, aprofundando o relacionamento, tornando-o mais srio. Acho 
que vou ficar mais empolgada do que voc no dia em que ele finalmente pedir voc em casamento.
      Cris fitou os olhos verdes de Katie. Eram olhos travessos, brincalhes.
      - Que foi?! exclamou Katie, aproximando-se e apertando a mo de Cris. Por que 't me olhando assim? Vai me dizer que ele j lhe pediu em casamento e voc 't 
guardando segredo? Voc no esconderia isso de mim, n, Cris?
      - No,  claro que no, Katie. Ele no me pediu em casamento. Nem nunca conversamos sobre isso. Na verdade, fiz aquela cara porque soou estranho ouvir isso 
de voc. Quer dizer, s vezes penso que o Ted vai me pedir em noivado, mas isso fica s em meus pensamentos.
      - Bom, ento eu falarei por voc. O Ted ir lhe pedir em casamento, Cris.  s uma questo de tempo.
      Cris sentiu o corao bater com fora.
      - Voc parece to assustada! disse Katie, rindo. Por que isso a assustaria? Quer dizer, o que deveria lhe deixar assim  ser convidada para ir a uma boate 
com um estranho. Por que 't to espantada com o fato de o Ted lhe pedir em casamento?
      - No sei bem. S sei que estou.
      Katie olhou para trs de Cris e, com um sorriso largo nos lbios, disse, praticamente sem mexer os dentes:
      - No olhe agora, mas ele voltou.
      Cris no olhou para trs. Tinha achado que Jack estivesse feliz da vida, batendo papo com as meninas que encontrara na outra mesa.
      - No d papo pra ele, disse Cris em voz baixa, olhando nos olhos de Katie.
      Naturalmente o sorriso estampado no rosto de Katie no era para Cris, e sim para o rapaz que se achava atrs da amiga. Levantando o queixo, Katie disse ao 
rapaz:
      - Vamos, beije-a! Ela 't doidinha pra ganhar um beijo seu!
      - Katie!
      Mas, antes mesmo que pudesse continuar sua bronca na amiga, Cris sentiu o vulto de algum vir sobre ela. Sentiu a barba em seu rosto e um cheiro no muito 
agradvel. De repente, os lbios dele, secos e rachados, apertaram os dela.
      Cris se afastou, pegou a xcara de ch e jogou o lquido fumegante bem na cara do sem-vergonha.
      Ted soltou um grito.
      Saltando da cadeira, Cris olhou para Ted e depois para Katie.
      - Por que voc no me disse que era o Ted? gritou ela.
      Estavam todos olhando para eles. Algum ofereceu um guardanapo de papel para Ted se limpar. O rapaz tampava o rosto com ambas as mos.
      - Ted, me desculpe, disse Cris, ofegante. Voc 't bem? Deixe-me dar uma olhada em seu rosto.
      Cris tocou carinhosamente o brao dele. Ted, ento, tirou as mos do rosto.
      - 'T tudo bem, disse ele vagarosamente.
      Dava para ver algumas manchas grandes e vermelhas na testa dele. Com o guardanapo, ele limpou os olhos e se assentou ao lado de Cris, ainda carregando a mochila 
nas costas.
      - 'T tudo bem, pessoal, disse Katie queles que os observavam. Ele 't legal.
      - Ainda 't ardendo? perguntou Cris, assentando-se e procurando analisar o rosto de Ted mais de perto. Ser que devemos ir ao mdico?
      - Acho que um pouco de gua gelada deve ajudar a melhorar, disse Ted.
      - O albergue fica logo ali, dobrando a esquina, disse Cris, tentando ajudar.
      Ted afastou o brao de perto dela, e Cris se lembrou de uma ocasio em que ele sofrera uma grave queimadura, mais de um ano atrs. Se tentasse ajud-lo a fazer 
qualquer coisa, ele se irritaria com ela. Cris procurava se lembrar de que, em situaes assim, o melhor a se fazer era seguir as coordenadas dele, pegar o que ele 
pedisse e ficar na dela.
      Durante a caminhada para o albergue, nenhum dos trs falou nada. Ao chegarem, Ted pediu um quarto e se dirigiu para a ala masculina do dormitrio. Cris apenas 
gritou:
      - Qualquer coisa, estamos no quarto!
      Katie e Cris caminharam rapidamente na direo oposta, como se fossem duas crianas malcriadas a quem os pais haviam colocado de castigo.
      - A culpa foi minha, disse Katie com firmeza. Agora vejo claramente por que voc pensou que eu estava falando do Jack. No tinha como voc saber que era o 
Ted quem havia chegado.
      - Eu devia ter olhado antes de jogar o ch nele. Estou me sentindo pssima!
      - Voc estava apenas se defendendo. No fique se culpando. Eu  que armei pra cima de voc. Sinto muitssimo, Cris, disse Katie.
      - No faz mal. Eu sei que voc estava apenas fazendo uma brincadeira. Foi um acidente.
      Cris recostou-se na lateral de uma das camas de madeira.
      - Estou me sentindo horrvel.
      Durante a hora seguinte, Katie e Cris ficaram lendo calmamente na cama, enquanto outras moas entravam e saam do quarto. Uma das que entrou mergulhou na cama 
de baixo e caiu no sono. Parecia estar dormindo profundamente. Cris estava lendo algumas passagens em Salmos, que era para onde ela corria sempre que precisava de 
algum consolo.
      As palavras do Salmo 61, inspiradas por Deus, foram de grande ajuda naquele momento.
      "Ouve,  Deus, a minha splica; atende a minha orao. Desde os confins da terra clamo por ti, no abatimento do meu corao. Leva-me para a rocha que  alta 
demais para mim."
      Cris se lembrou dos enormes e pontiagudos rochedos que haviam visto alguns dias antes, durante o passeio de barco pelos fiordes.
      Senhor, t s a minha rocha. Eu confio em ti. Posso at no ter ido com o Ted aos confins da Terra, mas, em meu corao, sinto que estou l agora, no fim do 
mundo.
      A porta do dormitrio se abriu e uma mulher, que trabalhava na recepo, disse:
      - Tem alguma Cris aqui?
      - Oi? gritou Cris de sua cama.
      - Tem algum querendo falar com voc l na recepo.
      - Obrigada.
      Cris desceu da cama e perguntou a Katie se ela gostaria de ir junto.
      - Acho melhor eu ir. Quero explicar pra ele que a culpa foi minha, disse Katie, fechando o guia turstico.
      Caminhando lado a lado, as duas se dirigiram  recepo. Ted achava-se assentado num comprido banco de madeira, que ficava  esquerda da entrada do albergue. 
Ao v-las, abriu um largo sorriso.
      - Sinto muito, Ted, principiou Katie. A culpa foi minha. A Cris pensou que era o Jack que tinha chegado e ela no queria que ele a beijasse. Pode acreditar.
      Ted ergueu as sobrancelhas, surpreso. Cris notou uma grande mancha em sua testa. Estava vermelha e inchada. A aparncia no era muito boa, mas tambm no parecia 
to ruim como antes.
      - Jack, hein? disse Ted.
      Rapidamente Katie lhe explicou quem era Jack.
      Cris se assentou ao lado de Ted e olhou para ele com uma expresso amiga no rosto.
      - Desculpe-me por ter reagido daquele jeito, sem olhar antes quem era.
      Ted tirou a mecha de cabelo que caa sobre a face de Cris.
      - Acho que no preciso mais me preocupar se voc ir ou no saber se defender. Voc  uma pessoa de reaes rpidas, Cris. Isso  bom.
      - S no  bom quando voc acaba se machucando por causa disso.
      - Vai sarar. Ento, o que mais vocs tm feito, alm de recusar convites pra boates?
      Cris podia ver que Ted estava bem. No estava com raiva e seu rosto no ficara muito machucado. Pelo visto, Katie havia chegado  mesma concluso, porque foi 
logo se assentando do outro lado de Ted e apresentando um roteiro completo de atividades para o dia, assim como uma lista enorme de outros pontos tursticos que 
deveriam visitar.
      Surpreso Ted olhou para Cris, enquanto Katie continuava soltando todo o seu conhecimento sobre os mais interessantes pontos tursticos.
      - Ela 't lendo o guia, disse Cris a ele.
      Ted riu.
      Cris se sentiu bem ao ouvir a risada de Ted. Era bom estar perto dele e saber que tudo estava bem entre os trs.
      - Mas antes de irmos a qualquer lugar, quero que voc me conte de sua aventura, disse Cris.
      - Isso, concordou Katie. E depois vamos lhe contar da nossa peripcia com a Lille Havfrue.
      Ted recostou-se no banco, esticou as pernas e cruzou os braos sob o pescoo.
      - Eu vi um urso polar, disse ento, todo orgulhoso.
      - No! 't brincando! exclamou Katie.
      - Verdade. Srio mesmo. No vi de perto, mas era um urso polar. Vi vrias renas e conheci um pessoal muito legal. Foi timo.
      Cris havia insistido que ele levasse a mquina fotogrfica dela, j que ele no tinha uma.
      - E voc tirou a foto perto da marquinha do Crculo Polar rtico quando chegou l, no tirou? perguntou ela.
      - Tirei duas, no caso de uma no ficar boa, disse ele.
      Cris sorriu para ele e disse:
      - Ento voc 't feliz de ter ido, no 't?
      Ted acenou com a cabea. Ento, olhando nos olhos de Cris, aproximou-se dela e sussurrou, somente para ela ouvir:
      - Mas eu gostaria que voc tivesse ido comigo.
      

17
      Os trs viajantes passaram o dia se divertindo como crianas no parque "Jardins Tivoli", sob o agradvel calor do sol. Depois tomaram um sorvete de casquinha, 
que era servido com um bocado de chantilly e gelia por cima, e um biscoitinho fininho enfiado de lado. Quando viram que a placa dizia Casquinhas Americanas, resolveram 
parar para experimentar. Depois de provarem o sorvete, concluram que no havia nada de "americano" nele.
       noite, mesmo estando ainda claro, o ar era fresco e agradvel. Os trs se assentaram para descansar em um dos muitos bancos que havia pelo jardim. J tinham 
andado em todos os brinquedos e reclamado que todos eram bobinhos demais. Nas palavras de Katie, o passeio na montanha-russa era "a mesma coisa que passar nos quebra-molas 
do Colgio Kelley".
      - Acho que ficamos mal acostumados com todos os parques que h na Califrnia, disse Cris. No foi voc, Katie, que leu pra mim que este parque foi construdo 
h mais de cento e cinquenta anos?
      - , mas mesmo assim eu esperava mais, replicou a outra.
      -  realmente um parque muito bonito, disse Cris. Vejam estas rvores. O tronco delas  quase preto e as folhas so verde-hortel. Que tipo de rvore vocs 
acham que so essas?
      - rvores dinamarquesas, respondeu Katie. Ser que podemos ir visitar outro lugar?
      - Claro! O que mais voc marcou a no guia turstico? perguntou Ted.
      Em seguida, Ted quebrou um pedao da barrinha triangular de chocolate Toblerone que estava comendo e o ofereceu a Cris.
      - Eu tambm quero um pedacinho, disse Katie.
      - Sabia que voc iria querer! disse Ted, dando-lhe um pedao tambm.
      - Eu tinha planejado comer uma barrinha de chocolate em cada pas que visitssemos, mas meu plano acabou indo por gua abaixo na Noruega, disse Katie. Agora 
vou ter de comer duas barras aqui, pra compensar. O que que aconteceu que a gente acabou no comprando nenhuma barrinha de chocolate por l?
      - Aconteceu que eu levei voc a todas as confeitarias e, em vez de chocolate, compramos tortinhas, disse Cris.
      - , as tortas at que no estavam ruins, admitiu Katie.
      - Elas estavam uma delcia! Mal posso esperar pra lev-los  minha Konditorei predileta l em Basel, disse Cris.
      Em seguida, virou-se para Ted.
      - Voc se lembra que lhe contei que todos os sbados eu vou l?  l que consigo recobrar minha sanidade mental.
      - Eu me lembro sim, disse Ted, dando uma mordida no chocolate. Voc sempre pede um caf com chantilly e se assenta numa mesa no canto, ao fundo. Da a Margie, 
ou algum com nome parecido...
      - Marguerite, disse Cris, corrigindo-o.
      - Isso. A Marguerite leva pra voc a quitanda mais fresquinha. a que acabou de sair do forno. No  isso?
      - Exatamente.
      Uma sensao gostosa tomou conta de Cris. Era bom saber o quanto Ted prestava ateno aos seus e-mails e as coisas que eram importantes para ela.
      - Quero levar vocs l, pra conhecerem a Marguerite e provarem as delcias que ela faz.
      - A gente pode fazer isso, disse Ted, esticando as pernas.
      Em seguida, ofereceu mais um pedao de chocolate s duas.
      - Vamos montar nosso roteiro de forma que cheguemos a Basel no domingo, um dia antes de comearem suas aulas, e a iremos  sua confeitaria.
      - Ento, a pergunta : Que lugares queremos visitar no caminho daqui pra Basel? Eu, por exemplo, tenho de conhecer a Torre Eiffel, disse Katie.
      Se sua impresso da Torre Eiffel for a mesma dos fiordes, ento no vamos ficar muito tempo em Paris, pensou Cris
      - Certo. Vamos dar uma passada em Paris. At que no seria mal conhecer a Catedral de Notre Dame, disse Ted.
      -  podemos ver a Mona Lisa tambm, acrescentou Cris.
      - Ela est em Paris? perguntou Ted.
      - Sim. A gente tem de ir ao Louvre *;  parada obrigatria, disse Cris.
      - Quantos dias ainda temos? perguntou Ted.
      Demoraram um pouco at concluir que dia era e quanto tempo de viagem ainda restava. Afinal concordaram que era quinta-feira e que tinham de estar em Basel 
na segunda-feira, sem ser a prxima, a outra. Ou melhor, deveriam chegar no domingo, para que pudessem ir  confeitaria de Cris.
      - Temos tempo de sobra, disse Ted.
      - Sabem o que isso significa? perguntou Cris. Que estamos no meio da viagem. Estamos viajando h onze dias, e ainda temos mais dez.
      Katie parecia estarrecida com a informao.
      - Srio? S tem onze dias que estamos viajando? Parece que passou uma dcada! Digo, um ms. Detesto quando comeo a exagerar!
      E, balanando a cabea, continuou:
      - Gente, temos de montar um roteiro. Os prximos dias vo passar assim, ! falou ela, estalando o dedo, para reforar o que estava dizendo.
      Ted e Cris se entreolharam e Cris disparou a rir.
      -  exatamente isso que estou tentando mostrar pra vocs desde que comeamos a viagem! Precisamos de um roteiro!
      - 'T, eu sou devagar pra entender as coisas. Pega leve comigo.
      Katie puxou o guia turstico da bolsa, onde sempre o guardava agora.
      - Minha sugesto  que a gente ache um trem noturno e v pra Paris. No! Esqueam o que eu falei. Queria ver se vocs no se animam a dar uma passada em So 
Petersburgo antes.
      - Na Rssia? perguntou Cris.
      - . Eu andei lendo sobre a cidade, disse Katie. Acho que Moscou fica muito longe pra ns. Levaria uns trs dias de trem pra chegar l, saindo daqui. Mas So 
Petersburgo no fica muito longe de Helsinki, e daqui a Helsinki  s um dia de viagem. Vinte e quatro horas. Poderamos ver aquelas igrejas que tm a cpula em 
formato de cebola. E tem tambm um museu em So Petersburgo que parece ser at melhor que o Louvre. Chama-se Museu Heritage, ou alguma coisa assim.
      - Acho que o nome  Hermitage, disse Ted.
      - Isso! replicou Katie, folheando algumas pginas, j bem gastas. Achei! O Museu Hermitage possui dois milhes e oitocentos mil itens em exibio. Foi construdo 
no Palcio de Inverno, que era a antiga residncia do czar. Diz o seguinte: "No deixe de visitar os belssimos sales do Palcio de Inverno, com seus lustres em 
forma de candelabro e sua suntuosa decorao em mrmore e ouro". Viram? "No deixe de visitar", disse ela, apontando as palavras no guia turstico. Acho que devemos 
ir a So Petersburgo.
      - O que voc acha, Ted? perguntou Cris.
      - O que vocs resolverem 't bom pra mim.
      E com um sorriso, acrescentou:
      - J fui a Narvik e voltei. Estou satisfeito.
      Cris se sentia toda feliz por ter sugerido que Ted fosse ao rtico. Aquela havia sido uma boa deciso. Agora, era esperar que as prximas decises tambm fossem 
boas.
      Depois de passarem uma hora assentados no banco do parque, discutindo as opes que tinham, Ted sugeriu que fossem procurar um lugar pra comer, acrescentando 
que no havia se alimentado bem durante a viagem aos "confins da Terra". E at ento s comera a casquinha "americana" e a barrinha do chocolate.
      Os trs se dirigiram a um pequeno restaurante, que ficava prximo  principal avenida da cidade e havia sido recomendado por um notvel senhor, que Ted parara 
numa rua do centro de Copenhague. Cris pediu o prato especial da noite, "flaekesteg med rodka", como constava no cardpio. A garonete, que alis falava ingls muito 
bem, explicou-lhe que se tratava de carne de porco assada, acompanhada de repolho roxo e batatas levemente douradas. Katie parecia estar se segurando para no disparar 
a rir.
      To logo a garonete se retirou, Cris olhou para a amiga como se perguntasse qual era a graa. Katie riu e disse:
      - Desculpe-me.  que do jeito que voc pronunciou o nome do prato, Cris, a ltima palavra soou como "vodca". Parecia que voc estava dizendo: "Quero uma vodca", 
disse Katie, ainda rindo.
      Foi ento que Cris se deu conta do quanto estava cansada e faminta, agora que estavam assentados  mesa, sob a fraca iluminao do sossegado restaurante. Tinha 
sido divertido ouvir as gargalhadas de Katie durante o passeio no parque, mas agora elas soavam alto e extravagantes demais para ela. Cris sabia que Katie ficava 
"escandalosa" quando estava cansada e vivendo  base de acar.
      Mas a verdade mesmo era que Cris queria ficar sozinha com Ted. Queria ouvi-lo contar todos os detalhes de sua aventura em Narvik. Queria olhar diretamente 
nos olhos dele e escut-lo, sem ter de dar ateno a ele e  Katie ao mesmo tempo.
      O jantar estava delicioso. Depois de comerem, os trs se sentiram bem melhor. Aps a refeio, a garonete serviu-lhes um prato com vrias fatias de queijo. 
Era cortesia da casa. Ted pediu um caf e os trs voltaram a discutir os planos para a etapa seguinte da viagem.
      Quando finalmente conseguiram terminar o roteiro, a claridade l fora j estava comeando a diminuir, dotando o cu de uma tonalidade laranja-rosada. Estocolmo 
e Helsinki estavam fora da lista e, consequentemente, So Petersburgo tambm, j que no iriam mais para Helsinki.
      Ficou resolvido que iriam para Paris, mas antes passariam um dia em Amsterd, para que pudessem conhecer um moinho de vento holands. A viagem de Copenhague 
para Amsterd levaria mais de doze horas.
      Ted tentava montar uma pequena agenda com o horrio dos trens que teriam de pegar. Estava consultando um guia com os horrios do eurorail.
      - Se estou entendendo bem, d pra sairmos daqui amanh s sete da manh e chegar em Hamburgo mais ou menos ao meio-dia.  uma da tarde pegamos o trem que vai 
pra Colnia, na Alemanha. E pelos meus clculos,  o mximo que poderemos ir. No h nenhum trem de Colnia para Amsterd aqui na lista.
      - Como assim? perguntou Katie. Voc 't querendo pular Amsterd e ir direto pra Paris?
      - No.  claro que quero ir a Amsterd. Deve haver um trem noturno, s no 't aqui na lista. Vou continuar procurando. Se no houver nenhum, podemos passar 
a noite em Colnia e ir para Amsterd pela manh. Eu at conheo um pessoal que mora em Amsterd. Poderamos ficar na casa deles. Conheci-os quando estava na Espanha.
      - Pra mim 't timo, disse Katie.
      E, sorrindo para Cris, acrescentou:
      - Parece que conseguimos montar um roteiro.
      Os trs caminharam de volta ao albergue e Cris, de mos dadas com Ted, se perguntava quanto tempo levaria para que ela e Ted comeassem a planejar o futuro. 
Ele era muito bom na hora de consultar o guia turstico e montar o horrio dos trens.
      Ser que ele j comeou a dar uma olhada na grade curricular da faculdade, para ver quando ir se formar? Ele falou que estava tentando economizar dinheiro 
no ano passado. Ser que era tudo pra pagar a faculdade ou ser que 't economizando pra comprar uma aliana de noivado?
      Cris sabia que sua imaginao estava indo longe demais. E j havia aprendido com experincias passadas que, sempre que deixava os pensamentos correrem soltos, 
na tentativa de adivinhar como seria o futuro, ela inevitavelmente acabava se privando da alegria de viver o presente.
      E era ali que Cris queria estar. Bem ali; andando de dadas com o Ted pelas ruas de Copenhague, sob aquele manchado de alaranjado-pssego pelo sol da meia-noite. 
Poderiam falar do futuro um outro dia, mas no naquela hora. Aquele era um momento para sonhar, e no para discutir.
      No dia seguinte, j na metade do caminho para Hamburgo, o trem entrou numa enorme balsa, semelhante  que Cris e Katie haviam avistado no porto, quando foram 
procurar a Pequena Sereia. Cris no sabia se no caminho para Oslo tinham sido transportados de balsa tambm.  que ela dormira a maior parte da viagem e no notara 
se o trem estava sob as estrelas, ou sob o mar.
      Cris convenceu Ted a sair do trem com ela e descobrir o caminho at o convs da embarcao. Ela queria acenar para os turistas que estivessem no porto, como 
as crianas de blusas amarelas haviam feito com ela e Katie.
      - J entendi a indireta, disse Katie  amiga, ao ver que no a chamara para ir junto. Tudo bem. Eu fico aqui com a bagagem. Vocs podem ir. No se preocupem 
comigo, vou ficar bem. Divirtam-se!
      - Vamos procurar uma barra de chocolate pra voc, disse Ted ao sarem.
      - Meu heri! gritou Katie.
      - Ento, como  ser o heri de algum? brincou Cris.
      Ted no respondeu nada; apenas sorriu. Dava para ver que a queimadura provocada pelo ch quente em sua testa no havia melhorado muito. A rea atingida ainda 
estava vermelha e um pouco inchada.
      - 'T doendo? perguntou Cris.
      Ted olhou para ela como uma expresso engraada no rosto.
      - Quero dizer, sua testa. A queimadura ainda 't incomodando muito?
      - No. Vai sarar.
      Ted conduziu Cris pelas escadas, at que chegaram ao convs superior. Imediatamente ele avistou uma lanchonete e entrou na fila, para comprar um lanche e uma 
barrinha de chocolate pra Katie. Havia tanta gente por li, que demoraram quase que os cinquenta minutos do trajeto de balsa para conseguir fazer a compra.
      No incio Cris ficou um pouco chateada ao ver que seus poucos momentos a ss com Ted haviam sido gastos na fila. No entanto ficou feliz de ter um lanchinho 
a mais para comer, ao descerem atrasados em Hamburgo e terem de correr para pegar o trem para Colnia.
      A viagem de Hamburgo para Colnia durou cinco horas. Durante esse tempo, os trs jogaram xadrez e ficaram lendo o guia turstico uns para os outros.
      Katie estava entusiasmadssima com suas leituras. Dava relatrios to completos sobre cada uma das grandes cidades que lia, que Cris chegou a pensar que a 
amiga j tivesse visitado aqueles lugares anteriormente. Katie tinha um lema. J que no podiam conhecer Helsinki, So Petersburgo, Moscou e Berlim, era melhor que 
soubessem o que estavam perdendo.
      Ao ouvir as informaes sobre a Holanda e a Frana, Cris ficou contente de terem includo os dois pases no roteiro. O nico problema  que, depois de ouvir 
os detalhes sobre Luxemburgo e a Blgica, Cris tambm tinha ficado com vontade de passar por l.
      - Acho que deveramos ir pra uma cidade pequena, depois de Paris, disse Cris. Ou ento um pas menor.  que s estamos passando pelas metrpoles. No que isso 
seja ruim, mas h muito o que se ver fora dos grandes centros tambm. Acho que assim teramos uma noo melhor de como so as pessoas nesses pases.
      - Por mim, tudo bem, disse Ted. Aonde voc gostaria de ir?
      -  Alemanha, respondeu Cris.
      - Mas ns estamos na Alemanha, disse Katie.
      - Eu sei, mas estamos apenas passando de raspo. Eu cheguei a assinalar um passeio de barco pelo Rio Reno a no guia. Voc viu, Katie? Parece ser muito bonito.
      - Eu vi, disse Ted. Esse passeio no comea em Colnia?
      - Nem me venha com essa, Ted! disse Katie. Nada de mudar os planos. Ns vamos pra Amsterd.
      Cris mal podia acreditar no quanto Katie se tornara inflexvel, agora que estava de posse do guia turstico.
      - O que aconteceu a Katie Weldon que comeou a viagem dizendo-se uma mulher corajosa e determinada, em busca de aventura?
      Katie deu um sorriso malicioso.
      - Ela se informou. Vocs bem sabem que o saber  poder, n?
      - O saber pode nos tornar pessoas arrogantes e legalistas, disse Ted. Vamos usar o conhecimento pra nos tornarmos melhores em estender graa aos outros.
      Cris se lembrava de ter ouvido Ted dizer aquelas mesmas palavras num estudo bblico anos atrs. Na ocasio, ele estava se referindo  Bblia e queles que 
adquirem tanto conhecimento e informao sobre Deus, que se tornam inflexveis e comeam a criar um monte de regrinhas. Cris sabia que desta vez ele estava se referindo 
ao guia turstico, mas a analogia parecia bem viva em sua mente. Nessas alturas, s lhe restava torcer para que Katie lhe estendesse graa e concordasse com o passeio 
pelo Reno.
      - Tudo bem, ento, disse Katie. No quero dar uma de chata, como fiz quando vocs quiseram ir ao rtico. Vamos ter de parar em Colnia de qualquer jeito, n 
mesmo? Podemos passar a noite l, fazer o passeio pela manh e partir para Amsterd antes do pr-do-sol. Da, ficamos um dia em Amsterd e seguimos pra Paris, porque 
vamos precisar de pelo menos dois dias l.
      Embora o roteiro de Katie parecesse simples e claro, Cris tinha a impresso de que nem tudo correria to calmamente assim. No entanto, ela estava muito contente 
de poder conhecer um pouco mais da Alemanha, a terra de seus ancestrais, e torcia para que o passeio de barco fosse mais um dos pontos altos da viagem.
      Por insistncia de Katie, assim que chegaram a Colnia, os trs deram uma volta em redor do Dom, antes de irem procurar um lugar para se hospedarem. O Dom 
era uma catedral imensa que tinha duas torres idnticas e ficava perto da estao de trem. Era to grande, que "dominava" a regio. Segundo as informaes de Katie, 
era uma das maiores construes gticas do mundo, e seus alicerces haviam sido construdos em 1248. Os trs ficaram olhando para as enormes pontas das torres cinzas, 
que pareciam furar o cu da noite.
      - Que pena que no vai dar pra gente entrar! disse Katie. Eles fecharam a igreja meia hora atrs. Eu falei pra vocs que as relquias deixadas pelos trs reis 
magos, quando foram visitar Jesus, esto nesta catedral, no falei? Gostaria de ter dado uma olhada. O guia turstico no diz especificamente que relquias so.
      - Podemos voltar amanh, sugeriu Ted.
      - No, vamos em frente. Primeiro o albergue, depois a comida, e, pela manh, vamos ver os castelos da Cris.
      Cris no se agradou muito de saber que estavam planejando passar o dia navegando pelo Reno s porque ela queria ver mais castelos. Teria se sentido bem melhor 
se Ted e Katie tivessem se mostrado to interessados quanto ela naquele passeio.
      No dia seguinte, Cris podia ver claramente que Ted e Katie estavam apenas sendo legais com ela, agindo como se o lento passeio pelo rio fosse divertido. No 
entanto j fazia uma hora que se encontravam dentro do barco, e ela tinha certeza de que eles no estavam curtindo o passeio como ela. E isso acabava por impedi-la 
de desfrutar plenamente aqueles momentos de tranquilidade.
      Quando avistaram o primeiro castelo, escondido atrs de velhas rvores no alto de uma colina, Cris at conseguiu fazer com que os amigos olhassem para ele 
e soltassem um pouco a imaginao com ela.
      - Quem vocs acham que morou nesse castelo? Um prncipe elegante, talvez? Ser que ele precisou lutar alguma guerra a fim de proteger sua princesa e o castelo?
      No incio Ted e Katie deram respostas bastante inteligentes s perguntas dela. Contudo, ao passarem pelo terceiro castelo, ningum mais, nem mesmo Cris, se 
mostrava interessado em ficar imaginando como teria sido a vida ali no passado.
      Acho que j vi coisa demais hoje. Estou perdendo o pique. 'T certo que tudo isto aqui  muito bonito e romntico, mas o que eu mais queria agora era um lugarzinho 
ao sol, para me encolher toda como um gatinho e dormir.
      O passeio de barco foi tranquilo e relaxante, e Cris, mais do que Ted e Katie, estava doida para descansar um pouco. Ela sabia que, mesmo viajando, ainda no 
havia conseguido se refazer do cansao que sentia em consequncia do pesado semestre letivo. Viajar era legal e gostoso, mas no dava para descansar quase nada!
      Durante as horas seguintes, o sol ficou se escondendo por entre as nuvens, saindo apenas ocasionalmente. Cris, que estava de short, resolveu pegar uma cala 
jeans na mala e ir ao banheiro se trocar, mesmo no estando frio.
      O trecho de Koblenz a Bingen foi espetacular. Cada vez que olhavam, podiam avistar um castelo no alto das colinas. Cris tinha a sensao de que anos mais tarde 
se lembraria daqueles momentos, como se tivessem sido um sonho.
      Era pouco mais de uma hora da tarde quando chegaram a Mainz e, embora o passeio tivesse sido bom, Cris j estava querendo que ele acabasse. Naquele momento, 
o que ela mais queria era embarcar num trem moderno e dar um jeito de dormir o resto da tarde. Era como se o Reno, com seus suaves movimentos e seus castelos encantados, 
a tivesse embalado at que ela ficasse com sono. E agora o que mais desejava era que o corpo e a mente, exaustos, descansassem profundamente.
      Mas os planos de Ted eram outros.
      - Pessoal, o Museu de Gutenberg fica aqui em Mainz. Vocs se importam de passarmos por l antes de irmos pra estao?
      - O que tem pra ver l? perguntou Katie.
      - A primeira Bblia impressa. J ouviram falar em quem foi Gutenberg, n? Ele foi o inventor da imprensa moderna. E o primeiro livro que ele publicou foi a 
Bblia, claro. Gostaria muito de v-la.
      E l se foram eles, carregando os pesados mochiles, rumo ao museu. Iam ver a primeira Bblia impressa e assistir a um breve documentrio sobre a vida de Gutenberg. 
Ted estava bastante entusiasmado. J Cris no conseguiu conter o sono. Assim que as luzes da sala de vdeo se apagaram, ela "apagou" junto.
      Em seguida, compraram queijo e po no mercado da esquina e foram comendo, enquanto caminhavam para a estao. Cris deixou que Ted e Katie discutissem sobre 
que trem pegar e a que horas. No estava nem a para saber onde iriam parar. Sua dor de cabea no havia passado, mesmo depois de ter lanchado, e, agora, sua garganta 
doa para engolir.
      Queria poder ir pra Escondido por um dia e dormir na minha cama. Minha me faria um ch com mel pra minha garganta e eu ficaria horas no banho. Depois, dormiria 
umas dez horas e acordaria refeita, limpa e com as baterias recarregadas. Ento eu seria instantaneamente transportada pra c. Ah, se eu pudesse fazer isso! Teria 
muito mais condies pra aguentar a viagem at o fim e aproveitar melhor os lugares que estamos conhecendo.
      Cris quase no viu nada durante a viagem para Amsterd. Quando Ted a chamou, ela pegou a bagagem e trocou de trem. Depois, quando o cobrador pediu que apresentassem 
o passaporte e o passe de embarque, ela mecanicamente pegou o passe de eurorail na bolsa e o apresentou, como j havia feito dezenas de vezes durante a viagem. No 
restante do tempo, dormiu.
      Quando Cris finalmente comeou a se sentir mais desperta, ela abriu os olhos e olhou pela janela. O sol j havia se posto, e s conseguia ver algumas imagens 
vagas e indistintas do lado de fora. Estava tudo escuro.
      - Katie! Ted! Cad vocs? Por acaso ns perdemos a parada em Amsterd?
      Cris se virou, aguardando que seus amigos lhe respondessem. Mas eles no estavam mais l.
      

18
      Cris procurou no entrar em pnico.
      Eles devem ter ido comer alguma coisa e no quiseram me acordar. A gente j fez isso uns com os outros antes. No  nenhuma novidade.
      Mas havia algo estranho no ar. Era para terem chegado a Amsterd antes de anoitecer. Cris se lembrava vagamente de ter sido acordada por Ted, quando fizeram 
uma conexo em Colnia. Eram cerca de 5:00h da tarde. Ele lhe havia dito que levariam trs horas para chegar a Amsterd e que estariam antes de escurecer. E quando 
chegassem, ele telefonaria para os amigos e veria a possibilidade de se hospedarem com eles.
      Cris olhou nas duas direes do corredor, na esperana de avistar Ted e Katie. O trem j estava quase parando. A nica coisa que conseguia pensar em fazer 
era pegar a bagagem e ficar pronta para descer; caso estivessem em Amsterd. Depois poderia encontraria uma forma de localizar os amigos. O pior que poderia ocorrer 
seria perder o ponto de descida, como quase acontecera com Katie em Npoles.
      Quando Cris esticou o brao para pegar a mochila na prateleira superior, percebeu que a bagagem de Katie e de Ted ainda estava l. Eles no teriam descido 
sem as malas. E tambm no teriam descido sem ela. Mas, onde  que eles estavam? E, mais do que isso, em que estao estavam chegando agora?
      Quando o trem entrou na estao, Cris tentou ler as placas. Estava escrito Nancy. Cris ficou atordoada. Como foi que viemos parar na Frana?
      Foi ento que Katie chegou toda saltitante.
      - Ol, Bela Adormecida. Resolveu acordar e encarar o mundo real?
      Para Cris, no entanto, o que estava vivenciando naquela hora no parecia nada real.
      - Katie, o que  que estamos fazendo na Frana?
      Ted vinha logo atrs de Katie, acompanhado de um rapaz. O desconhecido usava um bon de beisebol e carregava uma mochila nas costas.
      - Cris, este aqui  o Sam. Como  mesmo seu sobrenome?
      - Edwards, respondeu ele.
      Parecia um pouco mais velho que Ted, mas suas roupas estavam to surradas quanto as do outro. Sinal de que estava viajando h algum tempo.
      - Sam Edwards, repetiu Ted. Esta aqui  a Cris.
      Em seguida, para surpresa dela, acrescentou com um sorriso:
      - Cris Miller, minha namorada.
      Ted nunca havia apresentado Cris a ningum daquela maneira. Se ela no estivesse se sentindo to confusa e assustada por estarem na Frana, e no na Holanda, 
provavelmente teria deixado as palavras de Ted penetrarem mais fundo em seu corao.
      - Conhecemos o Sam no vago-restaurante. Ele nos deu vrias dicas de lugares pra visitar em Paris, disse Katie.
      - Ser que algum poderia me explicar o que 't acontecendo? perguntou Cris, quando os trs se assentaram. Achei que estvamos a caminho de Amsterd.
      - Mudamos os planos, disse Katie, radiante. At chegamos a falar com voc, durante a viagem de Mainz para Colnia. Voc falou que no fazia questo, que o 
que decidssemos estava bom.
      - No me lembro disso, disse Cris.
      Sam sorriu para ela. Seus olhos eram muito bonitos. Um tom de azul escuro, que combinava com a camisa jeans que ele estava usando por cima da blusa branca 
manchada.
      - Voc fica afetada, n? perguntou ele.
      - Afetada com o qu?
      - Com o cansao da viagem. Muitos lugares pra conhecer, comidas diferentes, o barulho nas ruas... Pelo que o Ted a Katie me falaram, vocs esto pulando muito 
rpido de um lugar para outro. Eu j vou bem mais devagar. Mesmo assim, quando d umas duas semanas, sinto esse cansao. A tenho de me demorar um pouco mais num 
mesmo local, pra ento seguir em frente.
      - O Sam j esteve em Paris e nos deu muito mais informaes do que o guia turstico, disse Katie. Agora ele 't voltando pra encontrar uns amigos. E acabou 
de passar duas semanas em Veneza. J imaginou ficar duas semanas num s lugar?
      Naquele momento, aquele luxo parecia algo muito bom para Cris.
      - O Ted e a Katie lhe contaram que ns s conhecemos a estao de Veneza?  que mesmo assim, ficamos apenas algumas horas l? perguntou Cris a Sam.
      - Vocs tm de voltar l. Pelo menos por um dia. No  possvel viajar toda essa distncia e no conhecer Veneza, disse Sam.  claro que ficar quatorze dias 
 bem melhor.
      - Por acaso voc viu alguma joalheria chamada Santim l? perguntou Katie. No  esse o sobrenome do Marcos? Acho que anotei em algum lugar.
      -  Savini, disse Ted.
      - Ah! E se algum dia voc quiser se hospedar num lugar legal em Capri, procure o Villa Paradiso. Diga a eles que foi recomendao do Carlo Savini, disse Katie 
a Sam.
      Em seguida, ela continuou contando sobre o luxuoso hotel em que haviam se hospedado de graa em Capri.
      Sam contou-lhes de uma famlia Sua que havia conhecido no trem alguns meses atrs, e que lhe convidara para passar alguns dias com eles. Depois, abriu a 
mala, tirou um caderninho cheio de cartes-postais e perguntou a Cris se poderia anotar o nome do casal no guia turstico dela.
      - Estou falando srio, disse Sam, tirando a tampa da caneta com os dentes. Eles vo adorar receber vocs. Eles moram num chal, numa pequena vila Sua chamada 
Adelboden. Fica nos Alpes.
      Sam folheou o caderninho e continuou:
      - Vou anotar tudo aqui pra vocs. Primeiro vocs pegam o trem de Bern at Thun. De Thun vocs vo pra Spiez e de l pra Frutigen. Pra chegar a Adelboden vocs 
pegam um nibus. A paisagem  incrvel.
      - Quanto tempo voc ficou l? perguntou Katie.
      - Acho que uns cinco dias. Dormi no palheiro e, durante o dia, ajudei na fazenda. Foi superlegal. Vocs iriam amar! Estou falando srio.  s dizer que foi 
recomendao do Sam Edwards.
      Durante as duas horas de viagem at Paris, os trs ficaram trocando histrias e experincias de viagem com Sam. Quando chegaram, Cris j estava se sentindo 
bem mais desperta e "acesa", muito embora tivesse certeza de que passava de meia-noite.
      Felizmente, Sam conhecia um hotel bom e barato perto da estao, e os quatro ento caram na cama. No outro dia, s oito da manh, se encontraram na recepo 
depois de tomarem banho.
      - Preciso ir andando, disse Sam. Foi muito bom conhec-los. Espero que o restante da viagem de vocs corra bem.
      - A sua tambm, disse Katie. Obrigada por todas as dicas.
      - Eu coloquei uma listinha daqueles restaurantes de Veneza dentro do guia de vocs, caso resolvam voltar l.
      - Iremos sim, disse Katie. No que depender de mim, com certeza voltaremos l.
      Depois de se despedirem de Sam, Ted sugeriu que comessem e fossem ver a Torre Eiffel enquanto ainda estava fresco. Tinha ouvido algum dizer no trem que uma 
onda de calor cobriria Paris por alguns dias, fenmeno alis no muito comum no incio do vero. E, como o Louvre tinha sistema de ar-condicionado, poderiam deixar 
para visit-lo durante a parte mais quente do dia.
      Cris no havia conseguido dormir pesado o suficiente para que a sensao de tontura e cansao passasse. Nem mesmo o caf forte e a torta que comera no desjejum 
a ajudaram. Ela tirou algumas fotos da Torre Eiffel e, como Katie, achou que a subida at o topo da torre era cara demais. Levadas por Ted, tomaram o metr - um 
moderno sistema de trens subterrneos - e os trs desceram prximo  catedral de Notre Dame.
      Ao se aproximarem da imensa catedral cinza-claro, Cris pediu a Katie que lhe emprestasse o guia turstico. Queria descobrir quantos anos a igreja tinha e o 
que havia de comum e de diferente entre ela e a catedral de Colnia. Externamente eram razoavelmente parecidas. A diferena era que, em vez das torres pontiagudas, 
Notre Dame tinha duas torres idnticas, vazadas, que pareciam torres de sino.
      Katie entregou-lhe o guia. Quando Cris o abriu, trs postais caram no cho. O primeiro era uma foto dos Alpes austracos, e o segundo, do Rio Sena em Paris. 
O terceiro trazia a foto de uma gndola amarrada a um mastro listrado de vermelho e branco. No cais, o gondoleiro, apoiado no mastro, fazia sinal de que a gndola 
estava disponvel para passeio. Vestido totalmente a carter, usava um chapu de palha de abas largas, com uma fita azul caindo-lhe pelas costas.
      - Estes postais devem ser do Sam.
      Cris olhou o verso do postal da gndola. O destinatrio era um tal de Franklin Madison, da cidade de Glenbrooke, Oregon, EUA. Nenhum dos postais estava selado. 
Cris guardou-os novamente no guia turstico e resolveu fazer a gentileza de coloc-los no correio para Sam mais tarde. Provavelmente tinham ido parar ali quando 
Sam foi colocar a lista de restaurantes dentro do guia.
      Cris abriu na seo sobre Paris e correu os olhos pelas informaes a respeito da catedral.
      -Vocs acreditam que esta igreja foi construda quase cem anos antes da catedral de Colnia? O guia diz que as pessoas vm prestar culto aqui h praticamente 
dois mil anos.
      Cris ficou assombrada com a informao. Era a mesma sensao que experimentara na Noruega, ao avistarem a simples e modesta igrejinha, construda oitocentos 
anos atrs, e perceberem o enorme contraste entre ela e a Baslica de So Pedro em Roma.
      - Parece que as pessoas desejam se encontrar com Deus, n? comentou ela enquanto olhavam para a catedral. L no fundo do corao do homem h um forte anseio 
pelo Senhor. Tenho percebido isso de uma forma muito clara durante estes dias.
      - Vejam aquela janela! disse Katie. O que o guia diz sobre ela mesmo?
      Cris se ps a ler em voz alta.
      - O vidro da grande roscea ainda  o original, produzido na Era Medieval. Na poca em que foi feita, nenhuma outra roscea se comparava a ela em tamanho. 
Foi to bem projetada que, mesmo tendo se passado setecentos anos, no apresenta nenhum sinal de deteriorao.
      - Isso  que eu chamo de saber projetar! exclamou Ted. Vocs notaram como a arte era usada para mostrar ensinamentos bblicos? Puxa! Como a arte moderna se 
distanciou desse propsito!
      Os trs demoraram mais de duas horas para conhecer todo o interior da igreja. A atmosfera l dentro era sombria e imponente. Depois, os trs subiram as escadas 
em espiral at a cpula.
      - Vocs no tm a sensao de que esto dentro da concha de um caracol quando sobem este tipo de escada, no? perguntou Katie.
      - Eu fico tonta, disse Cris.
      - Fico s imaginando o tamanho dos msculos das pernas dos monges que ficavam subindo e descendo estas escadas, duas vezes ao dia, a fim de tocar os sinos, 
comentou Ted.
      Quando chegaram  cpula da igreja, perceberam o quanto havia esquentado. A vista de Paris parecia embaada pelas ondas de radiao do calor. Visto dali, o 
Rio Sena parecia bastante tentador para Cris. Alis, qualquer gotinha d'gua, fosse na pele ou descendo garganta abaixo, seria refrescante naquelas alturas
      No foi muito difcil para Ted convencer as duas a descer com ele e procurar algo para comerem, antes de seguirem para o Louvre. Para economizar, resolveram 
parar num carrinho de cachorro-quente. Cris achou a salsicha apimentada demais e comeu apenas metade do lanche. A coca-cola estava to quente quanto o engradado 
de onde havia sido tirada. Cris bebeu o refrigerante quente e espumante e, em vez de matar a sede, ficou ainda mais sedenta.
      Pelo menos dentro do Louvre estava fresco. O museu, que anteriormente havia sido um palcio, era bastante espaoso, e Cris se sentiu bem  vontade l dentro. 
Queria poder ter algum como Marcos por perto, para deix-los entrar pela porta dos fundos e lev-los diretamente s salas onde estavam as obras de maior interesse. 
Como no tinham ningum, pagaram os ingressos utilizando suas carteirinhas internacionais de estudante, para terem desconto. Depois, passaram por uma pirmide de 
vidro moderna e de design bastante complexo. Dali em diante, Cris ficou completamente desorientada com tudo o que viu.
      Katie, por sua vez, estava empenhada em encontrar a Mona Lisa. Sua determinao em localizar a famosa tela era muito maior do que o interesse que demonstrara 
em descobrir o "paradeiro" da Pequena Sereia. Quando afinal adentraram a sala onde o quadro se achava, Katie infiltrou-se pela multido, a fim de chegar mais perto. 
Cris e Ted ficaram mais ao fundo, espiando por cima dos ombros dos outros turistas.
      - O quadro  bem menor do que eu imaginava, disse Ted.
      Cris sorriu e comentou:
      -  engraado como as coisas so, n?
      Katie se ps de frente para a multido de turistas que apreciavam a tela e, ainda com seu jeito todo animado e divertido, bateu uma foto de Cris e Ted.
      - O segurana ir tomar essa mquina de voc, advertiu Cris, quando a amiga caminhou para perto deles.
      - E por qu? O aviso diz que  proibido tirar fotos com flash da Mona Lisa. No diz nada sobre tirar fotos das pessoas olhando pra ela.
      - Pra onde vamos agora? perguntou Ted.
      - Pra casa, respondeu Cris, cansada.
      - Quer voltar para o hotel? indagou Ted.
      - No. Estou querendo  voltar pra Escondido. J passei dos meus limites. Acho que no aguento conhecer mais nenhuma "maravilha" deste mundo.  demais para 
o meu crebro!
      - Que tal se sassemos daqui do centro? sugeriu Ted. Poderamos pegar um nibus e ir pra Versalhes. Fica a mais ou menos meia hora daqui.
      Naquele momento, pouca diferena fazia para Cris para onde iriam. Na verdade, ficar assentada por meia hora era o que lhe parecia mais convidativo. Os trs 
passaram rapidamente pela sala de arte egpcia e por mais algumas e, em seguida, deixaram o Louvre. Ted ia na frente. Do lado de fora do museu, o ar estava quente 
e abafado.
      Depois de perguntar a quatro pessoas, Ted concluiu que sabia para onde deveriam se dirigir, a fim de pegar o nibus para Versalhes. Esperaram uns vinte minutos 
sob o forte calor e entraram no coletivo, equipado com ar-condicionado. A viagem durou uns quarenta minutos e, to logo chegaram, compraram garrafas de gua de um 
vendedor ambulante.
      Afastando-se um pouco, Cris se ps a observar o Palcio de Versalhes. A construo, em tons de amarelo bem claro, tinha um aspecto imponente, grandioso. No 
parecia real. A fachada era perfeitamente harmoniosa. Cada janela, cada coluna, e at mesmo o contorno do telhado, se encaixava em perfeita harmonia com o restante 
do palcio. E, em vez de ser apenas uma imensa construo plana e achatada, a fachada do palcio possua entalhes semelhantes a degraus, que se alinhavam em direo 
ao centro.
      Katie, que havia lido alguma coisa sobre aquele palcio do sculo XVII, disse:
      - Olhem s pra este lugar! D pra imaginar todos aqueles camponeses aqui fora, morrendo de fome, e Maria Antonieta * assentada a dentro do palcio?
      Cris no sabia exatamente aonde a amiga queria chegar com aquele comentrio. Katie deve ter percebido a expresso confusa no rosto de Cris, porque em seguida 
acrescentou:
      - Vocs no se lembram? Algum disse a ela que os cidados franceses no tinham po pra comer. E ento ela lhes disse que, nesse caso, comessem brioche!
      Aquela deve ter sido a primeira vez em toda a viagem que uma informao histrica no interessava a Cris. Contudo a idia de comer um brioche, ou quem sabe 
uma quitanda qualquer ou at mesmo um biscoitinho, pareceu-lhe muito boa.  que o pedao de cachorro-quente que tinha comido no havia cooperado muito com seu estmago.
      Felizmente, o ar estava mais fresco no interior do gigantesco palcio. A gua que Cris havia tomado tambm a ajudou a refrescar um pouco. A sensao que tinha 
era de que sua mente e seu corpo estavam comeando a agir mecanicamente, o que era muito estranho. Seus ps a levavam de cmodo em cmodo e seus olhos contemplavam 
todo aquele espetculo. Cada quarto que visitava parecia mais suntuoso que o anterior. O salo de festas a fez pensar sobre algo que tinha visto num filme da Cinderela. 
Cris contemplou tudo aquilo, mas, como dissera a Ted pouco antes, havia passado do limite que o corpo aguentava.
      - Voc 't bem? perguntou-lhe Ted no nibus de volta para Paris.
      - Sei l. Como  que voc consegue absorver tudo o que v? As coisas novas no despertam certos sentimentos em voc, no? Alguma vez voc j chegou ao ponto 
em que parece no ter mais nenhuma energia dentro de si pra investir naquilo que 't fazendo?
      Ted no disse nada. Parecia estar pensando nas perguntas de Cris. Quando afinal se pronunciou, fez-lhe mais algumas perguntas.
      - Ser, ento, que  por isso que o trabalho no orfanato tem sido to desgastante pra voc? Ser que voc no 't absorvendo demais tudo o que v por l? E 
consequentemente isso gera em voc um sentimento muito profundo em relao s crianas diariamente? Fico me perguntando se no  isso que 't acontecendo. Ento 
voc chega a um ponto em que no consegue dar mais nada de si emocionalmente, porque j se deu demais.
      Cris encostou a cabea nos ombros de Ted.
      - Ted, acho que voc acabou de descobrir a resposta que vem me atormentando todos esses meses.
      - Eu sei que 't sendo difcil pra voc, pelas coisas que voc diz nos e-mails.
      - A necessidade  to grande... disse ela.
      Ted virou o queixo e beijou-a carinhosamente na testa.
      - Mas, Cris, a necessidade no faz o chamado. Deus a dotou de uma forma singular, nica. O segredo  descobrir quais so esses dons singulares que Deus lhe 
deu.  nisso que voc deve empenhar sua vida. Se voc estiver trabalhando dentro da esfera de dons que ele lhe concedeu, ento voc se sentir motivada e impulsionada 
a seguir em frente, e no esgotada.
      Cris levantou a cabea e olhou para Ted.
      - Est me dizendo, ento, que meu dom no  trabalhar com crianas?
      Aquela idia soava como um golpe para ela. Por vrios anos ela havia pensado que aquele era o ministrio que devia desempenhar. Tudo comeara quando Katie 
a convencera a ajudar na classe de maternal da igreja. E Cris havia gostado de trabalhar ali. Desde ento, todas as suas decises com relao ao que fazer no futuro 
haviam girado em torno do trabalho com crianas, que era um dom que ela pensava ter.
      - No sei dizer exatamente quais so os seus dons ou qual  o chamado de Deus pra sua vida. Isso  algo entre voc e o Senhor. Pergunte a ele. Deus certamente 
lhe dir.
      Cris apoiou a cabea no ombro de Ted novamente. At aquele momento, pensara que seu futuro achava-se bem traado. Havia feito seus planos muitos anos atrs. 
Iria se especializar em educao infantil e depois, quem sabe, poderia dar aulas no jardim-de-infncia. Gostava daquela idia porque era algo que poderia fazer em 
qualquer lugar que morasse, quer fosse casada ou solteira. E poderia continuar na profisso, mesmo que tivesse filhos
      - Tudo o que sei  que o futuro 't escancarado pra voc, Cristina Juliet Miller, principiou Ted, apoiando o queixo sobre a cabea dela. Deus lhe concedeu 
dons e chamou-a para servi-lo de uma forma nica, singular. H um versculo em Romanos que diz que os dons e a vocao de Deus so irrevogveis. Ningum nunca poder 
tirar isso de voc. Voc  livre pra sonhar to alto quanto ousar sonhar.
      Se Cris achava que seu corpo estava operando acima dos limites, agora ento era como se seu circuito interno tivesse sido completamente desligado. Ela olhou 
nos olhos de Ted. Sabia que ele lhe havia dito uma verdade importante. E juntamente com essa verdade, Cris sentiu uma liberdade vir sobre ela. Liberdade para se 
tornar algum que nunca antes pensara em ser.
      - Guarde essas lgrimas pra mim, sussurrou ela.
      Ted envolveu-a com o brao, e Cris recostou-se no dele, deixando que as lgrimas lhe cassem diretamente no corao.
      

19
      Na manh seguinte, Cris acordou sentindo calor. Jogou o lenol no cho e permaneceu deitada na cama do hotel parisiense. Queria muito poder encontrar uma maneira 
de expressar a Ted o quanto ela valorizava as palavras dele. Era realmente muito bom poder ouvi-lo. Pouco tempo depois de Cris ter chegado a Basel e comeado a trabalhar 
no orfanato, ela comeou a perceber que, toda vez que estava junto das crianas, tinha de lutar para que uma tristeza e um cansao muito fortes no se apoderassem 
dela. E, na verdade, s conseguira ficar ali todos aqueles meses porque sabia que as crianas precisavam dela.
      Bem l no fundo, Cris se sentia esgotada. No incio, achou que o problema fosse com ela. Afinal de contas, todos os outros voluntrios pareciam transbordar 
de nimo e satisfao por causa do trabalho que realizavam ali.
      - Que horas so? resmungou Katie, chutando o lenol tambm.
      - Sete horas ainda. A gente bem que queria dormir at mais tarde hoje, mas no d. 'T quente demais.
      - Vamos acordar o Ted e dizer-lhe que estamos prontas pra tomar caf. Tem certeza de que a janela 't totalmente aberta?
      - Sim. O problema no  o calor que 't demais.  o ar que no 't circulando. Ontem  noite mesmo quase no ventou. Se tivesse um ventilador aqui o quarto 
ficaria bem mais agradvel.
      - Duvido que o hotel tenha ventiladores pra emprestar, disse Katie. Este hotel aqui  barato. O Sam falou que ele era o melhor que tinha aqui perto do centro.
      - E por falar em Sam, os cartes-postais dele acabaram ficando dentro do guia turstico, disse Cris. Como esto sem selos, pensei em coloc-los no correio 
pra ele. Ia aproveitar mandar um carto pra minha famlia tambm. Voc j enviou algum postal para seus pais?
      - 'T brincando? Quando  que tivemos tempo pra comprar postais? Ou mesmo lembrancinhas? A nica coisa que compramos nesta viagem foi comida, voc notou? Pelo 
menos voc foi esperta e comprou aquele dirio na Itlia. Eu devia ter comprado um tambm.
      -  mesmo. No samos pra fazer compras nem uma vez disse Cris.
      - Pena que no comprei aquele suter que vimos na vitrina daquela loja em Oslo. Lembra? Ele era azul e branco, tricotado  mo. Prprio pra esquiar. Acho que 
ele custava cerca de oitenta e cinco dlares.
      Cris mal conseguia pensar em suter naquele caloro todo.
      - Voc trouxe tudo isso pra gastar com presentinhos? Puxa!
      - Na verdade, no. Mas eu poderia ter feito a comprar e passado o resto da viagem a po e gua.
      - A sensao que tenho  de que nos ltimos dias s comemos po e gua, disse Cris. No estou com vontade nem de comer tortinha hoje, d pra acreditar?
      - Voc no vai querer tortinha? Conta outra!
      - Estou querendo algo com mais protena. Que tal um pedao de frango? Ou um bife? No seria uma boa pedida?
      - Se tivesse de escolher, pediria um Big Mac com fritas, disse Katie.
      - Ah, no faa vontade em mim! Sabe h quanto tempo no como batatas fritas? disse Cris, levantando-se.
      Em seguida, esticou o brao e pegou a roupa que havia pendurado na cabeceira da cama.
      - Venha, Katie! Vamos trocar de roupa e sair pra comprar fritas. Se o Ted quiser ficar dormindo, ele que fique! Eu estou a fim de comer alguma coisa!
      - Vou junto!
      Tinham acabado de vestir os shorts, quando algum bateu  porta.
      - S um minutinho! gritou Cris, sacudindo e vestindo a ltima camiseta limpa que lhe restara. Voc 't vestida decentemente? perguntou  Katie.
      - No s estou vestida decentemente, como tambm estou linda! Alis, como sempre.
      Cris olhou para ela, como quem est aflita, e abriu a porta. Era Ted. J havia trocado de roupa e estava pronto para sair. Ao v-la, o rapaz abriu um sorriso.
      - Pelo visto vocs tambm no conseguiram dormir, n?
      - Resolvemos sair pra caar comida na rua, Ted, disse Katie, penteando rapidamente os cabelos. Venha conosco, se tiver coragem! Mas, aviso: pode no ser uma 
maratona to simples! Portanto, quem  desanimado no entra na equipe dos caa-batatas fritas!
      - Acho que vou aceitar o desafio, embora nunca tenha ouvido falar que a Frana tenha tradio em batatas fritas. Alis, quando estive na Espanha, o pessoal 
comentava que as melhores fritas da Europa eram as de Bruxelas.
      - E a quantas horas isso fica daqui? perguntou Katie.
      - Umas trs, imagino, disse Ted. Fica no caminho pra Amsterd.
      - Ento, vamos pra l! disse Katie. J estou pronta pra dar o fora daqui. Este caloro 't demais! Alm disso, que mais que tem pra vermos aqui? Ontem ns 
visitamos os principais pontos tursticos.
      - Que tal irmos pra Espanha? sugeriu Cris. Quer dizer, no estamos na metade do caminho?
      - Pra falar a verdade, no, respondeu Ted. Daqui a Barcelona seriam doze horas e, de Barcelona a Madri, mais sete.
      - Tinha me esquecido de que Paris ficava bem ao norte, disse Cris. Mas voc no gostaria de rever seus amigos?
      Ted pensou por alguns instantes e depois deu de ombros.
      - Na verdade, muitos deles j no esto mais l. Ou assumiram cargos em outros pases da Europa, ou voltaram para os Estados Unidos. No consigo me lembrar 
de ningum, dos meus amigos mais ntimos, que ainda esteja l.
      - Ento 't resolvido! Vamos pra Bruxelas! anunciou Katie, jogando as roupas na mala.
      - Vou arrumar minhas coisas, disse Ted, dirigindo-se para o quarto.
      Cris havia observado que a testa de Ted estava comeando a descascar levemente no local da queimadura. Pelo menos, parecia que a pele estava sarando. J nem 
estava vermelha mais.
      - Ser que a gente consegue achar um lugar pra lavar roupas em Bruxelas? perguntou Katie. Esta  minha ltima muda de roupa limpa.
      - Minha tambm, disse Cris. A ltima vez que lavei roupa foi h uma semana, em Oslo.
      Katie parou por alguns instantes o que estava fazendo.
      - Isso quer dizer que nos resta menos de uma semana de viagem.
      Cris olhou para o relgio redondo pendurado na parede.
      - So 8:00h. Daqui a uma semana, certinho, minhas aulas recomeam. E agora nem sei mais se quero concluir esse curso.
      - Por qu? perguntou Katie.
      Cris procurou lhe explicar como as palavras de Ted no nibus a tinham feito sentir-se livre. Era como se Deus a houvesse liberado do encargo de trabalhar no 
orfanato e da presso que sentia para obter um diploma em educao infantil.
      A testa de Katie brilhava de suor, por causa do calor no quarto. Katie olhou para Cris.
      - E o que voc vai fazer agora?
      - No tenho a menor idia, respondeu Cris com um sorriso.
      - E isso no a assusta um pouquinho?
      - Acho que me assustava mais o fato de ter de me empenhar tanto pra conseguir um diploma que no me deixa nem um pouco empolgada com o futuro.
      - Esta  uma deciso sria, Cris. Quero dizer, a idia era que voc fosse estudar na Rancho Corona, em setembro, e aproveitasse os crditos que cursou aqui. 
Voc ia se formar rapidinho.
      - Eu sei.
      - Se voc mudar de curso agora, vai acabar perdendo esses crditos. Isso no lhe mete medo? Pode ser que demore mais tempo pra voc se formar.
      - Eu sei.
      - Voc no percebe, Cris? disse Katie, com as mos na cintura.
      O suor escorria-lhe pelo rosto.
      - Quanto mais voc demorar a se formar, mais tempo levar pra voc e o Ted poderem se casar! continuou ela.
      Cris deu de ombros. Ela tambm j havia pensado naquilo. S que estava entusiasmada demais com a idia de poder sonhar novos sonhos; sonhos maiores, sonhos 
livres. Certamente no iria deixar que aquele probleminha acabasse com sua alegria.
      - Vamos embora daqui, disse Katie. Este quarto 't quente demais. Estou com a sensao de que vou comear a derreter daqui a pouco.
      Assim que saram do velho hotel, puderam sentir a brisa e respirar um pouco melhor. L fora estava quente, porm bem menos do que no abafado quarto. Caminharam 
at a estao, que ficava ali perto, e compraram queijo, pes e umas caixinhas de iogurte para a viagem.
      Katie no falou muito durante as trs horas de viagem para Bruxelas. Cris sabia que a amiga queria conversar mais sobre a sria deciso que Cris teria de tomar, 
com relao  mudana de curso. Entretanto Katie parecia estar esperando um momento em que estivesse a ss com Cris, para ento continuar dando sua opinio.
      A oportunidade surgiu cerca de meia hora antes de chegarem a Bruxelas. Ted resolveu andar um pouco, para esticar as pernas, e to logo ele se retirou, Katie 
soltou a pergunta:
      - Ento... voc acha que  possvel vocs se casarem antes de terminar a faculdade?
      - No estou acreditando que voc 't me perguntando isso, Katie!
      - Eu sei que essa pergunta j lhe passou pela cabea. S estou tentando ajud-la a responder sua prpria indagao.
      - No sei, Katie. O mximo que posso fazer  dar um passo de cada vez,  medida que Deus me mostra que passo devo dar. Por enquanto, s sei que me sinto em 
paz pra mudar de curso. No sei ainda pra qual. No sei nem se vou continuar em Basel. E, pra ser sincera, tambm no sei o que vem pela frente em meu relacionamento 
com o Ted.
      - E isso no a assusta?
      Cris pensou por alguns instantes e depois balanou a cabea.
      - No. Parece a coisa certa na hora certa. Alis, havia tempos que uma deciso no me parecia assim to correta.
      Cris se lembrou da noite em que ela e Ted pararam na acidentada rua de pedra de Capri, sob o brilho dourado da luz do poste. Tinha se sentido diferente, mudada, 
naquele dia. Todas as dvidas se dissiparam de seu corao. De alguma forma ela sabia que havia atravessado um tnel invisvel, deixando de ser uma adolescente e 
tornando-se uma mulher de verdade.
      A mesma sensao tomava conta de Cris agora. Ela se perguntava se aquele era o sentimento que se tinha quando se entregava cada rea da vida ao Senhor, esperando 
que ele direcionasse as circunstncias.
      Cris tentou descrever para Katie o que estava sentindo, dizendo que era como se ela tivesse uma profunda certeza de que o Esprito Santo estava reconfortando 
seu corao. Katie lhe disse que achava que entendia. Ted retornou e as duas pararam de falar sobre o futuro.
      Na verdade, Cris no se importava de suspender o assunto por alguns momentos. Contudo ela sabia que em breve precisaria levar um papo aberto com Ted. Afinal, 
ela teria de tomar decises bastante srias nos prximos dias e queria ouvir a opinio dele. Mais do que isso, queria saber quais eram os planos de Ted para o futuro.
      Era meio-dia em ponto quando o trem chegou a Bruxelas, na Blgica, e a primeira coisa que os trs fizeram ao descer do trem foi sair  procura de um carrinho 
de batatas fritas. Ted disse que seus amigos haviam voltado da Blgica contando vrios casos sobre esses carrinhos que vendiam fritas nas ruas. Eram semelhantes 
aos carrinhos de sorvete da Itlia e aos de cachorro-quente de Nova Iorque.
      No tiveram de andar muito. Ali mesmo, prximo  estao, havia um carrinho. Enquanto esperavam, observavam os enormes pedaos de batata - que j haviam sido 
fritos uma vez - passar novamente pela gordura, at ficarem crocantes. O vendedor lhes ofereceu vrios molhos para mergulharem as fritas. Um deles era parecido com 
maionese. Cris preferiu experimentar a batatinha ao natural.
      - 'T quente demais! disse ela ao dar a primeira mordida.
      Ted experimentou um molho escuro.
      - No parece com molho barbecue nem com ketchup. No sei. Acho que o gosto lembra camaro.
      - Isso  muito esquisito! exclamou Katie, ao provar o molho que lembrava maionese. At que  bom. Nesse caso, talvez seja melhor nem saber do que  feito.
      - L na Sua as criancinhas do orfanato gostam de pr acar na pipoca, em vez de sal e margarina, disse Cris.
      Era a primeira vez que um comentrio acerca do orfanato no lhe fazia sentir um aperto no estmago. Sentia-se livre. Verdadeiramente livre.
      Cris gostou demais das fritas. Ted e Katie at ficaram surpresos ao v-la pedir outra poro quando j estavam quase indo embora.
      - Muito bem. J comemos as batatinhas, disse Katie. O que vocs querem fazer? Ficar mais um pouco aqui ou pegar o trem pra Amsterd?
      - Mas ns acabamos de chegar, disse Cris.
      - Eu dei uma olhada no horrio dos trens, principiou Ted. So mais ou menos umas trs horas daqui a Amsterd. H vrios trens durante o dia. Poderamos passar 
a tarde aqui e partir  noite. Se decidirmos fazer isso, preciso telefonar para os meus amigos e perguntar-lhes se podemos ficar com eles.
      A etapa seguinte seria voltar para a estao, achar um telefone pblico, conferir o horrio dos trens e confirmar os planos para o dia. Pouco tempo depois, 
Ted saiu da cabine telefnica, com um papel nas mos.
      - Eles estaro nos esperando s 6:30h. O Mike disse que pode nos buscar na estao e nos levar para o Rochedo. Eles tm um culto s sete da noite. Vou dar 
uma mo pra eles nos louvor.
      - Espera a! disse Katie. Que papo  esse? O que  esse tal de Rochedo? De que louvor voc 't falando?
      Ted explicou que Rochedo era o nome do albergue que Mike e Meg, um casal com quem trabalhara na Espanha, administravam em Amsterd. Todas as noites, havia 
um culto de louvor das sete s oito. Cris podia ver o quanto Ted estava alegre de poder rever os amigos. Talvez estivesse ainda mais empolgado com a possibilidade 
de pr as mos num violo.
      A fim de passar o tempo, os trs ficaram perambulando pelas ruas de Bruxelas, carregando os pesados mochiles. O calor no era to intenso como em Paris, mas 
o sol da tarde at que estava bem forte. Cris e Katie entraram numa loja para comprar chocolate belga e alguns suvenires. Ted ficou l fora, com as bagagens. Cris 
comprou trs guardanapos de renda que, segundo a vendedora, haviam sido feitos  mo. Eram muito bonitos e delicados. Katie, por sua vez, disse que aquele no era 
bem o tipo de presente que compraria. No entanto a vendedora acabou convencendo-a a comprar quatro marcadores de livro, tambm de renda.
      - Achei que seriam bastante apropriados pra dar de presente quando eu voltar, disse Katie. Principalmente porque no vo pesar nada na bagagem.
      Em seguida, amarrou o mochilo nas costas e soltou um suspiro.
      -  impresso minha ou a roupa suja pesa mais?
      Caminharam mais alguns quarteires e chegaram a um parque. Aproveitaram a sombra para descansar um pouco.
      - Ah! Eu estava querendo comprar uns postais e alguns selos, disse Cris.
      - Eu posso ficar aqui com a bagagem, se vocs duas quiserem voltar ao centro, disse Ted.
      - Isso  loucura, gente! disse Cris. Estamos todos cansados e sem o menor pique pra passear aqui. A gente nem precisaria esperar o trem da tarde pra ir pra 
Amsterd. Poderamos partir agora mesmo e deixar pra comprar os postais e os selos por l.
      - Estou de acordo, disse Katie. Alm do mais, estou com vontade de comer mais batatinhas. Vamos!
      Os trs fizeram uma parada no mesmo carrinho em que haviam comido antes e foram para a estao, comendo as fritas enquanto andavam. Chegaram bem na hora. O 
trem seguinte para Amsterd estava prestes a partir. To logo tomaram seus assentos, Katie comeou a rir.
      - O que foi? perguntou Cris.
      - Estamos parecendo uns velhos! D pra acreditar que ficamos apenas duas horas num pas? Gente, ns estvamos na Blgica! Adeus, Blgica! exclamou Katie, acenando 
como se fosse uma miss, logo que o trem se ps a caminho.
      -  at ridculo pensar que os nicos suvenires que compramos durante toda a viagem foram de um pas em que estivemos apenas pra provar suas famosas fritas! 
disse Cris.
      Todos riram do comentrio de Cris. O trem saiu da estao e Ted desafiou Cris a uma partida de xadrez. Katie se levantou, dizendo que ia comprar algo para 
beber.
      - Querem que eu traga alguma coisa pra vocs?
      - No, obrigada.
      Cris tirou uma escova da mochila e se ps a pentear o cabelo, enquanto Ted arrumava o tabuleiro. Durante quase toda a viagem, ela havia usado uma trana frouxa, 
mas, por causa do calor da manh, optara por fazer um coque. S que nas ltimas horas o penteado comeara a despencar vagarosamente. Cris deixou o cabelo solto e 
comeou a desembara-lo.
      - Eu gosto do seu cabelo assim, comprido, disse Ted.
      Aquele era mais um de seus famosos comentrios breves.
      Cris sentiu o rosto corar. Raramente Ted comentava sobre a aparncia dela. Alguns anos atrs, ele havia dito que gostava do cabelo dela comprido. Na ocasio, 
ela havia acabado de fazer um corte bem curtinho. Desde ento, deixara o cabelo crescer, em parte porque sabia que Ted gostava dele assim, mas tambm porque curtia 
poder fazer penteados diferentes nele.
      Ted movimentou uma pea no tabuleiro de xadrez, comeando o jogo. Cris virou-se de costas para ele e, rindo, inclinou a cabea para trs. As pontas do cabelo 
quase lhe chegavam  cintura.
      - Pronto, disse ela, com o queixo voltado para cima. 'T comprido o suficiente?
      Em seguida virou-se para Ted. O rapaz sorria para ela. Era o mesmo sorriso de felicidade que Cris havia visto em seu rosto quando ele a beijara na Noruega, 
a caminho do Museu Kon-Tiki.
      Cris mexeu uma pea e em seguida torceu o cabelo. J ia prend-lo novamente quando Ted a interrompeu, logo aps fazer sua jogada.
      - No! Faa uma trana. Quero ver como  o processo, disse Ted.
      Cris partiu o cabelo em trs mechas.
      -  assim, disse ela, passando rapidamente uma mecha por cima da outra e fazendo a trana em poucos segundos.
      - Calma. Foi muito rpido. Faa outra pra eu ver.
      - Pra qu? 'T querendo aprender a fazer tranas ou algo parecido?
      - E por que no? respondeu Ted, como se as palavras dela fossem o nico convite de que precisava.
      Inclinou-se um pouco e pegou as mechas da mo de Cris.
      - Muito bem. De que lado comeo?
      - Qualquer um. No faz diferena.
      Cris se manteve imvel, enquanto Ted vagarosamente tranava seu cabelo, pedindo-lhe instrues. A primeira trana ficou muito frouxa. Na segunda tentativa, 
saiu apertada demais e Cris soltou um gritinho.
      - Melhor agora? perguntou Ted ao refazer a trana, dessa vez segurando o cabelo de Cris com mais delicadeza.
      - 'T bom assim. Na verdade, no precisa ficar to firme. S um pouquinho mais do que a primeira que voc fez.
      - Pronto! anunciou Ted. Que tal?
      Cris pegou a trana das mos dele e correu os dedos por ela, sentindo cada parte.
      - Nada mal!
      - Nada mal?! exclamou o rapaz. Eu diria que 't melhor do que "nada mal". Acho que 't at muito bom!
      - Muito bem, ento, disse Cris, sorrindo, ao virar-se para ele. Ficou muito bom.
      Ted sorriu para ela.
      -  a minha vez agora, n?
      - Muito espertinho! Voc sabe que 't na minha vez! exclamou Cris.
      Em seguida, ela olhou longamente para as peas do tabuleiro de xadrez. S que seus pensamentos no estavam no jogo. Ela estava pensando na forma como Ted havia 
feito a trana nela e, mais do que isso, no olhar que ele certamente estava lhe dirigindo naquele momento.
      Esta deve ter sido a mais romntica e terna demonstrao de carinho que voc j me deu, Ted Spencer. Voc me ama, no ama?
      Cris percebia que ele se aproximava dela. Fingiu estar concentrada no jogo, mas no conseguiu. Sentia a respirao quente de Ted em seu pescoo. Bastaria apenas 
se virar um pouquinho para sentir o que tanto queria: os lbios de Ted tocando a ma de seu rosto.
      - Voc  linda, Kilikina, sussurrou ele, logo que seus lbios encostaram na face dela.  linda em todos os sentidos.
      Ento os lbios de Ted tocaram os dela, num beijo terno e carinhoso.
      

20
      Cris nunca havia se sentido to "arrebatada" em toda a sua vida. Era um sentimento forte, que perpassava todas as dimenses do seu ser: seus sentidos, suas 
emoes, seu esprito. Toda aquela intensidade a assustou, fazendo com que se afastasse de Ted. Cris olhou para ele, o corao pulsando fortemente. Ted, que h pouco 
estivera to perto, achava-se a uns trinta centmetros de distncia dela. Seu olhar era o mais doce, meigo, sincero e apaixonado que Cris h havia visto.
      - Ted, principiou Cris em voz fraca. Eu... eu...
      - Eu sei, disse Ted, passando a mo no pescoo. No foi minha inteno...
      - Eu sei, disse Cris.
      - Mas o que eu disse foi sincero.
      Cris sorriu.
      - Obrigada.
      Ted se levantou e mudou de banco, ficando de frente para Cris. Inclinou o corpo para a frente e pegou a mo dela, segurando levemente apenas trs de seus dedos. 
Parecia no saber direito o que dizer.
      Cris, por sua vez, tinha muito o que lhe falar. Tudo estava claro para ela, e seu corao achava-se cheio do que dizer. Cris se aproximou de Ted.
      - Ted, principiou ela, falando suavemente. Enquanto voc estava no rtico, fiquei pensando em algumas coisas. E conclu que gosto muito quando voc me beija. 
S que eu gosto um pouco demais.
      Cris percebeu o olhar surpreso de Ted, e acrescentou logo em seguida:
      - O que estou querendo dizer  que ns nunca conversamos sobre isso; sobre nossos limites, princpios, regras, sei l, relacionados a essa rea.
      Ted acenou afirmativamente.
      - Bem, o que vou lhe dizer pode at parecer um pouco utpico, mas estive pensando bastante sobre isso e tive algumas idias.
      - Continue.
      Cris procurou explicar-lhe da melhor maneira possvel sua idia de guardar seus beijos e "gast-los" apenas ocasionalmente. Falou de seu "cofrinho imaginrio" 
e de como pretendia ench-lo de expresses de carinho e amor.
      - Ento, quando voc me beijou, minha vontade foi "gastar" um desses beijos especiais que estou guardando. Mas a me afastei, pois assim poderia "guard-lo" 
no meu cofrinho. Ento, quando...
      Cris no queria dizer "quando nos casarmos". Silenciou, ento, por alguns minutos, sentindo o rosto corar. Afinal concluiu dizendo:
      - Ento resolvi "guard-lo", pra quando chegar a hora certa; o momento em que poderei "gastar" todos eles, livremente.
      O olhar de Ted para Cris parecia carregado de uma profunda admirao. Era como se as palavras dela o tivessem sensibilizado. Ted permaneceu em silncio por 
um minuto e, afinal, falou:
      - Obrigado.
      - 'T me agradecendo por qu?
      - Por voc se importar. Por ter parado pra refletir sobre esse aspecto do nosso namoro. Eu j havia pensado acerca disso tambm, muito tempo atrs. E resolvi 
que s iria beij-la em ocasies especiais. Um dos meu princpios era no dar beijos muito demorados e sempre beij-la em pblico, pois assim no teramos nada a 
esconder de ningum.
      Cris nunca se dera conta de que Ted havia parado para pensar sobre aquele assunto. Entretanto, ao relembrar os anos que haviam passado juntos, pde perceber 
que todas as expresses de afeto dele haviam se enquadrado naqueles princpios.
      - As coisas esto mudando pra ns, Cris, e fico feliz por isso, disse ele, apertando os dedos dela. Nosso relacionamento 't amadurecendo, se aprofundando, 
e isso quer dizer que teremos muito mais decises pra tomar, tanto individualmente quanto como casal. Voc tomou uma deciso muito sensata nessa rea, antes de mim. 
Sua escolha, no entanto, me ajuda muito, e fico grato por isso. Vou passar a "guardar" os meus beijos num cofrinho tambm.
      Cris olhou por cima da cabea de Ted e viu que Katie se aproximava.
      - Podemos conversar mais sobre isso depois, disse ele, decodificando a expresso no rosto dela.
      Cris abriu um sorrisinho no rosto. Em seguida, ergueu o queixo - como Ted costumava fazer na adolescncia - puxou mo da dele e disse:
      - Mais tarde.
      Se Ted entendera a "ligao" ou no, Cris no sabia. Katie chegou, atirou-se na poltrona ao lado de Cris e examinou o tabuleiro de xadrez.
      - Quem 't ganhando? perguntou.
      Cris olhou para Ted, que sorriu para ela.
      - Ns dois, responderam em coro.
      - Nossa! exclamou Katie. Vocs ensaiaram isso enquanto eu no estava?
      O que ns quase "ensaiamos" aqui, enquanto voc no estava, Katie, foi nossa tcnica de beijar. Se voc no me tivesse feito parar pra refletir sobre a questo 
dos "limites" nessa rea, acho que teria nos pegado no meio de um beijo.
      - A Cris estava me mostrando como sair na frente, Ted, mantendo os olhos fixos no tabuleiro.
      - A Cris estava lhe ensinando isso?
      - Sim, replicou o outro. E agora  minha vez, n?
      - Sem essa, parceiro! brincou Cris.  a minha vez agora, lembra-se?
      - Essa eu vou ter de ver, disse Katie.
      Os trs ficaram jogando xadrez em "grupo", durante todo o trajeto para Amsterd. Katie ajudava a ambos, dando-lhes dicas na hora de moverem as peas. Ao chegarem, 
Cris pegou a mochila e, sem querer, deixou cair os postais de Sam no cho, e Katie acabou pisando num deles. Cris os apanhou e tentou limp-los.
      - Tenho de pr estes cartes no correio antes que os perca por a, disse ela, percebendo imediatamente o quanto aquilo era estranho.
      Os postais nem eram dela. Mesmo assim, existia algum do outro lado do mundo, numa cidade chamada Glenbrooke, no estado de Oregon, que precisava receber aqueles 
postais de Sam. Ao pensar sobre aquilo, Cris se perguntava se no estaria levando a srio demais sua "incumbncia".
      Enquanto os trs caminhavam em fila pela multido, Cris pensava em seus compromissos e responsabilidades e em como levava quase todos eles a srio. Em alguns 
casos, como no relacionamento com Ted, essa caracterstica era algo muito positivo. No entanto, ser que ela deveria levar tudo to a srio assim? At mesmo cartes-postais?
      O tempo que tiveram para desbravar Amsterd acabou sendo mais curto do que haviam imaginado. s 6:30h, o amigo de Ted, Mike, apareceu para busc-los. E l 
se foram eles, atravessando a cidade a bordo do pequeno carro, rumo ao albergue que Mike e sua esposa administravam. Inicialmente, Cris pensava que pudesse ter conhecido 
Mike e Meg durante a semana que passara na Espanha, um ano atrs. No entanto j havia praticamente dois anos que o casal estava em Amsterd, cuidando do ministrio 
no albergue Rochedo.
      Cris gostou de Meg imediatamente. Era loura e magra, bastante animada. Cris lhe perguntou se poderia fazer algo para ajudar a ajeitar as coisas para o culto. 
Meg disse a ela e  Katie que no se preocupassem e ficassem  vontade. Todas as noites, eles faziam um culto de louvor e adorao bastante informal. s vezes apareciam 
uma meia dzia de pessoas por l; s vezes eram s ela e Mike.
      Mike entregou a Ted o violo, e o rapaz se ps a dedilhar algumas de suas canes prediletas, como uma que havia escrito, intitulada O P dos seus Ps. Cris 
e Katie o ouviam, acomodadas num sof bem velho, voltado para a frente da pequena sala de reunio. Ted passou a tocar uma cano que Douglas havia composto, e Katie 
comeou a cantar. Cris se ps a acompanh-la, e algumas pessoas foram entrando na sala ao ouvirem a msica.
      Ted fechou os olhos e, com a face voltada para o alto, cantou:
      
      "Cantai quele que cavalga os antigos cus,
      Trovejando com sua voz poderosa,
      Pois Deus  temvel em seu santurio."
      
      Este  o dom que Deus deu ao Ted, pensou Cris. Ele me disse aquele dia que Deus dotou cada um de ns de maneira singular. E eu creio nisso. E creio tambm 
que o dom de Ted  levar as pessoas a adorar a Deus.  como um pastor de ovelhas a conduzir o rebanho.
      O que era para ser um culto de uma hora, acabou durando duas. Inicialmente apenas trs jovens que estavam hospedados no albergue entraram na sala. Depois, 
mais alguns comearam a chegar. Cris contou umas quinze, vinte pessoas. O perodo de louvor foi maravilhoso. Cerca de dez jovens ficaram por l para conversar com 
Mike. Cris, Katie e Ted ficaram conversando com um rapaz argentino. Quando j eram quase onze horas, Cris reparou que Mike estava orando com dois dos rapazes com 
os quais estivera conversando.
      Depois que todos se foram, Cris, Ted e Katie se reuniram na pequena cozinha com Mike e Meg. Meg estava preparando sanduches de queijo grelhados para os trs, 
j que a ltima refeio deles tinha sido as fritas que comeram  tarde na Blgica.
      - Estou at usando po de forma, disse Meg, com um sorriso. Este  o sanduche que mais me lembra de casa.  claro que o po no  to bom como os que minha 
me usava nos Estados Unidos, mas  o que h de mais semelhante por estas bandas.
      - Deus realmente operou esta noite, disse Mike. Voc me viram orando com aqueles rapazes? So escoceses. Ambos disseram que queriam entregar a vida ao Senhor. 
Algo incrvel. Deus realmente usou voc, Ted.
      - Eu no fiz nada, disse Ted. Foi o tempo de Deus.
      - Sem dvida foi plano do Senhor que voc estivesse aqui pra liderar o louvor, justo na noite em que aqueles dois apareceram. Mas eu tambm acho que Deus usou 
sua vida, Ted, porque voc estava disponvel e aberto para o que o Senhor o mandasse fazer.
      Cris devorou dois sanduches e ficou pensando no quanto gostaria que sua vida fosse assim, disponvel e aberta para o Senhor, de maneira que ele pudesse usar 
os dons que havia lhe concedido, para expandir o seu reino.
      Ah, se ao menos eu pudesse descobrir quais so esses dons. 
      Na manh seguinte, Ted e Cris ficaram conversando com Mike e Meg  mesa da cozinha, enquanto tomavam mingau de aveia. Katie continuava dormindo. Cris ouvia 
atentamente a conversa. Mike estava perguntando a Ted justamente aquilo que h muito ela queria lhe perguntar.
      - O que voc pretende fazer no futuro, Ted? perguntou ele.
      - Bem, vou trabalhar o restante das frias, pra ajuntar algum dinheiro, e em setembro * minhas aulas comeam na Rancho Corona. Falta um ano pra eu me formar. 
Talvez um pouco menos.
      - E o que vai fazer depois disso? perguntou Meg.
      Ted tirou os olhos do mingau, virou levemente o rosto e olhou meio que de lado para Cris.
      - Ainda no sei ao certo, respondeu.
      - J pensou em trabalhar com misses em tempo integral? Levantar sustento e assumir um compromisso de longo prazo? perguntou Mike.
      - J pensei sim.
      - Que tal voltar pra Europa?
      -  uma possibilidade, disse Ted.
      - Voc j deve ter percebido onde  que quero chegar, no? disse Mike. Gostaramos muito de t-lo aqui, trabalhando conosco. Precisamos de algum pra nos ajudar 
com o Rochedo e voc se encaixa perfeitamente no perfil que estamos procurando. Eu e a Meg ficamos muito empolgados ontem  noite, ao falarmos sobre o que poderia 
acontecer se voc resolvesse se juntar a ns.
      Ted terminou seu mingau sem fazer comentrios.
      - Pense nisso, disse Mike, encerrando o assunto. Ore.
      Ted acenou afirmativamente.
      - Ento, Cris, fale-nos mais sobre voc, principiou Meg, visivelmente tentando desviar a ateno que estava sobre Ted. Voc nos disse ontem  noite que 't 
estudando em Basel. O que pretende fazer depois?
      - Na verdade, no tenho ainda muita certeza. Durante a viagem, tenho refletido bastante sobre os meus interesses, sobre o que gosto de fazer e, h coisa de 
dois dias, estive conversando com o Ted sobre isso. Percebi que estou caminhando numa direo que no  bem pra onde quero ir.
      - Voc diz com relao ao trabalho no orfanato? perguntou Meg. Voc comentou ontem  noite que o trabalho com as crianas  bem desgastante e exige muito de 
voc.
      Cris acenou afirmativamente.
      - Estou percebendo que no tenho os dons necessrios pra assumir um compromisso de longo prazo nessa rea. Acho que preciso primeiramente descobrir quais so 
os meus dons e quais atividades eu deveria estar desempenhando em vez de estar trabalhando com crianas.
      - A Cris tem muitos dons, disse Ted.
      -  mesmo? perguntou Mike. Parecia interessado em saber.
      - Tem voz boa pra cantar?
      - No, na verdade, no.
      - Gosta de lecionar?
      - Mais ou menos. Gosto de dar aula pra criancinhas.
      - E aconselhamento? perguntou Meg.
      Cris balanou a cabea. Estava comeando a perceber que no seria to simples detectar quais eram seus dons. Seria uma busca demorada. Nada do que falavam 
parecia ser bem a sua especialidade, o que a deixava insegura.
      - A Cris tem um corao de ouro, muito puro. Algo bastante raro, disse Ted.
      Depois ele olhou para ela com uma expresso franca e amorosa no rosto.
      - Ela se d incondicionalmente e 't sempre incentivando e apoiando as pessoas.  amvel, paciente e organizada. Procura sempre enxergar o melhor nos outros 
e em cada situao que enfrenta. 'T sempre disposta a andar a segunda milha, mesmo quando  inconveniente pra ela.  flexvel quando precisa mudar, generosa e muito 
madura pra sua idade. Tenho certeza de que Deus ir us-la poderosamente.
      Quando Ted parou de falar, reinou o silncio. Cris estava impressionada com toda aquela chuva de elogios.
      Afinal Meg quebrou o silncio.
      - Por que voc no nos disse, Ted? A Cris  aquela "pessoa" de quem voc nos falou certa vez, n?
      E, virando-se para Cris, continuou:
      - Como no percebi isso antes? Logo que Ted chegou  Espanha, ns tentamos "ajunt-lo" com uma missionria da equipe. Ela era da Pensilvnia. O Ted a tratava 
muito bem. Alis, tratava todos muito bem. Mas a, quando percebi que ele estava escapulindo de todas as nossas "dicas", perguntei-lhe qual era o problema. Voc 
se lembra disso, Ted?
      Cris olhou rapidamente para Ted. Ele parecia estar tentando encontrar um jeito de falar para Meg que aquela conversa havia sido confidencial.
      Percebendo a situao, Meg hesitou:
      - Ento ele... quer dizer, vocs...
      - Eu no estava interessado na Tina.  isso que voc 't tentando dizer, n?
      Meg sorriu um pouco sem graa para Cris.
      - Ns achamos que os dois formariam um casal bonitinho, sabe? Ns ramos o Mike e a Meg, e eles seriam o Ted e a Tina.
      - Mas a o Ted disse que gostava de uma outra pessoa e que estava esperando o tempo de Deus. Acho que agora j sabemos quem era essa pessoa. Era voc.
      - Era sim, disse Ted, dando toda sua ateno a Cris. 
      - Bom-dia a todos! disse Katie, entrando imponentemente na cozinha. O que foi que eu perdi?
      Apenas uma das mais doces demonstraes de amizade eterna que o Ted j me deu, desde o dia em que colocou esta pulseirinha no meu pulso. Eu sou a namorada 
dele, Katie! De verdade! Ele me ama! Me ama j faz muito tempo!
      - No perdeu nada, respondeu Cris.
      No que ela no quisesse que Katie participasse da conversa. Mas  que aquela manifestao de carinho fora perfeita exatamente do jeitinho que havia acontecido. 
Cris no queria que algum simplesmente repetisse os detalhes para Katie, pois as palavras no exerceriam o mesmo efeito que haviam tido sobre ela.
      - Imagino que vocs estejam querendo dar uma volta por Amsterd, disse Mike, mudando o assunto para Cris. Quer o carro emprestado, Ted?
      - No precisa. Podemos usar os passes de trem. Talvez voc possa nos dar algumas dicas de onde ir, o que ver. E, se a Katie e a Cris concordarem, estou pensando 
em passar mais uma noite aqui.
      - Com certeza, disse Katie. Posso pedir um favorzinho? Por acaso vocs tm mquina de lavar roupa, Meg?
      - Temos sim.  pequena, mas vocs podem ficar  vontade para us-la. Ou melhor, por que no me do as roupas quando forem passear? Eu posso coloc-las na mquina 
pra vocs.
      - Seria timo, disse Cris. Obrigada!
      Mike fez vrias sugestes de lugares para conhecer, dentre eles alguns museus de arte, o Refgio Secreto, onde Corrie Ten Boom* havia morado, e o Museu de 
Anne Frank.
      - Alguma preferncia? perguntou Ted.
      - Eu gostaria muito de conhecer o Refgio Secreto e pelo menos um museu, disse Cris. Nossa passagem pelo Louvre acabou sendo rpida demais. Acho que seria 
bom mais uma dose de cultura antes de partirmos para os Alpes suos.
      -  pra l que vocs vo depois? perguntou Meg.
      - Por enquanto sim, disse Ted. Mas somos bastante flexveis.
      O resto do dia Ted mostrou-se "flexvel", fazendo tudo o que Cris pedia. Katie percebeu a atitude do rapaz ao comprarem as entradas para o Museu de Van Gogh.
      - U, Ted, achei que voc tivesse dito que tambm no queria mais saber de obras de arte.
      - A Cris queria passar aqui e achei que seria uma boa idia.
      Na opinio de Cris, a idia era boa mesmo. Katie ficou mais animada com a visita ao museu ao reconhecer alguns dos trabalhos de Vicent Van Gogh e deduzir que 
ele era o artista que vivia em tormento e que acabou cortando fora uma orelha.
      Cris permaneceu um bom tempo apreciando a famosa pintura dos girassis. Em alguns pontos da figura, a tinta havia atingido a tela de tal forma, que formara 
espessas lascas, que mais pareciam um glac endurecido. A diferena  que, em vez de branco, o glac era amarelo bem vivo. Contudo, nas reas no atingidas pela 
tinta, era possvel enxergar a prpria tela do quadro. Toda aquela criativa expresso deixava Cris fascinada.
      Ao seguirem para o Refgio Secreto, Katie soltou mais uma reclamao.  que ela queria visitar o Museu de Anne Frank, mas Ted acabou resolvendo aderir  escolha 
de Cris, mesmo sendo um lugar mais afastado da cidade. Para piorar, a Relojoaria Ten Boom, onde ficava o Refgio Secreto, estava fechada quando eles chegaram, de 
forma que no puderam entrar.
      s seis da tarde, os trs chegaram ao Rochedo, bem na hora em que estava saindo o jantar que Meg havia prometido preparar para eles. Cris elogiou a comida, 
dizendo que o bolo de carne, o pur de batatas e as vagens eram os melhores que j havia comido desde que viera para a Europa.
      - Voc fica com saudades dos Estados Unidos quando come esse tipo de comida? perguntou Meg.
      - Um pouco.
      - Voc 't pensando em voltar com o Ted e a Katie, ou vai ficar pra terminar os estudos em Basel, mesmo estando decidida a mudar de curso? continuou ela.
      - No resolvi ainda.
      Ao ouvir aquilo, Ted olhou-a surpreso.
      - Mas preciso decidir rpido. Quer saber? Ser que eu poderia ligar para os meus pais? Ligo a cobrar. Uma conversa com eles me ajudaria bastante nessa deciso.
      - Ah, eles vo amar receber seu telefonema! disse Katie. Se eu ligasse da Holanda a cobrar para os meus pais, eles bateriam o telefone na minha cara!
      -  lgico que no, Katie! disse Cris.
      - Bom, eu  que no vou arriscar, disse Katie.
      Cris telefonou para os pais, depois de mais um abenoado culto de louvor e adorao. Mesmo j sendo tarde da noite na Holanda, ainda estava de tarde na Califrnia. 
A me de Cris atendeu o telefone e foi logo perguntando se estava tudo bem com ela.
      - Sim, estamos todos bem. A viagem 't sendo tima, me. Mas resolvi mudar o meu curso. No sei ainda o que vou estudar, mas uma coisa eu sei: no consigo 
trabalhar com criancinhas para o resto da vida.
      - Tem certeza, Cris? perguntou a me.
      - Sim, tenho sim. O que ainda no sei  se devo continuar estudando aqui at o fim do prximo perodo ou voltar para os Estados Unidos. O que voc acha?
      A me de Cris ficou calada por uns instantes e afinal respondeu:
      - Acho que quem tem de decidir  voc, Cris. Voc sabe que eu e seu pai a apoiaremos qualquer que seja a sua escolha. Mas a deciso  sua.
      

21
      - H momentos em que ser adulta  muito ruim, disse Cris a Katie.
      Era de manh e as duas estavam tomando caf na cozinha de Mike e Meg.
      - 'T sendo difcil tomar uma deciso com relao ao prximo perodo, no 't? disse Katie.
      Cris acenou afirmativamente.
      - Noite passada quase no dormi. No conseguia parar de pensar na deciso que eu e Ted tomamos naquele dia em Londres, um ano e meio atrs. Eu estava indo 
embora da Inglaterra e ele estava tentando decidir quanto tempo mais deveria continuar na Espanha.
      - Foi aquela conversa que vocs tiveram numa pequena confeitaria? perguntou Katie.
      - Foi. Como se lembra?
      - Voc me disse que havia sido o passeio mais romntico que j tinham feito. S vocs dois, tomando ch e comendo scones em Londres.
      Cris sorriu.
      - Acho que  por isso que eu queria tanto lev-lo  minha Konditorei em Basel. Eu me assentei  mesa dos fundos, sozinha, inmeras vezes este ano. E sempre 
ficava imaginando como seria se o Ted estivesse l, assentado de frente pra mim. Promete que no vai rir? Houve ocasies em que at conversei com ele, como se ele 
estivesse comigo.
      - E ele lhe respondia?
      - s vezes.
      - Ai, ai, ai! Agora sim estou ficando assustada! disse Katie, dando um aperto no brao da amiga. Voc e o Ted precisam conversar sobre isso.  uma deciso 
bem sria.
      - Era isso que eu ia lhe dizer. Ontem  noite no consegui parar de pensar na conversa que eu e o Ted tivemos naquele dia. O Ted citou uns versculos do Salmo 
15.
      - Nada mais tpico. O Ted sempre tem um versculo pra cada situao.
      - Era alguma coisa sobre cumprir as promessas, mesmo quando isso nos traz sofrimento.
      Katie ajeitou os cabelos vermelhos atrs da orelha.
      -  isso que voc vai fazer? Cumprir seu compromisso com o orfanato, por mais penoso que seja? perguntou.
      Cris acenou afirmativamente, olhando para a amiga.
      - Sim. Acho que  isso que devo fazer.
      - E como  que fica o Ted nisso tudo? Vai deix-lo esperando?
      - Eu voltarei em setembro.
      - Eu sei que no  muito tempo daqui at l, disse Katie,acho que sua deciso de honrar o compromisso  muito nobre e correta. S acho que, depois desta viagem, 
no ser nada fcil pra vocs se despedirem um do outro. Afinal, o relacionamento de vocs se aprofundou bastante.
      Cris soltou um suspiro.
      - Voc no faz idia de como ser difcil. Mas eu e o Ted j tivemos de nos despedir vrias vezes ao longo desses anos. Mesmo assim, eu me sentiria bem melhor 
com relao a tudo o que 't acontecendo se definssemos melhor o nosso relacionamento.
      -  o que voc sempre quis, disse Katie.
      -  verdade.
      - E que mulher no quer?
      - Que mulher no quer o qu? perguntou Meg, entrando na cozinha logo que Katie soltou o comentrio.
      - Estvamos apenas falando sobre rapazes, disse Katie, dando um sorriso para Cris. E ento? Quais so os planos pra hoje? Achei que iramos pra Sua, mas 
estou com a impresso de que o Ted vai querer passar mais uma noite aqui. O culto de ontem foi mesmo fantstico!
      E Katie tinha razo. Assim que Ted e Mike voltaram do caf que haviam ido tomar com um amigo de Mike, Ted perguntou a Cris e Katie se elas se importavam de 
ficar mais uma noite. As duas haviam passado a manh ajudando Meg a limpar os quartos e a fazer o almoo. Cris no ligava de ficar. Estava gostando muito dali. As 
tarefas domsticas tinham lhe dado um novo nimo. Enquanto almoavam o ensopado de legumes com pezinhos, Cris aproveitou para contar aquilo a Ted.
      - Voc preferiria trabalhar num lugar assim a trabalhar no orfanato? perguntou Ted.
      - Com certeza.  claro que no d pra comparar todos aqueles meses no orfanato com apenas um dia trabalhando aqui. Mas agora sei o que voc quis dizer com 
se sentir motivada, e no esgotada.
      - O Ted lhe contou do nosso caf da manh? perguntou Mike, entrando na conversa particular de Ted e Cris. Apresentei-o aos meus parceiros de ministrio e eles 
lhe perguntaram se ele gostaria de entrar para a equipe.
      Cris no havia contado com a reao que teria ao ouvir aquilo. Tinha vontade de agarrar o pescoo de Ted e dizer: "Nem pense em fazer isso! Ns vamos estudar 
na mesma faculdade no semestre que vem. Nem me venha com essa idia de voltar pra Europa, justo agora que eu estou quase voltando pra Califrnia! Voc no pode fazer 
isso comigo!"
      - E o que voc disse a eles? perguntou Katie, olhando para Ted e em seguida para Cris.
      - A mesma coisa que falei pra Cris alguns dias atrs. A necessidade no faz o chamado. Eu sei que este lugar precisa de pessoas, mas eu no sinto um chamado 
de Deus pra vir pra c. Pelo menos, no por enquanto. Por ora, minha prioridade  terminar a faculdade. Depois disso, no sei ainda o que farei.
      Cris sentiu os batimentos cardacos voltarem ao norma. No entanto, tinha a impresso de que sofreria um colapso, caso ela e Ted no tivessem logo uma oportunidade 
de conversar sobre o que estava acontecendo e o que fariam quanto ao futuro.
      - Bem, disse Katie, quebrando o silncio. Pelo visto sou a nica que no 't confusa, sem saber o que fazer depois da viagem. Hoje de manh a Cris resolveu 
que ir continuar no orfanato durante os prximos meses, at o compromisso dela com eles acabar. Eu queria que ela voltasse conosco, mas ela tem esse princpio de 
honrar o compromisso, por mais penoso que ele seja.
      Cris olhou para Ted. No sabia se a expresso no rosto dele era porque ele se lembrava de ter dito aquilo a ela ou se no fundo seu corao estava gritando: 
"No, Cris! No fique aqui! Volte conosco!"
      Cris ficou toda sem graa quando Katie anunciou em pblico a sua deciso. Aquilo, porm, s lhe fez ficar mais firme no propsito de conversar com Ted assim 
que pudesse.
       tarde, porm, no puderam conversar. Meg acabou convencendo Katie e Cris a irem fazer compras com ela, e Mike pediu a Ted que trocasse o encordoamento do 
violo para ele. A nica coisa boa da tarde foi que Cris e Katie puderam comprar algumas lembrancinhas e descobrir onde achar as coisas de que precisavam na mercearia 
do bairro.
       noite, cerca de trinta pessoas apareceram para o culto de louvor e adorao, que foi bem melhor do que os cultos anteriores. Cris se perguntava como Ted 
conseguiria largar tudo aquilo e partir na manh seguinte. Era possvel que ele quisesse ficar em Amsterd. Ser que ele iria sugerir que elas fossem para a Sua 
sozinhas?
      Cris ficou pensando na possibilidade de passarem o resto da semana ali. Seus pensamentos levaram-na a formular vrias perguntas na cabea. E se ela ficasse 
mais do que uma semana? E se ficasse em carter definitivo? E se ela e Ted se casassem e voltassem para a Europa, a fim de trabalhar ali ou num local parecido? As 
possibilidades do que ela e Ted poderiam fazer, trabalhando juntos, pareciam infinitas. Quanto mais pensava naquilo, mais questionava sua deciso de ficar em Basel.
      Alm disso, pra que terminar a faculdade? No preciso ter diploma universitrio pra varrer o cho de um albergue, ou pra sair pra comprar cenouras e depois 
pic-las pra fazer um ensopado. J tenho todas as habilidades necessrias pra trabalhar num lugar como este pelo resto da vida. E gosto muito do ambiente aqui. Gosto 
de usar minhas mos pra servir.
      Cris estava torcendo para ter uma chance de conversar com Ted aps o culto. No entanto havia muita gente querendo falar com ele, e ela teria de entrar na fila. 
Ento, resolveu ir dormir. Ficou olhando para o teto, imaginando como seria viver ali, casada com Ted.
      Nem eu nem ele precisamos terminar a faculdade. Poderamos comear a trabalhar aqui j. Poderamos at nos casar por agora.
      S de pensar na possibilidade de se casar mais cedo, ficou toda emocionada.
      Chega de tanta espera e indeciso! Posso voltar pra Califrnia com ele na segunda-feira. Tenho certeza de que d para o casamento sair no final de agosto. 
E a poderamos voltar pra c em setembro, em vez de ir estudar na Rancho Corona.
      Cris ficou cansada de tanto pensar no futuro. Quando acordou, teve a sensao de que havia vrias listinhas de afazeres invisveis amarrando-a, como se fossem 
faixas de uma mmia.
      Cris se vestiu e foi para a cozinha, antes mesmo de Katie acordar. Tinha certeza de que Ted lhe diria que gostaria de ficar mais um dia. E j estava at planejando 
o que dizer quando ele anunciasse sua deciso. Iria ficar tambm. Se Katie quisesse, poderia ir embora. Afinal, ela era uma garota determinada e de expediente. Saberia 
o que fazer. Poderia muito bem viajar alguns dias sozinha e dar um jeito de chegar ao aeroporto de Zurique.
      Ted avistou Cris no corredor.
      - Bom- dia! Achei que eu seria o primeiro a levantar, mas voc j 't de p!
      - A Katie ainda 't dormindo. Levantei pra ajudar a preparar o caf.
      - Voc gosta daqui, no gosta? perguntou ele.
      - T to na cara assim?
      - Voc 't usando seus dons, disse ele.
      - E voc tambm, replicou Cris. E por falar nisso, eu no me importo de ficar aqui mais um dia, se  isso que voc veio me perguntar. Pra falar a verdade, 
acho que deveramos passar o resto da semana aqui. Alis, estava pensando que...
      Ted a interrompeu, chamando ateno para sua bagagem apoiada na parede, atrs dele.
      - J fiz minha mala e estou pronto pra partir. Falei com o Mike que partiramos hoje mesmo. Tem um trem s 7:2oh.
      De repente, foi como se o mundo de sonhos que Cris havia criado desabasse.
      - Ento voc no quer ficar aqui?
      - No por enquanto. No sinto nenhuma paz pra abandonar os planos que j fiz e os compromissos que assumi. Na verdade, foi uma "coisa de Deus" que voc estivesse 
enfrentando toda essa luta com relao ao orfanato em Basel. Percebi que s poderia lhe dizer que a necessidade no faz o chamado se colocasse esse princpio em 
prtica em minha prpria vida.
      - Ah.
      Ted passou o brao pelo pescoo de Cris e puxou-a para perto de si, num abrao gostoso.
      - Voc no 't parecendo muito animada. Se quiser, podemos sair num outro trem, mais tarde. Que tal sairmos pra tomar caf? Poderamos achar uma dessas confeitarias 
como aquela de que voc vive falando e aproveitar pra conversar sobre o que voc 't enfrentando. Sei que voc tambm 't tendo de tomar decises srias e gostaria 
muito de ouvi-la.
      Cris acenou, concordando. Estava prestes a passar o brao pela cintura dele, para poder ficar mais juntinho de Ted, quando Katie apontou no corredor.
      - E a, gente?
      Bastou Ted mencionar o trem das 7:20h para Katie dizer que estava pronta para partir. Ele nem sequer chegou a mencionar a possibilidade de partirem um pouco 
mais tarde, considerando que ele e Cris estavam pensando em sair para tomar caf.
      A deciso deixou Cris frustrada. Quinze minutos depois, os trs deixaram o Rochedo e foram com Mike e Meg para a estao de trem. Mike e Meg repetiam o tempo 
todo o quanto seriam bem-vindos, caso quisessem voltar. Ted lhes disse mais uma vez que tudo era uma questo de chegar o tempo de Deus e que estava plenamente convicto 
daquilo. Todos ento se despediram com abraos acalorados.
      Cris sabia que deveria aproveitar para tirar uma soneca, assim que se acomodassem no trem. J havia aprendido durante a viagem que, quando no dormia o suficiente, 
no se sentia bem. O problema  que no conseguia "desligar" a mente para poder dormir. Na noite anterior, seus pensamentos em relao a Ted haviam ido longe... 
Ela se imaginara casada em agosto e de volta a Amsterd em setembro. Agora, tinha de fazer fora para parar de pensar em tudo aquilo e voltar a mente para o lugar.
      Ted agia como sempre, de forma calma e tranquila; o que, de certa forma, ajudava Cris a "voltar"  realidade. E a partida de xadrez contra Katie tambm ajudou 
bastante. Foi um jogo demorado e bem disputado. Cris tentava se convencer a todo momento de que eles eram apenas trs amigos vivendo uma aventura. Ela no tinha 
de ficar discutindo o que seria do futuro. O que ela precisava mesmo era das misericrdias que o Senhor renovava todos os dias sobre sua vida.
      O sol j estava se pondo quando o trem chegou a Frutigen, doze horas depois. As nuvens cor de creme acompanhavam o sol, como se fossem um bando de carneirinhos 
peludos a seguir o leal pastor do rebanho. Os picos alpinos, por sua vez, projetavam vastas sombras nas construes que cercavam a modesta estao de trem.
      Cris sentiu-se mais tranquila ao perceber que o ambiente lhe era familiar. O dialeto alemo que ouvia as pessoas falarem era bastante semelhante ao alemo 
falado em Basel.
      - Espero que vocs realmente estejam a fim de sair da rotina, porque este lugar aqui no  nenhuma metrpole, disse Katie.
      - Daqui em diante, vamos de nibus. Liguei para o Sr. Rudolf Zimmerman ontem  noite e eles esto aguardando nossa chegada. O Sam tinha razo. Eles disseram 
que seria um prazer nos hospedar.
      - Mas  claro que sim! disse Katie, secamente. Vamos trabalhar na fazenda deles de graa!
      O trajeto de nibus foi mais longo do que Cris imaginara. No entanto, a paisagem dava de dez nas outras que vira durante a viagem. O que lhe causava mais pesar, 
no entanto, era que o cu escurecia cada vez mais, impedindo-a de avistar os montes alpinos, que ficavam escondidos na escurido. J a neve atuava como um refletor 
de luz. Quando a primeira estrela despontou no cu, Ted passou o brao em torno de Cris e puxou-a para junto de si, a fim de mostrar-lhe o astro reluzente.
      Os dois permaneceram juntinhos o resto da viagem, e Cris notou que afinal estava conseguindo pr os pensamentos em ordem. Ela e Ted eram apenas isto: o Ted 
e a Cris; amigos para sempre um do outro. Por enquanto era tudo que precisavam ser. Com certeza teriam uma chance de conversar com calma pela manh. O lugar era 
pacato e os dois poderiam terminar todas as conversas que haviam ficado pendentes nas ltimas semanas.
      O Sr. Rudolf foi busc-los no ponto de nibus. Cris teve vontade de cair na gargalhada ao ver a cara de Katie, quando o avistaram. Ele parecia o av de Heidi 
*, protagonista de um filme a que ela e Katie haviam assistido juntas diversas vezes. Tinha uma enorme barba branca e usava um chapu de feltro verde, com uma vistosa 
pena vermelha presa de lado. Falando em ingls com certa dificuldade, o Sr. Rudolf bondosamente os convidou a se hospedarem em sua casa.
      - No estou acreditando nisso! cochichou Katie, enquanto seguia o "av" pela rua de pedra.
      Quando chegaram o local para onde o Sr. Rudolf os levara, Katie no conseguiu conter o espanto. O meio de transporte dele era uma charrete! Rindo  bea, os 
trs subiram no "veculo" e l se foram, rumo  casa da famlia Zimmerman.
      No escuro Cris no podia ver direito como era o chal. Entretanto, pelo que conseguia ver sob a luz da lanterna, estavam diante de um mundo encantado.
      Ao chegarem, D. Eva Zimmerman os recebeu com muito carinho e insistiu em que tomassem a sopa que havia preparado. Era uma senhora meio gorda e usava uma trana 
grossa, enrolada no alto da cabea. A casa era extremamente limpa, e a decorao bem bonita e alegre. Cris tinha certeza de que se tratava de uma antiguidade.
      Depois de tomarem a deliciosa sopa, Cris e Katie foram levadas a um quartinho que ficava no andar de cima da casa. Nele havia duas camas pequenas, prprias 
para crianas. Ted, por sua vez, foi caminhando ao celeiro, onde dormiria sobre o palheiro, com vrios cobertores de l.
      Assim que a porta se fechou, Cris e Katie seguraram uma no brao da outra e se puseram a rodopiar pelo quarto.
      - Se isto aqui no fosse to legal, diria que era, no mnimo, assustador, disse Katie.
      - Por qu?
      - Porque  como se tivssemos sado do mundo real e entrado no mundo da fantasia! Estou me sentindo a prpria Heidi! E amanh de manh, Peter *, o pastor das 
cabras, aparecer na janela e me chamar para ir com ele para as montanhas.
      Cris soltou um risinho.
      - Veja s estas camas! Acho que elas j foram de Joo e Maria! **
      - E devem ter sido compradas no "bazar de garagem" *** da Branca de Neve, quando dois dos Sete Anes resolveram se mudar de l. Acho que vamos ter de dormir 
totalmente encolhidas pra caber nelas!
      Cris se encolheu toda debaixo do pesado edredom e dormiu tranquila e feliz a noite toda. J Katie ficou reclamando no outro dia, dizendo que no conseguira 
dormir nada e que as costas doam.
      - Ora, ora! Voc 't e inventando desculpa pra poder escapulir das tarefas na fazenda! disse Cris, que j havia trocado de roupa e estava pronta para ordenhar 
as vacas.
      Cris encontrou Ted e o Sr. Rudolf no celeiro. Ted estava tentando tirar leite da vaca. Cris ficou de longe, observando o namorado, tentando abafar o riso. 
Ao ouvi-la, o Sr. Rudolf fez sinal para que se aproximasse. Cris, no entanto, no queria ficar perto da zona de ataque de Ted. Tinha jato de leite esguichando para 
tudo quanto era lado.
      - Ora, vamos, Cris! D uma mozinha aqui, por favor! disse Ted, levantando-se do banquinho. Veja s como a minha namorada  boa nisto! disse ele, todo orgulhoso. 
Ela cresceu na fazenda.
      Fazia anos, uma dcada talvez, que Cris no ordenhava uma vaca. E mesmo durante o tempo que vivera na fazenda Wisconsin, quando criana, no era ela quem tirava 
o leite das vacas. Tudo era feito com maquinrio prprio. Contudo ela de fato sabia como ordenh-las. Quando tinha cinco anos, seu pai lhe ensinara pacientemente 
aquilo que ele chamava de "a arte perdida".
      No muito segura de si, Cris se assentou no banquinho e apoiou o ombro e a cabea na vaca marrom.
      - Vamos l, vaquinha, disse ela calmamente. 'T tudo bem. Fique calminha.
      O primeiro jato caiu diretamente no balde metlico, fazendo um barulhinho gostoso e familiar. Cris sorriu. Continuou ordenhando a vaca, mostrando uma habilidade 
incrvel. Afinal parou, quando as mos j estavam doloridas, e o balde, pela metade.
      - Voc 't sempre me surpreendendo, Kilikina, disse Ted
      - A mim tambm, disse Katie, entrando no celeiro, depois de observar Cris l da porta. E saber tirar leite de vaca  uma habilidade extremamente til s mocas 
que esto em idade de se casar.
      Cris se afastou da vaca e perguntou se Katie no gostaria de tentar tambm.
      - No, obrigada! Eu at me arriscaria a saltar de bungee jump ou a comer lula crua. Mas isso a, nem pensar!
      Katie, no entanto, se lanou a diversas novas "aventuras" ainda durante a manh. Bateu a manteiga e deu rao s galinhas, dentre outras coisas. Simpatizou 
com um dos cavalos que puxava o arado e, mais tarde, Cris a encontrou dando uma poro de gros de aveia para o cavalo, que comia direto na mo da garota.
      - Quer ir com a gente at as montanhas? perguntou Cris. Vamos de telefrico.
      - E quem vai?
      - Eu e o Ted. A D. Eva preparou uma cesta de piquenique pra levarmos conosco s campinas superiores. Quem sabe voc at encontre o Peter, o pastor das cabras, 
por l.
      - Claro, irei com vocs. A no ser que voc esteja querendo passar um tempo a ss com o Ted.
      De fato essa era a inteno de Cris, mas ela no queria que Katie soubesse a verdade.
      - Que isso, Katie! Ns trs vamos nos divertir  bea!
      Os trs se assentaram nos bancos do telefrico e comearam a subir, sobrevoando a vila de Adelboden. Os assentos eram de madeira e no pareciam muito firmes. 
Cris acenou para Ted, que estava no banco em frente ao dela. Katie se assentara na frente de Ted. Ao atingirem uma altura considervel, Cris ouviu Katie gritar l 
da frente:
      - Finalmente estamos numa aventura!
      Cris sorriu. Ento era isto que voc tinha em mente, ao dizer que queria entrar numa aventura. timo. Fico feliz que tenha realizado seu desejo, Katie. Mas 
hoje j  sexta-feira. A cada segundo que passa, minhas chances de conversar com Ted diminuem ainda mais. S temos mais um fim de semana e pronto! Voc conseguiu 
a aventura que queria, Katie. Mas, agora que meu corao finalmente se aquietou, ser que vou conseguir o que tanto quero? Traar um plano para o futuro?
      

22
      Quando chegaram, Ted desceu do telefrico e pegou a cesta das mos de Cris, ajudando-a a descer em seguida. Os dois tiveram de correr para acompanhar Katie, 
que j estava rodopiando pelo campo, em meio s flores silvestres.
      - Ela 't achando que  a Heidi, explicou Cris a Ted.
      Ainda danando, Katie se ps a cantar bem alto, imitando a Novia Rebelde.
      - Voc 't no pas errado, Katie, gritou Ted. J cantamos isso l na ustria. Lembra-se das fontes e da abadia?
      Cris inspirou profundamente, enchendo os pulmes do ar fresco dos Alpes. Os cumes das montanhas, cobertos de neve, pareciam mastros a estender aquele cu de 
purssimo azul sobre ela, sustentando-o nas alturas. No cho a campina verde se espalhava como um tapete, salpicada de flores silvestres, que mais pareciam confetes 
coloridos. Cris ficou pasmada com tanta beleza.
      Katie continuou cantando e esvoaando pelos campos, sem dar confiana ao comentrio de Ted. Agora que estavam ali, ela agia como se aquela fosse a sua "aventura", 
o que, para Cris, era bastante engraado; afinal fora ela, e no Katie, quem havia pedido para passar alguns dias numa cidade interiorana.
      Isto aqui no tem nada de aventura! Estamos descansando! Aventura mesmo seria danar na Praa San Marcos em Veneza, ou andar a cavalo nas praias da Espanha.
      Ted ps a cesta de piquenique em meio s flores e deitou-se perto dela. Depois, apoiou-se sobre o cotovelo e abriu um sorriso de satisfao para Cris.
      Acho que meus amigos esto felizes de podermos passar estes ltimos dias juntos, aqui nos Alpes. Engraado, mas, pensando em tudo que aconteceu, se eu fosse 
planejar a viagem hoje, faria tudo diferente. Gostaria de acampar com o Antnio. Hoje seria uma acampante totalmente mudada. Sairia para pescar com o Ted e tomaria 
banho de rio todos os dias. S agora estou me sentindo preparada para as frias.
      - Este deve ser um dos cantos mais incrveis, espetaculares excepcionalmente maravilhosos do mundo! disse Ted, deitando-se e olhando para o alto.  como se 
estivssemos a um nadinha do cu.
      -  incrvel, n? replicou Cris, sentando-se perto dele.
      Em seguida, abriu a cesta de piquenique.
      - 'T com fome? Parece que este po aqui foi feito em casa!
      Katie chegou esvoaando perto deles.
      - Muito bem. J sou uma mulher feliz. J dancei nos prados alpinos. Agora s falta andar de gndola pra eu me sentir plenamente realizada!
      - , concordou Ted. Ns deixamos a oportunidade passar.
      - No d pra acreditar que chegamos a pisar na estao de Veneza e depois fomos embora, disse Katie. Onde  que estvamos com a cabea? A gente estava numa 
pressa doida pra chegar a algum lugar. Nem me lembro qual.
      Cris se lembrava. Estavam indo para Salzburgo. E, embora houvessem tomado a deciso juntos, de certa forma ela se sentia culpada, uma vez que fora ela quem 
os pressionara no incio da viagem a sair para conhecer as cidades e passear e tudo o mais.
      Katie se abaixou e colheu uma flor.
      - J ouviram falar na lenda norueguesa das flores silvestres?
      - No. Onde voc ouviu isso? Em Oslo? perguntou Cris.
      - No.  uma velha tradio que minha av me ensinou quando eu tinha uns oito, nove anos. Foi quando estava na casa dela, na noite do solstcio de vero.
      - A noite do solstcio  hoje, disse Ted. O Sr. Rudolf estava me falando disso l no celeiro. No estava entendendo nada, mas a ele me disse que hoje era 
o dia em que a luz do sol duraria mais tempo. Isso  o solstcio de vero, n?
      - Exato! exclamou Katie com as faces coradas de tanta empolgao. Ocasio perfeita! Faa uma coisa aqui comigo, Cris. Voc tem de apanhar sete flores silvestres 
e dormir com elas debaixo do travesseiro.
      - Sete flores iguais ou podem ser diferentes? Perguntou Cris.
      - Acho que no faz diferena, replicou Katie; continuando rapidamente a explicar a tradio. Reza a lenda que, se voc dormir com sete flores silvestres debaixo 
do travesseiro, na noite do solstcio de vero voc sonhar com a pessoa com quem se casar.
      - Quero experimentar tambm, disse Ted, com um sorriso gozador. Quantas flores mesmo? Sete?
      - Voc no pode entrar na brincadeira! disse Katie.  s pra meninas!
      - Katie, voc tem certeza de que isso no  algum truque de magia medieval? perguntou Cris. Porque eu no acredito em nada dessas coisas.
      - Nem eu, replicou Katie.  apenas uma simples tradio folclrica. No tem de usar palavras mgicas, nem jogar asinhas de morcego na "poo". S estou passando 
um pouquinho da cultura dos meus antepassados pra vocs.  como fazer um pedido antes de soprar as velas do bolo.
      Sob os olhares de Ted, Cris e Katie saram pelos campos, para colher as flores. Depois de caminharem uma boa distncia, de modo que Ted j no podia ouvi-las, 
Cris perguntou:
      - Como  que voc 't se sentindo com relao quele lance do cime?
      Katie parou por um instante e olhou para Cris, como se estivesse atormentada com a pergunta.
      - Por que pergunta?
      - S estou querendo saber. Imagino que s vezes deve ser constrangedor pra voc ficar perto de mim e do Ted, por mais que voc no demonstre isso.
      - J melhorei bastante em relao ao incio da viagem. Talvez se o Marcos ou o Antnio tivessem demonstrado algum interesse em mim, por menor que fosse, no 
teria sido to doloroso ver voc e o Ted ficarem cada vez mais apaixonados, bem na minha frente.
      Cris no conseguiu segurar e abriu um sorriso, sentindo o rosto corar.
      - Vocs dois so perfeitos um para o outro, disse Katie com um suspiro.
      Em seguida, abaixou-se e apanhou a primeira flor. Era amarela.
      - Fico muito feliz por vocs, continuou ela. E, no fundo, acho tudo isso sensacional. Fico imaginando que, se algum dia vocs terminassem em definitivo, uma 
parte de mim se murcharia e morreria. Olhar pra voc, Cris, me d esperanas de que existe algum rapaz temente a Deus por a, que um dia me dir que eu sou o Sol, 
a Lua e as estrelas da vida dele. E me olhar da mesma forma que o Ted olha pra voc.
      Cris colheu uma pequenina flor branca.
      - H sim, Katie. Tenho certeza de que ele 't por a, em algum lugar neste mundo.
      - . Possivelmente ele vai vir  "de outro mundo"! disse Katie com uma gargalhada. Seno, no vai aguentar conviver comigo!
      - Provavelmente vai ser um rapaz tmido e mais reservado, disse Cris. Afinal, dizem que os opostos se atraem. E aquele jogador de beisebol da Rancho? Como 
 mesmo o nome dele? Camisa 14, no  isso? Ele  um rapaz tmido?
      - Sei l. Quando conheci o Mark ele no estava nem um pouco "quieto" ou "inibido". Mas tambm, eles haviam acabado de vencer o ltimo jogo da temporada. Ele 
tinha cara de ser algum muito franco e sincero. Pareceu-me um rapaz descomplicado, simples, e eu gosto muito disso.
      Alguns instantes depois, Katie continuou. J haviam colhido trs flores cada uma.
      - Sabe, o que realmente quero  confiar mais em Deus com relao a essa rea da minha vida. E estou aprendendo isso um pouco melhor agora. No foi voc que 
me disse que Deus d o melhor queles que deixam a escolha por conta dele? 
      - No sei. Talvez eu tenha falado algo assim. Mas isso 't parecendo coisa do Ted.
      - Eu quero confiar mais em Deus, disse Katie corajosamente.
      - Que engraado! Eu tenho afirmado o mesmo pra mim durante esta viagem. Tenho a tendncia de achar que sei o que  melhor pra minha vida, ou o que ir acontecer 
no futuro. Mas a verdade  que no sei de nada. S Deus, mesmo.
      Katie levantou o olhar e sorriu para Cris, segurando o pequeno buqu de florzinhas.
      - Acho que no faz muita diferena em que estgio da vida estamos, n mesmo? Com um namorado ou sem ningum.
      - Com um diploma universitrio, ou no, acrescentou Cris logo em seguida.
      Katie acenou, concordando.
      - O que temos de fazer  "soltar as rdeas e deixar que Deus assuma o controle", como dizem por a. Sabe, Cris, fico muito feliz por termos a amizade uma da 
outra durante esta viagem. A viagem da vida, digo, e no apenas este passeio aqui pela Europa. Acho que estaria pirada hoje, se no pudesse contar com voc, o Ted 
e todos os nossos amigos. Vocs so o meu crculo de sanidade mental.
      - Crculo de sanidade mental, repetiu Cris. Gostei disso. Vocs so o mesmo pra mim.
      - Muito bem, acho bom pararmos com isto antes que eu dispare a chorar daqui a pouco. Minha choradeira e meus soluos poderiam provocar uma avalanche, de to 
altos que seriam!
      Cris soltou uma gargalhada e deu uma de suas florzinhas para Katie.
      - Toma. Voc fica com uma das minhas e eu fico com uma sua.
      As duas trocaram as flores e, em seguida, Katie falou:
      - Este  o sinal de que seremos madrinha uma da outra quando nos casarmos, certo?
      - Com certeza. Estamos fazendo nossa prpria verso da lenda norueguesa.
      As duas riram e voltaram de braos dados para onde Ted estava. O rapaz se achava deitado na toalha de piquenique. Depois, Cris e Katie enrolaram as flores 
num guardanapo de pano e o puseram dentro da cesta, num local seguro. Ted apanhou um dente-de-leo todo branco e felpudo.
      - J brincaram de fazer um pedido com esta flor? perguntou Ted. Quando ramos crianas, eu e meus colegas arrancvamos essas florzinhas no ptio da escola, 
fazamos um pedido e soprvamos a penugem. Acho que conseguimos deixar o canteiro do ptio sempre cheio de sementinhas, sem que ningum nos ajudasse.
      Cris estendeu a mo e apanhou um dente-de-leo perto dela. Fechou os olhos e fez um pedido.
      - Gostaria de ainda poder visitar Veneza.
      Quando abriu os olhos, Ted estava de p, olhando atentamente para ela, surpreso.
      - 'T falando srio? Gostaria de ir l?
      - Sim, gostaria muito. Quero viver mais uma aventura antes de chegar segunda-feira.
      - Tem certeza? Pode ser que no cheguemos a tempo de provar as quitandas de sua confeitaria.
      - No faz mal.
      Ted olhou para Katie e depois para Cris.
      - At daria pra irmos mesmo. Podemos pegar o nibus que vai pra Frutigen e, em Basel, pegar o trem que pra em Spiez. Fazemos uma conexo em Milo e chegamos 
a Veneza antes da meia-noite.
      Katie soltou uma gargalhada e partiu um pedao de po.
      - Voc 't me assustando, Ted. Vai me dizer que decorou o horrio dos trens enquanto estava deitado no palheiro ontem  noite?
      - Na verdade, no. Hoje pela manh olhei a distncia daqui a Veneza porque tive a mesma sensao que a Cris 't tendo. Quero mais uma dose de aventura.
      - Espera a, pessoal, principiou Katie. Qual o problema de passarmos mais uma noite aqui e irmos pra escola da Cris amanh e nos divertirmos por l no domingo?
      - Voc 't recusando uma aventura? perguntou Cris. 'T igual a mim quando comeamos a viagem. E eu estou parecendo com voc agora.
      - Eu gostei daqui, replicou Katie.
      - Voc vai gostar de Veneza tambm, disse Ted.
      Depois apanhou mais um dente-de-leo.
      - Desejo que Katie mude de idia! disse ele, soprando a penugem bem no rosto dela.
      - 'T bom, 't bom! Se for pra ficar me torturando desse jeito, melhor irmos.
      De repente o semblante de Katie se iluminou.
      - Ah! E podemos nos encontrar com o Marcos! Estou dentro!
      A descida da montanha, a bordo do frgil telefrico, foi bastante animada. Os trs estavam eltricos. Gritavam uns para os outros e apontavam para os detalhes 
da belssima paisagem que os cercava, ao descerem sobre o vilarejo de Adelboden, com a ateno voltada para o mundo l embaixo.
      Depois de explicarem rapidamente seus planos para a D. Eva e o Sr. Rudolf, e fazerem as malas mais depressa ainda, l estavam eles na porta da casa, subindo 
na charrete do "vov".
      Cris nunca se sentira to animada e empolgada. Foi ento que se lembrou de algo.
      - Esperem! Nossas flores! gritou ela.
      Desceu da charrete e correu em direo  casa, tentando explicar  D. Eva que havia esquecido as flores enroladas no guardanapo, dentro da cesta de piquenique.
      D. Eva riu e entregou tudo a ela - guardanapo, flores e tudo o mais. Depois, apressou a jovem at a porta. E l se foram de charrete pela estreita estrada 
que levava ao ponto de nibus. Do alto da colina, Ted avistou a principal via da vila. O coletivo j estava dobrando a esquina.
      - Aquele  o nibus que temos de tomar, disse ele ao Sr. Rudolf.
      Havia acabado de consultar o horrio dos trens e, ento, anunciou:
      - Se no pegarmos o nibus, no conseguiremos fazer a conexo em Spiez.
      - Ser que esta charretinha no consegue ir um pouco mais rpido, no? perguntou Katie ao Sr. Rudolf.
      Ele respondeu qualquer coisa em alemo, ou talvez aquilo fosse francs. Seja l o que tenha dito, os cavalos entenderam, porque imediatamente "decolaram"! 
Com o arranque, Cris e Katie trombaram uma na outra e seguraram firme, gargalhando at chegarem ao ponto.
      - Segurem o nibus! exclamou Ted quando ainda estavam a alguns metros de distncia.
      Uma fumaa preta saiu pelo escapamento do veculo e a porta se fechou em seguida.
      - Esperem! gritou Ted.
      Dos quatro, o Sr. Rudolf parecia ser o que mais estava se divertindo com a caada ao nibus. Continuou guiando firmemente os cavalos rumo ao veculo. Ao ver 
que este j estava mancando, ps o dedo e o dedo indicador na boca e soltou um agudo assovio. O motorista do nibus no o escutou, porm os cavalos ouviram o rudo. 
Confusos, os animais empinaram as patas ao ar.
      Com o barulho, dois senhores chegaram  porta das lojinhas que havia na avenida. Um deles estava usando um grande avental branco de aougueiro. Uma mulher, 
num vestido de corpete justo, saiu de outra loja, no final da avenida, com dois garotinhos em calas de couro, tpicas daquela regio. Ao verem que o Sr. Rudolf 
tentava parar o nibus, todos se puseram a acenar, gritar e correr atrs do veculo tambm.
      Cris no conseguia parar de rir. Tinha a sensao de ter sido transportada de um conto de fadas para o desenho animado Busy Town* e, agora, era como se fossem 
os personagens da pelcula, vivendo uma incrvel trapalhada. S precisavam que o Sargento Murphy** chegasse com seu apito enferrujado.
      O motorista de uma Mercedes azul juntou-se a eles e saiu atrs do nibus, fazendo um buzinao at que o condutor do coletivo parou, quando j estava saindo 
da cidade.
      - Obrigada, muito obrigada, disse Katie, estendendo a mo e cumprimentando todos os que haviam ajudado, como se fosse uma princesa desfilando num carro alegrico.
      Em seguida, desceu da charrete, ps o mochilo nas costas e continuou cumprimentando as pessoas.
      - Obrigada! No teramos conseguido sem a ajuda de vocs. Vocs foram incrveis! De verdade.
      A alegre platia vibrava com o feito. O Sr. Rudolf ria e acenava enquanto Ted, Cris e Katie corriam para entrar no nibus. O nico que no estava achando graa 
das trapalhadas dos trs era o condutor do coletivo. Percebendo isso, Ted foi com Cris e Katie para o fundo do nibus, pois assim poderiam rir  vontade e comentar 
sobre cada detalhe daquela aventura, sem ter de aturar o olhar bravio do motorista pelo retrovisor.
      Cris s conseguiu relaxar de verdade quando os trs embarcaram no trem que os levaria a Milo. A paisagem era deslumbrante, e a impresso que tinha era de 
que ainda estava nas montanhas. No queria que aqueles dias na companhia de seus melhores amigos acabassem nunca.
      Tinham conseguido fazer todas as conexes, e tudo estava correndo tranquilamente at que chegaram a Milo. Era sexta  noite e a estao de trem estava lotada. 
Ted ia na frente, orientando o caminho at o guich, onde fariam as reservas e trocariam os bilhetes por passes de primeira classe, pagando a diferena. Ted consultava 
o relgio a todo tempo.
      - Ser que vamos conseguir pegar o prximo trem? perguntou Cris.
      - Temos cinco minutos. Se o trem no atrasar um pouquinho, acho que no iremos conseguir.
      - No seria melhor corrermos pra l? Podemos ir em p na segunda classe mesmo, sugeriu Cris.
      - Por mim, tudo bem, respondeu Katie. J fizemos isso antes.
      Saram correndo pela estao, mas, quando chegaram  plataforma, o cobrador no os deixou embarcar. O trem estava lotado e s podia entrar quem tivesse feito 
a reserva. Parecia que todo mundo queria passar o fim de semana em Veneza.
      Os trs retornaram ao guich e tiveram de enfrentar uma fila ainda maior.
      - Que tal se eu e a Cris fssemos comprar algum lanche enquanto voc espera? Podemos trazer pra voc.
      - Obrigado, seria bom mesmo fazer um lanchinho, disse Ted.
      - No h de qu. Voltamos num minuto! Mas no saia daqui, seno ficamos perdidas!
      Cris procurou ficar junto de Katie. As mochilas trombavam a todo momento na multido de turistas que circulava ali. Cris nunca vira uma estao to cheia e 
barulhenta. Enquanto caminhava, perguntava-se se aquilo no seria reflexo das frias escolares que haviam comeado nos Estados Unidos e na Europa, levando uma legio 
de estudantes a comear suas aventuras agora. Ela sabia que tinham conseguido evitar muito daquele tumulto, partindo logo no incio do ms.
      - Tem uma pizzaria ali, disse Katie. Vamos aproveitar e comprar a mais, caso fiquemos presos aqui a noite toda.
      Depois de esperar um bom tempo na fila, Cris e Katie pediram uma pizza inteira e trs refrigerantes. Cris segurava a pizza com as duas mos. O forte cheiro 
de alho e pimenta a torturava. Ted ainda estava na fila quando as duas retornaram ao guich.
      Cris e Katie resolveram se assentar num banco e, quinze minutos depois, Ted foi ao encontro delas, com a notcia de que milagrosamente conseguira trs assentos 
na primeira classe. Ao que parecia eram os ltimos assentos que haviam restado para aquele dia.
      - O nico problema  que o trem s sai s 6:00h da manh, disse Ted ao entregar-lhes os passes.
      - Ser que devemos procurar um albergue, ento? perguntou Cris.
      - Acho que estaro todos lotados, disse Katie. Li no guia turstico que os albergues das grandes cidades italianas costumam encher muito rpido, e o aconselhvel 
 garantir o lugar bem cedo.
      Ted consultou o relgio.
      - Deveramos ento achar um hotel. S que minha grana 't curta. Ah, e por falar nisso, preciso que vocs me dem o dinheiro dos bilhetes de primeira classe. 
Seria um prazer poder pag-los pra vocs, mas...
      - Tudo bem, ns amos pag-los de qualquer jeito, disse Cris. E a pizza  por nossa conta.
      Caminharam at um canto mais tranquilo e acertaram as contas. Depois comeram a pizza que j havia esfriado, e tomaram o refrigerante que j estava quente.
      - De onde surgiu tanta gente? perguntou Ted.
      - Pelo visto a temporada de turismo comeou oficialmente aqui na Europa, disse Cris.
      Ela no gostava nem um pouco de sentir o corpo todo suado e fedorento. Seja l o que fossem fazer em Veneza no dia seguinte, Cris esperava que um banhozinho 
estivesse includo no pacote.
      Cada hora um deles se levantava para dar uma volta, enquanto os outros ficavam com a bagagem. Katie aproveitou para comprar barrinhas de chocolate e um chaveiro 
de recordao. Vrios estudantes americanos pararam para conversar com eles. Trocavam experincias, idias e nomes de lugares onde ficar. Quando eram umas duas da 
manh, Ted comeu a ltima fatia da pizza fria. O cheiro de alho, que impregnou o cantinho onde estavam, incomodou Cris.
      Ted se ofereceu para uma partida de xadrez, mas Cris recusou. O que ela queria era encontrar um jeito de se apoiar confortavelmente na mochila e dormir. Aquela 
aventura para Veneza, que tinha comeado de forma to espontnea, estava perdendo a graa rapidamente.
      Cris fechou os olhos e apoiou a cabea no mochilo. Foi ento que se lembrou das flores silvestres.
      - Katie! Onde  que voc enfiou o guardanapo com as flores?
      -  mesmo! J se foi quase metade da noite e ns no estamos dormindo com as florzinhas debaixo do travesseiro! Acho que voc colocou o guardanapo na bolsa.
      Depois de vasculhar seus pertences, Cris encontrou o guardanapo e abriu-o cuidadosamente. Alm de amassadas, as flores se achavam enrugadas e murchas. Algumas 
j estavam at sem o caule.
      - Ser que vai dar certo? perguntou ela a Katie. Ser que vamos sonhar com nossos futuros maridos, mesmo elas estando dilaceradas?
      - Acho que, se conseguirmos pelo menos sonhar com alguma coisa boa, dormindo num lugar destes, j estar at bom demais, disse Katie, pegando suas sete flores 
com cuidado e enrolando-as numa bandana toda amassada.
      Cris achou um pedao de jornal e improvisou um envelope para colocar as flores. Em seguida enfiou-o no bolsinho da frente do mochilo e tentou se acomodar 
de forma que a cabea se apoiasse sobre ele. Mexeu-se um pouco at achar uma posio confortvel e abriu os olhos. Ted a observava, sorrindo. Ao v-lo, Cris abriu 
um sorriso.
      - Quero um relatrio completo do sujeito que aparecer nos seus sonhos, disse ele.
      Voc sabe que vou sonhar com voc, Ted. Sempre sonho com voc. S voc.
      Entretanto, tudo que ela lhe disse foi:
      - Tudo bem.
      Cris no sabia quantas horas havia dormido, nem com quem sonhara. Na verdade, no sabia nem se tinha sonhado. Acordou de repente ao ouvir Katie gritar.
      - Tire as mos de mim, seu maluco!
      Ainda com os olhos embaados, Cris viu um homem careca e parrudo, agachando-se perto de Katie, tentando conversar com ela. Estava cheirando a lcool.
      Ted acordou e disse:
      - D o fora daqui, cara!
      Imediatamente o homem se levantou e foi embora, andando a passos lentos e falando sozinho.
      - Basta desse negcio de flor silvestre! exclamou ela, levantando-se e ajeitando o moletom.
      - 'T tudo bem com voc? perguntou Cris.
      - Aquele cara foi o pesadelo em pessoal disse Katie. Eu estava bem aqui, sonhando com o meu prncipe misterioso, quando senti algum mexendo no meu cabelo. 
Achei que ia me virar e ver o rosto do meu amado, mas dei de cara com aquele sujeito!
      Cris no conseguiu segurar o riso.
      - Ah, amiga!
      Katie fez um beicinho.
      Ted riu.
      - A moral dessa histria das flores devia ser que "h certos mistrios que s Deus deve conhecer".
      - No brinca! Srio? disse Katie. E voc, Cris? Com quem sonhou? Ou ser que podemos adivinhar?
      Cris podia sentir Ted olhando para ela. Entretanto sentia-se acanhada demais para retribuir o olhar. E no queria ter de dizer que nem sequer havia sonhado.
      - H certos mistrios que s Deus deve conhecer, replicou ela baixinho.
      Cris teve tempo de sobra para pensar na vida durante o restante da incmoda noite no cho da estao de Milo e depois, durante a viagem de trs horas at 
Veneza. O forte sentimento de apreenso que sentira em Amsterd j havia passado. Agora ela sabia que loucura tinha sido pensar em se casar dali a dois meses e voltar 
com Ted para trabalhar no Rochedo. Havia tomado uma boa deciso ao optar por continuar trabalhando no orfanato at seu compromisso com eles terminar. Sentia paz 
em dar continuidade ao trabalho que havia comeado.
      O que ainda carecia de uma definio era seu relacionamento com Ted. Ele no a beijara nem uma vez desde a viagem para Amsterd, em que ela lhe dissera que 
estava "guardando" beijos para depois. E aquilo a deixava um pouco incomodada, porque a inteno no tinha sido fazer com que ele recuasse completamente. Embora 
tivessem passado bastante tempo juntos nos ltimos dias, no haviam ficado to "agarradinhos" como Cris gostaria. E agora ela no sabia direito se gostava ou no 
daquilo. Ser que no poderiam ser um pouco mais carinhosos um com o outro? Ou ser que aquela era a maneira de Ted respeitar o pedido dela, de guardar os beijos?
      Cris tinha certeza de que tudo se resolveria assim que tivessem uma oportunidade de levar uma boa conversa em particular. A questo : quando teremos essa 
chance? O tempo que temos juntos 't ficando cada vez menor. Hoje j  sbado! Eu at no ligo de ficar em Basel mais dois meses, mas acho que no posso esperar 
tudo isso pra ter uma conversa franca e ntima com Ted.
      

23
      Quando o trem chegou a Veneza, s nove da manh, Ted, Cris e Katie tiveram a impresso de estar pisando numa estao diferente daquela em que haviam estado 
duas semanas antes. Em vez de vazio e sossegado, o local achava-se barulhento e cheio de turistas. Caminhando pela multido, os trs chegaram ao txi aqutico e 
embarcaram, juntamente com dezenas de outros estudantes.
      Enquanto o barco acelerava pelas guas, Cris protegeu os olhos da luz do sol e se ps a observar a paisagem, procurando gravar cada detalhe na memria. Do 
outro lado do canal, achava-se uma das muitas ilhas que constituam a antiga cidade de Veneza. O pinculo de uma torre estendia-se rumo ao cu, e vrios prdios 
bem altos e antigos enfileiravam-se, bem prximos um do outro. Ao observ-los, Cris achou que lembravam senhoras bem gordas, trajando seus melhores vestidos, confortavelmente 
assentadas lado a lado no banco da igreja. Algumas usavam chapu, outras pareciam segurar a bolsa no colo. Um sorriso arrogante parecia enfeitar cada uma das fachadas 
dos prdios, como se aquelas senhoras estivessem ouvindo o sermo vindo dos cus, mas, ao mesmo tempo, guardassem no corao maliciosos segredos do passado.
      - Que lugar maravilhoso! exclamou Cris ao descerem do barco. Quero dizer, j tinha visto Veneza em vrias fotos e filmes, mas este lugar parece maior do que 
a prpria vida!
      - H algo no ar, n? disse Ted.
      Cris deu uma fungadinha, mas no sentiu nenhum odor de alho pairando por ali.
      - No, disse Ted. Estou falando de uma certa "atmosfera" que envolve este lugar. Esta cidade j viu de tudo.
      - , concordou Cris. Estava pensando agora mesmo em como aqueles prdios lembram mulheres gordas e arrogantes, assentadas uma ao lado da outra.
      Ted sorriu para ela.
      - O que vamos fazer primeiro? Comer ou achar um albergue?
      Cris tinha certeza de que Ted preferiria comer. J ela, queria tomar um banho. No entanto foi Katie quem decidiu por eles.
      - Vamos ligar para o Marcos!
      - Ns temos o endereo da joalheria do pai dele, no temos? perguntou Ted. Podemos ir at l e ver se ele 't l.  mais provvel que ele esteja na joalheria 
do que em casa. No podemos ir deduzindo que poderemos nos hospedar na casa dele.
      - Ser que poderamos deixar a bagagem em algum lugar antes? perguntou Katie. Estou cansada de ficar carregando esta bagulhada pra todo lado.
      - Podemos achar um albergue, sugeriu Cris.
      Uma garota que estava perto deles virou-se ento e disse com sotaque britnico:
      - Os albergues s iro abrir pra registros s 3:00h da tarde. A cidade 't muito cheia. Mas, se quiserem, podemos passar pra vocs o endereo de um hotel que 
encontramos bem mais perto daqui. Vocs querem?
      - Sim, obrigado, disse Ted.
      O hotel foi uma boa opo, com exceo da diria que era mais cara que a do albergue. Ted estava praticamente sem dinheiro, j que havia gastado bastante para 
pagar a passagem de avio de Narvik para Copenhague. Pelas contas, Katie tinha ainda setenta e cinco dlares, e restava a Cris uma quantia um pouco maior.
      - Podemos fazer uma "vaquinha", disse Cris. Se juntarmos o dinheiro, teremos o suficiente pra pagar o hotel e o restaurante. Que mais que a gente quer?  claro 
que, nesse caso, teremos de voltar pra Basel na segunda classe, mas no tem problema. Vai dar tudo certo.
      O otimismo de Cris e tambm a sugesto de que tomassem um banho antes de sair pela cidade ajudaram bastante. Quando deixaram o hotel, estavam famintos, mas 
pelo menos tinham dado uma refrescada e no precisariam carregar a pesada bagagem.
      - Vamos descobrir um restaurante diferente e original! disse Katie. Chega dessas lanchonetes fajutas pra turistas! Depois podemos dar uma chegada na joalheria 
e conhecer o resto da Praa San Marcos.
      Seguindo o prprio faro, os trs atravessaram estreitas ruas e vrias pontes extremamente rebuscadas. No faziam a menor idia de onde estavam indo.
      - No vi um restaurante sequer por aqui! disse Cris. No seria melhor consultarmos o guia turstico?
      Katie tirou o livro da bolsa, e trs cartes postais caram no cho.
      - No acredito que at hoje no pus estes postais no correio, disse Cris, abaixando-se para peg-los.
      - Aquilo ali no 't parecendo uma agncia dos correios? perguntou Ted, apontando para um edifcio um pouco mais abaixo de onde estavam. Pelo menos, tem cara 
de ser. Aquilo ali na frente  uma caixa de correio, no ?
      Ted e Katie ficaram folheando o guia turstico  procura de um bom restaurante, enquanto Cris se aventurou pelo pequeno prdio. Ao entrar, notou um senhor 
assentado atrs do balco, lendo o jornal. Os culos de armao metlica estavam apoiados bem na extremidade de seu pontudo nariz, a ponto de carem. Cris entregou-lhe 
os postais, mas no compreendeu o que ele replicou. Ela ento lhe estendeu algumas moedas para pagar o selo, tentando falar vagarosamente em ingls. O senhor colou 
os selos para ela e olhou-a por sobre os culos. Em seguida, fez sinal com a outra mo para que ela lhe desse mais dinheiro. Cris tirou mais duas moedas do bolso 
e deu a ele. O senhor abanou a cabea, como se quisesse dizer que a quantia no era suficiente, e acenou com a mo, soltando em seguida uma srie de palavras em 
italiano. Cris deduziu que ele estava lhe dizendo que a quantia estava bem prxima do valor correto e que ela podia ir embora. Ento, saiu do prdio, sacudindo a 
cabea.
      - Era mesmo uma agncia de correio? perguntou Katie.
      - No sei. Mas o senhor que estava l selou os postais e recebeu as moedas que lhe dei, embora eu ache que ficou faltando dinheiro. Que cara estranho! Se os 
postais de Sam chegarem a Oregon ser um milagre!
      - Ento os postais no eram seus? perguntou Katie.
      - No. D pra acreditar? Lembra daquele rapaz que conhecemos no trem pra Paris? Ele deixou os cartes carem dentro do guia. J faz uma semana que estou planejando 
coloc-los no correio pra ele.
      Ted passou a mo pelo ombro de Cris e puxou-a para perto de si.
      - Minha Boa Samaritana! brincou.
      Cris gostava de senti-lo perto dela, principalmente quando ele estava de banho tomado e todo cheiroso. Passou o brao pela cintura de Ted e apoiou a cabea 
no ombro dele.
      - Muito bem, senhores pombinhos, disse Katie. Precisamos achar um lugar pra comer. J nem estou ligando mais se for uma lanchonete fajuta pra turistas. Vamos 
dar um jeito de chegar  Praa San Marcos.
      Os trs seguiram o mapa e atravessaram vrias pontes. J estavam quase chegando  praa, quando Cris sentiu um cheiro de alho no ar.
      - Humm, esto sentindo este cheiro?
      Katie se ps a farejar e seguir o aroma. Os trs foram parar num restaurante minsculo, que ficava numa estreita rua. Parecia uma pizzaria. A porta estava 
aberta, mas no havia ningum l dentro.
      - Ser que devemos entrar? perguntou Cris.
      - Al?! exclamou Katie, entrando destemidamente no restaurante. Ciao! Tem alguma coisa de comer  venda aqui?
      Ento uma mulher baixinha e gordinha veio receb-los, trajando um avental branco por cima do vestido.
      - Americanos! exclamou ela. Entrem, por favor! Devem estar com fome, no?
      - Sim! responderam os trs em coro.
      - Gostariam de preparar a prpria pizza? perguntou ela.  que estamos de folga agora.
      -  mesmo? disse Ted. Nesse caso, gostaramos muito de montar nossa prpria pizza.
      Ted passou por trs do balco e lavou as mos numa pia. Cris e Katie fizeram o mesmo.
      - Basta nos dizer o que fazer, e ns faremos, continuou ele. E por falar nisso, meu nome  Ted. Estas aqui so Katie e Cris. Somos da Califrnia.
      - Meu nome  Cassandra. J moramos em Nova Iorque por uns tempos. Que pizza vocs querem?
      - Qualquer uma, respondeu Ted por eles.
      Em seguida apontou para o banquinho em que Cassandra havia apoiado a perna direita.
      - Machucou o p? perguntou.
      - Sim, hoje de manh.
      - J colocou uma compressa de gelo nele?
      - No.
      Bem  vontade, Ted abriu a pequena geladeira dos fundos. Cris e Katie sorriram constrangidas para Cassandra. O rapaz voltou em seguida, com um pedao de mussarela 
fria enrolado numa toalha.
      - Tome. No 't congelada, mas deve ajudar.
      - Voc  um anjo, replicou Cassandra teatralmente. Venha c, deixe-me dar-lhe um beijo.
      Ted se abaixou para colocar a mussarela sobre o tornozelo dela. Cassandra deu-lhe um beijo em cada face. Cris teve a impresso de que o gesto deixara Ted desconcertado.
      - Onde fica a massa da pizza? perguntou o rapaz, pegando um avental que vira no balco.
      Durante as duas horas que se seguiram, Cris riu a valer. Enquanto Cassandra descansava com o p para cima, os trs aprenderam a arte de lanar a massa ao alto 
e depois espalhar o molho de tomate especial sobre ela. Ted j estava colocando a pizza no forno com o auxlio de uma enorme p, quando duas jovens entraram na pizzaria.
      Cassandra lhes disse qualquer coisa em italiano e as duas deram uma risadinha. Depois, assentaram-se e ficaram observando Ted, que j estava com a testa toda 
brilhante de suor.
      - Disse-lhes que voc prepararia a pizza pra elas, explicou Cassandra.
      - Mais uma pizza especial do Ted saindo daqui a pouquinho.
      Foi a vez de Katie tentar jogar a massa para cima, Cris tinha quase certeza de que a massa cairia na cabea da amiga, como sempre acontecia nos desenhos animados. 
Contudo Katie surpreendeu e se saiu melhor do que Ted. Depois de Cassandra muito insistir, Cris resolveu tentar tambm, mas, justo na primeira tentativa, seu punho 
acabou abrindo um buraco no meio da massa. Cris brincou, fazendo de conta que a massa era uma grande pulseira que estava prestes a arrebentar.
      - Voc a abriu demais e a ela ficou muito fina, disse Cassandra. Tente de novo.
      Na segunda tentativa, a massa rodopiou pelo ar, abrindo perfeitamente. Todos deram uma salva de palmas para Cris.
      Ted botou uma toalha sobre o brao e serviu a primeira fatia da pizza para Cassandra, imitando um garom profissional. Cassandra elogiou o rapaz e lhe ofereceu 
um emprego na pizzaria.
      - Humm, deixe-me ver, disse ele, passando a mo no queixo, como se estivesse pensando seriamente na proposta dela.
      - Lembre-se de que a necessidade no faz o chamado, disse Cris.
      Ted riu do comentrio de Cris e passou o brao pelo ombro dela. Depois, virou-se para Cassandra.
      - Sinto muito, mas minha namorada disse "No".
      - Ahh! exclamou Cassandra, toda empolgada. Ela  sua namorada? Por que no me disse antes? Esperem! No saiam da! disse ela, enquanto tentava se levantar.
      Quando conseguiu ficar de p, Cassandra bateu a mo no avental e uma nvoa de farinha bem fina se levantou e os envolveu.
      - Tenho de dar-lhes uma beno.
      Cris passou o brao pela cintura de Ted, que permaneceu de p, com o brao sobre os ombros dela. Cassandra ergueu as mos e tocou os lbios de Ted e Cris com 
os dedos. Proferiu uma meldica srie de palavras em italiano e, em seguida, tirou os dedos dos lbios deles, trazendo-os para os prprios lbios. Depois beijou-os 
e os pressionou contra a face de Ted e Cris.
      O olhar de Cassandra era de quem fazia um pedido.
      - No sei como dizer na lngua de vocs. No  a mesma coisa, entendem? Mas desejo-lhes toda a bondade de Deus, disse da.
      - Obrigada, replicou Cris, praticamente sussurrando. Grazie, Cassandra. Molte grazie.
      - Molte grazie, repetiu Ted, apertando o ombro de Cris e aproximando-a dele.
      - Ser que voc no tem uma beno a pra ns que ainda estamos "disponveis"? perguntou Katie.
      Cassandra olhou-a como se no houvesse compreendido a pergunta.
      - Ela quer receber uma beno tambm, explicou Ted.
      - Volte aqui quando tiver um namorado e eu abenoarei vocs.
      Cris achou que o comentrio arrasaria o corao de Katie. Entretanto, para surpresa dela, a amiga no fez nenhuma brincadeirinha, nem ficou choramingando. 
Em vez disso, disse corajosamente:
      - Um dia eu voltarei, Cassandra. Pode esperar. Eu voltarei! E seja l quem for o rapaz, ele valer cada palavra que voc disser.
      Cris nunca havia se sentido to orgulhosa da amiga.
      Ted, Cris e Katie s conseguiram sair da pizzaria de Cassandra vrias horas depois. A parada seguinte seria a joalheria da famlia de Marcos.
      At que do lado de fora, a loja no aparentava ser grande coisa. No entanto bastou pisar l dentro para os trs perceberem que estavam numa joalheria bem cara 
e de clientela bastante selecionada. O teto da loja, em forma de cpula, era todo adornado e, no centro, havia um lustre dourado e reluzente. Em cada canto do recinto 
havia esttuas de mrmore. Os sofs, encapados com um tecido brocado dourado, eram almofadados, de forma que os clientes podiam se assentar confortavelmente enquanto 
olhavam as peas expostas nos armarinhos de vidro. Imediatamente um senhor alto, vestindo um terno preto, veio receb-los. Parecia o segurana da loja.
      - Ol, como vai? Gostaramos de falar com Marcos Savini, se ele estiver, disse Ted.
      - O Sr. Savini no se encontra, replicou o segurana.
      - Tudo bem, mas estamos falando do filho dele, explicou Katie. O Marcos est?
      - O Sr. Carlos Savini e o Sr. Marcos Savini no esto, respondeu ele.
      - Ser que poderamos deixar um recado pra ele? perguntou Katie.
      O segurana tirou um carto do bolso e abriu a porta para que eles se retirassem.
      - Obrigada, respondeu Katie, pegando o carto.
      To logo saram da loja, ela comentou:
      - Puxa! Que tratamento, hein? O oposto da pizzaria da Cassandra! Pelo que estou vendo, eles no gostam nada desses universitrios americanos pobretes. Acho 
que no somos bem-vindos aqui como fomos na casa do Antnio.
      - Ser que devemos telefonar e deixar um recado? perguntou Cris.
      - No, respondeu Katie. Ele deve estar viajando.
      - Vamos desbravar, ento! sugeriu Ted. Quero conhecer a Praa San Marcos.
      O que mais impressionou Cris na praa foram os pombos. Estavam por toda parte. Muita gente comprava alpiste dos vendedores ambulantes e ficava alimentando 
os pssaros, que desciam e pousavam em suas mos. Um garotinho parecia petrificado de medo e encanto ao mesmo tempo, ao perceber que dois pombos haviam pousado em 
sua cabea, e outros quatro aterrissaram em seus braos. Um senhor lhe disse algo em alemo e afastou-se um pouco, para tirar uma foto do garoto. Cris pegou a mquina 
na bolsa e tirou algumas fotos da praa. Durante a viagem, tinha batido apenas trs rolos de filme. Na maioria dos lugares, havia ficado to "encantada", observando 
e apreendendo os detalhes do que via, que praticamente se esquecera de fotografar.
      Naquela tarde, contudo, Cris compensou o atraso e bateu todo o filme que estava na mquina e mais um. Fotografou a igreja que ficava ao fundo da praa e, depois, 
subiu at a cpula da baslica, de onde tirou fotos panormicas da praa. Tirou tambm vrias fotos das gndolas que passavam sob a Ponte Rialto.
      Katie no voltou a falar no passeio de gndola, nem Cris tocou no assunto. Havia lido no guia turstico que os passeios podiam sair muito caro; e duvidava 
que teriam dinheiro para alugar uma gndola. Cris se perguntava se Katie havia chegado  mesma concluso.
      Ser que essas gndolas sero como a Lille Havfrue? A sereia ilusria que, para encontr-la, tivemos de atravessar o mundo? Ser que, agora que chegamos aqui, 
Katie 't achando que o passeio  uma bobagem? Por que ser que tantas coisas na vida acabam assim, como os castelos e os fiordes?
      Quando o sol se ps, os trs estavam exaustos. Sofriam os efeitos de ter passado a noite em claro na estao de Milo e andado a tarde inteira por Veneza. 
Cris nem fome sentia. Tudo que queria era dormir.
      No dia seguinte, Katie foi a primeira a se levantar e acordou Cris.
      - Vamos, Raio de Sol! Levante-se! Veneza 't a sua espera! brincou ela.
      - Que horas so? quis saber Cris.
      - Quase nove. Est batendo seu recorde, hein? Eu e o Ted j estamos de p faz horas. Fomos tomar caf e trouxemos uma tortinha pra voc. Espere at voc prov-la! 
Acho que esta aqui ganha de todas as que j comemos nesta viagem!
      Katie estendeu-lhe a quitanda de massa folhada. Tinha forma de cone e era recheada de chocolate.
      - J at vi por que voc gostou desta aqui! disse Cris ainda deitada, ao colocar um pedao de torta na boca. Obrigada por ter trazido pra mim. E me desculpe 
por ter deixado vocs esperando.
      - No esquente. Determinei que hoje ningum vai pedir desculpas por nada.  o nosso ltimo dia juntos e quero que seja perfeito!
      Para Cris, aquela deliciosa quitanda era uma maneira perfeita de comear o dia. Sentia-se completamente refeita aps tantas horas de sono.
      Cris tomou um rpido banho, e logo depois Ted providenciou para que pegassem um barco e fossem at a Ilha de Murano ver os sopradores de vidro. Cris gostava 
muito de passear de barco e sentir o vento em seus cabelos. Estava perto do parapeito, batendo fotos, quando Ted se aproximou por trs dela e cercou-a, pondo as 
mos sobre a grade.
      - Eu no quero que voc v embora, disse Cris suavemente. 
      - Mas eu no estou indo a lugar nenhum, replicou ele, encostando o rosto no cabelo dela.
      - 'T sim. Amanh, neste mesmo horrio, voc estar no avio, a caminho da Califrnia, e eu estarei na aula. No, na verdade o primeiro horrio j ter terminado 
e eu estarei na minha Konditorei, afogando as mgoas em alguma quitanda.
      - O avio s sai de Zurique  duas da tarde, disse Ted.
      - Muito bem, ento. Eu estarei na Konditorei e voc estar no aeroporto. Estaremos longe um do outro de qualquer jeito, Ted. No quero que o amanh chegue.
      Cris se virou e afundou o rosto no ombro do rapaz. Queria que Ted lhe dissesse que voaria at o cu, enlaaria o Sol e o deteria com as prprias mos, a fim 
de que ele no conclusse sua "trajetria" e o dia nunca acabasse. Ou ento, se Ted no fosse tentar aquilo, Cris desejava que ele pelo menos a beijasse.
      Mas Ted no a beijou.
      A dor que Cris sentia s aumentou durante o passeio pela Ilha de Murano. Os trs assistiram ao habilidoso arteso, que soprava o vidro atravs de um tubo comprido 
e oco, moldando rapidamente vasos belssimos com o lquido fumegante que saa do outro lado do tubo. Durante a volta, Ted ficou conversando com um treinador de atletismo 
aposentado e sua esposa, que eram de Ohio, Estados Unidos. Cris permaneceu perto do parapeito, sozinha, observando as ondinhas que o barco imprimia na gua.
      - Precisamos tomar algumas decises, disse Ted.
      Tinham acabado de descer do barco e agora estavam em p numa sombra.
      - Acho que deveramos tentar ligar para o Marcos mais uma vez, disse Katie.
      - No sei se teremos tempo de encontrar com ele, observou Ted. A diria do hotel termina  uma da tarde, ou seja, daqui a vinte minutos. Conferi o horrio 
dos trens e temos algumas opes de partida. Independentemente do trem que escolhermos, sero dez horas daqui a Basel.
      - Tudo isso? disse Katie. Achei que estivssemos mais perto. Acho tambm que devamos ir andando enquanto conversamos, para chegarmos a tempo ao hotel. Se 
eles resolverem nos cobrar mais uma diria, no sei se teremos dinheiro pra pagar.
      Ted comeou a caminhar e perguntou a Cris:
      - Ser que teria algum problema se passarmos a noite no dormitrio da universidade?
      - Acho que no. Vocs esto pensando em pegar o trem pra Zurique amanh de manh?
      - Isso.  uma hora de viagem apenas.
      - Eu sei.
      Cris se perguntava se os novos planos lhes permitiriam fazer uma rpida visita  sua Konditorei. Sentia que, se conseguissem encaixar aquilo no roteiro, de 
alguma forma seria mais fcil se despedir dos amigos.
      - Poderamos pegar o trem das 2:00h. Chegaramos em Basel  meia- noite. Mais trs trens partem depois desse. O ltimo sai s 20:30h e, nesse caso, chegaramos 
s 6:30h da manh de segunda-feira, o que seria praticamente em cima do horrio das aulas de Cris.
      - No tem problema.
      Cris queria ficar o mximo que pudesse ao lado de Ted e no se importava de descer do trem e ir direto para a universidade. Se pudesse, nem iria s aulas. 
Viajaria para Zurique com Ted e Katie e ficaria com eles at s duas da tarde, quando embarcassem no avio. Entretanto o perodo letivo* que estava se iniciando 
era bem curto e, se ela perdesse uma aula que fosse, sua nota poderia baixar quase que pela metade. E como suas nota no haviam sido das melhores no perodo passado, 
Cris sabia que deveria se esforar ao mximo para conseguir boas notas agora. Seno, isso poderia afetar at mesmo a bolsa de estudos parcial que havia conseguido 
na Rancho Corona, instituio em que comearia a estudar em setembro.
      - Podemos pegar o ltimo trem. Assim teramos mais algumas horas aqui em Veneza.
      Katie, que estava concordando com tudo naquele dia, achou a idia excelente. Ted sugeriu que pegassem a bagagem no hotel e se dirigissem para a estao, para 
fazer as reservas. Depois, poderiam comer uma pizza com o dinheiro que sobrasse.
      Foram duas horas de espera na fila da estao. Todos os assentos na primeira classe do trem das 20:30h estavam reservados, e eles teriam de viajar na segunda 
classe, o que poderia significar dez horas em p. Ou pelo menos as trs primeiras horas at Milo.
      Depois, compraram uma pizza na prpria estao. O dinheiro de Cris j estava pelos centavos. Tinham ainda trs horas em Veneza, mas nenhum deles sabia o que 
fazer.
      Cris sentia os ps e o corao cada vez mais pesados. Ted estava calado. Era triste demais pensar que a viagem estava chegando ao fim. Nem sequer conseguiam 
planejar como passar as ltimas horas que tinham juntos.
      Foi Katie quem os "empurrou" o restante do dia, com seu esprito alegre e otimista. Sugeriu que sentissem o gostinho de um sorvete Gelato pela ltima vez, 
e sabia exatamente onde deveriam ir. Cris e Ted seguiram-na at o txi aqutico e desembarcaram na Praa San Marcos. Cris achou que a amiga iria sugerir que ligassem 
para o Marcos, mas Katie no disse nada.
      Em vez disso, Katie os levou at uma gndola, tirou do bolso o resto do dinheiro que tinha e dirigiu-se ao gondoleiro, que usava chapu de palha:
      - Meus amigos aqui precisam dar uma volta de gndola. Quanto voc quer?
      

24
      - Mas, Katie, assim voc vai acabar com seu dinheiro protestou Cris. No precisa pagar pra ns.
      - Preciso sim, disse a outra. Vocs esto sem dinheiro e  um prazer poder pagar pra vocs. Vamos! No estraguem tudo! Tirem as mochilas e entrem logo nesse 
barco. Vou ficar vigiando as coisas pra vocs.
      O gondoleiro recebeu o dinheiro de Katie, enquanto Ted conduzia Cris para o interior da gndola. Cris continuava fazendo objees. Ento o gondoleiro perguntou 
a Katie:
      - Voc vai pagar para os seus amigos? E este dinheiro  tudo que voc tem?
      - Estamos voltando para os Estados Unidos amanh, explicou Katie. Achei que seria uma pena eles viajarem at aqui e no darem um passeio de gndola.
      - Mas voc tambm tem de ir! disse o gondoleiro. Venha! Voc vai de graa. Ser um prazer pra mim. Voc tambm precisa passear de gndola.
      - Vocs se importam? perguntou Katie.
      - Claro que no, respondeu Cris, chegando pertinho de Ted. Teria sido maravilhosamente romntico poder passar a ltima hora da viagem a ss com Ted, mas, como 
ela poderia dizer "no" a Katie, depois de a amiga ter sido to gentil, oferecendo-se para pagar para eles?
      - Entre a! disse Ted.
      Toda contente, Katie entrou na gndola e estendeu o brao, a fim de pegar as mochilas que o gondoleiro lhe passava. Colocou uma delas do seu lado e passou 
o brao em volta dela.
      - Ah, Milton! Voc  to forte! Eu sempre gostei de homens assim, fortes e reservados como voc! brincou ela.
      Cris sorriu para Ted. Ele ps o brao em torno dos ombros dela e puxou-a para junto de si.
      - Existem vrios palcios belssimos aqui no Canalazzo, disse o gondoleiro ao desatracar a gndola do cais, direcionando para o canal principal. O canal tem 
pouco mais de trs quilmetros de extenso e apenas uns trs metros de profundidade. Em alguns lugares, a profundidade  um pouco menor. No se deve nadar neles.
      Cris logo percebeu o porque. Um cheiro horrvel exalava das guas, onde muita sujeira pairava. Em vez de olhar para baixo, Cris manteve a ateno fixa nas 
maravilhosas manses que ladeavam o canal, cada uma mais bonita que a outra. Katie batia um papo animado com o gondoleiro, enquanto Ted e Cris permaneciam assentados 
lado a lado. Ted se mostrava to forte e calado quanto a mochila que Katie colocara ao seu lado. Cris se perguntava mais uma vez quando  que se sentariam para levar 
uma conversa franca e ntima. Seria no trem? Muita coisa havia se passado em seu corao durante aquelas semanas, e ela no sabia o quanto ainda tinha para contar 
a Ted e o quanto ele j havia percebido por si s.
      No preciso que voc me prometa deter o Sol com as mos, Ted. S preciso que me diga que sempre me abraar assim, to de perto.
      O passeio terminou prximo  estao, e os trs desceram da gndola, sorrindo e acenando para o gondoleiro. Ted segurou a mo de Cris e l se foram eles, caminhando 
lentamente pela entrada da estao de trem, j to conhecida deles. Ted sugeriu que se dirigissem  plataforma com antecedncia, para que pudessem conseguir assentos 
na segunda classe. Ficou segurando a mo de Cris durante todo o tempo em que esperavam o trem chegar, em meio  multido. Cris se perguntava se ele tambm estava 
sentindo a mesma tristeza que ela.
      Quando o trem chegou, o cobrador pediu que cada passageiro apresentasse seu passe antes de embarcar, diferentemente do procedimento em outros trens que haviam 
tomado durante a viagem. Quando finalmente chegou a vez deles, Cris, Ted e Katie mostraram os passes.
      - No! gritou o cobrador, devolvendo bruscamente o passe a Ted.
      - No! disse ele ao verificar o passe de Katie e devolv-lo com rudeza.
      - Sim! disse o homem a Cris, devolvendo-lhe o bilhete educadamente e empurrando-lhe levemente as costas, a fim de apress-la.
      - Espere! gritou ela, afastando-se do aglomerado de pessoas. Qual o problema com os passes deles?
      Cris deu um jeito de sair do meio da multido e foi para junto de Katie e Ted, que conversavam com um outro cobrador, tambm uniformizado.
      - Como assim "esto vencidos"? perguntou Katie.
      - A data est impressa aqui, disse o cobrador. Diz: "Vlido de 5 a 25 de junho". Dia 25 foi ontem.
      Cris verificou seu bilhete, que havia sido comprado separadamente. Valia de 6 a 26 de junho.
      - Os nossos foram expedidos um dia antes do ideal, disse Ted. Ns samos de Los Angeles no dia cinco, mas s chegamos aqui no dia seis.
      Em seguida, virou-se para o condutor.
      - Ser que a validade deles poderia ser estendida por mais um dia? Nem chegamos a us-los nos primeiros dias aqui na Europa.
      - No. Voc pode comprar um bilhete avulso, se quiser. Este passe est vencido.
      - No temos mais dinheiro, disse Katie em tom solene.
      - No posso fazer nada, disse o cobrador. Todos os dias escuto a mesma histria. Da prxima vez, planejem melhor a viagem.
      Em seguida, virou-se para atender a um outro estudante furioso, que conversava em francs. Todos os passageiros j estavam a bordo e o mal-humorado cobrador 
fazia a ltima chamada.
      - O que vamos fazer? perguntou Cris.
      - Acho melhor voc ir neste trem, disse Katie. Eu e o Ted vamos pensar numa soluo. No se preocupe com o nosso problema. V! Voc no pode perder a aula 
amanh, Cris.
      Cris se virou para Ted, deixando transparecer toda sua apreenso. Ele a observava intensamente, como se buscasse guardar na memria cada detalhe estampado 
no rosto dela.
      - V, Kilikina, v! disse ele, com os olhos cheios de lgrimas.
      O trem comeou a se mover. Cris se virou e subiu o primeiro degrau. O cobrador, ento, segurou-a pelo brao.
      - Bilhete, por favor! disse grosseiramente.
      As mos de Cris tremiam ao entregar-lhe o passe. O condutor, ento, fez sinal para que ela entrasse no compartimento destinado  segunda classe, que estava 
lotado. Ao caminhar pelo corredor, Cris avistou Ted do lado de fora, andando rapidamente ao lado do trem, observando atentamente os compartimentos  procura dela. 
Cris abriu caminho pela primeira cabina e entrou na segunda. Avistou uma janela aberta no final do corredor e correu em direo a ela, com a pesada mochila batendo 
nas poltronas enquanto corria. O trem j estava ganhando velocidade, e l fora, Ted corria pela plataforma, acenando para ela.
      Cris chegou  janela, ofegante. Ted estava a pouco menos de seis metros de distncia e praticamente no final da plataforma. As lgrimas desciam pelo rosto 
de Cris. Ela ento imprimiu um de seus beijos especiais na palma da mo e lanou-o pela janela, em direo a ele.
      Estendendo a mo, Ted agarrou no ar o beijo invisvel que Cris lhe mandara e, em seguida, levou a mo ao peito, num movimento rpido e preciso. A mo lhe repousou 
sobre o corao, e foi como se naquele momento ele guardasse ali o beijo de Cris, no lugar onde j guardava suas lgrimas.
      O trem entrou num tnel e, de repente, tudo se fez escuro.
      Foram as dez horas mais demoradas da vida de Cris. Durante a primeira hora de viagem, ela ficou em p ao lado da janela aberta, por onde uma agradvel brisa 
entrava, secando-lhe as lgrimas. Vrios pensamentos comearam a passar-lhe pela mente, como se fossem uma chuva de confete. Cris se lembrou da agradvel brisa que 
sentira, quando estava no convs do barco a caminho de Capri. O Senhor estivera to perto naquele dia, que foi como se pudesse senti-lo soprar sobre ela. Agora, 
Cris podia sentir novamente a presena de Deus ao seu lado.
      Foi ento que se lembrou do verso de 2 Timteo que Ted mencionara. O apstolo Paulo estivera na priso de Mamertina ao escrev-lo. "Mas o Senhor me assistiu 
e me revestiu de foras." Aquela verdade fortaleceu o corao de Cris. Afinal, se era para passar dez horas sozinha naquele trem, pelo menos ela sabia que o Senhor 
estaria ao seu lado.
      Lembrou-se ento dos prados alpinos e das flores silvestres que colhera, amassara, e com as quais dormira. Estavam enroladas no envelope que ela improvisara 
com o jornal. Aquelas flores guardavam consigo sonhos dos quais ela no conseguia se lembrar. Cris resolveu coloc-las num quadro quando chegasse, para guardar de 
lembrana.
      Fechou os olhos e lembrou-se da sensao refrescante que tivera ao se banhar nas guas do riacho, prximo ao acampamento. A lembrana era to viva, que ela 
quase podia sentir o gosto do caf forte de Antnio na boca e enxergar as leves cortinas de renda da casa dele esvoaando com a brisa, na manh em que Marcos chegou 
de txi. Lembrou-se dos raios luminosos do sol da meia-noite que entravam pela janela de seu quarto em Oslo, e ainda de como Ted ficara bonito e charmoso ao fazer 
a barba.
      Cris tocou os lbios e lembrou-se de como eles haviam latejado depois que Ted a beijara em Oslo, ao partir para os confins da Terra, sozinho. Sentiu uma profunda 
saudade de Ted naquele momento. Era como se agora fosse ela quem estivesse partindo para os confins da Terra, sem ele. A diferena era que, em vez de ficarem longe 
dois dias, seriam dois longos meses separados.
      Depois da escala em Milo, Cris conseguiu um lugar no trem e pde dormir um pouco, apoiando a cabea na janela. Sentia falta da blusa de moletom do Ted, que 
tinha sido seu melhor travesseiro. Sentia falta da gargalhada de Katie e do suave aroma de chocolate que a acompanhara em todos os pases.
      Quando o trem finalmente parou na estao de Basel, Cris teve uma sensao estranha. Aquela era a "sua" estao de trem; aquela com que estava mais familiarizada. 
No entanto estar ali sozinha tornava o ambiente totalmente estranho e frio.
      Cansada, Cris subiu a ladeira em direo ao dormitrio universitrio. A nica coisa que quase conseguiu lhe arrancar um sorriso dos lbios foi o maravilhoso 
aroma que sentiu no ar, ao passar pela Konditorei. Marguerite estava colocando uma cesta de pes na vitrina. Ao v-la passar, acenou e fez sinal para que Cris entrasse.
      - Volto depois, prometeu Cris. At mais!
      At mais. Que coisa engraada, n? Durante todos esses anos o Ted me disse "At mais" e, agora, c estamos ns separados novamente. Ser que vai ser sempre 
assim conosco? "At mais"?
      Cris chegou  sala de aula com tempo de sobra, mesmo tendo passado antes pelo quarto para tomar banho e se trocar. Os sete outros guias tursticos ainda se 
achavam sobre sua mesa Estavam intatos. Cris riu ao se dar conta de que pagaria multa por todos eles, ao devolv-los  biblioteca.
      Assim que as aulas acabaram, Cris se dirigiu  Konditorei. Havia pegado a bicicleta de sua colega de quarto emprestada, para chegar mais rpido ao prdio de 
aulas. Agora, descia a rua rapidamente, apertando os freios e sentindo a bicicleta solavancar ao passar nas pedras do calamento da rua. O pneu dianteiro comeou 
a balanar na carcaa da velha geringona, e Cris soltou uma gargalhada ao ver que quase no conseguiu frear a bicicleta ao passar pela confeitaria.
      Cris parou a bicicleta l fora e, com um sorriso ainda nos lbios, entrou na Konditorei. Sentiu-se animada ao ouvir o som da campainha da porta e dirigiu-se 
 Marguerite, que sorria para ela, l do balco.
      - Bom-dia, Marguerite. Como vai? perguntou Cris em alemo.
      - Bem, bem. Obrigada. Estou bem.
      Cris achou Marguerite um pouco estranha naquela manh.
      Pediu sua tortinha e se dirigiu para a mesa costumeira, no fundo da confeitaria. Entretanto havia algum assentado l, com o rosto coberto com um enorme buqu 
de cravos brancos.
      Cris perdeu o flego.
      Ted tirou o buqu do rosto. Seu sorriso, tranquilo, parecia iluminar toda a confeitaria.
      - Ei, como vai?
      Cris correu at a mesa e o envolveu num abrao.
      - O que voc 't fazendo aqui?
      - Tomando caf com voc. Tome. Estas flores so pra voc, disse ele, apontando para os cravos sobre a mesa.
      - Voc perdeu o vo?
      Ted reclinou-se no banco e deu um gole no caf, ignorando a pergunta de Cris.
      - Voc tem razo. As tortas da Marguerite so as melhores do mundo!
      - Voc perdeu o avio, no perdeu? O que vai fazer agora, Ted? E a Katie?
      - Nosso vo s sai s duas da tarde, disse ele, sorrindo. Vou tomar caf com voc, depois volto pra Zurique e pego o avio.
      - O que aconteceu? Como foi que vocs conseguiram sair de Veneza?
      Ted passou o brao por trs do banco e ficou brincando com as pontas do cabelo de Cris, como se ficar batendo papo ali na confeitaria fosse a coisa mais natural 
do mundo para eles.
      - Conte-me tudo, disse Cris.
      - Bem, depois que voc foi embora, ns tentamos ligar para o Marcos e ele atendeu. Foi uma "coisa de Deus", porque ele tinha acabado de chegar de Viena e estava 
indo para Zurique.
      - Ento vocs viajaram juntos e ele pagou a passagem de vocs?
      Ted abanou a cabea.
      - No. Ns fomos para Zurique na Ferrari dele ontem  noite. Ele e a Katie esto em Zurique agora, e ele me emprestou o carro para vir aqui tomar caf com 
voc.
      - Voc veio no carro dele?
      Cris no se lembrava de ter visto nenhum carro de luxo parado na porta da confeitaria. Mas tambm, havia chegado numa bicicletinha fajuta e no prestara muita 
ateno ao redor. S mesmo  sua frente.
      - Estacionei na estao. Achei que seria mais seguro do que acabar parando em algum estacionamento proibido por aqui.
      - No estou acreditando nisto! disse ela, sorrindo para Marguerite, que acabava de trazer a xcara de caf, o creme chantilly e a torta que Cris havia pedido.
      - Pode acreditar, disse Ted. E 't preparada pra acreditar em mais uma coisa?
      - O qu?
      - O Marcos se converteu!
      - 'T brincando! Que maravilha! Quando foi isso?
      - Cerca de uma semana atrs. Ele nos contou que comeou a ler o livro de Romanos, porque havamos dito que era um livro escrito especialmente para os italianos. 
A Palavra de Deus  poderosa mesmo! O Marcos leu a carta, creu e se arrependeu! Voc tinha de v-lo! Est empolgadssimo! Sai falando de seu relacionamento com Jesus 
pra todo mundo que encontra nessas viagens de negcio.
      Cris meneou a cabea.
      - Deus  mesmo incrvel!
      -  sim.
      - E  incrvel poder estar aqui com voc. Detesto ter de dizer isto, Ted, mas no sei se dou conta de me despedir de novo de voc. Quer dizer, era exatamente 
isto que eu queria: assentar aqui e abrir meu corao pra voc, mas s temos alguns momentos. E da voc ter de partir.
      - Eu sei. Estou sentindo a mesma coisa. Mas eu precisava v-la mais uma vez.
      Ted hesitou por alguns instantes, e o corao de Cris congelou. Uma voz comeou a atormentar-lhe os pensamentos com dvidas.
      E agora, Cris, dizia a voz.  agora que ele termina com voc pra sempre.  bem possvel que ele lhe deixe aqui e v servir ao Senhor numa ilha longnqua, sozinho, 
pelo resto da vida.
      No afirmou Cris para si mesma. Nada de medos. Nada de dvidas. Firme-se nas misericrdias que Deus derrama a cada manh. Seja l o que acontecer, isso  fruto 
do cuidado de Deus. Ele  o Grande Arquiteto da nossa vida. Ele 't no controle.
      Ted olhou para as mos e em seguida voltou os olhos para Cris.
      - Achei que teramos mais oportunidades de conversar durante a viagem. Sozinhos, sabe?
      Cris acenou afirmativamente.
      - Sim. Tambm achei que teramos.
      - Gostaria de lhe dizer algumas coisas.
      Cris acenou novamente e esperou que ele continuasse. Ted engoliu em seco e olhou para ela, intensamente.
      - Voc se tornou uma parte de mim. No passo um dia sequer sem pensar em voc e orar por sua vida. Mesmo quando estvamos em lados completamente opostos deste 
mundo, continuei sentindo voc aqui dentro.
      Ted bateu a mo no peito.
      - Eu a trago aqui, Kilikina. Bem no fundo do meu corao. Voc sempre esteve aqui e sempre estar.
      Cris sentiu as lgrimas invadir-lhe os olhos.
      - Mas... continuou ele, respirando profundamente, como se estivesse criando coragem para concluir seu pensamento.
      No! gritou Cris em seu corao. No diga mais nada!
      - Mas, com toda sinceridade, creio que preciso dizer-lhe algo que nunca disse antes. E tenho certeza de que este  o momento oportuno para lhe revelar isto.
      No faa isso comigo, Ted! No parta meu corao! No aqui. No agora.
      - No  que eu pense que voc no saiba disto... na verdade, acho que voc j sabe sim.
      A testa de Ted brilhava de suor.
      - Eu quero que... No! Eu preciso lhe dizer isto, porque acho que voc precisa ouvir da minha prpria boca. Voc precisa saber que...
      As lgrimas rolavam pelo rosto de Cris. Estava se preparando para o pior.
      Ted estendeu a mo e gentilmente secou as lgrimas do rosto dela.
      - Voc precisa saber, Kilikina, que eu te amo.
      Cris no conseguia respirar. No conseguia piscar. Nem sequer sentia o corao bater. Um sorriso tmido surgiu no rosto de Ted.
      - Voc precisa que eu repita pra voc acreditar?
      Ted aproximou-se dela e murmurou:
      - Eu te amo.
      Cris deixou o ar dos pulmes sair repentinamente. Sentia-se aliviada, feliz. No conseguiu conter os risos.
      - Que cara de surpresa  essa? perguntou Ted.
      - Ah, Ted! No estava esperando que voc dissesse isso!
      - Voc no precisa responder, disse ele. No por agora. Pense no que isso representa. Temos ainda dois meses pela frente para orar com relao ao que nos aguarda 
no futuro.
      Cris acenou concordando e fez fora para segurar o restante das lgrimas em seus olhos. Sentia o lbio inferior tremer.
      - Sero os dois meses mais longos da minha vida.
      - Na verdade, no  tanto tempo assim, disse Ted. Sessenta e sete dias; pra ser mais exato.
      - Voc contou?
      Ted fez que sim com a cabea.
      - E sabe o que faremos durante esse tempo, Kilikina? Vamos imaginar que estamos nos confins da Terra, onde o sol nunca se pe. Ento, em vez de serem sessenta 
e sete dias, ser um dia s. E ento estaremos juntos novamente.
      - Ser como um enorme dia em Narvik.
      - Isso.
      - Sabe o que repetirei sessenta e sete vezes durante esse dia? perguntou Cris.
      Ted se aproximou e acariciou o cabelo dela com as mos.
      - O qu?
      - Repetirei sessenta e sete vezes "No vejo a hora de chegar amanh".
      Ted sorriu e puxou Cris para junto de si. E, pouco antes que seus lbios encontrassem a orelha dela, sussurrou:
      - At amanh.
      
Fim
* Quitanda tipicamente inglesa, um misto de bolo, biscoito e po de minuto. (N. da T.)
* Cano italiana de bastante sucesso. (N. da T.)
* Cheque de viagem que pode ser comprado nas casas de cmbio do pas, mediante apresentao de passaporte e passagem area.  aceito na maioria das lojas, hotis 
e restaurantes do mundo. (N. da T.)
* Prato semelhante a um fil de vitela  milanesa. (N. da T.)
** Personagem do filme A Novia Rebelde. (N. da T.)
*** Quitanda feita com frutas enroladas numa fina camada de massa que  posteriormente assada. (N. da T.)
* Rosquinha salgada ou doce em forma de lao. (N. da T.)
* Folha grande que flutua sobre a gua, semelhante  vitria-rgia. (N. da T.) 
* Famoso museu de Paris que rene obras de vrios artistas renomados. (N. da T.)
* Esposa de Luis XVI, rei da Frana. (N. da T.)
* Nos Estados Unidos, o ano letivo tem incio em setembro. (N. da T.)
* Durante o Holocausto, a holandesa Corrie Ten Boom ajudou a esconder vrios judeus das perseguies de Hitler. (N. da T.)
* Adaptao de um clssico da literatura infantil universal, Heidi conta a histria de uma menina rf de oito anos que vive nos Alpes suos com o av. (N. da T.)
* Na histria, Peter  o melhor amigo de Heidi. (N. da T.)
** Personagens da conhecida histria infantil A Casinha de Chocolate. (N. da T.)
*** No original garage sale: trata-se de um comrcio caseiro muito comum nos Estados Unidos, em que as pessoas expem para venda objetos pessoais que no lhes interessam 
mais, como roupas, livros, mveis, etc., a preos bem baixos. Esse "bazar" geralmente  montado no quintal ou na garagem da residncia. (N. da T.)
* Criados por Richard Scarry, os personagens de Busy Town (Cidade agitada) ilustram filmes, desenhos animados, livros, etc. so produtos educativos destinados a 
crianas. (N. da T.)
** O Sargento Murphy  um dos personagens de Busy Town. (N. da T.)
* No original, summer term: Trata-se de um perodo de aulas mais curto, que acontece antes do ms de setembro, quando tem incio o ano letivo. (N. da T.)
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